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Diário do Front
A suprema função dos mestres

Alexandre Gomes

"Sem a sabedoria os que possuem talentos só podem ser mais injustos, mais poderosos para o mal" (Sócrates)

Todo ano, na data de hoje, repetem-se mil vezes as velhas reclamações quanto ao triste estado dos professores no Brasil. Fala-se dos baixos salários, da falta de prioridade para a educação, da demagogia dos políticos, da falta de respeito e perda de status dos profissionais do magistério e mil outras reclamações que a repetição incessante e a falta de ação correspondente esvaziaram de sentido, transformaram em chavões fáceis. A despeito de todas estas reclamações serem verdadeiras, o problema mais grave da educação no Brasil é outro.
Teorias pedagógicas vem e vão, criam-se e desaparecem, não sem antes devastar o passado, quase sempre sem construir nada que lhes substitua. Dificilmente deixem novas drogas serem vendidas nas farmácias sem antes exaustivos testes de laboratório, e que antes mesmo de testá-las em voluntários humanos tenham seus efeitos verificados em diversos animais por inúmeras gerações.
Mas são muito menos cuidadosos quando se trata de novos métodos educacionais, permitindo que profissionais - muitos dos quais incapacitados para compreender o método que vão aplicar em sua totalidade e complexidade - transformem toda uma geração em cobaias de teorias que muitas vezes tem como único mérito o fato de serem novas. Um bom livro, mal utilizado, pode ter os efeitos mais perversos.

Capacidade de compreensão
Evidente que isto Não significa que a educação não precise ser renovada periodicamente, que a ela não se devam incorporar os avanços do conhecimento. Mas sim que qualquer aplicação de novos métodos em massa deve ser precedido de testes e experiências piloto, de forte embasamento teórico e insistente avaliação prática, de interminável preparação dos profissionais e, evidente, de um padrão mínimo de qualidade destes profissionais (o que implica inegavelmente bons salários para que os melhores sejam atraídos para o magistério).
Um exemplo de como as melhores intenções podem produzir os piores resultados: descobriram de repente que a escola não deveria apenas reproduzir o conhecimento dominante, mas produzir conhecimento a partir de um ponto de vista crítico. A idéia é fantástica, mas na prática resultou que nem sequer o que era mal feito antes foi mantido e muitas vezes isto deu a desculpa a profissionais ociosos ou despreparados a simplesmente não fazer nada.
Métodos de enorme potencial como a realização de seminários em geral viraram desculpa para delegar aos alunos o papel do professor e eximir este de suas funções. Uma compreensão menos preconceituosa do conhecimento e da linguagem - grande contribuição de Paulo Freire - tornou-se desculpa para um absoluto relativismo que só acentua as diferenças.

Pacto corrupto
Todos sabem que a situação nas escolas públicas já ultrapassou o ponto do caos há muito tempo e que a maioria das particulares não está muito longe até pela falta de uma concorrência efetiva (afinal é preciso oferecer apenas algo um pouco melhor que o caos para convencer pais apreensivos). Todos sabem que existe um pacto da mediocridade que vai do primário à universidade no qual professores - com cada vez mais raras exceções - fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem (e fingem cada vez pior).
Quando se chega ao ponto de um aluno formar-se em um curso superior sendo apenas semi-alfabetizado (e isto acontece até mesmo nas Humanidades para as quais a palavra é matéria-prima essencial) é porque não é mais possível reformar o sistema, ele já está absolutamente corrompido, caindo de podre. Para que este aluno incapaz de expressar-se com um mínimo de correção na sua própria lingua tenha conseguido se formar é preciso que inumeráveis professores tenham fugido de suas obrigações, que o charlatanismo, a conivência e a absoluta falta de respeito ao honroso título de professor tenha se entranhado tanto na mente destes péssimos profissionais que julguem natural esta acomodaçõa perversa.
Difícil imaginar que alguém capaz de tais barbaridades possa ser aproveitado em qualquer esquema sério. O Provão, com todas as suas limitações, peca muito mais por ser leve demais nas punições que por ser incompleto nas suas avaliações. O professor que aprova um aluno que sabe estar abaixo do nível mínimo exigido deveria ser afastado de suas funções e proibido de voltar a exercer o magistério porque demonstrou não ter responsabilidade e autoridade para cargo tão importante.

Finalidades
Mas o problema mais grave na estrutura da educação do Brasil é mais profundo e sutil. Nas escolas brasileiras, do primário até os mais elevados graus da pós-graduação, não se busca conhecimento, mas títulos, diplomas, certificados. A finalidade da máquina educacional deixou de ser - se algum dia foi no Brasil do bacharelismo - a de transmitir conhecimento para a de produzir papel. Não temos escolas, mas gráficas de luxo.
Praticamente ninguém em toda a estrutura educacional brasileira está realmente preocupado em saber se o aluno está aprendendo alguma coisa. Nem o aluno - para o qual o certificado basta embora não represente coisa alguma no mundo real - nem o professor, nem a direção, nem o governo, nem os políticos, absolutamente ninguém se preocupa com algo além da pape;ada burocrática.
Isto não significa que todos os professores não ensinem - embora seja cada vez mais comum este tipo detestável para o qual a cadeia seria punição pequena - mas dão aulas cujo objetivo não é ensinar, é antes cumprir um plano de ensino, dar uma matéria, não realmente transmitir conhecimento. Isto aliás mal deve passar pela cabeça de muitos deles, inclusive dos melhores e mais dedicados.
Esqueceu-se então que a finalidade da escola é dotar o aluno de conhecimento, não avaliar seu desempenho ou emitir certificados. Nem se fala de junto com este conhecimento dotá-lo da sabedoria para aplicá-lo de que fala Sócrates na frase em epígrafe porque daí já seria pedir demais. Enquanto esta distorçõa de rumo não for corrigida, derrubando este edifício condenado para poder erigir outro mais sólido, qualquer coisa que seja feita para melhorar o ensino não será capaz de produzir resultados definitivos ou duradouros.



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