Efeitos Nocivos do Teste de Apnéia
3. Efeitos nocivos do teste da apnéia: de como um teste DESTINADO A
"DIAGNOSTICAR" A MORTE
pode, de fato, CONSUMÁ-LA, tornando-se de fato "infalível"!
Os idealizadores do teste da apnéia têm procurado
caracterizá-lo como inócuo essencialmente preconizando a sua execução associada a
medidas que sejam capazes de prevenir a ocorrência de hipóxia durante o período de DEZ
MINUTOS em que o respirador permanece DESLIGADO. Essas medidas preventivas são,
basicamente, (1) a ventilação do paciente com oxigênio a 100% durante os dez minutos
que precedem o teste, e (2) a colocação de um cateter com alto fluxo de oxigênio
(usualmente 6 litros/minuto) através do tubo endotraqueal ou da traqueostomia. Veremos a
seguir que esses procedimentos não conseguem evitar a hipóxia em todos os casos.
Ademais, como a função respiratória não tem como único objetivo evitar a hipóxia,
mas também a hipercapnia e a acidose respiratória que decorre da cessação dos
movimentos ventilatórios, invalida-se a pretensa segurança do teste, pelas
conseqüências devastadoras da indução dessas alterações.
3.1 - Piora da hipertensão intracraniana levando à deterioração mais
pronunciada do fluxo sangüíneo encefálico
Há muito se sabe que os níveis de dióxido de carbono do sangue
arterial influenciam marcadamente o volume de sangue contido no espaço intracraniano e o
fluxo de sangue encefálico, modulando um e outro de forma não necessariamente
proporcional, o que tem profundas implicações para o tratamento de pacientes com
hipertensão intracraniana (Yoshihara et al, 1995). Reconhecendo-se o dióxido de carbono,
como o mais eficiente modulador da vasomotricidade cerebral, verificou-se há longo tempo
que a hipocarbia (diminuição da concentração do dióxido de carbono) reduz, ao passo
que a hipercarbia (elevação da concentração do dióxido de carbono) aumenta a pressão
intracraniana através da redução e do aumento do calibre dos vasos sangüíneos
intracranianos, respectivamente. A aplicação desses princípios no tratamento dos
pacientes com hipertensão intracraniana tem feito com que, como parte do tratamento
convencional usualmente oferecido, empregue-se a hiperventilação (aumento da frequência
respiratória), de forma a manter-se a pressão parcial do dióxido de carbono (PaCO2) um
pouco abaixo dos valores normais (35-45 mmHg), especificamente entre 25 e 30 mmHg.
Espera-se que, com essa moderada redução da PaCO2, o volume de sangue intracraniano seja
predominantemente reduzido em relação ao fluxo sangüíneo encefálico - o qual viria de
fato a elevar-se através da diminuição da pressão intracraniana resultante dessa
manobra (Yoshihara et al, 1995).
Ao aplicar-se o teste da apnéia, o objetivo inverte-se
completamente: busca-se elevar a PaCO2, PARA NÍVEIS SUPERIORES AOS NORMAIS (_ 60-65 mm
Hg) SEM QUALQUER PREOCUPAÇÃO OU ATENÇÃO PARA COM AS REPERCUSSÕES DECORRENTES DESSA
"META" SOBRE A PRESSÃO INTRACRANIANA - JÁ EXTREMAMENTE ELEVADA -
CONSTITUINDO-SE NO DETERMINANTE PRIMÁRIO DO DÉFICIT CIRCULATÓRIO ENCEFÁLICO.
APESAR DE RECONHECIDA COMO DETERMINANTE DA PIORA DA HIPERTENSÃO INTRACRANIANA E,
PORTANTO, DO DÉFICIT CIRCULATÓRIO ENCEFÁLICO - A CAUSA DA LESÃO IRREVERSÍVEL DO
TECIDO NERVOSO, A HIPERCARBIA (até então evitada para preservar o tecido nervoso da
lesão irreversível) PASSA A SER PROVOCADA POR OCASIÃO DO
TESTE DA APNÉIA.
Os efeitos determinados pela hipercarbia são especialmente
proeminentes nos pacientes portadores de hipertensão intracraniana provocada pela
expansão do edema encefálico, como é o caso das vítimas de traumatismo craniano
severo. Em face do esgotamento dos mecanismos tamponadores da pressão intracraniana, e da
baixa complacência a novos acréscimos volumétricos resultante da exaustão desses
mecanismos, elevam-se drasticamente os níveis pressóricos em resposta a poucos
mililitros de
sangue adicionais acumulados no interior do crânio em resposta à hipercarbia (Yoshihara,
1995):
"Moreover, the response of intracranial pressure (ICP) to PCO2 alterations followed
an exponential curve that could be described in terms of the responsivity indices to
capnic study. It was found that responsivity to hypocapnia was reduced by 50% compared to
responsivity to hypercapnia measured within 24 hours of injury (p < 0.01). The
sensitivity of ICP to estimated blood volume changes in patients with a pressure volume
index of less than 15 ml was extremely high with only 4 ml of blood required to raise ICP
by 10 mm Hg."
As preocupações de Yoshihara et al (1995) quanto aos efeitos
catastróficos da hipercarbia em pacientes portadores de traumatismo craniano severo já
eram conhecidas há muito (MacIver et al, 1958; Mayer e Walker, 1982; Miller et al, 1981).
Já há mais de uma década e meia, verificavam-se as observações de Miller (1982) nesse
mesmo sentido, em sua revisão sobre a fisiologia do trauma, indicando justamente a faixa
de variação da PaCO2 almejada pelo teste da apnéia (de 35 mm Hg para 60-65 mm Hg) como
a mais perigosa:
"The ill effects of hypercapnia are related to the elevated ICP resulting from
cerebrovascular dilatation. Since cerebral vessels are maximally sensitive to changes in
arterial PCO2 around the normal value of 40 mm Hg, small increases in arterial PCO2 can be
significant. While it is true that blood vessels in the traumatized brain are not as
sensitive to changes in arterial PCO2 as normal vessels, some response persists even in
the comatose patient. In some patients with reduced intracranial compliance, even the
smallest increase in cerebral blood volume may result in severe intracranial
hypertension."
ASSIM, TAMBÉM NOS CASOS DE FATO RECUPERÁVEIS, EM QUE O FLUXO
SANGÜÍNEO ENCEFÁLICO ENCONTRA-SE REDUZIDO, MAS AINDA ACIMA DO LIMIAR ABAIXO DO QUAL AS
CÉLULAS NEURONAIS SÃO LESADAS, IMPLEMENTA-SE UMA MEDIDA - O TESTE DA APNÉIA, QUE,
JUSTAMENTE POR ELEVAR A CONCENTRAÇÃO DO DIÓXIDO DE CARBONO - FATO INEGÁVEL, EIS QUE
SUA META PRECÍPUA - PIORA AINDA MAIS (E DRASTICAMENTE) A HIPERTENSÃO
INTRACRANIANA E O DÉFICIT CIRCULATÓRIO DETERMINADO POR ELA. DEIXA-SE DE PRESERVAR A
VIDA, E PASSA-SE A PROVOCAR A MORTE (!!!) - TUDO A PRETEXTO DE UM "DIAGNÓSTICO"
QUE SOMENTE BENEFICIA A TERCEIROS.
Ademais, como se tal não fosse suficientemente absurdo erro
metodológico, verifica-se que os pacientes atingem em média, ao final de 10 minutos de
apnéia, 89 mm Hg (alguns ultrapassam 100 mm Hg) de pressão parcial de dióxido de
carbono no sangue arterial (Jeret e benjamin, 1994) - níveis claramente suficientes para
a indução de narcose carbônica, o que implica na depressão da atividade do centro
respiratório, não no seu estímulo.
Que dizer de um teste que busca induzir a responsividade do
tecido nervoso a manifestar-se, mas que, durante sua execução, transforma o estímulo em
inibição e torna ainda mais severo o déficit circulatório causador da própria
ausência de responsividade? Dizer que foi idealizado por profissionais tecnicamente
capacitados, acumuladores de ampla cultura médica? "Notáveis", talvez?
3.2 - Hipóxia
Pretensamente seguro por "ser executado sem a ocorrência de
hipóxia", verifica-se outra realidade. Muitos pacientes nos quais se emprega os
critérios diagnósticos de morte encefálica "de acordo com os padrões
atuais", são politraumatizados, portadores de lesões pulmonares agudas,
apresentando a síndrome do sofrimento respiratório do adulto ("pulmão de
choque"), pneumonias (muitas vezes aspirativas, comprometendo difusamente ambos os
pulmões), ou portadores de pneumopatias prévias. Nesses pacientes, as medidas tomadas de
forma a prevenir a hipóxia são inefetivas, e casos de hipoxemia importante realmente
ocorrem em cerca de 13% dos casos (Benzel et al, 1989; Jeret e Benjamin, 1994; Perel et
al, 1983; Schafer e Caronna, 1978):
"The risk of hypoxia is particularly great after head trauma. Causes include
ventilation-perfusion imbalance, lung contusion, adult respiratory distress syndrome,
pneumonia, and pre-existing pulmonary disease."
Como certamente a hematose não pode ocorrer a nível da mucosa
traqueal ou a nível do revestimento interno do tubo endotraqueal (!!) onde é colocada a
extremidade do cateter (para "oxigenação passiva"), verifica-se que,
especialmente nos casos em que os pacientes apresentam extensas áreas de parênquima
pulmonar irrigadas, mas não areadas, em decorrência das patologias citadas
(ventilation-perfusion imbalance), tornam-se imprescindíveis, para o aproveitamento das
exíguas porções de tecido pulmonar ainda capazes de executar trocas gasosas e evitar a
hipóxia, não somente a continuidade dos movimentos ventilatórios, mas inclusive o
emprego ventilação sob pressão expiratória final positiva (PEEP) e de elevados níveis
de fração inspirada de oxigênio (FiO2). Que dizer da propriedade de desligar-se o
respirador por DEZ MINUTOS nesses pacientes? Que dizer do bom senso dos propositores
de tal procedimento?
3.3 - Hipotensão arterial, levando ao colapso irreversível da circulação
intracraniana
Muitíssimo mais grave do que a exacerbação da hipertensão
intracraniana determinada pelo teste da apnéia, revela-se a hipotensão arterial induzida
em cerca de 40% dos pacientes submetidos a esse procedimento (Jeret e Benjamin, 1994).
Conforme se sabe há pelo menos 15 anos (Lewelt et al, 1980; Miller, 1982) a hipotensão
arterial tem conseqüências catastróficas e irreversíveis sobre pacientes portadores de
hipertensão intracraniana, como, por exemplo, as vítimas de traumatismo craniano severo.
Ao contrário dos indivíduos normais e de alguns daqueles que apresentam hipertensão
intracraniana secundária a outras causas, para os quais a pressão de perfusão
encefálica (calculada pela diferença entre a pressão arterial média, que favorece o
fluxo sangüíneo, e a pressão intracraniana, que se opõe a ele) necessária para
sustentar o fluxo sangüíneo encefálico pode ser tão baixa quanto 40 mm Hg, OS
PACIENTES PORTADORES DE TRAUMATISMO CRANIANO SEVERO (condição que mais freqüentemente
leva ao "diagnóstico" de morte encefálica) NECESSITAM DE NÍVEIS DE PRESSÃO
DE PERFUSÃO DA
ORDEM DE 80 A 90 MM HG PARA SUSTENTAREM A CIRCULAÇÃO ENCEFÁLICA. NESSES PACIENTES,
MESMO REDUÇÕES MODERADAS E BREVES DA PRESSÃO DE PERFUSÃO PODEM LEVAR À ISQUEMIA
CEREBRAL CATASTRÓFICA E PERMANENTE, QUE NÃO PODE SER REVERTIDA MESMO COM O
RESTABELECIMENTO IMEDIATO DOS NÍVEIS
PRESSÓRICOS NORMAIS (Miller, 1982):
"The threshold perfusion pressure bellow which adequate cerebral blood flow can no
longer be maintained is higher when blood pressure is being reduced than it is when
intracranial pressure is being increased.
"If experimental hypotension is achieved by means of drugs or if the hemorrhage is
preceded by a chemical or surgical sympathectomy, the threshold pressure can be
accompanied by catastrophic cerebral ischemia. Furthermore, if perfusion pressure has been
lowered below critical levels and ischemia has occurred, reestablishment of normal
perfusion pressure may not be sufficient to restart cerebral blood flow throughout the
brain (Lewelt et al, 1980). The reason for this is uncertain. Hypothesis include
intravascular sludging or pressure from external tissue swelling."
"The cerebral perfusion pressure is impaired every time ICP increases and arterial
pressure fails to show an equivalent corresponding rise. While a cerebral perfusion
pressure of 40 or 50 mm Hg can be well tolerated by the normal brain, a fall, even below
90 mm Hg, in the traumatized brain may result in ischemia. Secondary ischemic brain damage
is exceedingly common in patients who die following injury, being observed in over 90% of
a series of 151 autopsied head injury patients as reported by Graham et al (1978)."
As observações de Miller (1982) e de Lewelt et al (1980) foram ainda
reconfirmadas por um largo estudo multicêntrico envolvendo centenas de casos de
traumatismo craniano - o Traumatic Coma Data Bank, as quais apontam a ocorrência de
hipotensão arterial como o mais importante incidente associado a um prognóstico
desfavorável (evolução para morte ou estado vegetativo persistente). Em sua brilhante
explanação veiculada em um recente congresso dedicado ao tema, o Dr. Chesnut retira a
quintessência do aprendizado proporcionado pelo referido estudo afirmando,
categoricamente, que a preservação da pressão arterial em valores normais constitui-se
em uma das principais, se não na principal e mais efetiva de todas as medidas
terapêuticas empregadas pelos centros hospitalares mais conceituados internacionalmente,
em seus protocolos de vanguarda no tratamento de vítimas de traumatismo craniano grave.
Assevera mesmo o Dr. Chesnut que a rigorosa prevenção da hipotensão arterial deva ser
considerada a única, real causa do sucesso alcançado por esses centros (Chesnut, 1997):
"The above evidence strongly suggests that the avoidance or minimization of
hypotensive insults during the entire acute, postinjury period has the highest LIKELIHOOD
of improving outcome of anyone single therapeutic maneuver. It is strongly suggested here
that this may be the common, occult element accounting for much, if not the majority, of
the outcome improvements reported by the various centers championing present-day
cutting edge techniques. For example, using the overall outcome from the
entire Traumatic Coma Data Bank as a historical control, recent reports supporting the
efficacy of cerebral perfusion pressure (CPP) therapy in improving outcome have
demonstrated a significant decrease in mortality and improvement in good-outcome
categories for patients treated with CPP-directed therapy (Rosner et al, 1995; Rosner,
1993). Quite notably, however, since the goal of maintaining an elevated CPP pressure pari
passu requires strict attention to the maintenance of a consistently elevated mean
arterial pressure, there is an expected marked decrease in the incidence and magnitude of
blood pressure drops to below the somewhat arbitrarily chosen but widely used definition
of hypotension of a systolic blood pressure _ 90 mm Hg."
Os dados que motivam as afirmações do Dr. Chesnut são de
inegável eloquência, como demonstram as 2 tabelas seguintes, reproduzidas a partir de
uma publicação anterior (Chesnut, 1992). A primeira dessas tabelas demonstra como a
presença de hipotensão, hipóxia ou ambas (hipotensão e hipóxia), por ocasião da
chegada à emergência do hospital, influencia o prognóstico de 699 pacientes.
Verifica-se que a presença de hipóxia isolada faz com que o percentual de mortos se
eleve de 27% para apenas 33.3%; já a ocorrência de hipotensão tem um efeito devastador,
elevando o percentual de mortos para 60.2% quando isolada, e para 75% quando associada à
hipóxia. O percentual de boa ou moderada recuperação decresce na mesma proporção,
não sendo quase afetado pela ocorrência de hipóxia isolada (de 51.1% para 44.9%), mas
sendo
drasticamente reduzido pela hipotensão isolada (para 25.7%) e associada à hipóxia (para
5.8%).
Table 1. Outcome by secondary insult present at time of arrival at Traumatic Coma
Data Bank hospital emergency for mutually exclusive insults Secondary insults No. of
Patients % Total Patients Outcome percent Good or Moderate Severe or Vegetative Dead Total
cases 100.0 42.9 20.5 36.6 Neither 456 65.2 51.1 21.9 27.0 Hypoxia 78 11.2 44.9 21.8 33.3
Hypotension 113 16.2 25.7 14.1 60.2 Both 52 7.4 5.8 19.2 75.0
Hypoxia = PaO2 < 60 mm Hg; hypotension = SBP < 90 mm Hg;
Chesnut RM, et al (1992) Early and late systemic hypotension as a frequent and fundamental
source of cerebral ischemia following severe brain injury in the Traumatic Coma Data Bank.
Acta Neurochir. Suppl. 59:121.
Tabela 4 - Conseqüência de insultos secundários mutuamente excludentes presentes por
ocasião
da admissão ao atendimento de emergência dos hospitais participantes do Banco de Dados
de
Coma Traumático.
A tabela a seguir (nº 5 deste texto, reproduzida a partir da de
nº 3 do texto de Chesnut, 1997) apresenta os resultados da hipotensão (pressão arterial
sistólica < 90 mm Hg) ocorrida isoladamente antes (early hypotension) ou depois (late
hypotension) da admissão à unidade de tratamento intensivo, consecutivamente em ambas as
situações (early & late hypotension) ou em nenhuma delas (no hypotension) em 493
vítimas de traumatismo craniano severo. Através dos dados nela apresentados, verifica-se
que a hipotensão ocorrida tardiamente, quando o edema encefálico encontra-se já
francamente instalado possui um efeito muito mais devastador do que a hipotensão precoce.
Enquanto a hipotensão precoce reduz de 64% para 40% o percentual de pacientes que
apresentam recuperação boa ou moderada, a hipotensão tardia reduz esse mesmo percentual
para 20%, enquanto o efeito consecutivo de ambas o reduz para apenas 15%. Obviamente, o
resultado final de morte ou estado vegetativo persistente responde à hipotensão na forma
inversa, ocorrendo em apenas 27% dos pacientes não acometidos por hipotensão, em 33.3%
dos pacientes que sofrem hipotensão precoce isoladamente, em 60.2% dos pacientes nos
quais
ela é notada somente na unidade de tratamento intensivo, e em 75% dos casos que a
apresentam consecutivamente em ambas as situações.
Table 3. Influence on early (admission) or late (in ICU) occurrence of one or more
episodes of hypotension on outcome in 493 severe traumatic brain injury patients from
the Traumatic Coma Data Bank surviving _9hr in the ICU Secondary insults No. of Patients
Outcome percent Good or Moderate Severe Vegetative or dead No hypotension 307 64 19 27.0
Early hypotension 30
40 13 33.3 Late hypotension 117 20 14 60.2 Early & late hypotension 39 15 8 75.0
Hypotension = SBP < 90 mm Hg
Chesnut RM, et al (1992) Early and late systemic hypotension as a frequent and fundamental
source of cerebral ischemia following severe brain injury in the Traumatic Coma Data Bank.
Acta Neurochir. Suppl. 59:121.
Obviamente, o "diagnóstico" de morte encefálica é
buscado mais freqüentemente na unidade de tratamento intensivo pois, pela própria
natureza de sua atividade, os profissionais que trabalham em unidades de
pronto-atendimento ministram os primeiros socorros e a seguir encaminham os pacientes aos
setores pertinentes do sistema hospitalar. Evidentemente, portanto, o teste da apnéia,
que é executado em pacientes que apresentam supressão da atividade sináptica pela
progressão do edema encefálico e da
hipertensão intracraniana, incide justamente sobre eles no momento da evolução do
quadro clínico em que já se encontram com o fluxo sangüíneo encefálico mais reduzido
e são mais suscetíveis a pequenos ou mínimos decréscimos da pressão arterial.
Justamente nesse momento sujeita-se o paciente aos efeitos nocivos do teste, que provoca
hipotensão severa em 40% dos casos (Jeret e Benjamin, 1994).
Frente a esses dados, como entender-se manifestações como a do Dr. Wijdicks a respeito -
cujo posicionamento contraditório e incoerente a respeito do assunto já foi
extensivamente discutido neste texto, em mais uma de suas alocuções em que, apesar de
reconhecer a ocorrência comum de hipotensão severa durante o teste, em comentário ao
relato de Jeret e Benjamin (1994), quando escreve novo texto para apenas sugerir aos
médicos não considerem tal complicação como realmente perigosa (Wijdicks, 1995b)?
"That hypotension develops during apnea testing in patients who otherwise fulfill the
clinical criteria for brain death is well recognized."
Coerência e ética não faltam aos autores do relato em questão
(Joseph S. Jeret e Jeffrey Benjamin) que, em resposta a Wijdicks (1995b) aconselham
prudência a seus colegas médicos e solicitam a atenção de profissionais do direito, da
ética e da religião para as implicações de seus resultados, que incluiram também a
verificação de paradas cardíacas durante a realização do teste (ver adiante):
"Our article and its two illustrative case reports underscore the unpredictability
and heterogeneity encountered in clinical practice. We hope that our article will prompt
additional caution among clinicians. The legal, ethical and religious implications of our
study await the analysis of experts in these fields."
É inegável, portanto, o poder destrutivo do teste da apnéia,
capaz de provocar colapso irreversível da circulação intracraniana (irreversível
provavelmente por associar a elevada pressão intracraniana - piorada pela hipercarbia -
à tensão superficial que o colapso permite que se estabeleça entre as superfícies
luminais do endotélio ao longo de toda a rede vascular intracraniana), levando à
isquemia devastadora, e com ela à destruição difusa do encéfalo. Essa destruição,
portanto, que seria objetivo do teste apenas "diagnosticar" é evidentemente
induzida por esse procedimento HOMICIDA. A evidência apresentada a seguir corrobora essa
afirmação.
Há que reconhecer a clara discrepância em relação à
evolução para morte por parada cardíaca entre os pacientes submetidos e não submetidos
ao teste da apnéia, mesmo quando todos os demais parâmetros clínicos são satisfeitos
igualmente nos dois casos (coma profundo, dependência da ventilação mecânica, e
ausência dos reflexos cefálicos por pelo menos 6 horas). Quando esses pacientes não
são submetidos ao teste da apnéia, a evolução para a parada cardíaca, mesmo na
ausência de reposição de vasopressina, ocorre em 93% dos casos (Walker et al, 1975). No
entanto, quando os pacientes são submetidos ao teste da apnéia de 10 minutos de
duração, 100% deles evoluem para a parada cardíaca, como demonstram diversos relatos
(Ebata et al, 1991 - 9 pacientes; Hung e Chen, 1995 - 73 pacientes; Jeret e Benjamin, 1994
- 61
pacientes; Rowland et al, 1984 - 9 pacientes, apenas para citar alguns, e que totalizam,
apenas nessa série, 152 pacientes). Não fosse o teste da apnéia uma das causas da
evolução para a parada cardíaca (por diabete insípido secundário à destruição
hipotalâmica, por sua vez determinada pelo colapso circulatório irreversível já
comentado), constituindo-se realmente em um "inofensivo" procedimento
diagnóstico, deveria, necessariamente, não confirmar a "morte encefálica"
sugerida pelo quadro clínico descrito em cerca de 7% dos casos. Consequentemente, o teste
da apnéia altera a evolução natural desses casos de forma a induzir a progressão para
a parada cardíaca em cerca de 7% dos casos, e de forma a antecipar a lesão irreversível
do encéfalo em um percentual provavelmente muito maior. Antecipa ou determina a morte em
pacientes que poderiam ter suas seqüelas reduzidas ou serem recuperados a ponto de
reassumirem as atividades desempenhadas antes do acidente, se fossem submetidos ao
tratamento hipotérmico, como foi o caso dos pacientes beneficiados pelo estudo de Metz et
al (1996).
Não é de surpreender-se, no entanto, a falta casos não confirmados
pelo teste! Repetidamente encontram-se instruções na literatura orientando os médicos a
desconsiderarem virtualmente qualquer movimento que o paciente venha a executar como
originário da atividade encefálica, o que constituir-se-ia, nesse caso, em evidência de
que esteja vivo! Ao ser desligado o respirador, o paciente pode elevar a mão palmos acima
do tórax, ou repedidamente à região cervical ou mentoniana, ou mesmo (inacreditável!!)
realizar movimentos "sugestivos de esforço respiratório". Tudo inútil!!
Segundo os propositores do método, que exaram tais "orientações" do alto de
sua "ciência" inquestionável, quaisquer desses movimentos devem ser encarados
como "reflexos" medulares. Estranhamente, apesar de que não se tenha notícia
ou comprovação de que a medula espinhal humana seja capaz de executar movimentos tão
complexos, mesmo assim eles são atribuídos à medula por simples exclusão, já que se
parte do pressuposto ("inquestionável"!) de que o quadro clínico apresentado
pelo paciente identifica infalivelmente o estado de irreversibilidade da lesão
encefálica! É inimaginável para tais
"cientistas" a possibilidade de pacientes com fluxo sangüíneo encefálico
situado próximo ao limiar de inativação sináptica possam ainda manifestar qualquer
sinal de vida!!!
"Como?!! Considerar tal possibilidade representaria uma
ameaça à credibilidade da soberana avaliação clínica!!! Não!!!
Definitivamente não!!! Tais movimentos agônicos, desencadeados pelo sofrimento
respiratório, não podem ter origem no encéfalo!!" Melhor subverter, reinventar a
ciência, tranformando-a em atividade mental cartilhista, incapaz de considerar
alternativas à "morte encefálica indiscutível". Observe-se o que diz Allan H.
Ropper (1984), exercendo o seu direito ao absurdo, ao sugerir que os
familiares sejam retirados do recinto antes que o respirador seja desligado, para não
ficarem chocados com a cena, ou protestarem:
"
thoracic, respiratory-like movements are observed in apnea testing and may
still be consistent with brain death."
"The typical sequence, seen in four patients, began between 4 and 8 minutes after
disconnecting the ventilator from the endotracheal tube
Within 30 seconds, the arms
flexed very rapidly at the elbows, sometimes in a robotic or ratchetlike manner. In less
than 2 seconds, the hands were brought to the midsternum and held there momentarily with a
few jittery movements in the horizontal plane. The hands then rapidly proceeded to the
neck or chin, or were raised several inches
above the body at the level of the sternum
"
"The movements occurred when the patients were in extremis, with
hypotension, hypoxia or both."
"The practical importance of these observations is that families should be dissuaded
from staying in the room with brain-dead patients when the ventilator is removed
terminally, lest undue fright and stress be caused."
"The movements also demonstrate the capacity of agonal cord neurons to produce
complex sequential movements, and although the movements differ from
posturing, complex spinal movements need not exclude brain death."
A figura 12 ilustra a conseqüência do teste da apnéia nos dois casos: (1) em que a
irreversibilidade da lesão ainda não se estabeleceu até o momento do teste, ou (2) que
não se estabeleceria nunca, não fosse a implementação desse "procedimento
diagnóstico":
Figura 14 - Efeitos da administração intra-arterial de um agente trombolítico sobre o
fluxo
sangüíneo do tronco encefálico em um caso hipotético de oclusão da artéria basilar
(como o
relatado por Koberda et al, 1997). O paciente apresenta depressão do nível de
consciência às
9:00 horas da manhã. Às 10 horas encontra-se com os sinais clínicos de morte
encefálica
(incluindo provas calóricas negativas). Às 14:00 horas é submetido a uma angiografia
que
evidencia o diagnóstico e, a seguir, à administração intra-arterial do agente
trombolítico, que, às
16:00 horas promove a desobstrução. Nas 24 horas seguintes recupera-se progressivamente.
Deve
este paciente ser submetido ao teste da apnéia e não à terapia trombolítica??!!!
Ao afirmar-se que o caso relatado por Koberda et al não pode ser
considerado como de morte encefálica (pela falta do teste da apnéia), devendo ao invés,
ser considerado como um simples caso de prognóstico reservado que "fugiu à
regra", está-se desconsiderando, ademais, (1) que o teste nunca se contrapõe ao
quadro clínico (mesmo porque movimentos sugestivos de esforço respiratório não são
considerados!), e (2) que o próprio "diagnóstico" de morte encefálica nada
mais é do que um prognóstico de morte, ou seja, que os critérios utilizados (exceto
pelo homicida teste da apnéia, que avança muito além disso), caracterizam
exatamente isso: um prognóstico reservado!
Veja-se o que declara o Dr. Wijdicks a respeito do progóstico
desses pacientes (cuja posição é, uma vez mais contrariada pelo relato de Koberda et
al), ao "estabelecer" que a evolução natural de todos os casos de oclusão da
artéria basilar que apresentam em algum momento coma e dependência à ventilação
mecânica é, invariavelmente, a morte (Wijdicks and Scott, 1996):
"These observations suggest that apnea during presentation of acute basilar artery
occlusion may be predictive of a devastating ischemic insult to the brain stem
incompatible with survival."
As palavras do Dr. Wijdicks claramente indicam que a oclusão da
artéria basilar, quando chega ao ponto de provocar coma profundo associado à
dependência à ventilação mecânica deva "indiscutivelmente", ser considerada
"UMA CAUSA CONHECIDA DE IRREVERSIBILIDADE DA LESÃO ENCEFÁLICA, OU SEJA, DE MORTE
ENCEFÁLICA". Essa tem sido o último argumento sobre
o qual se sustentam os defensores da viabilidade do diagnóstico clínico de "morte
encefálica". Basta, segundo eles, que se identifique uma "causa sabidamente
irreversível". Pois aí está "uma delas", reconhecida pelo próprio
Wijdicks. E ainda assim, na realidade, como demonstra o relato de Koberda et al (1997),
uma causa reversível. A contradição entre afirmação e fato demonstra, uma vez mais
que as situações clínicas assim consideradas ("irreversíveis"), podem deixar
de sê-lo, e freqüentemente o são, na dependência da evolução do conhecimento
científico sobre a fisiopatologia das doenças e do
aprimoramento dos recursos terapêuticos que esse progresso coloca à disposição do
clínico. Não é, portanto, nem através desse argumento que se pode validar a morte
encefálica!
3.4 - Parada cardíaca fatal
Por ocasião da aplicação do teste da apnéia, a observância
das medidas preventivas da hipóxia não impede que as conseqüências graves da
hipercarbia abrupta e da acidose dela resultante se façam sentir de forma devastadora
sobre o sistema cardiovascular, levando à hipotensão arterial, já discutida, e mesmo à
parada cardíaca fatal durante o teste, cuja ocorrência
inspirou o estudo de Jeret e Benjamin (1994):
"Despite observance of these rigorous criteria and careful monitoring of vital signs,
one patient at our institution developed fatal asystole during apnea testing. This
prompted us to prospectively study the cardiovascular effects of apnea tests with adequate
preoxygenation and apneic oxygenation."
Durante o acompanhamento prospectivo de 61 casos de pacientes
submetidos ao teste da apnéia, Jeret e Benjamin (1994) selecionaram o seguinte caso como
um dos dois mais ilustrativos dos riscos do teste da apnéia:
"CASE 2. One of us (J.S.J.) was asked to evaluate a comatose patient on whom recent
laboratory results were pending. Ten minutes of apnea testing was well tolerated by the
patient, despite ABG determinations that demonstrated a decrease in PO2 from 369 to 53 mm
Hg. The sodium level was 181 mmol/L. Owing to the metabolic abnormality, brain death was
not declared.
On the next day, after sodium level had normalized, a second evaluation was performed.
Baseline ABG determinations showed a PO2 of 489 mm Hg. After 2 min of apnea testing, the
patient developed asystole despite increasing the rate of dopamine infusion 10-fold.
Reconnecting the patient to the ventilator and allowing maximal rate of dopamine infusion
resulted in return and normalization of BP."
Apesar de que os fatores determinantes da depressão cardiovascular (levando à
hipotensão e à parada cardíaca) induzida pelo teste da apnéia não se encontrem
determinados com absoluta segurança, é provável que a causa seja a profunda acidemia
inevitavelmente associada à hipercarbia que o procedimento tem por objetivo induzir
(Jeret e Benjamin, 1994):
"
Some researchers postulate that hypotension signifies the development of
hypoxia (Ropper et al, 1981). However, others have found hypoxia (< 50 mm Hg) without
hypotension (Benzel et al, 1989) and hypotension without hypoxia (Schafer e Caronna,
1978). Our data replicate the findings of the latter two studies.
Acidemia, which inevitably develops during proper apnea testing,
exerts cardiodepressant effects by decreasing cardiac contractility, dampening the
myocardial response to catecholamines, and decreasing conduction velocity (Andersen et a,
1967; Cingolani et al, 1975; Guetes, 1986; Orchard e Kentish, 1990)."