Propaganda política de mim mesmo


Luiz Roberto Cupertino

Se eu tivesse alguns minutos para me apresentar no horário político, eis o que diria a todos:

“Nessas eleições, vote Luiz Roberto. Para um mundo mais injusto, mais violentamente humano; lutarei, durante todos os segundos do meu mandato, pela instauração de uma política contra a caridade e o altruísmo. Não haverá rosas ou jardins enfeitando a cidade. Pelo contrário, convocarei todo o contingente de caminhões com regadores para, após a destruição total dos jardins nas praças, jogar água o suficiente nessas praças, para que a lama suje os pés displicentes de qualquer transeunte que por ali caminhe. Não haverá igualdade. Recomendarei Nietzsche e Artaud nas escolas primárias e abolirei o estudo da gramática. 

Distribuirei revólveres de razoável calibre e beneficiarei com recompensas aqueles cidadãos que atirarem indiscriminadamente nas lentes fotográficas dos punitivos de trânsito. Peixeiras nordestinas serão doadas para, num só golpe, retirar o cinto de segurança dos carros, que nos queima sob o calor intolerável. Farei mudanças definitivas nos presídios para que haja melhoria, ou seja, libertarei todos os criminosos. Os presídios servirão de casa para punição de todo defensor da democracia e da moral cristã. Serão ali punidos com chicotes roubados especialmente de museus onde estão expostos instrumentos de tortura medieval. Não está descartada a possibilidade de punição com eletrochoque no ânus. Meu governo possuirá a sensibilidade trágica dos homens que tiram sua própria vida. Meu partido é a liberdade; meu discurso é a ingenuidade para me filiar a tal partido.

Fecharei o reduto dos vereadores, que nada mais é do que possibilidade de emprego para seres humanos indecentes. Promoverei uma grande virada cultural ateando fogo nas gravadoras e criando um projeto de incentivo à pirataria desenfreada. Proibirei as magrelas de desfilarem. Nas passarelas, só as moças preenchidas com farto tecido adiposo. Queimarei com fúria diabólica todos os fios de cabelo de Sasha. Não haverá mais aposentadoria, todos trabalharão até os últimos dias de vida, que é para evitar fila de idosos nos bancos. Assim todos morrerão mais cedo. Não haverá sofrimento. No discurso de posse cuspirei no rosto da platéia. E haverá fúria. A guerra se instalará. Serei amado e odiado. Todos sempre foram.

Por último, distribuirei cestas básicas. Nelas estarão contidos produtos de qualidade duvidosa. Uma seringa descartável, para os usuários de drogas. Haverá na cesta ainda meio quilo de maconha e, se a pessoa estiver um nível acima, pode optar por cocaína, com a condição de perder a seringa, posto que é preciso manter em dia as contas públicas. A todos os desempregados será recomendado o suicídio sumário. Isso será feito por profissionais treinados. Seremos felizes. Haverá na noite um grito de embriaguez como jamais foi ouvido numa cidade antes. Todos se odiarão mutuamente, serão impulsivos, passionais, e imensamente felizes. O meu número é 33.”

Tenho certeza que, com tal discurso, seria eleito pela sinceridade.
 

Luiz Roberto Cupertino  é estudante do 7o. período de filosofia da UCG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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