Moral? Que moral?
Eduardo Horácio Jr.
“Às vezes, a realidade é mais absurda do que a ficção”.
Não sei bem quem disse essa frase. Se foi Nélson Rodrigues,
Paulo Coelho ou meu sobrinho de 8 anos. O que importa é que estávamos
no segundo dia do II Congresso dos Estudantes de Comunicação
da UFG. O quando era 3 de maio de 2000 e o onde era o auditório
da Rádio Universitária de Goiânia. Lá na mesa,
entre outros, estava o vice-reitor da UFG, Paulo Ximenes, e o presidente
do DCE da UFG, Ícaro Chaves. Como é do conhecimento de todos,
Ícaro é filiado ao PC do B e implementa no DCE a política
desse partido (mesmo que negue até a morte). Surge, então,
uma pergunta relacionada ao PC do B (alguém queria saber como o
partido via a questão das fundações etc). Eis a resposta
do prezado presidente: “Não sou o presidente do PC do B, não
posso falar”.
O auditório caiu em gargalhadas. Eu também. Mas, depois,
pensando bem, pode ser que o público não tenha entendido
a lógica do pensamento do prezado colega. Usando o raciocínio
do presidente do DCE comecei a imaginar, ali mesmo, como ele deve se comportar
em outras ocasiões:
- Ícaro, o que você acha que vai acontecer com os sem-terra?
- Não sou presidente do MST, não posso falar.
- O que você pensa do Brasil?
- Não sei, só FHC pode falar. Ele é o presidente.
- Você sabe qual é a cotação do milho de
Viçosa?
- Não, o Paulo Ximenes não me autorizou a falar disso.
- O que é isso, Ícaro? E a vida, como é que vai?
- Pergunte para Deus, ora!
- Quem te ensinou a não ter pensamento próprio?
- Não sei, pergunte para o PC do B.
- Por que para o PC do B?
- Não sei, não posso falar porque não sou o presidente
do PC do B.
Estava muito estranho. Nem Paulo Ximenes, com seu milho na mesa, conseguiu
algum dia manter diálogo tão absurdo. A conversa prosseguiu:
- Ícaro, por acaso você sabe quanto tempo dura o mandato
do presidente do DCE?
- Ôpa! Essa eu posso responder.
- Não é meio estranho o nome da gestão ser “Todos
Nós” e só o presidente do DCE poder falar em nome do DCE?
Isso é democracia, companheiro?
- O nome disso é centralismo democrático.
- Isso não é um paradoxo? Como uma coisa pode ser centralizada
e, ao mesmo tempo, democrática?
Uma terceira pessoa que chegava ali naquele momento (da minha imaginação)
respondeu:
- Ora, um partido como esse que é capaz de apoiar o PSDB em Goiás
e lutar contra o PSDB nacionalmente é capaz de tudo. Até
disso.
Deixa pra lá, leitor. Nem sei onde essa conversa ia parar. Talvez
seja até melhor não saber. Quando estava concluindo este
diálogo imaginário na minha cabeça, acordo com o Paulo
Ximenes falando, bem na minha frente, naquele mesmo debate:
- Olha, se é isso que vocês querem saber, eu não
tenho bandeira política!
Já não conseguia perceber mais o que era real ou imaginário.
Com essa fala, o melhor foi voltar ao diálogo imaginário
(pelo menos parecia ser mais real). Paulo Ximenes deve ter pensado:
- Quanto sacrifício! Quantas noites em claro para chegar ao poder!
Gastrite, colesterol, dinheiro para comprar uma gravata nova toda semana...
E alguém vem me perguntar qual a minha bandeira? Será que
eu estudei em Viçosa para ter que responder isso? Bobagem, acho
que é porque eles não conhecem o milho de lá. Se conhecessem,
não fariam este tipo de pergunta.
Lá estava o vice-reitor, falando do cerrado, das maravilhas do
seu tempo de estudante, quando olho para o lado e vejo um estudante de
agronomia. Alguém cochichou para ele:
- O milho de Viçosa é mais produtivo do que um debate
com o Paulo Ximenes?
Outro colega emenda um comentário:
- O Paulo Ximenes está aborrecido com a gente. Pode anotar: O
caderno “Universidade” deve ser censurado no domingo por causa desse congresso.
Não acreditei que aquilo pudesse acontecer. Era muita teoria
conspiratória para uma reitoria só. Entretanto, o caderno,
de forma inédita e por motivos obscuros, não saiu naquele
domingo.
A moral dessa história, se é que existe, você já
deve ter entendido. Ah, agora me recordo! Já sei quem disse que
“às vezes, a realidade é mais absurda do que a ficção”.
Foi meu sobrinho de 8 anos.
Eduardo Horácio Jr.
é estudante do 4º ano de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para Eduardo
Horácio Jr. ou para a direção
do jornal.
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