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As versões do Chefe Seattle
"O Presidente em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra. Mas, como alguém pode comprar ou vender o céu? A terra? A idéia nos é estranha". Assim começa a versão mais conhecida do Discurso do Chefe Seattle, proferido em 1854, como resposta a uma proposta do governo norte-americano - basicamente, adquirir as terras da tribo de Seattle e remover os índios para uma reserva. A partir dos anos 70 deste século, o discurso de Seattle virou um fenômeno pop, com direito a constar em camisetas e adesivos; tornou-se uma bandeira, um manifesto, em certos círculos ambientalistas. O texto foi citado pela ONU, por autoridades de todo o mundo, até pelo mitólogo Joseph Campbell. O fato, porém, é que o discurso original do velho chefe não tinha nada a ver com a mãe-Terra ou com o meio ambiente.
Como nota uma edição recente da revista Skeptical Inquirer, o texto virou um argumento em favor da visão poética da natureza que os povos indígenas teriam, oposta à visão fria e mercantilista do homem branco.
O fato, no entanto, é que a versão "ecológica" do discurso de Seattle - em outro trecho, o texto diz: "O homem não teceu a trama da vida; ele é apenas mais um de seus fios. O que ele faz à trama, faz a si mesmo" - é uma obra de ficção, criada, em 1970, pelo roteirista Ted Perry, para um filme - este sim, ecológico - a ser produzido por uma Igreja Batista.
Uma análise do texto de Perry revela várias pistas de que aquela não seria a transcrição da fala original de um índio. A própria menção a uma "trama da vida", por exemplo, lembra mais a mitologia grega, onde o destino dos homens era tecido em um tear, do que uma metáfora indígena.
Mas, então, o que disse o chefe Seattle em seu discurso? É possível que nunca saibamos, ao certo. O texto mais próximo de uma transcrição fiel da fala do chefe foi construída a partir de notas esparsas, tomadas por um certo Dr. Henry Smith. Smith tomou nota do que Seattle dizia em sua língua nativa, traduziu suas notas para o inglês e fundiu-as na forma de um texto coerente. A versão de Smith não fala em ecologia, mas é um protesto emocionante, pelo sentimento de frustração e ira contida, contra a extinção dos povos indígenas.
Nessa versão, o chefe Seattle abre sua fala dizendo: "O chefe branco diz que o Grande Chefe em Washington envia saudações, amizade e boa-vontade. Isto é muito gentil, já que ele não precisa que retribuamos sua amizade. Seu povo é grande. Meu povo é pequeno".
Mais adiante - onde, no texto de Perry, o índio diz que "seu Deus é nosso Deus" -, a versão de Smith mostra um chefe Seattle totalmente diferente: "Seu Deus não é nosso Deus! Ele ama o seu povo, e odeia o nosso! Ele abandona Seus filhos de pele vermelha, se é que estes são mesmo Seus filhos". Não é à toa que, escrevendo para uma igreja, Perry achasse melhor fazer alguns ajustes aqui.
E onde, afinal, o chefe Seattle fala sobre a terra, seu valor, sua poesia? Bem, no texto original ele não parece estranhar a idéia de vender terras. E não demonstra grande resistência à idéia de ir para uma reserva: "Pouco importa onde passaremos o restante de nossos dias. Eles não serão muitos. A noite do índio promete ser escura. Nenhuma estrela de esperança se ergue sobre o horizonte".
Mas, sim, ele fala de um tipo especial de terra - uma fração sagrada de solo: "Iremos considerar a sua proposta (...) Se a aceitarmos, aqui e agora imponho uma condição: não nos será negado o privilégio de, sem sermos molestados, visitarmos, a qualquer momento, as tumbas de nossos ancestrais, amigos, crianças. Cada pedaço deste solo é sagrado para meu povo".
Links:
Chefe Seattle - versão de Perry:
http://www.nidlink.com/~bobhard/seattle.html
Chefe Seattle - versão de Smith:
http://www.halcyon.com/arborhts/chiefsea.html
Um debate sobre as diferentes versões:
http://magna.com.au/~prfbrown/thchief2.html
Outra discussão:
http://www.geocities.com/Athens/2344/chiefs3.htm




Carlos Orsi, 27 anos, é jornalista e escritor. Trabalha com Internet desde 1996, quando foi contratado pela Agência Estado. Desde 1997, responde também pela seção 'Ano 2000'.



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