Autor(a): Homero Andretta Junior ( 1º DI )
A imprensa brasileira ainda não saiu do golpe


                    Os anos de censura e de repressão foram suficientes para manter os meios de comunicação brasileiros em estado de coma político. Nada se cria, nada se forma, tudo se transforma, digo, tudo se copia. Isso porque a imprensa, em grande parte, não passa de mero agente transmissor dos dados que o governo divulga, sejam eles verdadeiros ou não; quando o governo se omite a respeito de uma determinada situação, essa não é noticiada. Isso se torna claro em alguns exemplos, ora nada comuns, ora ridículos, como no caso da seca no Nordeste, esquecida pelo governo e só lembrada pelos jornalistas no momento em que pessoas passaram a morrer de fome nos sertões. Ao negligenciar as previsões feitas vários meses antes desse fenômeno da natureza acontecer, o governo mostrou sua total incompetência em dirigir o Brasil. Pior: nosso presidente jogou a culpa em Deus. A imprensa, ao invés de alertar, preferiu manter-se calada até o dia em que os fatos não podiam mais ser ignorados, sendo que, nesse momento, pouco se preocupou em analisar criticamente a atuação do Estado naquela ocasião, dando-se ênfase, por conseqüência e por comodismo, ao apelo pela doação de cestas básicas.
                   Como podem ser democráticos os pasquins de grande vendagem que apoiaram o golpe militar? E aquela rede de televisões que apoiou e cresceu sob as garras da ditadura,  enquanto o povo era torturado psicologicamente, os rebeldes fisicamente, a justiça relegada à banalidade e o debate político transformado em uivos no vento? Essa imprensa não pode ser classificada senão de covarde, enganadora e alienadora, para não dizer podre. Mentira? Quero que alguém, após ter assistido o Jornal Bestial no dia do nascimento de Sasha, diga que nossa imprensa não é alienadora. O povo, deslumbrado com um acontecimento mais importante do que o leilão da Telebrás, mergulhou em um mundo de sonhos e de ilusões que o faz esquecer a árdua batalha do dia-a-dia. A reportagem da revista Veja, sobre o MST, na qual Stédile aparece com uma face demoníaca na capa, fez um pretenso silogismo nas suas entrelinhas. Referia-se, basicamente, à atuação do MST e de seus dirigentes, cujos objetivos seriam iniciar uma revolução no Brasil; ao apoiar o PT nas eleições próximas, a impressão transmitida pela reportagem era de que este partido teria como plano governamental incitar a população à revolta. Importante é lembrar, desnecessário é citar o ocorrido nas eleições de 1989.
                   Esses exemplos são apenas alguns dentre milhares de outros que evidenciam os vícios e as mentiras que são despejados em nossos lares todos os dias, sob a óptica de um jornalismo comprometido com interesses divergentes da maioria dos cidadãos. Somente quem apoia essa conduta nefasta dos veículos de informação, quem é ignorante ou quem não quer enxergar o que é evidente pode continuar aceitando piamente as notícias divulgadas no Brasil. Insisto que os dados, quando não estão incorretos ou quando não estão errados, estão acompanhados de valorações e de opiniões que logo se encarregam de deturpar o conteúdo real por eles transmitidos. Por exemplo, até hoje não se sabe qual era o verdadeiro valor da Telebrás, como o lance mínimo foi calculado, se existirá pesquisa brasileira na área de telecomunicações após a privatização e se haverá concorrência suficiente para manter preços acessíveis ao consumidor. A imprensa, no tocante a essas questões, omitiu-se, aliou-se a fontes governamentais, simplesmente noticiou e não promoveu debates suficientes sobre o assunto.
                   Grande parte da apatia política, da ignorância, do descontentamento e do descrédito popular sobre a democracia reside nesses fatos, principalmente nas promessas de um futuro melhor para o Brasil que foram divulgadas nas campanhas eleitorais dos últimos presidentes (Collor e FHC, eleitos diretamente), veiculadas justamente aos maiores conglomerados de divulgação do país. Hoje, o leitor ou ouvinte de uma matéria jornalística deve estar, antes de mais nada, atento aos fatos e analisá-los de maneira crítica, evitando a simples absorção de informações. Esse acúmulo de idéias e de modismos é o grande entorpecente de nossos dias, pois elimina o raciocínio, a reflexão sobre os acontecimentos que nos cercam.
 

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