Autor(a): Flávio Picchi
A Inocência Culpada: Ainda
do Trabalho Infantil
Quem se gaba de só dizer a verdade não tem nenhum
respeito por ela
(H. L. Mencken)
Não seria de todo impróprio acreditar que o leitor me odeie ou,
pelo menos, nutra uma leve antipatia por mim. Por quê? Por meu
último texto para este jornal. Abusando de sua paciência ao
pedir-lhe que leia até o final, consideremos as razões de minha
anterior escritura.
Primeira: havia, na edição de estréia falado sobre
aposentadoria de professores universitários. Recebi algumas
críticas injustificadas, e percebi uma polêmica que não
imaginava suscitar. Como a audiência gostou de polêmicas,
decidi-lhes dar. E nem isto eu mesmo deveria esperar, como mostro
abaixo.
Segunda: das que recebi, muitas críticas eram pouco
fundamentadas logicamente e muito influenciadas ideologicamente.
Ao escrever um texto que, com certas alterações, poderia passar
por sério há pouco mais de cem anos, critiquei o pensamento
ideologizado, mostrando que o que Miguel Reale chama de
invariantes axiológicas nem sempre o foram, e que os
ideologismos produzem um emburrecimento progressivo, inerente a
qualquer ideologia, da moda ou não.
Terceira: a grande sacada desafiadora de escrever não é
defender o próprio ponto de vista, mas um ponto de vista
exterior, ainda que o mais absurdo possível, de maneira que
pareça verossímil, ou seja, fazer ficção. É como Virginia
Woolf em seu ensaio O Status Intelectual da Mulher.
Enfim: é claro que eu, euzinho da silva, não defendo que
crianças trabalhem. O texto se tratou de uma grande ironia,
plenamente identificável quando afirmei que só trataria de
assuntos tranqüilos e que não suscitassem animosidades. E a
melhor definição de ironia que conheço é: dizer algo pelo seu
oposto; afirmar uma coisa pela sua negação, ou negar pela
afirmação. Pelo sim, pelo não, insere-se nesta mesma edição
mais algumas mal-traçadas de lavra própria (Do Típico
Brasileiro) que bem cairão ao gosto da audiência,
creio. Expressão de minha verdadeira opinião?
Não respondo.
Comente-se agora a repercussão.
A título de mera exemplificação, um texto de outro jornal.
Além de não captarem a piada, levaram tudo a sério (como
expresso em editorial) e passaram o maior sabão, chamando o
texto de estúpido. Não contentes, saíram-se com uma pérola a
respeito da própria publicação: apesar de ser um órgão
democrático, no qual coexistem opiniões até conflitantes,
jamais aceitará de maneira passiva opiniões com sentido de
(sic) depreciar o valor da pessoa humana ou que não tragam em si
o devido respeito a que todos nós, sem distinção, temos
direito como seres humanos. Jura, benhê? Então me diz
como é que o órgão autonomeado democrático não tem por
objetivo a liberdade de expressão, qualquer que seja ela,
liberdade que é direito a todos nós, sem distinção, como
seres humanos.
Enfim, o que se vê? A manifestação de uma ideologiazinha
(provavelmente sem consciência de o ser) totalitária, que,
apenas por afirmar-se democrática, se pensa imune de
qualquer outro juízo, como se uma palavrinha mágica tornasse
areia em pó de ouro. É como o newspeak, a novilíngua de que
fala George Orwell em 1984. Tão totalitários que estão certos
de que sua opinião é a única possível: Com certeza, da
opinião de (nome do jornal) compartilham não só os alunos de
nossa sala, como também de todas as outras salas da faculdade,
inclusive o 1° DI. Errado, e é por isso que eu muito me
orgulho do DI Novo: meu texto foi aceito sem qualquer censura, e
não poucos alunos desta classe elogiaram o estilo do artigo, por
lhe captarem perfeitamente a intenção. Se não for isso a
democracia, eu não sei o que ela é.
Aos censores, que não assinam, eu rogo: dêem o exemplo às
crianças trabalhadoras e voltem vocês aos bancos escolares,
porque não perceber nem ironia nem argumentação falaciosa é
coisa de primário. Afinal, como disse Aparício Torelly,
Fazer loucuras em vez de dizê-las, é o que geralmente
distingue o louco do homem de espírito. Portanto, ao
fazerem críticas e se dizerem revoltados, evitem aquele biquinho
de tia velha moralista que grita Que
óóóóóódiuuu!!! ao ser atingida pelo que julga
ser a quintessência da mundanidade.
Então, caro leitor, espero que você, que porventura ficou entre
dúvidas, tenha-as sanado agora. Não me lembro quem foi que
disse se admirar do poder que a palavra escrita tinha ao se fazer
passar plena verdade. E, de fato, ela passa essa ilusão de ser
verdadeira. Eu só peço que, quando alguém ler qualquer bula de
remédio que seja, coloque-se com um pé atrás em relação ao
preto no branco. Afinal, como a própria História atesta, crimes
e crimes foram praticados por aqueles que, ou interpretaram
distorcida e erroneamente uma mensagem (como, por exemplo... os
defensores do trabalho infantil que se baseiam na Bíblia!), ou
se deixam levar pela beleza do discurso, sem atentar para as
arapucas que ele mesmo pode armar (como os que se dizem
democráticos e abertos à livre opinião, desde que ela não
contrarie o politicamente correto). Em verdade, cá entre nós,
não me importo muito de ser chamado de nazista, fascista,
aparecido ou qualquer outro rótulo. O preocupante é saber que,
dentro da melhor Faculdade de Direito do país, com o melhor
material humano, ninguém contestou o que estava escrito em
termos lógicos, demonstrando razoavelmente o absurdo que estava
escrito.
E, claro, sempre que
alguém escrever ou disser algo de que você discorde
ou tenha ficado em dúvidas (estas letras inclusive), não se
feche: converse com, discuta sobre, peça explicações ao autor.
Não parta para conclusões afoitas, nem leve opiniões alheias
para o lado pessoal (desnecessário dizer isso aos Ímpares
Venusianos, conquanto digam possuírmos apenas dois neurônios;
mas aceitamos a brincadeira com bom humor). Mas não proceda
assim só com o carinha que escreve no jornal da faculdade;
também com o jornalista profissional, o político, o professor.
Se, como afirmou Goya, o adormecer da razão gera monstros, um
pouco de bom senso, lógica e humor será guaraná o bastante
para nos afastar dos Lexotans, Valiums e Mogadons que nos
envolvem.