"Nóis num fala Krahö"
Emmerson Kran
Um dia alguém me disse isso: Você sabia que a área
de humanas é pouco beneficiada com verbas para seus projetos por
que outras áreas é que dão rápido retorno financeiro?
O mais curioso são os argumentos que alguns conselheiros/professores
se utilizam para não votarem a favor de alguns projetos que, à
primeira vista, não priorizam o capital sobre a coisa humana.
Um desses projetos de autoria da Facomb/UFG não foi agraciado
com bolsas numa reunião da PROEC. O projeto “Do grito à Internet:
a comunicação entre os povos indígenas”, dentre vários
objeti-vos, pretende capacitar as comunidades indígenas a gerir
os seus próprios canais de comunicação (rádio,
vídeo, internet etc), onde são eles os produtores das informações,
e não apenas meros consu-midores. Os Krahö estão distribuindo
os elementos da sua cultura graças a esse projeto. Infelizmente,
o professor Itamar (da Física) não compreendeu a importância
deste Projeto para o ensino, pesquisa e extensão (é assim
que se fala, né?), e negou seu voto a favor do projeto.
Caro professor Itamar (o da Física): se o sr. julgou esse projeto
“ambicioso”, talvez seja justa-mente por ser ambicioso que ele já
provou, com resultados práticos, a sua importância. Graças
a ele, e ao trabalho da Kàpey (entidade política, Associação
das 18 Aldeias Krahö da reserva), a nação Krahö,
do Estado do Tocantins, foi contemplada com recursos federais que vão
possibilitar a esse povo condi-ções mais dignas de vida (no
seu modo próprio de ser e viver) e que lhe foram negadas e tiradas
desde a colonização. Prova dessa vida com dignidade é
o trabalho da Embrapa que, além de recuperar as sementes nativas
formando um “banco de sementes”, está desenvolvendo um levantamento
do poten-cial agrícola da reserva. Esse trabalho vai possibilitar
explorar melhor, e até vender, seus produtos agrícolas (orgânicos,
diga-se de passagem!), através de sua própria Cooperativa.
No projeto “Do grito à Internet” está prevista a instalação
de uma Rádio Comunitária e Educativa Krahö, idealizada
em Krahö, programada em Krahö, produzida em Krahö, falada
e cantada em Krahö... Enfim, feita por eles para toda a região
da reserva. Não é preciso que nenhum aluno ou professor de
comunicação fale a língua Krahö (e nóis
num sabe mesmo!), para ministrar as oficinas técnicas neces-sárias.
Aliás, eles falam muito bem o português, tendo apre(e)ndido,
talvez, para não serem mais en-ganados... E é
só?!
Aliás, perguntando (sem muito interesse na resposta): Para dominar/explorar/exterminar
não precisa saber a língua dos índios. Prá
ajudar precisa???
Dentro em breve todos poderão visitar uma página na internet
alimentada por eles: É INFOR-MAÇÃO GENUINAMENTE KRAHÖ.
Ou visitar um Centro Cultura, com Escola Agro-Ambiental e Bibli-oteca...
TUDO KRAHÖ!!! Nós participamos, sim, ... um pouquinho.
Camisetas, livros, cd’s, vídeos e artesanatos. Isso é
somente o começo de um projeto que con-tribuiu para que os Krahö
pudessem mostrar um pouco da sua cultura.
Penso que foi o abuso de um projeto “ambicioso” que possibilitou chegar
aonde estamos. E não é só. Temos muitos projetos,
inclusive mais ambiciosos, de baciada.
E teve gente nessa reunião que ficou calado!!! Bem que essa gente
poderia ter ajudado ao pro-fessor Itamar compreender melhor o projeto...
Emmerson Kran é estudante do 4o.
ano de radialismo da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
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