Autor(a): Flávio Augusto Picchi ( 1º DI )
Do Típico
Brasileiro
A criança tem direito a um nome e a uma
nacionalidade.
(Assembléia Geral das Nações Unidas, 20.11.1959)
Não caberá aqui fazer rodeios desnecessários e enfadonhos
sobre a situação de crianças subnutridas na África ou coisa
do gênero. É sempre assim, e então o brasileiro se
emociona, e comenta indignado, e vai dormir pensando no assunto,
e no dia seguinte se irrita com a pobre criança a lhe pedir
licença para tomar conta do carro.
Aí, põe-se a pensar sobre o problema que são essas
crianças. Elas atrapalham e pedem dinheiro, deve ser para
comprar porcaria ou coisa pior! Nunca vão ser nada na vida além
de bandidos. E esses políticos não fazem nada a respeito disso!
Pelo retrovisor, vê o carro de trás forçando a ultrapassagem;
assunto esquecido.
E o que é esse
nosso
brasileiro? É contraditório, pois se comove
com o que acontece na África e não com o que lhe salta aos
olhos (lágrimas de crocodilo nilótico?). É preconceituoso e
superficial, pois julga irracionalmente o que vê, sem tomar
conhecimento da realidade individual. É negligente e
irresponsável, pois culpa os políticos e o
governo pela situação, sem
assumir sua condição de cidadão e de ser
político. É um alienado, pois, se perguntado sobre o terceiro
princípio da Declaração do Direitos da Criança, responde:
essas crianças são brasileiros.
Bem, a ele só pode ser dito que é sórdido e desumano,
que o governo de que ele mesmo reclama está apenas cumprindo sua
função de representar-lhe em seu relapso, e que essas crianças
são, no máximo, brasileiras (porque nascidas dentro do
território deste país), mas não são brasileiros (o que
pressupõe e indica cidadania).
Mas este típico brasileiro é de fato um
cidadão? Depois de terem sido citados tantos defeitos em seu
caráter, a resposta esperada só pode ser um não, e é esta
mesma a única que se pode dar. Sua completa falta de noção de
civismo, nacionalidade e cidadania o fazem, junto àquela
criança que lhe pediu um tostão para provavelmente saciar a
fome, um apátrida, e da pior espécie que pode haver. A
diferença é que ele possui documentos que lhe permitem ter um
nome, expedido por um país de mentirinha, e a criança nem isto
deve ter.