Autor(a): Humberto Bogos ( 1º DI )
A falência dos modelos
Os processos de desenvolvimento de cada país são levados
adiante com base em modelos que, de uma certa maneira,
determinam, através de opções feitas pelo governo, em qual
sentido apontará a economia e, por conseguinte, o
desenvolvimento.
Na América Latina, até meados de 80, predominava claramente o
chamado modelo de substituição de exportações que, desde a
década de 50, determinava a política econômica adotada por
esses países. Contudo, o choque dos anos 80 a década
perdida colocou em xeque esse tipo de modelo, atingindo-o
de forma certeira e mostrando quão ineficaz tinha se tornado sob
diversos aspectos, se mostrando inerme às novas variações de
mercado.
Necessária seria a busca de outros modelos mais adaptados ao
mercado mundial, com uma certeza: se quisesse lograr êxito,
deveria ser dirigido ao mercado externo. Afinal, era patente o
reconhecimento geral de que as potencialidades desse modelo se
achavam esgotadas.
Na procura de um novo contexto, duas opções, basicamente, se
encontravam disponíveis: o modelo de integração passiva e o de
integração ativa.
O primeiro deles foi assim denominado por determinar uma
estratégia muito mais elaborada e menos inercial. Tomando forma
no Leste Asiático e no Japão (que num período curtíssimo de
tempo deixou de ser medieval para se tornar um exemplo de país
industrializado), cada um desses dois exemplos
aperfeiçoaram, ou seja, trataram de maneira diversa
suas economias.
O fato é que o suporte é o mesmo. Tanto o Leste Asiático como
o Japão apresentam no cerne econômico a
ação sistemática do poder
público.
O poder do Estado é, mais precisamente,
decisivo, já que ele toma a seu cargo todas as vantagens
comparativas para o país, patrocinando pesquisas tecnológicas e
educação, chegando a realizar, em muitos casos, o protecionismo
velado de alguns setores considerados chaves da economia; usando,
para tanto, um imenso controle da política monetária e cambial.
Já o segundo modelo, adotado na América Latina posteriormente
ao caos do modelo de substituição de importações, denomina-se
integração passiva no mercado mundial, ou mais comumente
chamado neoliberal. Nele, o comando da economia cabe ao mercado,
pois acredita-se ser ele capaz de reger, com absoluta
competência, a economia, reequilibrando de forma concreta as
discrepâncias resultantes de outros modelos, de acordo com os
aspectos desse, completamente inviáveis à realidade nacional
afinal, o mundo se globalizou. Não importa,
aqui, em qual sentido essa globalização se faz presente, pois,
no tocante à dívida e à miséria, o mundo se encontra mais
segmentado do que nunca. Cabe, sim, explicar que esse sistema
despreza a participação estatal, reduzindo-a às suas funções
tradicionais, de responsabilidade pela saúde, educação e
segurança. Isto quando não as coloca em
xeque também, chegando a preconizar um possível fim do Estado.
A inspiração é claramente dos Estados Unidos, que jamais foram
um país subdesenvolvido, já que acompanharam com mínimo atraso
a Revolução Industrial do século XIX. A influência
norte-americana, quando não feita por meios belicosos
argumento pela força -, é justificada por fins democráticos,
é conseguida pelo apoio dado ao Banco Mundial e ao FMI e aos
países que adotam esse sistema haja vista que esses dois
órgãos têm os Estados Unidos como principal sócio.
Sendo praticamente irresistível aos pobres governos
subdesenvolvidos recusar o ingresso no sistema. Afinal, qualquer
abertura rápida da economia, principalmente quando aprovada e
financiada pelo FMI, parece muito satisfatória. Nesse ponto
reside toda a magia neoliberal, pois num espaço curto de tempo
verifica-se uma verdadeira euforia econômica, que infelizmente
vem a ser interrompida com sucessivas quebradeiras e
estagnações. Em países de economias despreparadas tudo
é uma questão de tempo. Como exemplo, temos o México, antiga
vedete do neoliberalismo que nos seus últimos tempos de euforia
nunca atingiu taxa de crescimento superior a 4%, um número
incrível!?
Incrível mesmo, se compararmos as taxas de incremento de
exportação da Argentina e da Venezuela, no período de 80 a 92.
Ambas tiveram crescimento ínfimo, respectivamente de 2,2% e
0,6%.
Contudo, até a crise do México em 1994, qualquer um dos dois
modelos representava uma opção válida. O neoliberal era
inclusive mais atraente por exigir uma integração passiva no
mercado mundial, sem necessitar de uma participação estatal. E
mais, não exigia nenhum pré-requisito para a consecução dos
fins econômicos, justamente porque a ordem era a da
inércia econômica. Mas a crise do México, o fiasco
por que passou a economia argentina e as ameaças que sofrem a
economia do Brasil levaram à revisão desse modelo de
integração passiva. Percebeu-se que o descaso do neoliberalismo
era uma grande falha, e o pior, encontrava-se na essência do
sistema. Constatou-se que a rápida e, muitas vezes, unilateral
abertura à importação, além de provocar déficits nas contas
correntes, lesava gravemente setores econômicos estratégicos,
que, despreparados para a concorrência externa
necessitavam de um transcurso de tempo e de apoio para se
consolidarem ficaram na iminência de se extinguirem.
Como resultado da adoção de modelos ineficientes para a
realidade nacional, temos o Estado de volta à cena econômica,
desta vez mais desgastada, pronto a corrigir os desníveis do
mercado, mostrando mais uma vez que a participação estatal é
crucial.
O fato concreto
é que a América Latina vinha aceitando sem
questionamento o modelo liberal. Porém, a crise do México e os
déficits em conta corrente no Brasil e na Argentina mostrou a
necessidade de um exame no modelo. Por hora, nada foi mudado,
talvez por se tratar de um fenômeno novo, não
suficientemente estudado, e por esbarrar na comodidade. A segunda
alternativa, o modelo de integração ativa, sofreu uma de suas
crises mais significativas
entre 97
e 98,
mostrando-se falho em determinados pontos e de aplicação
inviável, posto que algumas alternativas adotadas por eles não
seriam convenientes ao continente.
Em suma, mais uma vez buscamos modelos alternativos. Desta vez,
porém, nada aprazível se encontra à disposição no mercado.
Será necessário suscitar um novo modelo, desta vez voltado para
si mesmo e desvinculado de qualquer pretensão que vislumbre um
outro país. Contudo, a questão fatídica ainda permanecerá:
esse novo modelo nos levará ao desenvolvi-mento ou a mais
décadas perdidas?