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Diário do Front
Avaliações incorretas sobre o Poder

Alexandre Gomes

No final do século passado o embaixador inglês na China finalmente consegue uma audiência com o Imperador, solicitada há anos sem sucesso. Mas ao contrário das expectativas, nada de bom resulta desta audiência. O Embaixador é submetido ao protocolo humilhante da corte e é obrigado a ouvir que não haveria nada que o Grande Império do Meio precisasse que uma longuinqua ilhota habitada por bárbaros pudesse lhe fornecer.
O resultado da petulância imperial foi a divisão da China entre as potências ocidentais e o Japão, a Guerra do Ópio e finalmente a transformação da China numa república. O imperador selou seu destino ao não ser capaz de enxergar as relações efetivas de poder e força e determinar que aquele velho mundo no qual ele era o centro do mundo estava terminado. Assim foi incapaz tanto de buscar uma relação mais realista com o ocidente como de resistir à dissolução do seu poder.
O poder sempre é implacável com quem o subestima e no imenso jogo de pôquer da política a punição para o blefe é ainda mais severa, até porque na arena do poder o "pagar para ver" tem consequências funestas. Isto não significa que não se possa blefar ou que o pequeno e o médio poder não possam enfrentar o grande, mas que devem fundamentar sua decisão em avaliações realistas tanto de seus poderes como do de seus adversários.

Blefes
Um exército mais fraco pode vencer um mais forte, como a história mostra, mas só se for capaz de tomar as melhores decisões. A clássica frase de Sun Tzu espelha a importância desta avaliação correta de forças: ""se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo não precisa temer o resultado de cem batalhas; se você conhece a si mesmo, mas não ao inimigo para cada vitória sofrerá uma derrota; se você não conhece nem a si mesmo, nem ao inimigo, sucumbirá em cada batalha".
Evidente que Sun Tzu e tantos outros estrategistas admitem o blefe, Ibn Khaldun chega mesmo a dizer que "a guerra é a arte de enganar", porém há uma diferença fundamental entre estes blefes e uma atitude equivocada como a do Imperador chinês. O bom blefador engana a todos, menos a si próprio, a chave da sua estratégia é saber tanto as fraquezas e forças suas como as do inimigo e ter plena consciência dos riscos que corre se alguém "pagar para ver".

Sorte e azar
Quem está com a partida perdida certamente não tem outra alternativa senão o blefe, pois a iminência da derrota pode ser ainda mais assustadora que o "pagar para ver". Mas quando se tem algumas chances de vitória descartá-las num blefe arriscado é jogada perigosa demais.
Mas para fazer este tipo de avaliação é fundamental saber quais são - efetivamente - as suas chances e as do adversário. Volta-se portanto para a essência da questão, quem não é capaz de avaliar com exatidão as relações de força e poder entre os contendores está condenado a fracassar, salvo se tiver imensa ajuda da sorte. A sorte, porém, é algo muito volátil e impreciso para que qualquer planejamento se baseie nela.
Maquiavel dizia que a sorte sorri com mais frequência aos ousados, a quem corre riscos, e muitos dos grandes líderes que a história mostra devem boa parte de seu triunfo à sorte. Contudo a sorte, para eles, não foi nunca a essência de sua estratégia, foi algo a mais que surgiu e que foi convenientemente aproveitado.
Ser oportunista é uma vantagem apenas momentânea, porque o efeito surpresa que é a coluna vertebral da sua estratégia, perde força a cada nova ação oportunista. Depois de um certo número de ações audazes e arriscadas de um jogador oportunista, os outros contendores percebem seu padrão de comportamento e - se forem espertos - incorporam às suas análises que aquele jogador tende a correr riscos e começam a calcular as chances deste tipo de ação, se preparando para elas. Com isto a vantagem inicial de ser oportunista se dissolve.
Assim, a essência de qualquer poder está diretamente ligada à capacidade do político em medir com exatidão as suas forças e oportunidades, bem como de estimar de forma correta as do adversário. A vitória, seja numa guerra ou numa campanha eleitoral, está diretamente ligada a esta análise porque ela é que vai estabelecer quais alianças são necessárias, quais armas se deve utilizar, quais perigos espreitam nas curvas, enfim sem um diagnóstico correto não há estratégia, por melhor que seja, que possa levar à vitória a nòa ser com doses generosas de sorte.



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