Brasil 500 Anos: A Nudez Castigada


Melissa Cristina Rodrigues

As cenas que aconteceram durante a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil não deixam dúvidas de que após cinco séculos de vida, esse é realmente um país democrático. Nesse caso, entenda-se como democracia a tirania da maioria sobre a minoria, ou seja, da elite detentora do poder sobre a população. Durante o dia 22 de abril, manifestantes que se dirigiam a Porto Seguro/BA foram duramente reprimidos pela polícia militar do estado. Ao todo, eram cerca de 5 mil pessoas, dentre índios, sem-terra e representantes do movimento de resistência indígena, negra e popular "Brasil outros 500". Eles foram impedidos de cumprir seu destino, porque as autoridades entenderam o direito de manifestação em caráter pacífico que todo cidadão tem como "perturbação da ordem pública".

Quando se trata de reprimir manifestações da população é que se pode ver o quanto a polícia é bem equipada e preparada. A polícia militar deteve os "baderneiros" com bombas de gás lacrimogêneo e inofensivas balas de borracha. Os índios reagiram com pedras e flechas. Os jornais mostraram as cenas bárbaras de violência policial, dos PMs arrastando um manifestante negro pelos cabelos, e avançando para cima de uma mulher negra. Mas o momento mais revoltante foi quando um índio se posicionou na frente do batalhão, num ato de coragem, implorando para que os militares não ferissem as pessoas. Ele foi ignorado pela fúria dos policiais armados com bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e armas e por pouco não foi pisoteado. Nessas horas, a população se pergunta "onde está o sentimento de humanidade, o respeito pelo ser humano?". Ações de extrema covardia como essa são inconcebíveis por uma sociedade que se diz civilizada. 

É certo que o acontecimento desnudou os 500 anos do Brasil. Nudez que interessa aos detentores do poder político e econômico esconder, para que o povo pense que é feliz. Encobrir a dominação do passado, para que a de hoje passe desapercebida. O aniversário da nação foi mais uma festinha para as elites esbanjarem seu poder aquisitivo. Enquanto o povo que mais sofreu ao longo desses 500 anos de "descobrimento", os índios, os negros, as mulheres, os trabalhadores explorados, que nada tinham a comemorar, levaram um cala-boca: "ou cala ou leva porrada". Dias antes, na mesma cidade, um monumento construído pelos índios lembrando o massacre de seus antepassados, foi destruído. A favor de toda a repressão, como sempre está o senador Antônio Carlos Magalhães ( PFL/BA ), inatingível, onipotente, todo-poderoso, o coronel dos coronéis. ACM é a prova viva do ditado que diz que Deus é brasileiro. Ele tem certeza de que é Deus. "Não cai nem um fio de cabelo de um baiano sem que ACM dê seu consentimento". Só na Bahia? 

Bom, desviando de leve o assunto, sempre é hora de lembrar o quanto ACM, o deus baiano (o Brasil nasceu na Bahia!!!) é maquiavélico, usa o povo do jeitinho que quer. Já dizia Maquiavel que o político quando for fazer algo de bom, faça a longo prazo, exibindo isso a público. Mas, quando precisar fazer algo de mal, faça de uma vez! Assim foi a repressão ao povo no dia do descobrimento. Por outro lado, ACM se mostra profundamente interessado em lutar por aumento geométrico do mínimo. Luta essa que está se estendendo há muito tempo. O bonzinho senador lutando pelos pobres, de olho na eleição presidencial de 2002. Maquiavel, onde quer que esteja, deve estar orgulhoso.

De volta ao assunto, quem não tem motivo para ficar orgulhoso é o nosso ilustre descobridor Pedro Álvares Cabral. A réplica da nau capitania do descobrimento, que custou cerca de R$ 3,85 milhões, não conseguiu sair do lugar e por pouco não afundou. O governo pagou um alto preço por uma embarcação cuja (f)utilidade não foi concretizada. Com o dinheiro de quem, adivinha? Agora, pense você leitor(a), o que pode ser feito com R$ 3,85 milhões? Mas nem tudo está perdido. Apesar do fiasco, há alguma coisa de positivo nesse fato. De positivo para os portugueses, é claro! Depois dessa, eles vão poder se vingar de todas as piadas de português existentes, porque o fracasso da nau capitania vai render milhões de piadas de brasileiro. Vão rir muito às nossas custas. E infelizmente, com toda a razão.

Voltando ao assunto principal, os índios tiveram uma chance de expressar a revolta pela violência sofrida durante o 22 de abril, na missa que relembra a primeira cerimônia católica em solo brasileiro. O índio - com muita dignidade - fez um discurso emocionado. As palavras foram marcantes. "Essa terra que vocês estão pisando, essa terra é nossa! Vocês tem que Ter respeito". Para o índio, não há o que comemorar nesses 500 anos de "massacre, discriminação e estupro de nossas mulheres".

Afinal, para a população brasileira, há o que comemorar? Talvez as poucas e lentas conquistas dos trabalhadores urbanos e rurais, dos índios, dos negros, das mulheres. Comemorar não é celebrar o passado, mas talvez uma oportunidade para refletir sobre o presente, sem fingir que somos um povo homogêneo e feliz. Fica a esperança de que talvez nos próximos 500 anos, a nação brasileira tenha de fato o que comemorar. 
 

Melissa Cristina Rodrigues é estudante do 3º ano de jornalismo da UFG.

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