A Tulha colonial da Faz. São Luiz em Mococa, São Paulo


          Celso
          Lago Paiva

          celsolag@terra.com.br



          Publicado originalmente em:
              Camaleão Informativo Cultural, Mococa 2(8):4, 1998

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          Palavras-chave
            História da técnica. Brasil. São Paulo. Mococa. Tulha. Palmito. Euterpe edulis. Gaiola. Taipa-de-mão. Senzala. Patrimônio histórico.



            Realizei em maio de 1997 visita técnica às instalações de uma tulha antiga localizada na Fazenda São Luiz, em Mococa, Estado de São Paulo, como especialista em Patrimônio Histórico, a convite da S.ra Maria Beatriz Rigobello Lima.

            A edificação localiza-se a cerca de 2500 m do centro urbano. Consta de uma construção erigida em gaiola de madeira, com paredes originalmente preenchidas com taipa-de-mão (“pau-a-pique”).


            Tulha da Faz. São Luiz


            A construção apresenta dois andares assobradados e um andar sob o térreo. A planta do corpo principal possui 21,23 m de testada e 7,72 m de fachada lateral (163,89 m2 em cada pavimento); o alpendre anexo à fachada principal mede 5,00 m de testada e 2,62 m de profundidade (área coberta de 13,10 m2 em cada pavimento); a área coberta e edificada dos dois pavimentos da Tulha totaliza 353,99 m2. Essas dimensões são grandes para uma tulha.

            Existem ainda algumas tábuas muito largas e antigas dos sobrados. Sob o sobrado do andar inferior existe um porão útil, denotando muito uso; mostra inclusive prateleiras largas escavadas na própria terra, como se vê por exemplo no porão da Casa dos Contos em Ouro Preto, o que sugere seu emprego como senzala.

            O telhado possui quatro águas sem tesouras. Os caibros são de palmito [Euterpe edulis, Palmae] roliço e as ripas de fasquias de palmito. As telhas são romanas e coloniais, primitivas. Não há indícios de existência primitiva de cachorros, de uso comum em construções de tradição mineira. As extremidades externas do telhado sobre a cumieira apresentavam pombinhas, hoje desaparecidas.

            O corpo formado pelo alpendre era originalmente aberto nos dois andares, à maneira do norte de Portugal e da região central de Minas. A parede interna desse cômodo inferior do alpendre que é a mesma fachada principal do corpo da tulha mostra marcas de antiga escada de madeira que ganhava o andar superior do alpendre (único acesso ao sobrado nas casas antigas de Minas Gerais e do norte de Portugal).


            Tulha da Faz. São Luiz


            Todos os indícios primitivos observados configuram construção rigidamente colonial da primeira metade do século XIX. A tradição da família de Manoel Lima, atual proprietário, informa que ao ser construída por Luiz Penna a edificação em questão era utilizada em seu andar superior como casas de morada.

            A tulha da Faz. São Luiz representa um importante documento construtivo da produção rural de Mococa e de todo o Estado. Representa as técnicas de construção típicas do colonial mineiro. Edificações agro-industriais primitivas como essa tulha são hoje extremamente raras, não se conhecendo tulha de taipa-de-mão tombada em São Paulo ou Minas Gerais. Na região de Mococa subsistem diversas construções com a mesma técnica construtiva e datadas de meados do século XIX. No entanto são todas residências, já bastante alteradas por reformas.

            Elemento importante na tulha em questão é o telhado ainda original, apresentando todo o madeiramento primitivo, falquejado a machado e enxó, e caibros e ripas de palmito (Euterpe edulis), invariavelmente substituídos nas reformas de construções antigas paulistas por madeiras serradas.

            Sua importância técnica e histórica justifica a conservação a título perene como objeto de pesquisas de História da Técnica, como recurso didático no ensino de História e como atração turística de caráter regional, sendo altamente recomendável sua conservação e restauração como integrante do patrimônio dos bens históricos e culturais preservados no município de Mococa. A raridade dos testemunhos agro-industriais primitivos justifica a importância da Tulha, especialmente se através de restauração criteriosa as características originais da edificação forem respeitadas e ressaltadas.

            A Sra. Rigobello Lima informou-me estar sendo cogitada a conservação da construção como parte dos bens culturais do município de Mococa e de seu povo.


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          Grupo de Estudos de História da Técnica - GEHT/UNICAMP

          Declaração do GEHT em Defesa das Construções e Instalações Utilitárias

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               Referência bibliográfica desta página

                PAIVA, Celso Lago, 1998. A Tulha colonial da Faz. São Luiz em Mococa, São Paulo. Disponível na Internet: http://www.geocities.com/RainForest/9468/tulha.htm. 31 dez. 1998. Publicado originalmente em: Camaleão Informativo Cultural, Mococa 2(8):4, 1998

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