Os artistas gráficos trabalham com as diferentes emoções
que suscitam letras com tipos (fontes), tamanhos, cores, ângulos,
transparências, movimentos (no caso da web-art), posicionamento
na folha e etc diferentes .
Já os consumidores ou leitores
têm impressões
diferentes com enunciados de mesmo conteúdo e diferentes
formas. Porém, estes últimos não
se preocupam habitualmente com o porquê desse ENCANADOR ser mais ou menos competente do que
esse encanador ou
melhor : porque ele parece mais ou menos competente ou
honesto ou responsável ou caro.
A letra tem então um poder
de não apenas juntar-se a outras formando palavras de
forma descompromissada e sem conseqüências que possam
ir além do conteúdo do enunciado, mas tem o que
estou chamando de "corpo". A diferença em relação
ao nosso corpo é que este é significado por cada
sujeito, que transforma a sua carne em corpo através da
sua relação com o Outro (A). Assim, a matéria
biológica carne passa a ter uma representação
simbólica e imaginária tornando-se corpo. Já
no caso da letra, a sua "carne" ou substrato ou forma
-como queiram chamar- é significada pelo sujeito que
lê. Ou pelos sujeitos
que lêem. Mas curiosamente, não de maneiras tão
imensamentes diferentes. Ou seja: existe um certo acordo na corporização
da carne da letra, geralmente para sujeitos de um mesmo grupo
social. Este acordo é estudado pelos artistas gráficos
que tentam transmitir uma mensagem através desse "algo
mais" que a letra tem, mensagem esta que chegue suscitando
mais ou menos a mesma coisa no maior número de pessoas
possível.
Mas esse jogo de tamanhos, fontes, cores
etc é por demais complicado para se
racionalizar - ao menos para mim. Mas, já notei que um
cartão com tipos
muito grandes e coloridos remete
geralmente aos encanadores, borracheiros e companhia e os de
tipos pequenos
em preto ou no máximo
azul marinho aos advogados, executivos e afins e, assim, resolvi
diminuir o tamanho das fontes do meu cartão. No entanto,
o trabalho, finalmente, apesar do que possam dizer os manuais
de arte gráfica, é sempre verificado quando quase
pronto para se "sentir" se está transmitindo
essa mensagem inconsciente (do ponto de vista do consumidor,
é claro!) que o artista é suposto fazer passar
no produto final composto muitas vezes "apenas" por
letras.
A grafologia também
se ocupa das letras, mas me parece ainda mais difícil
analisar algo tão infinitamente diverso quanto as produções
de diferentes sujeitos, em diferentes momentos e estados de espírito,
com diferentes lápis ou canetas e assim por diante e cujo
resultado é quase, e por que não dizer, único.
O que me chamou a atenção
para começar esta reflexão foi verificar como numa
sala de bate-papo
na Internet, onde "todos"
se comunicam com as
mesmas fontes, tamanhos,
disposição espacial e cores (ops! alguns já
aprenderam a mudá-las!), ou seja: com essa pouca variabilidade
do que chamei acima da carne da letra
somos no entanto convidados
a sentir as diferenças significando-as e se assim posso
dizer, projetando algo de corpóreo nelas.
Nasce assim a idéia de
tomar uma conversa em uma sala de bate-papo da net para fazer
algumas considerações sobre o corpo da letra.
O texto que usarei para ilustrar
meus exemplos da presença do corpo na letra foi composto
a partir da minha experiência no "help-chat" da Geocities
- sala de bate-papo reservada
aos membros dessa web-comunidade que hospedam sites no URL da
geocities e que desejam esclarecer dúvidas que concernem
a construção das suas "home-pages".
Certo dia "entrei"
na sala e "vi" que Luke estava lá. Costumo conversar
com um amigo que tem esse nome. Entretanto, logo vi que não
se tratava de meu amigo luke, pois o mesmo não é Luke, mas
luke. É como se
o tivesse reconhecido fisicamente. Como se o meu fosse o baixinho
e o outro o alto ou o meu o de tênis e o outro de gravata.
Fui conferir, mas algo me dizia que não era ele. E não
era mesmo.
Comecei a notar que alguns escreviam
seus nomes com a primeira letra maiúscula, outros com
todas, outros com minúsculas, etc. Pensei que talvez não
tivesse sido tão coincidência que "luke"
gostasse de falar com "pola" e não "Polá"
ou "POLA".
Quem provavelmente usaria jeans:
Missgussi ou "pola" ? A resposta não corresponde
necessariamente a realidade "vestimentária"
de quem escreve, mas é interessante notar como a maioria
das pessoas responderiam que pola veste jeans e não Mijhdfljsl.
Mas o leitor exigente pode responder : Mas é o Miss (conteúdo
e não forma) que remete ao "tailleur" e não
ao jeans. OK. E nesse caso: Xxxxxxx e xxx ? E no caso do Luke/luke
? E entre riutyoui e iughoiguh?
Além de se imaginar uma roupa pra quem escreve é
comum escutarmos também o volume de suas vozes. Como
assim, volume? Onde escutar volume em algo que é só
letra, que nem tem freqüência sonora para que a mesma
seja mais alta ou baixa?
EU DISSE QUE HÁ VOLUME DE VOZ SIM!
E DEIXE-ME CONTINUAR EXPLICANDO
ANTES DE ME FAZER TANTAS QUESTÕES!
Bem, desculpem ter tido que "gritar"
com vocês, mas esse leitor imaginário é realmente
um chato!
Não são raros os pedidos para se "abaixar"
as letras (usar caixa-baixa)("low yr caps"!) nos chats.
Os mais distraídos ou menos perceptivos são avisados
por um participante da conversa que escrever com maiúsculas
é sentido como gritos pela maioria. Só não
estou certa dessa falta de percepção da parte de
quem grita, já que a intenção era justamente
a de chamar a atenção. Poderemos discutir a web-etiqueta
mais tarde.
Outra maneira de se trazer a
representação corporal às salas virtuais
são os "icomotions".
São os "desenhos" feitos com letras inventados
pelos internautas que sentiram o desejo de comunicar emoções
sem todavia ter que descrevê-las. Alguns que pude observar:
:o) (sorriso)
;o}(sorriso piscando)
:0] (narigudo sorrindo)
:o( (triste)
E, no meu ponto de vista, o mais
original:
:o~~~
Esse "dois pontos"
seguidos por um "o" e três "~"
parecem representar alguém que nos mostra a língua!
Seria o witz dos "icomotions" ?
Ainda sobre a questão
das maiúsculas e minúsculas - como disse acima,
não há, a nosso favor, tamanha variedade a se estudar
- notei que o desrespeitoàs
regras gramaticais que
impõe o uso de maiúsculas nos começos de
frases dá às mesmas um "tom" mais informal,
influenciando na construção da representação
corporal dos que nos falam e para os que falam a opção
consciente ou não de empregar esse tom mais ou menos formal.
O uso de frases longas ou curtas
também colabora enquanto "comunicação-não-verbal".
Em uma conversa onde há empatia e acordo entre os participantes
há uma regulação do volume, timbre e tempo
(tamanho das frases) de cada um. Quando a conversa "vai
bem", geralmente as falas tem a mesma duração.
Isso pode ser reproduzido na conversa das salas ditas virtuais
através do tamanho
dos frases.
Acontece de pessoas pedirem frases
mais longas a outras. É como se estas que pedem estivessem
"vendo" a " "cara" de desânimo
ou pouco-caso da outra pessoa. Já quando os parceiros
trocam frases igualmente curtas, essa pouca quantidade de letras
é geralmente interpretada como positiva, dinamizando a
conversa. Essas inferências podem não corresponder
ao sentimento de quem escreveu a frase mais curta, mas o que
nos interessa neste estudo é essa adivinhação
da "cara" do outro. É como a letra, ou um conjunto delas,
independentemente do significado, serve de anteparo às
fantasias.
A última coisa que me
chamou a atenção foi um enunciado-pensamento.
Um enunciado entre asteriscos
(*) do tipo
- Va ao site httplreberfdmfdn.
*será q ele vai encontrar?*
Foi surpreendente e ao mesmo
tempo natural escutar, ou melhor, ler um pensamento. Surpreendente
porque soava natural. E pensei: como é que pode soar natural
se nas conversas isso não acontece? A resposta veio imediatamente:
acontece sim. Quando queremos - e às vezes, mesmo quando
não queremos, mostramos nossos pensamentos nos gestos,
no rosto, no corpo. O enunciado-pensamento *será q ele
vai encontrar?* é uma síntese de "estou no momento fazendo
uma cara tal que os participantes desta sala de bate-papo perceberão
que eu imagino que o
sujeito a quem respondi não achará ou terá
dificuldade em fazê-lo" ou outra coisa qualquer. Comecei
a notar os enunciados-pensamentos nas salas. Ainda são
raros mais aposto no aumento.
Aposto no aumento porque o outro
a quem falamos na sala tem que ter um corpo, que é imaginado
pelo sujeito. Os indícios desse corpo estão espalhados
como pistas que vão sendo recolhidas e decifradas ou codificadas
pelo sujeito. E
o primeiro contato que temos ao entrar em uma sala de bate-papo
é com a letra do outro.
É
seu nome e/ou suas letras.
Nome e letras
imediatamente transformados em diferentes corpos. Lidos como
mais ou menos velhos, sexys, inteligentes, descontraídos,
engravatados, simpáticos, arrogantes, polidos, etc.
E você
? Com qual nome e letra entrará num próximo bate-papo?