Autor(a): Fernanda Emmy
O que não faz sentido


              Em mais uma declaração dispensável e não tão recente, o presidente da República difamou, mesmo que não intencionalmente – o que não justifica o ato -, um dos maiores ícones da cultura brasileira. Após deteriorar o patrimônio público, FHC (que merece ser reduzido a uma mera sigla) parece querer dilapidar o legado artístico-cultural que tenta sobreviver em meio a tanta porcaria alienatória.
              Nosso ilustríssimo presidente, ao relegar Chico Buarque à condição de elitista e ultrapassado, pareceu ignorar o apoio um dia recebido. Quando se trata de um sujeito que clama pelo esquecimento da ideologia que um dia defendeu, que muda até mesmo suas concepções religiosas por razões tão questionáveis quanto seu governo (lembrem-se de que ele era ateu antes de entregar a responsabilidade da seca nas mãos de Deus), exigir um mínimo de coerência é, realmente, puro devaneio.
              Estava a conversa sendo travada entre dois representantes diplomáticos, portanto, não era a ocasião cabível para comentários do gênero, com origem em opiniões meramente pessoais. Se Mário Soares fizesse alguma colocação como “Amália Rodrigues é ultrapassada e elitista”, os portugueses ficariam tão indignados quanto eu, que esclareço a quem interessar: a cantora é a maior representante da música lusitana, mais especificamente do fado. Na época do lançamento do livro Terra, ficou evidente a admiração dos portugueses pelo trabalho do Chico, que esteve em destaque na RTP (principal emissora televisiva de Portugal). Com a presença de Chico Buarque, José Saramago e Sebastião Salgado, foi feita uma série de entrevistas, sendo as perguntas elaboradas pelos próprios espectadores  que, diferentemente de FHC, reconheceram a importância do compositor.
              Não escrevo para eleger Chico Buarque o autor da trilha sonora da história brasileira, embora tenha dado grande contribuição, nem com a intenção  de preterir outros e novos artistas, o que seria repetir o erro daquele que se diz sociólogo e que proporcionou incentivos ínfimos para a produção cultural. Entenda-se que também não pretendo convencer ou interferir no gosto musical de ninguém – seria muita pretensão. Escrevo para revidar o comentário do presidente, que sendo ou não portador de ressentimentos pessoais (já que não tem mais o apoio político do artista), não apresentou quaisquer argumen-tos para explicar por que Chico é ultrapassado.
              Quem imagina que o repertório deste compositor se restringe a canções como a epifânica “A Banda”, não percebe a contemporaneidade de músicas como “Homenagem ao Malandro” (que trata da corrupção de qualquer regime), “Pivete” (que externa no próprio nome a realidade dos faróis), “Gente Humilde” (identificável em qualquer lugar do país), “Pedro Pedreiro” (retrato do cotidiano de tantos trabalhadores), entre outras.
              Quem pensa que Chico é antiquado, não vê que situações um dia pintadas na trilha sonora de “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Mello Neto, estão latejantes às cercas dos coronéis de hoje.
              Quem acha que a obra de Chico Buarque não é suficientemente significativa, não conhece seu trabalho por completo. Ele não nos deixou apenas clássicos da música brasileira, ora marcados pelo protesto, ora estimulados pelas mais oníricas sensações, mas também peças como Roda-Viva, tradução do eterno debate entre a cultura nacional e  a imposição de costumes norte-americana, que reativou o teatro nacional, ao lado de grupos como o Arena, ao ser encenada pelo Teatro Oficina.
              Quem, ainda, o considera elitista, não sabe que ao adaptar a tragédia Médeia, de Eurípedes, para a linguagem teatral (ganhando o título Gota d’água), Chico procurou torná-la acessível ao grande público, buscando elementos da realidade carioca para tratar deste clássico grego.  Em Ópera do Malandro, ele mesclou os autores Bertold Brecht, Kurt Weill e John Gay, para mostrar uma análise sociológica e sempre atual do poder. A fonte pode ser um tanto quanto “elitista”, mas o resultado não  o   é.    A    na    ocasião   da estréia censurada Calabar, que conta a história de uma traição movida por interesses políticos, na época imperial, podia muito bem se passar nos dias de hoje (para bom entendedor...).
              Desculpem-me   se   não
 fui sucinta, mas não poderia omitir provas da genialidade e da sensibilidade de Chico Buarque. Fica aqui registrado meu repúdio à opinião do presidente, e a todos aqueles que, de certa forma, dilaceram nossa riqueza cultural.
 

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