Clepsydra, continued

Camilo Pessanha






28. San Gabriel
29. II
30. Viola Chinesa
31. Ao Longe os Barcos de Flores
32. Venus
33. II
34. Enfim, levantou ferro.
35. Cristalisações salinas,
36. Só o meu craneo fique
37. Nesgas agudas do areal
38. Voz debil que passas,
39. Violoncélo
40. I
41. II
42. A bohemia não morreu.
43. Rosas de Inverno
44. Em um Retrato
45. Desce emfim sobre o meu coração
46. Porque o melhor, emfim,
47. Rufando apressado,
48. Se andava no jardim,
49. Tatuagens opulentas do meu peito!
50. Depois da lucta e depois da conquista
51. Branco e Vermelho
52. Ó cores virtuais que jazeis subterraneas,
Part II: Two parodies and two fragments
53. A Miragem
54. Transfiguração
55. Ó Terra doce e boa
56. Um fio a desdobrar, que não termina,
Contents



28.


San Gabriel

(No quarto centenario do
descobrimento da India)


I


     Inutil! Calmaria. Já colheram
As vellas. As bandeiras socegaramm
Que tão altas nos topes tremularam,
- Gaivotas que a voar desfalleceram.

     Pararam de remar! Emmudeceram!
(Velhos rithmos que as ondas embalaram).
Que cilada que os ventos ns armaram!
A que foi que tão longe nos trouxeram?

     San Gabriel, archanjo tutelar,
Vem outra vez abençoar o mar.
Vem-nos guiar sobre a planicie azul.

     Vem-nos levar á conquista final
Da luz, do Bem, doce clarão irreal.
Olhae! Parece o Cruzeiro do Sul!


29.


II


     Vem conduzir as naus, as caravellas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um montão de estrellas.

     Outra vez vamos! Concavas as velhas,
Cuja brancura, rutila de dia,
O luar dulcifica. Feeria
Do luar, não mais deixes de envolvel-as!

     San Gabriel, vem-nos guiar á nebulosa
Que do horissonte vapora, luminosa
E a noite lactescendo, onde, quietas,

     Fulgem as velhas almas namoradas...
- Almas tristes, severas, resignada,
De guerreiros, de santos, de poetas.


30.


Viola Chinesa

(A Wenceslau de Moraes)


     Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

     Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

     Mas que cicatriz melindrosa
Há nêle que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...


31.


Ao Longe os Barcos de Flores

(A Ovídio de Alpoim)


     Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

     Na orgia, ao longe, que emm clarões scintilla
E os labios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquila.

     E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detem. Só modulada trila
A flauta flebil... Quem ha-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


32.


Venus

(A Pires Avellanoso)


I

     Á flor da vaga, o seu cabello verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

     Putrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, nĠum balanço alaga,
E reflue (um olfacto que se embriaga)
Como em um sorvo, múrmura de gozo.

     O seu esboço, na marinha turva...
De pé, fluctua, levemente curta,
Ficam-lhe os pés atraz, como voando...

     E as ondas luctam como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, coĠa salsugem.


33.


II


     Singra o navio. Sob a agua clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
Impeccavel figura peregrina,
A distancia sem fim que no separa!

     Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr de rosa,
Na fria transparencia luminosa
Repousam, fundo, sob a agua plana.

     E a vista sonda, reconstrue, compara.
Tantos naufragios, perdições, destroços!
Ó fulgida visão, linda mentira!

     Roseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivem desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...


34.


     Enfim, levantou ferro.
Com os lenços adeus, vai partir o navio.
Longe das pedras más do meu destêrro,
Ondas do azul oceano, submergi-o

     Que eu, desde a partida,
Não sei onde vou.
Roteiro da vida,
Quem é que o traçou?

     Nalguma rocha ignota
Se vai despedaçar, com violento fragor...
Mareante, deixa as cartas da derrota.
Maquinista, dá mais fôrça no vapor.

     Nem sei de onde venho,
Que azar me fadou?
Das mágoas que tenho,
Os ais porque os dou...

     Ou siga, maldito,
CoĠa bandeira amarela...
...................................
Pomares, chalets, mercados, cidades...

     A olhar da amurada,
Que triste que estou!
Miragens do nada,
Dizei-me quem sou...


35.


     Cristalisações salinas.
Myrrhae na areia o plasma vivaz,
Não se desenvolvam as ptomainas.
Que adocicado! Que obcessão de cheiro!
Putrescina! - Flor de lilaz!
Cadacerina! - Branca flor do espinheiro!


36.


     Só o meu craneo fique
Rolando insepulto no areal
Ao abandono e ao acaso do simoüaut;n...
Que o sol e o sal o purifique


37.


     Nesgas agudas do areal
E gaivotas que voaes em redor do navio,
Tomae o meu cerebro mole,
- Esmeralda viva do Canal
E desertos inundados de sol! -
Meu pobre cerebro inconsequente e doentio!

     No qual uma rede se desenha,
Complicada de soffrimentos irregulares
- Aguas que filtraes na areia! -
Antes que o crepusculo venha,
O crepusculo e as larvas tumulares,
A impureza inutil dissolvei-a

     Que o sol sem mancha, o cristal sereno,
Volatilise ao seu doce calor
A fria e exangue liquescencia.
Um halito! Não embaciará de veneno
Idecisa, incolor
Do azul o brilho e a viva transparencia
Recortes vivos das areias,
Tomae meu corpo e abride-lhe s veias.
O meu sangue tomae-o
Diffundi-o sob o rutilo sol,
Na areia branca como em um lençol,
- Ao sol triumphant, sob o qual desmaio.


38.


     Voz debil que passas,
Que humilima gemes
Não sei que desgraças...

     Dir-se-hia que pedes.
Dir-se-hia que tremes,
Unida ás paredes,

     Se vens, ás escuras,
Confiar-me ao ouvido
Não sei que amarguras...

     Suspiras ou fallas?
Porque é o gemido,
O sopro que exhalas?

     Dir-se-hia que rezas.
Murmuras baixinho
Não sei que tristezas...

     - Ser teu companheiro? -
Não sei o caminho.
Eu sou estrangeiro.

     - Passados amores? -
Animas-te, dizes
Não sei que terrores...

Franquinha, deliras.
- Projecto felizes? -
Suspiras. Expiras.


39.


Violoncélo

(A Carlos Amaro)


     Chorae, arcadas
Do violoncélo,
Convulsionada.
Pontes aladas
De pesadêlo...

     De que esvoaçam,
Brancos, os arcos.
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

     Fundas, soluçam
Caudes de chôro.
Que ruínas, ouçam...
Se se debruçam,
Que sorvedouro!

     Lividos astros,
Soidões lacustres...
Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaustres!

     Urnas quebradas.
Blocos de gelo!
Chorae, arcadas
Do violoncélo,
Despedaçadas...


40.


I

(A José Pessanha)


     Desce em folheados ternos a collina:
- Em glaucos, frouxos tons adormecidos,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos,
Nos quaes a chamma do furor declina...

     Oh vem, de branco, - do immo da folhagem!
Os ramos, leve, a tua mão aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,
Reflectir-te virgem a serena imagem.

     De silva doida uma haste esquiva
Quão delicada te osculou nĠum dedo
Com um aljofar côr de rosa viva!...

     Ligeira a saia... Doce brisa, impele-a.
Oh vem! De branco! Do immo do arvoredo!
Alma de sylpho, carne de camelia...


41.


II


     Esvelta surge! Vem das aguas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexiveis e o seio fremente...
Morre-me a bocca por beijar a tua.

     Sem vil pudor! Do que ha que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! - para o expor á Morte...
Mas que ora - a infame! - não se te anteponha.

     A hydra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a
De encontro á rocha onde a cabeça te ha-de,
Com os cabellos escorrendo agua,

     Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virginidade
E o meu pulso de jovem gladiador.


42.


A João Vasco
(Na ceia da noite de despedida
para uma longa seperação)


     A bohemia não morreu.
Eis-noss com cabellos brancos;
E, todavia, os barrancos
Do seu destino, e do meu,

     Se nos quebraram as pernas,
As azas não as partiram.
Em que altos sonhos deliram
As nossas almas eternas.

     Depois de tantos baldões,
Devera ter-se ido a fé:
Temos tido pontapé
Das mais caras illusões...

     E não morre a mocidade!
Após enganos, enganos...
Pois só dĠaqui a cem annos
Choraremos de saudade?


43.


Rosas de Inverno


     Corollas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

     Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonisar do anno,
Tão fóra da estação!

     Sorrindo-vos amigas,
Nos asperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Ás almas das mendigas!

     DĠesse Natal de inválidos
Transmitto-vos a benção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pallidos.


44.


Em um Retrato


     De sob o cómoro quadrangular
Da terra fresca que me ha-de inhumar,

     E depois de já muito ter chovido,
Quando a herva alastrar com o olvido,

     Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Ha-de ir humilde, atravessando o mar,

     Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.


45.


     Desce emfim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como um véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

     A fronte já sem rugas, distendida
As feições, na immortal serenidade,
Dorme emfim sem desejo e sem suadade
Das coisas não logrados ou perdidas.

     O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor,
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sôbre a haste...

     Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...


46.


     Porque o melhor, emfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sôbre mim
E nada me doer!

     - Sorrindo interiormente,
CoĠas pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas. -

     Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

     Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

     Melhor até se o acao
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

     Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bando de cavalos.

     Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

     Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

     Ou sob o piso até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

     Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

     Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranqüaut;ilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas...

     E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.


47.


     Rufando appressado,
E bamboleado,
Bonet posto ao lado,

     Garboso, o tambor
Avança em redor
Do campo de amor...

     Com força, soldado!
A passo dobrado!
Bem bamboleado!

     AmorĠs te bafejam.
Que as moças te beijem.
Que os moços te invejem.

     Mas ai, ó soldado!
Ó triste alienado!
Por mais exaltado

     Que o toque reclame,
Ninguem que te chame...
Ninguem que te ame...


48.


     Se andava no jardim,
Que cheiro de jasmim!
Tão branca do luar!

     . . . . .
. . . . .
. . . . .

     Eis tenho-a junto a mim.
Vencida, é minha, emfim,
Após tanto a sonhar...

     Porque entristeço assim?...
Não era ella, mas sim
(O que eu quiz abraçar),

     A hora do jardim...
O aroma de jasmim...
A onda do luar...


49.


     Tatugens opulentas do meu peito!
Tropheos, emblemas, dois leões alados...
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo amor-perfeito.

     E o meu brazão. Tem de oiro, nĠum quartel
Vermelho, um liz; e no outro uma donzella,
Em campo azul, de prata o corpo, - aquella
Que é no meu braço como um broquel.

     Timbre: rompente, a megalomania.
Divisa: um ai, que insiste noite e dia
Lembrando ruinas, sepulturas rasas,

     Entre castellos, serpes batalhantes
E aguias de negro desfraldando as azas,
Sobre que realça o oiro dos besantes.


50.


     Depois da lucta e depois da conquistaa
Fiquei só! Fôra um acto anthipatico!
Deserta a Ilha, e no lençol aquatico
Tudo verde, verde, - a perder de vista.

     Porque vos fostes, minhas caravellas,
Carregadas de todo o meu thesoiro?
- Longas teias de luar de lhama de oiro,
Legendas a diamantes das estrelas!

     Quem vos desfez, formas inconsistantes,
Por cujo amor escalei a muralha,
- Leão armado, uma espada nos dentes?

     Felizes vós, ó mortos da batalha!
Sonhais, de costas, nos olhos abertos
Reflectindo as estrelas, boquiabertos...


51.


Branco e Vermelho


     A dor, forte e imprevista
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaímento.

     Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandescente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!

     Na inundação da luz
Banhando os ceus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

     Na areia imensa e plana
Ao longo a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inutil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.

     Até o chão, curvados,
Exautos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquininhos, vis.

     A cada golpe tremem
Os que de mêdo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.

     Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...

     E ali fiquem serenos,
De costas e sereno.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó ceus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!

     A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaímento.

     Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...


52.


     Ó cores virtuaes que jazeis subterraneas,
- Fulguração azues, vermelhos de hemoptyse,
Represados clarõesm chromaticas vesanias -,
No limbo onde esperaes a luz que vos baptise.

     As palpebras cerrae, anciosas não veleis.

     Abortos que pendeis as frontes côr de cidra,
Tão graves de scismar, nos boccaes dos museus,
E escutando o correr da agua na clepsydra,
Vagamente sorris, resignados e atheus,

     Cessaede cogitar, o abysmo não sondeis.

     Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite erraes, doces almas penando,
E as azas laceraes na aresta dos telhados,
E no vento expiraes em um queixume brando,

     Adormecei. Não suspireis. Não respireis.


Part II: Two parodies and two fragments


53.


I (ou II)


A Miragem



     Parei a cogitar. No meu cabello
Torvelinhava um vento de oração...
- Qual a acha que ardeu, feita carvão,
- A agua que esfriou, tornada gelo.

     Ajoelhei. O meu peito era um vulcão.
No ceo lagrimejava o Sete-estrello...
E o seu fino perfil pude inda vel-o,
NĠum halo de pudor e devoção.

     Mas no meu coração, ardente lava,
Uma nuvem erratica poisava,
E que ao longe obubrou saudosas fraguas;

     Hostia santa de luz, desfeita em chuva,
Qual beguina do Amor, de Deus viuva,
NĠum rosario a rezar, vertendo aguas.


54.


II (ou I)


Transfiguração



     Estrella do Pastor, - sol que me escuda!
Mais te afastas de mim, mais eu te vejo.
No instante em que me deste aquelle beijo,
A charneca ajoelhou, divina e muda.

     Febricito arco-iris de desejo
(Senhora do Amparo nos acuda)...
Urros dos vagalhões, hoje caluda.
O Requiem  psalmodiae, vozes do brejo.

     Mulher forte, remiu-me a tua prece:
Penitente, pagão, bem lusitano,
Ergo os braços ao ceo quando anoitece.

     Judas divaga, em spira de peccado...
Eis-me o Verbo de Deus, sacramentado
No rebuço dĠum capote alentejano.


55.


     Ó Terra doce e boa,
Ó minha amante gorda!
Desculpa-me perdoa
Se te esqueci, embora...

     Ó doce Esposa de Indra
Sobre os dois pés sentada!


56.


     Um fio a desadobar, que não termina,
De grinaldas de rosas de toucar.


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