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Por Gregory Castro

     Um dia desses eu peguei emprestado o carro do meu pai e escolhi dois cds para ouvir. Só depois fui perceber o quanto eles não se "combinavam", o quanto eles eram diferentes. Afinal o que poderiam ter em comum Psychocandy, do Jesus & Mary Chain, e Exit Planet Dust, dos Chemical Brothers?

     O primeiro foi um marco. Um verdadeiro estranho no ninho em 1985, quando foi lançado. A microfonia mais intensa não conseguia esconder as melodias mais cândidas dos irmãos Reid. Um verdadeiro doce psicótico, ácido & suave ao mesmo tempo. Surgido em meio à consolidação das bandas pós-punk, como The Cure, Echo & the Bunnymen, New Order, entre outros. O pop limpo era regra. William & Jim Reid + seus asseclas eram a própria rebeldia incontida. Não eram originais. O seu esporro guitarrístico tinha óbvias influências de Velvet Underground e Stooges. Mas eles abalaram a ilha britânica (num primeiro momento) e o mundo em seguida.

     Não há como ficar impassível diante uma audição de Psychocandy. Ou você odeia, se irrita com a microfonia, acha tudo muito óbvio ou pouco original ou simplesmente o contrário. Confesso que comigo não foi paixão à primeira vista. Quando ouvi Jesus pela primeira vez achei que a fita estivesse mal-gravada. Uma sensação desconfortável de que alguma coisa estava fora do lugar insistia em martelar dentro de mim. Aos poucos fui percebendo as melodias por baixo daquela muralha de guitarras. E nunca elas tinham sido tão doces & ingênuas. Existia paixão ali!!!

     Pelo jeito não fui o único a "descobrir" este segredo. Jesus virou a banda. Mas ao mesmo tempo que metade das pessoas apostavam todas as fichas nestes escoceses, a outra metade tecia as mais ferozes críticas. Entre elas a de que o Jesus não existiria não fosse a microfonia. Bem, o segundo álbum da banda, Darklands, abandonou de vez os ruídos. Sem medo. E quem pode dizer que o disco é ruim?

     Mas o grande mérito de Psychocandy foi quebrar os padrões do pop britânico. Independente de serem ou não os primeiros a fazerem isto, com eles deu certo. Depois deles ficou muito mais fácil gravar discos com toneladas de guitarras apitando. Se muita porcaria pode surgir, muitas bandas boas também tiveram um espaço para mostrarem seus trabalhos, que antes simplesmente não existia.

     Exit Planet Dust vai contra esta "revolução". Poderíamos mesmo chamar de contra-revolução. É a exaltação da máquina. O grito contra a ditadura de guitarra, contra a figura dos músicos, da banda, contra tudo. O própria casal na capa do disco parece caminhar sem rumo. É a própria imagem dos anos 90. Não existe inocência, não existe ilusão, não adianta mensagens. O que resta: aproveitar o agora como se fosse o fim do mundo ("sampleando" a idéia do pequeno Prince).

     Nove anos separam os dois álbuns. Tanta coisa parece ter acontecido. Hoje em dia Jesus & Mary Chain não representa mais inovação. Continua uma boa banda (pelo menos na minha humilde opinião), mas definitivamente não tem o mesmo frescor que tinham no início. Hoje a inovação vem dos beats acelerados, dos samplers, do caldeirão fervente chamado genericamente de techno, ou mais recentemente electronica. O grito punk dos anos 90 não foi dado com o retorno dos Sex Pistols, nem com Green Day ou Offspring, e sim com Prodigy (querendo ou não, isto é fato!).

     Exit Planet Dust se encaixa exatamente na popularização desta "onda". Que esta música já vinha sendo feita há muito tempo, não há dúvida. Que outros discos conseguiram alcançar a fama, também não duvido. Mas que o nome do Chemical Brothers é conhecido, também não há como negar. Qual outra banda techno (breakbeat techno para ser mais preciso...) era tão conhecida como eles em 94?

     Percebem? É exatamente a mesma função que teve o Jesus & Mary Chain nove anos atrás: bagunçar o que estava estabelecido, reescrever as regras. Se antes se fazia isto com decibéis extraídos de uma guitarra e hoje se faz com batidas por minuto de uma bateria eletrônica, isto não importa! O que importa é que alcançaram o seu objetivo. Eles abriram espaços. Muita gente pode até criticar por isto. Sempre vão ter aqueles que preferem ser "donos" de uma boa música, que não gostam de vê-las na "boca de qualquer um". Eu mesmo sou um pouco assim. Mas fazer o quê? Eu ainda prefiro ouvir um guri assobiando uma música do Jesus ou batucando um ritmo do Chemical Brothers do que ter que ouvi-lo cantando uma música da Mariah Carey ou do Bon Jovi (para continuarmos no mesmo plano internacional). Você não?

Texto: Gregory.

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mais uma dose
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