Clepsydra

Camilo Pessanha






introduction
Part I: Clepsydra
1. Eu vi a luz em um paiz perdido.
2. Desejos
3. Madrigal
4. Soneto de Gelo
5. I
6. II
7. III
8. Crepuscular
9. ?
10. Estatua
11. Ó Magalena, ó cabellos de rastos,
12. Paisagens de Inverno
13. II
14. Canção da Partida
15. Depois das bodas de oiro,
16. Meus olhos apagados,
17. Na cadeia os bandidos presos!
18. Quando?
19. Queda
20. I
21. II
22. Foi um dia de inuteis agonias,
23. Quem polluiu, quem rasgou os meus lenções de linho,
24. I
25. II
26. Phonographo
27. Vida
28. San Gabriel
29. II
30. Viola Chinesa
31. Ao Longe os Barcos de Flores
32. Venus
33. II
34. Enfim, levantou ferro.
35. Cristalisações salinas,
36. Só o meu craneo fique
37. Nesgas agudas do areal
38. Voz debil que passas,
39. Violoncélo
40. I
41. II
42. A bohemia não morreu.
43. Rosas de Inverno
44. Em um Retrato
45. Desce emfim sobre o meu coração
46. Porque o melhor, emfim,
47. Rufando apressado,
48. Se andava no jardim,
49. Tatuagens opulentas do meu peito!
50. Depois da lucta e depois da conquista
51. Branco e Vermelho
52. Ó cores virtuais que jazeis subterraneas,
Part II: Two parodies and two fragments
53. A Miragem
54. Transfiguração
55. Ó Terra doce e boa
56. Um fio a desdobrar, que não termina,
Contensts



introduction

There is no easy way of introducing the multifaceted and eccentric genius of Camilo Pessanha. He has been hailed by critics as perhaps Portugal's greatest symbolist poet, and I would tentatively venture and say that his poems are as evocative and perhaps as soulfully gripping as those of his Brazilian contemporary, Cruz e Souza. Of course both were writing from two different contexts, but the poetry of the two are sensually riveting with undertones of a passionate sexuality and a profound melancholy.

Camilo Pessanha was born in 1867, the illegitimate son of a law student and maid. He later followed his father's footsteps and studied law. In 1894 he accepted an appointment as teacher to the newly formed Macau Lyceum. In the years that followed he held various government posts in the Portuguese colony, and worked as a teacher, lawyer and judge. To pass his time, besides composing poetry, he immersed himself in the local culture, collected Chinese art and became a respected China authority in the colony. Camilo Pessanha died in 1926 due to complications aggravated by his chronic opium use. He was survived by a son and a concubine.

The text that follows is a hypertext version of Pessanha's masterpiece, Clepsydra, a collection of poems put together and published in the lifetime of the poet by a group of his close friends. It is worth noting that there are several editions of Clepsydra available, however, I have chosen to use the critical edition authored by Paulo Franchetti as the basis for these pages. I find his text easiest to follow most straightforward, especially in terms of the scholarship presented. I would strongly suggest taking a look at Franchetti's work, Clepsydra  (Lisbon: Relógio d'Água, 1995) for an eloquent and learned discussion of Pessanha's poetry. I applaud Franchetti for his herculean efforts.

Finally, the underlying motive for this on-line presentation of Clepsydra is for two primary reasons: first, to introduce Pessanha's work to those interested in Macau without the resources to encounter his poetry in any other mode; and second, to open Clepsydra up to as wide an audience as possible. Of course, it would be useful if an English translation of Clepsydra existed, but that is yet another project for yet another day.

I apologize for any spelling errors or stylistic inconsistencies in the text - however it should be noted that Pessanha was using different orthographic conventions than those presently in force in contemporary Portuguese-speaking lands. Yeah yeah yeah, on with the text! (My favorites are 8 and 30.)

Enjoy,
Ian
iwatts@webpub.brown.edu



Part I: Clepsydra


1.


     Eu vi a luz em um paiz perdido.
A minha alma é langida e inerme.
Oh! Quem podesse deslisar sem ruido!
No chão sumir-se, como faz um verme...


2.


Desejos


     Se medito no gozo que promette
A sua boca fresca e pequenina
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete,

     Desejo, nun's transportes de gigante,
Estreital-a de rijo entre meus braços,
Até quasi esmagar n'estes abraços
A sua carne branca e palpitante;

     Como, d'Asia nos bosques tropicaes,
Apertam em spiral auri-luzente,
Os muscullos herculeos da serpente
Aos troncos das palmeiras collosaes...

     E como ao depois, quando o cançação
A sepulta na morna lethargia,
Dormitando repousa todo o dia
Á sombra da palmeira o corpo lasso;

     Eu quizeira tambem, adormecido,
Dos phantasmas da febre ver o mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Envolto no calor do seu vestido;

     Como os ebrios chineses delirantes
Aspiram, já dormindo, o fumo quieto
Que o seu longo cachimbo predilecto
No ambiente espalhava pouco antes...


3.


Madrigal


     Aquella enorme frieza
Não entristeça ninguem...
Ella estende o seu desdem
Á sua propria belleza:

     Quando, solta do vestido,
Sae da frescura do banho,
O seu cabello castanho,
Esse cabello comprido,

     Que frio, que desconsolo!
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de feito em serpente
Ir enroscar-se-lhe ao collo!


4.


Soneto de Gelo


     Ingenuo sonhador - as crenças d'oiro
Não as vás derruir, deixa o destino
Levar-te no teu berço de bambino,
Porque podes perder esse thesoiro.

     Tens na crença um pharol. Nem o procuras,
Mas bem o vês luzir sobre o infinito!...
E o homem que pensou, - foi um precito,
Buscando a luz em vão - sempre ás escuras.

     Eu mesmo quero a fé, não a tenho,
- Um resto de batel - quizera um lenho,
Para não affundir na treva immensa,

     O Deus, o mesmo Deus que te fez crente...
Nem saibas que esse Deus omnipotente
Foi quem arrebatou a minha crença.


5.


I


     Tenho sonhos crueis: n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

     Saudades d'esta dôr que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-m'o coração d'um véu escuro!...

     Porque a dôr, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que allumia
As almas doidamente, o ceo d'agora,

     Sem ella o coração é quasi nada:
- Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.


6.


II


     Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sósinho.

     É longe, é muito longe, ha muito espinho!
Paraste a repousar, eu descancei...
Na venda em que poiaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

     É no monte escabroso, solitario,
Corta os pés como a rocha d'um calvario,
E queima como a areia!... Foi no entanto

     Que chorámos a dôr de cada um...
E o vinho em que choraste era commun:
Tivemos que beber do mesmo pranto.


7.


III


     Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vae já rompendo o sol: vamos embora.

     Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabeças: pela estrada,
D'aqui inda este nectar avigora!...

     Cada um por seu lado!... Eu vou sósinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir á grande calma!...

     Deixae-me chorar mais e beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideaes,
E ter fé e sonhar - encher a alma.


8.


Crepuscular


     Ha no ambiente um murmurio de queixume,
De desejos d'amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

     As madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exala pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cançação,
Nervosos, femininos, delicados.

     Sentem-se spasmos, agonias d'ave,
Inaprehensiveis, minimas, serenas...

     Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

     As tuas mãos tão branca d'anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.


9.


?


     Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dôr me fere, e busca d'um abrigo;
E apezar d'isso, crês? nunca pensei n'um lar
Onde fosses feliz, e eu feliz comtigo.

     Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos romanticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito,
Como a esposa sensual do Cantico dos canticos.

     Se é amar-te não sei. Não sei se te idealiso
A tua côr sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de vêr esse sorriso
Que e penetra bem, como este sol de inverno.

     Passo comtigo a tarde, e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jámais de te beijar na bocca.

     Eu não sei se é amor. Será talvez começo.
Eu não sei que mudança a minha alma presente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


10.


Estatua


     Cancei-me de tentar o seu segredo:
No teu olhar sem côr, - frio escalpello, -
O meu olhar quebrei, a debatel-o,
Como a onda na crista d'um rocheado.

     Segredo d'essa alma, e meu degredo
E minha obcessão! Para bebel-o,
Fui teu labio oscular, n'um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

     E o meu osculo ardente, hallucinado,
Essfriou sobre o marmore correcto
D'esse entreaberto labio gelado...

     D'esse labio de marmore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Sereno como um pelago queito.


11.


e lhe regou de lágrimas os pés.
e os enxugava com os cabellos da sua cabeça.
Evangelho de S. Luca.


     Ó Magdalena, ó cabellos de rastos,
Lirio polluido, branca flôr inutil,
Meu coração, velha moeda futil,
E sem revelo, os caracteres gastos,

     De resignar-se torpemente ductil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem tambem fosse, ó cabellos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inutil,

     Dentro do peito, abominavel comico!
Morrer tranquilo, - o fastio da cama.
Ó redempção do marmore anatomico,

     Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, polluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Magdalena, ó cabellos de rastos!


12.


Paisagens de Inverno


I.

(A Alberto Osório de Castro)


     Ó meu coração, torna para traz.
Onde vaes a correr desatinado?
Meus olhos incendidos que o peccado
Queimou! Volvei, longas noites de paz.

     Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brazido.
Noites da serra, o casebre transido...
Scismae, meus olhos, como uns velhinhos.

     Extinctas primaveras, evocae-as.
Já vae florir o pomar das maceiras.
Hemos de efeitar os chapeus de maias.

     Socegae, esfriae, olhos febris...
Hemos de ir a cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis.


13.


(A Ana Annibal de Azevedo)


     Passou o outomno já, já torna o frio...
- Outomno de seu riso maguado.
Algido inverno! Obliquo o sol, gelado...
- O sol, e as aguas limpidas do rio.

     Aguas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cançado,
Para onde me levaes, meu coração vazio?

     Ficae, cabellos d'ella, fluctuando,
E, debaixo das aguas fugidias,
Os seus olhos abertos e scisando...

     Onde ides a correr, melancolias?
- E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translucidas e frias...


14.


Canção da Partida


     Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançal-o ao mar.

     Quem vae embarcar, que vae degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançae-a ao mar.

     E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é um cofre sellado.
A sete chaves: tem dentro uma carta...
- A ultima, de antes do teu noivado.

     A sete chaves, - a carta encantada!
E um lenço bordado... Esse hei-de-o levar.
Que é para o molhar na agua salgada
No dia em que emfi deixar de chorar.


15.


     Depois das bodas de oiro,
Da hora promettida,
Não sei que mau agoiro
Me enoiteceu a vida...

     Temo de regressar...
E mata-me a suadade.
Mas de me recordar
Não sei que dor me invade.

     Nem quero proseguir,
Trilhar novos caminhos,
Meu pobres pés dorir,
Já roxos dos espinhos.

     Nem ficar, e morrer:
Perder-te, imagem vaga...
Cessar, não mais te ver,
Como uma luz se apaga.


16.


Il pluer dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville.
Verlaine


     Meus olhos apagados,
Vede a agua cahir.
Das beiras dos telhados,
Cahir, sempre cahir.

     Das beiras dos telhados,
Cahir, quasi morrer...
Meus olhos apagados,
E cançados de ver.

     Meus olhos, afogae-vos
Na vã tristeza ambiente.
Cahi e derramae-vos
Como a agua morrente.


17.


     Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das feras de olhos acesos?...
Pobres de seus olhos captivos...

     Passeiam mudo entre as grades.
Parecem peixes num aquario.
Campo florido das saudades,
Porque rebentas tumultario?

     Serenos. Serenos. Serenos.
Trouxe-os algemados a escolta...
Estranha taça de venenos,
Meu coração sempre em revolta!

     Coração, queitinho, quietinho!
Porque te insurges e blasphemas?

     Psss... Não batas... Devagarinho...
Olha os soldados, as algemas.


18.


Quando?


     Quando se erguerão as setteiras,
Outra vez, do castello em ruina?
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?

     Se ouvirá tocar a rebate,
- Sobre a planicie abadonada?
E partiremos ao combate,
De cota, e elmo, e a longa espada?

     Quando iremos, tristes e serios,
Nas prolixas e vãs contendas,
Lançando juras, improperios,
Pelas divisas e legendas?

     E voltaremos, - os antigos,
Os purissimos lidadores, -
Quantos trabalhos e perigos!
Quasi mortos e vencedores?

     E quando, ó Doce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
Magra figura de vitral
Por quem nós fomos combater.


19.


Queda

(A João P. Vasco)


     O meu coração desce,
Um balão apagado.

          Melhor fôra que ardesse
     Nas trevas incendiado.


     Na bruma fastidienta...
Como á cova um caixão.

          Porque ante não rebenta
     Rubro, n'uma explosão?


     Que apego inda o sustem?
Atono, miserando.

          Que o esmagasse o trem
     De um comboio arquejando.


     O inane, vil despojo.
Ó alma egoista e fraca...

          Trouxesse-o o mar de rojo
     Levasse-o na resaca.



20.


I


     E eis quanto resta do idyllio acabado,
- Primavera que durou um momento...
Como vão longe as manhãs do convento!
- Do alegre conventinho abandonado...

     Tudo acabou... Anemona, hydrangeas,
Silindras, - flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as ortigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lagaes.

     Sobre a inscripção do teu nome delido!
- Que os meus olhos mal podem solletrar,
Cançados... E o aroma fenecido

     Que se evola do teu nome vulgar!
Ennobreceu-o a queitação do olivido.
Ó doce, ingenua, inscripção tumular.


21.


II


     Floriam por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhal-as...
Em que scismas, meu bem? Porque me callas
As vozes com que ha pouco me enganavas?

     Castellos doidos! Tão cedo cahistes!
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

     E sobre nós cahe nupcial a neve,
Surda, em triumpho, petalas, de leve
Juncando o chão, na acropole de gelos...

     Em redor do teu vulto é como um veo!
?Quem as esparze - quanta flor! - , do ceo,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabellos?


22.


     Foi um dia de inuteis agonias,
- Dia de sol, inundado de sol.
Fulgiam, nuas, as espadas frias.
- Dia de sol, inunado de sol.

     Foi um dia de falsas alegriass.
- Dahlia a esfolhar-se, o seu molle sorriso.
Voltavam os ranchos das romarias.
- Dahlia a esfolhar-se, o seu molle sorriso.

     Dia impressivel, mais que os outros dias.
Tão lucido, tão pallido, tão lucido!
Diffuso de theoremas, de theorias...

     O dia futil, mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias...
Tão lucido, tão pallido, tão lucido!


23.


     Quem polluiu, quem rasgou os meus lenções de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lenções?
Do meu jardim exiguo os altos girasoes
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

     Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vida o vinho acidulado e fresco...

     Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruina a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

     Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais á neve,
De noite a mendigar ás portas dos casaes.


24.


I

(A João Jardim)


     Imagens que passaes pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixaes?
Que passaes como a agua cristallina
Por uma fonte para nunca mais!....

     Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncaes,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levaes?

     Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inutil, meus olhos pagãos!
Aridez de successivos desertos...

     Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra e movimentos vãos.


25.


II

(A Ayres de Castro e Almeida)


     Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a humida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
- Tão redivivia!, nos meus olhos baços...

     Olhos turvos de lagrymas contidas.
- Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes
Ao ponto das primeiras despedidas?

     Onde fostes sem tino, ao vento vario,
Em redor, como as aves n'um aviario,
Até que a azita fofa lhes falleça...

     Toda esta extensa pista - para quê?
Se ha-de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa...


26.


Phonographo


     Vae declamando um comico defunto.
Uma platea ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E ha um odor no ambiente
A crypta e a pó, - do anachronico assumpto.

     Muda o registo, eis uma barcarola:
Lirios, lirios, aguas do rio, a lua.
Ante o Seu corpo o sonho meu fluctua
Sobre um paúl, - extatica corolla.

     Muda outra vez: gorgeios, estribilhos
D'um clarim de oiro - o cheiro de junquilhos,
Vivido e agro! - tocandoa avorada...

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebra-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que efluvio de violetas!


27.


Vida


     Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo das liliaceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliacaes!

     Calquem. Recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não a afogam.

     Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada... Que lumaréu!
Podem calcal-o, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.

     Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pizam, rebenta alem.
- E se arde tudo? - Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, é para arder...


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