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Preto e redondo, com um furo no meio. Será um antigo e ultrapassado LP de vinil? Não, trata-se de um ainda atual e utilíssimo pneu. Assim, pela descrição genérica, os pneus podem parecer todos iguais, mas são tão diferentes quanto um disco de música baiana e um de rap. Para um piloto que queira merecer ser assim chamado e viver da profissão, os pneus são um dos capítulos mais importantes. Quanto maior a familiaridade e compreensão, mais vai dar para tirar proveito das sutis diferenças que aparecem e se enfatizam conforme o uso que se faz dos pneus. Como aconteceu no Campeonato PROCAR. Foi um campeonato organizado e inventado pelo Max Mosley (atual presidente da FIA) realizado em conjunto com os GPs de Fórmula-1, em 1979. Além dos pilotos de F-1, corriam também alguns pilotos de GT e de rali. Os carros usados eram os BMW M1, um GT bonito e moderno que tinha um motor de seis cilindros com 550 hp de potência. Ano passado (1996), voltei a guiar esse carro em Laguna Seca, nos Estados Unidos, e ele continua uma delícia, equilibrado, fácil de guiar e lindo. Pois bem, nesse campeonato PROCAR tive uma boa oportunidade de mostrar que, com carros iguais, poderia andar na frente. Naquela época, não tinha como fazer isso, já que a nossa Brabham de F-1 não havia atingido ainda o grau de desenvolvimento que se esperava dela. Ganhei, tranqüilamente, umas sete corridas e, com folga, o Campeonato PROCAR daquele ano. De lambuja, ganhei nesse mesmo período três vezes mais dinheiro do que na Fórmula 1, que só me pagava 50 mil dólares por temporada. Graças ao meu bom relacionamento com os pneus Goodyear Blue Streak. Era o mesmo pneu (composto, construção, comportamento) que tinha usado no Brasil na Fórmula Super Vê e com os quais tinha muita intimidade. É um ótimo pneu, com seu desempenho máximo mantido durante as primeiras voltas, mais ou menos umas sete ou oito voltas na média dos circuitos utilizados. Depois disso, sua performance cai muito e os tempos pioram sensivelmente. Como eram pneus iguais para todos e só tínhamos um jogo disponível por prova, eu usava um expediente bem simples: treinava pouquíssimo, dando no máximo 2 voltas. Ninguém entendia porque eu não procurava melhorar o tempo como os outros pilotos, que andavam e andavam, cada vez mais para ver quem é que ficava com os melhores tempos. Na hora da largada, mesmo saindo mais atrás, eu tinha os pneus muito melhores. Logo passava todo mundo, abria uma boa liderança e depois era só ficar controlando a corrida e curtindo o meu segredo. |