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Palavras-chave História da técnica. Brasil. São Paulo. Mococa. Tulha. Palmito.
Euterpe edulis. Gaiola. Taipa-de-mão. Senzala. Patrimônio histórico.
Realizei em maio de 1997 visita técnica
às instalações de uma tulha antiga localizada na Fazenda São Luiz,
em Mococa, Estado de São Paulo, como especialista em Patrimônio Histórico,
a convite da S.ra Maria Beatriz Rigobello Lima.
A edificação localiza-se a cerca de 2500 m do centro urbano.
Consta de uma construção erigida em gaiola de madeira, com paredes
originalmente preenchidas com taipa-de-mão (“pau-a-pique”).
A construção apresenta dois andares assobradados e um andar sob o térreo.
A planta do corpo principal possui 21,23 m de testada e 7,72 m de fachada
lateral (163,89 m2 em cada pavimento);
o alpendre anexo à fachada principal mede 5,00 m de testada e 2,62 m de
profundidade (área coberta de 13,10 m2 em cada pavimento);
a área coberta e edificada dos dois pavimentos da Tulha totaliza
353,99 m2.
Essas dimensões são grandes para uma tulha.
Existem ainda algumas tábuas muito largas e antigas dos sobrados.
Sob o sobrado do andar inferior existe um porão útil, denotando muito uso;
mostra inclusive prateleiras largas escavadas na própria terra, como se vê
por exemplo no porão da Casa dos Contos em Ouro Preto, o que sugere seu
emprego como senzala.
O telhado possui quatro águas sem tesouras. Os caibros são de palmito
[Euterpe edulis, Palmae] roliço e as ripas de fasquias de palmito.
As telhas são romanas e coloniais, primitivas. Não há indícios de existência
primitiva de cachorros, de uso comum em construções de tradição mineira.
As extremidades externas do telhado sobre a cumieira apresentavam
pombinhas, hoje desaparecidas.
O corpo formado pelo alpendre era originalmente aberto nos dois andares,
à maneira do norte de Portugal e da região central de Minas.
A parede interna desse cômodo inferior do alpendre que é a mesma fachada
principal do corpo da tulha mostra marcas de antiga escada de madeira que
ganhava o andar superior do alpendre (único acesso ao sobrado nas casas
antigas de Minas Gerais e do norte de Portugal).
Todos os indícios primitivos observados configuram construção rigidamente
colonial da primeira metade do século XIX.
A tradição da família de Manoel Lima, atual proprietário, informa que ao ser
construída por Luiz Penna a edificação em questão era utilizada em seu
andar superior como casas de morada.
A tulha da Faz. São Luiz representa um importante documento construtivo
da produção rural de Mococa e de todo o Estado. Representa as técnicas de
construção típicas do colonial mineiro.
Edificações agro-industriais primitivas como essa tulha são hoje extremamente
raras, não se conhecendo tulha de taipa-de-mão tombada em São Paulo ou Minas Gerais.
Na região de Mococa subsistem diversas construções com a mesma técnica
construtiva e datadas de meados do século XIX. No entanto são todas residências,
já bastante alteradas por reformas.
Elemento importante na tulha em questão é o telhado ainda original, apresentando
todo o madeiramento primitivo, falquejado a machado e enxó, e caibros e ripas
de palmito (Euterpe edulis), invariavelmente substituídos nas reformas de
construções antigas paulistas por madeiras serradas.
Sua importância técnica e histórica justifica a conservação a título perene como
objeto de pesquisas de História da Técnica, como recurso didático no ensino de
História e como atração turística de caráter regional, sendo altamente
recomendável sua conservação e restauração como integrante do patrimônio dos
bens históricos e culturais preservados no município de Mococa.
A raridade dos testemunhos agro-industriais primitivos justifica a importância
da Tulha, especialmente se através de restauração criteriosa as características
originais da edificação forem respeitadas e ressaltadas.
A Sra. Rigobello Lima informou-me estar sendo cogitada a conservação da construção
como parte dos bens culturais do município de Mococa e de seu povo.
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