O corpo da letra

Por Polá Scalzo

 

Antes de ler o texto escreva um apelido na caixa.

 

Os artistas gráficos trabalham com as diferentes emoções que suscitam letras com tipos (fontes), tamanhos, cores, ângulos, transparências, movimentos (no caso da web-art), posicionamento na folha e etc diferentes .

Já os consumidores ou leitores têm impressões diferentes com enunciados de mesmo conteúdo e diferentes formas. Porém, estes últimos não se preocupam habitualmente com o porquê desse ENCANADOR ser mais ou menos competente do que esse encanador ou melhor : porque ele parece mais ou menos competente ou honesto ou responsável ou caro.

A letra tem então um poder de não apenas juntar-se a outras formando palavras de forma descompromissada e sem conseqüências que possam ir além do conteúdo do enunciado, mas tem o que estou chamando de "corpo". A diferença em relação ao nosso corpo é que este é significado por cada sujeito, que transforma a sua carne em corpo através da sua relação com o Outro (A). Assim, a matéria biológica carne passa a ter uma representação simbólica e imaginária tornando-se corpo. Já no caso da letra, a sua "carne" ou substrato ou forma -como queiram chamar- é significada pelo sujeito que lê. Ou pelos sujeitos que lêem. Mas curiosamente, não de maneiras tão imensamentes diferentes. Ou seja: existe um certo acordo na corporização da carne da letra, geralmente para sujeitos de um mesmo grupo social. Este acordo é estudado pelos artistas gráficos que tentam transmitir uma mensagem através desse "algo mais" que a letra tem, mensagem esta que chegue suscitando mais ou menos a mesma coisa no maior número de pessoas possível.

Mas esse jogo de tamanhos, fontes, cores etc é por demais complicado para se racionalizar - ao menos para mim. Mas, já notei que um cartão com tipos muito grandes e coloridos remete geralmente aos encanadores, borracheiros e companhia e os de tipos pequenos em preto ou no máximo azul marinho aos advogados, executivos e afins e, assim, resolvi diminuir o tamanho das fontes do meu cartão. No entanto, o trabalho, finalmente, apesar do que possam dizer os manuais de arte gráfica, é sempre verificado quando quase pronto para se "sentir" se está transmitindo essa mensagem inconsciente (do ponto de vista do consumidor, é claro!) que o artista é suposto fazer passar no produto final composto muitas vezes "apenas" por letras.

A grafologia também se ocupa das letras, mas me parece ainda mais difícil analisar algo tão infinitamente diverso quanto as produções de diferentes sujeitos, em diferentes momentos e estados de espírito, com diferentes lápis ou canetas e assim por diante e cujo resultado é quase, e por que não dizer, único.

O que me chamou a atenção para começar esta reflexão foi verificar como numa sala de bate-papo na Internet, onde "todos" se comunicam com as mesmas fontes, tamanhos, disposição espacial e cores (ops! alguns já aprenderam a mudá-las!), ou seja: com essa pouca variabilidade do que chamei acima da carne da letra somos no entanto convidados a sentir as diferenças significando-as e se assim posso dizer, projetando algo de corpóreo nelas.

Nasce assim a idéia de tomar uma conversa em uma sala de bate-papo da net para fazer algumas considerações sobre o corpo da letra.

O texto que usarei para ilustrar meus exemplos da presença do corpo na letra foi composto a partir da minha experiência no "help-chat" da Geocities - sala de bate-papo reservada aos membros dessa web-comunidade que hospedam sites no URL da geocities e que desejam esclarecer dúvidas que concernem a construção das suas "home-pages".

Certo dia "entrei" na sala e "vi" que Luke estava lá. Costumo conversar com um amigo que tem esse nome. Entretanto, logo vi que não se tratava de meu amigo luke, pois o mesmo não é Luke, mas luke. É como se o tivesse reconhecido fisicamente. Como se o meu fosse o baixinho e o outro o alto ou o meu o de tênis e o outro de gravata. Fui conferir, mas algo me dizia que não era ele. E não era mesmo.

Comecei a notar que alguns escreviam seus nomes com a primeira letra maiúscula, outros com todas, outros com minúsculas, etc. Pensei que talvez não tivesse sido tão coincidência que "luke" gostasse de falar com "pola" e não "Polá" ou "POLA".

Quem provavelmente usaria jeans: Missgussi ou "pola" ? A resposta não corresponde necessariamente a realidade "vestimentária" de quem escreve, mas é interessante notar como a maioria das pessoas responderiam que pola veste jeans e não Mijhdfljsl.
Mas o leitor exigente pode responder : Mas é o Miss (conteúdo e não forma) que remete ao "tailleur" e não ao jeans. OK. E nesse caso: Xxxxxxx e xxx ? E no caso do Luke/luke ? E entre riutyoui e iughoiguh?
Além de se imaginar uma roupa pra quem escreve é comum escutarmos também o
volume de suas vozes. Como assim, volume? Onde escutar volume em algo que é só letra, que nem tem freqüência sonora para que a mesma seja mais alta ou baixa?


EU DISSE QUE HÁ VOLUME DE VOZ SIM!

E DEIXE-ME CONTINUAR EXPLICANDO ANTES DE ME FAZER TANTAS QUESTÕES!

Bem, desculpem ter tido que "gritar" com vocês, mas esse leitor imaginário é realmente um chato!


Não são raros os pedidos para se "abaixar" as letras (usar caixa-baixa)("low yr caps"!) nos chats. Os mais distraídos ou menos perceptivos são avisados por um participante da conversa que escrever com maiúsculas é sentido como gritos pela maioria. Só não estou certa dessa falta de percepção da parte de quem grita, já que a intenção era justamente a de chamar a atenção. Poderemos discutir a web-etiqueta mais tarde.

Outra maneira de se trazer a representação corporal às salas virtuais são os "icomotions". São os "desenhos" feitos com letras inventados pelos internautas que sentiram o desejo de comunicar emoções sem todavia ter que descrevê-las. Alguns que pude observar:

:o) (sorriso)

;o}(sorriso piscando)

:0] (narigudo sorrindo)

:o( (triste)

E, no meu ponto de vista, o mais original:

:o~~~

Esse "dois pontos" seguidos por um "o" e três "~" parecem representar alguém que nos mostra a língua! Seria o witz dos "icomotions" ?

Ainda sobre a questão das maiúsculas e minúsculas - como disse acima, não há, a nosso favor, tamanha variedade a se estudar - notei que o desrespeitoàs regras gramaticais que impõe o uso de maiúsculas nos começos de frases dá às mesmas um "tom" mais informal, influenciando na construção da representação corporal dos que nos falam e para os que falam a opção consciente ou não de empregar esse tom mais ou menos formal.

O uso de frases longas ou curtas também colabora enquanto "comunicação-não-verbal". Em uma conversa onde há empatia e acordo entre os participantes há uma regulação do volume, timbre e tempo (tamanho das frases) de cada um. Quando a conversa "vai bem", geralmente as falas tem a mesma duração. Isso pode ser reproduzido na conversa das salas ditas virtuais através do tamanho dos frases.

Acontece de pessoas pedirem frases mais longas a outras. É como se estas que pedem estivessem "vendo" a " "cara" de desânimo ou pouco-caso da outra pessoa. Já quando os parceiros trocam frases igualmente curtas, essa pouca quantidade de letras é geralmente interpretada como positiva, dinamizando a conversa. Essas inferências podem não corresponder ao sentimento de quem escreveu a frase mais curta, mas o que nos interessa neste estudo é essa adivinhação da "cara" do outro. É como a letra, ou um conjunto delas, independentemente do significado, serve de anteparo às fantasias.

A última coisa que me chamou a atenção foi um enunciado-pensamento.

Um enunciado entre asteriscos (*) do tipo

- Va ao site httplreberfdmfdn. *será q ele vai encontrar?*

Foi surpreendente e ao mesmo tempo natural escutar, ou melhor, ler um pensamento. Surpreendente porque soava natural. E pensei: como é que pode soar natural se nas conversas isso não acontece? A resposta veio imediatamente: acontece sim. Quando queremos - e às vezes, mesmo quando não queremos, mostramos nossos pensamentos nos gestos, no rosto, no corpo. O enunciado-pensamento *será q ele vai encontrar?* é uma síntese de "estou no momento fazendo uma cara tal que os participantes desta sala de bate-papo perceberão que eu imagino que o sujeito a quem respondi não achará ou terá dificuldade em fazê-lo" ou outra coisa qualquer. Comecei a notar os enunciados-pensamentos nas salas. Ainda são raros mais aposto no aumento.

Aposto no aumento porque o outro a quem falamos na sala tem que ter um corpo, que é imaginado pelo sujeito. Os indícios desse corpo estão espalhados como pistas que vão sendo recolhidas e decifradas ou codificadas pelo sujeito. E o primeiro contato que temos ao entrar em uma sala de bate-papo é com a letra do outro. É seu nome e/ou suas letras.

Nome e letras imediatamente transformados em diferentes corpos. Lidos como mais ou menos velhos, sexys, inteligentes, descontraídos, engravatados, simpáticos, arrogantes, polidos, etc.

E você ? Com qual nome e letra entrará num próximo bate-papo?

 


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