A popularização do bom

Liliane Gonçalves Bello

Caetano Veloso? Em Goiânia? Quando ouvi a notícia no rádio, mal acreditei. Enfim Goiânia entrou no hall dos grandes shows, visto que em seguida teremos Chico Buarque de Holanda. A "cultura" parece estar chegando a este lugarzinho no meio do nada, sem "história" ou "ícone" que mereça ser chamado de goiano, como nosso nobre colega Luís Cláudio Guedes disse (não que eu concorde com ele).

Entusiasmada, como amante da música popular brasileira, corri para comprar o meu ingresso. Inspirada por letras clássicas, como Sampa ou Queixa, ansiosamente entrei no salão do clube Jaó, onde o show iria se realizar.

Contradizendo a fama de que brasileiro atrasa em tudo o que faz, principalmente em espetáculos, Caetano foi quase pontual. Atrasou somente 15 minutos, surpreendendo aqueles mal-acostumados com as demoras e longas esperas.

Com a primeira música, uma decepção. De lá, da pista, mal se ouvia a voz do astro (que por sinal já deixou de ser original, há tempos). Para distinguir a música foi um suplício, e quando enfim consegui, ela terminou. Assim foi com quase todas as outras, exceto com aquelas em que o público cantava junto (como a já tão popular "Sozinho") ou aquelas em que o tom de voz de Caetano era mais alto.

A acústica do clube Jaó estava realmente péssima e, num show que durou duas horas, o que fez realmente valer a pena foram os últimos 30 minutos. As músicas finais foram mais "agitadas", o que contribuiu para que pudessem ser distinguidas e aproveitadas.

Aí fica a questão de que shows desse porte deveriam ser realizados em locais mais adequados, como por exemplo no teatro Rio Vermelho, no Centro de Cultura e Convenções de Goiânia, onde será realizado o show de Chico Buarque. Porém, o preço do ingresso não deveria ser tão alto quanto o cobrado para este último.

Inclusive, é impressionante como um ex-militante, como Chico Buarque, que em épocas passadas condenava a exploração da cultura, criticando os altos preços da popularização desta, tenha estabelecido como preço do ingresso para um show seu, o mísero valor de R$160,00 ou R$80,00 para o mais barato (aquele ali em cima, tão distante que precisa-se de binóculo para enxergar algo).

São situações como essas que nos fazem constatar que, por mais que se fale em uma democratização da cultura, para que todos tenham acesso às maravilhas que nossos homens e mulheres fazem, é realmente muito difícil que isso ocorra de fato. Um trabalhador assalariado, uma pessoa de classe média-baixa, para não falar da classe realmente baixa, dificilmente pagaria um preço tão elevado para ver um artista que, na maioria dos casos, mal conhece.

E a cultura dos "pobres" fica cada vez mais pobre. Obrigados a ouvir as "músicas" tocadas em rádio, passam a idolatrar gente como Carla Perez ou Sheila Mello, para não falar de Tiazinhas e Feiticeiras. A cultura do "povão" é cada vez mais apelativa, com letras pobres e figuras medíocres, sendo que compositores realmente muito bons, como Caetano, Chico, Tom Jobim ou Vinícius de Moraes só são conhecidos por nome, ou por uma ou outra música tocada nas rádios.

Liliane Gonçalves Bello é estudante do 1o. ano de jornalismo da UFG.

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