O novo colega de trabalho
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Hilal Iskandar

O Departamento estava em polvorosa. O bochicho da semana era a chegada do novo professor visitante, vindo no Oriente Médio e "muçulmano". O professor responsável pelo convite estava de licença e assim ninguém tinha mais nenhuma informação a respeito do indivíduo a não ser que ele era muçulmano.

Os papers publicados numa área totalmente alheia não davam a menor noção sobre como era ou como pensava aquele estranho que se passaria a dividir o espaço com eles. Duas dúzias de piadas sobre o caso já circulavam pelo departamento, fazendo referência a múltiplas esposas, bombas, cimitarras, poços de petróleo e coisas do tipo.

Uma das professoras, feminista radical, chegou a tentar passar um abaixo assinado pedindo o cancelamento do contrato. Outro, militante de esquerda montou um mural com recortes de jornal relatando atrocidades cometidas por muçulmanos. Em todos a imaginação trabalhava a mil imaignando como seria o indivíduo.

Alguém lembrou que ele era como eles um cientista e portanto não deveria ser tão diferente. Quase todos acharam que era uma boa ponderação e logo as expectativas se reverteram imaginando-o paenas como um homem comum, igual aos demais."Certamente não é nem praticante...", afirmou o consenso geral.

Todos acharam que era uma explicação razoável. Afinal a idéia de que alguém pudesse ter passado boa parte da vida estudando, em geral em universidades européias e americanas, conquistasse um título de doutorado e fosse aclamado como um cientista competente e, ainda assim, se prestasse a ser adepto de alguma fé era inconcebível.

"Nós", comentou um dos docentes, "nascemos cristãos, mas nenhum de nós é praticante e muitos até se tornaram ateus". "Porque vamos imaginar que ele vai diferente", concluiu. "Ainda mais se tratando de uma religiõa primitiva como o Islamismo", disse a feminista.

Então chegou o dia. Os rumores estiveram ainda mais altas na expectativa da chegada a qualquer momento do indivíduo. Eram cerca de duas horas da tarde quando ele chegou. Sua roupa facilmente poderia ser considerada uma roupa ocidental comum, uma barba bem cuidada marcava seu rosto mas em nada se parecia com as imagens esperadas de um muçulmano. Seu jeito amável de tratar a todos, seu entusiasmado cumprimentos aos colegas de trabalho, sua disposição para o diálogo logo convenceram o pessoal do departamento: não se tratava de um muçulmano praticante.

Todos sentaram animados conversando, trocando informções sobre o departamento, a universidade, a cidade, as pesquisas em andamento. Por dentro todos riam das excessivas apreensões dos dias anteriores. Então o relógio soou quatro horas.

O estrangeiro pediu licenças ao grupo dizendo que iria se afastar por alguns instantes. Retirou da sua pasta um pequeno tapete e algo que se assemelhava a um relógio de bolso (depois descobriram que tratava-se de uma bússola) foi até o gramado ao lado do departamento. Lá estendeu o tapete, consultou a bússola, e iniciou sua oração.

Poucos instantes depois ele voltou, guardou os objetos e reiniciou a discussão anterior como se nada tivesse acontecido. Mas já não era possível, todos queriam comentar a oração mas não sabiam muito bem como fazê-lo. Já tinham dado o visitante como não praticante quando de repente ele resolve fazer a oração, e a fez como se fosse a coisa mais natural do mundo. Estavam perplexos.

Conforme os dias foram se passando a perplexidade foi aumentando. O professor era calmo e educado, em todas as discussões sempre tentava resolver as coisas com a razão, desarmava os espíritos sempre em guerra no departamento. Na sua área demonstrava cada vez mais o quanto conhecia de sua especialidade, o quanto era pesquisador competente.

Por outro lado deixava o que estivesse fazendo nas horas da oração. Nas festas do departamento se recusava a tomar uma gota de álcool ou a comer porco. Era educado com as colegas de trabalho mas mantinha-se reservado e evitava visivelmente o contato físico com qualquer uma delas.

Não conseguiam encaixá-lo em nenhum rótulo. Não era o fanático nem o ateu que imaginaram e isto os deixava confusos. Mas também não tinham coragem de discutir diretamente com ele estas questões. Eram incapazes de compreender como um cientista podia ser religioso e ainda mais muçulmano.

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