A persistente flor Tchetchena
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Hilal Skandar

Não é de hoje que os russos enfrentam problemas por tentarem impor seu domínio sobre o altivo povo do Cáucaso. Em meados do século passado as tropas czaristas penaram por quase três décadas para tentar submeter os mesmos tchetchenos que hoje ousam enfrentar o grande urso.

Leon Tolstói descreveu com o vigor de sua pena e o fervor de sua ética pacífica a luta dos caucasianos para se manterem livres em sua novela histórica Khadjji Murat. No livro ele compara o povo tchetcheno a duas flores que encontra pelo caminho, a primeira planta só permite que sua flor seja retirada depois de muita luta com os espinhos, mas uma vez retirada do rígido caule deixa de ter qualquer valor ou beleza para quem a colheu.

A segunda planta está numa estrada e mesmo constantemente pisoteada pelas pessoas e esmagada pela rodas dos carros insiste em sobreviver e curar as feridas numa vontade de viver que ninguém pode lhe tirar. Tolstói lembra que o único método que o dirigente russo, ontem como hoje um autocrata bêbado e megalômano, encontra para submeter a Tchetchenia é a "derrubada".

Por esta "derrubada" entenda-se a destruição de todas as florestas, plantações e aldeias tchetchenas tirando das tribos do Cáucaso qualquer meio que lhes permitisse sobreviver. O domínio soviético não mudou a sorte dos povos do Cáucaso, mantidos sob estrita vigilância por sua fé muçulmana e sua altivez guerreira.

Sedentarizados à força como outros povos da Ásia Central, ameaçados de perder as raízes por deixarem de lado tradições e modos de vida seculares por uma ideologia presunçosa a ponto de julgar saber melhor que o tempo o que era melhor para os povos, bombardeados com armas ou idéias exóticas, ainda assim os povos do Cáucaso sobreviveram. Mas os resultados da coletivização forçada deixaram seqüelas capazes de matar um mar piscoso com a arrogância de tecnocratas.

Tampouco teve efeito a política stalinista de provocar uma diáspora tchetchena. Nem a distância das montanhas e dos familiares, nem o exílio nas mais distantes cidades da URSS foram capazes de matar o sentimento nacional de um povo que preferiu morrer lutando contra qualquer probabilidade de vitória a ser escravo.

O herói da novela de Tolstói, Khadjji Murat, é um desertor que passa para o lado dos russos na esperança de vingar-se do líder da resistência. A dilaceração da Tchtchênia em clãs rivais é até hoje o grande trunfo de seus adversários. Mas o homem descrito por Tolstói com profunda admiração nada se parece com um arrivista, seu elevado senso de honra e generosidade chocam os russos hipócritas e se luta ao lado dos russos é por acreditar ser esta a melhor forma de livrar seu povo da miséria e tirania.

Murat, contudo, logo percebe que os russos são incapazes de entender os povos do Cáucaso. Um homem que arrisca a vida ao ajudar Murat a passar para o lado dos russos acaba morto num dos massacres promovidos pelos russos nas aldeias tchetchenas. A família de Murat se torna prisioneira de seu rival e os russos ignoram seu drama não se empenhando em ajudá-lo.

Ao final do livro Murat foge para voltar a seu povo, mas é cassado e morto pelas tropas cossacas que o vigiam. Contra qualquer perspectiva de vitória, com apenas quatro companheiros, cercado num pântano contra uma centena de cossacos, Murat resiste até a morte como a perseverante flor que não desiste de viver mesmo sendo pisoteada todos os dias.

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