A razão por que nós praticamos meditação
Por Sua Eminência
Thrangu Rinpoche
Gampopa(1079-1153)
Quando o Budismo começou a se expandir na América,
a linhagem Kagyu estava na vanguarda ao enviar lamas para a região.
Entre esses lamas estavam os três grandes pais do Dharma na América:
Sua Santidade Gyalwa Karmapa, Sua Eminência Kalu Rinpoche e o Vidyadhara
Chogyam Trungpa Rinpoche. Infelizmente nos anos 80 perdemos esses grandes
seres mas, na seqüência, vários lamas notáveis
da linhagem surgiram para ocupar esses lugares e trazer grande benefício
aos seres sencientes. Entre os primeiros que vieram estava o Muito Venerável
Khenchen Thrangu Rinpoche, abade por indicação de Sua Santidade
Karmapa do Monastério de Rumtek, no Sikkim. Ele é também
o abade de seus próprios monastérios no Nepal, Índia
e Tibet e, por indicação de Chogyam Trungpa Rinpoche, de
Gampo Abbey, na Nova Escócia, Canadá. Além disse,
ele tem sido muito bom e generoso para com os estudantes ocidentais, ensinando
o Dharma extensivamente em retiros e seminários por todo o mundo.
Rinpoche ensinou pela primeira vez em Seattle em maio de 1996. Esta é
uma transcrição de seus ensinamentos dados na noite de 24
de maio.
"Eu gostaria de começar dando boas-vindas a todos os que estão
aqui esta noite. Eu entendo que vocês tenham vindo por causa de um
sincero interesse e desejo de praticar o verdadeiro Dharma, e também
por respeito a meus ensinamentos. Isso é ótimo para mim e
agradeço a vocês. Eu me considero afortunado por ter esta
oportunidade de criar uma conexão com vocês. Para começar,
gostaria de recitar uma tradicional súplica aos professores da minha
linhagem e convido vocês a me acompanhar com uma atitude de confiança
e devoção."
(Cantos)
"A essência do Buddhadharma, os ensinamentos do Buddha, é
a prática. E quando falamos em prática, nós nos referimos
à prática de meditação, que pode ser a meditação
conhecida como tranqüilidade ou aquela conhecida como insight. Mas,
seja qual for o caso, ela deve ser implementada com a prática. Nós
praticamos meditação para atingir a felicidade. Isto significa
estados de felicidade a curto e a longo prazos. Com relação
à felicidade a curto prazo, quando falamos em felicidade, normalmente
nos referimos a uma ou duas coisas, sendo que uma é o prazer físico
e a outra, o prazer mental. Mas se vocês olharem para qualquer uma
dessas agradáveis experiências, a raiz dela deve ser uma mente
em paz, uma mente livre de sofrimento. Porque se suas mentes estiverem
infelizes e sem tranqüilidade ou paz, então não importa
quanto prazer físico vocês experimentem que ele não
terá a forma da felicidade por si só. Por outro lado, mesmo
que lhes faltem as circunstâncias físicas ideais de riqueza
ou qualquer outra, se suas mentes estiverem em paz, vocês ficarão
felizes de qualquer maneira.
Então, nós praticamos meditação em parte
para obter o benefício a curto prazo de um estado de felicidade
mental e paz. Mas a razão pela qual a meditação ajuda
é que, normalmente, nós temos uma grande quantidade de pensamentos,
ou muitos tipos diferentes de pensamentos que cruzam nossas mentes. Alguns
desses pensamentos são agradáveis, até mesmo prazerosos.
Alguns deles porém, são desagradáveis, agitados e
preocupantes. Se vocês examinarem de vez em quando os pensamentos
presentes em suas mentes, verão que os pensamentos agradáveis
são comparativamente poucos, e os pensamentos desagradáveis,
muitos – o que significa que enquanto suas mentes forem governadas ou controladas
pelos pensamentos que surgem, vocês serão bastante infelizes.
Então, para ganhar o controle desse processo, nós começamos
com a prática da meditação de tranqüilidade,
que produz um estado básico de alegria e paz na mente do praticante.
Um exemplo disso é o grande iogue tibetano Jetsun Milarepa,
que viveu em condições da austeridade extrema. Ele viveu
em solidão absoluta, em cavernas e montanhas isoladas. Suas roupas
eram muito pobres, ele não tinha roupas boas. A comida dele não
era nem suculenta nem gostosa. Na verdade, durante muitos anos ele se manteve
só com sopa de urtiga, e a conseqüência foi ficar extremamente
magro, quase emaciado. Agora, se vocês considerarem apenas as circunstâncias
externas, o isolamento e a pobreza em que ele viveu, pensariam que ele
foi infeliz. Mas, como podemos verificar pelas muitas canções
que compôs, e porque sua mente vivia fundamentalmente em paz, a experiência
dele foi de constante e crescente deleite. Suas canções expressam
um estado supremo de alegria ou êxtase. Ele via todo lugar por onde
andava, não importava o quão isolado ou austero fosse o ambiente,
como belo, e vivia uma vida de austeridade máxima de modo extremamente
agradável.
Na realidade, os benefícios a curto prazo da meditação
são mais que apenas a paz da mente, porque nossa saúde física
também depende, em grande parte, do nosso estado mental. Assim,
se cultivarem esse estado de satisfação e paz mental, vocês
tenderão a não ficar doentes, e a se curarem facilmente quando
e se ficarem doentes. A razão para isso é que uma das condições
básicas que provocam estados de doença é a agitação
mental, que produz uma agitação correspondente ou uma perturbação
dos canais e energias do corpo. Esta gera novas doenças, que vocês
ainda não tinham, e também impede a cura de doenças
antigas. A agitação dos canais e ares ou energias também
impede o benefício que poderia ser obtido com o tratamento médico.
Se praticarem meditação, quando suas mentes se acalmarem,
os canais e energias que circulam voltam ao seu funcionamento normal, vocês
não terão tendência a ficar doentes ou se tornarão
capazes de curar qualquer doença que tenham anteriormente. Podemos
também ver um exemplo disso na vida de Jetsun Milarepa, que viveu
em meio a extrema austeridade seja no local onde morou, seja nas roupas
que usava, seja na comida que comia, por um longo tempo durante a parte
inicial de sua vida. Ainda assim isso não prejudicou sua saúde,
porque ele conseguiu viver uma vida longa, foi extremamente forte e jovial
até o fim, o que indica que, através da correta prática
de meditação, a alegria e a paz mental alcançadas
acalmam e corrigem o funcionando dos canais e energias, dando lugar à
cura e à prevenção das doenças.
O benefício a longo prazo ou final da prática de meditação
é se tornar livre de todo sofrimento, o que significa já
não ter que experimentar os sofrimentos do nascimento, do envelhecimento,
da doença e da morte. Esta realização da liberdade
é chamada, na linguagem comum a todas as tradições
budistas, budeidade, ou estado de Buddha, e particularmente na terminologia
do vajrayana, a realização suprema, ou siddhi supremo. De
qualquer forma, a raiz ou causa básica dessa realização
é a prática de meditação. Isso acontece porque
geralmente temos muitos pensamentos cruzando a mente, alguns benéficos
– como os pensamentos de amor, compaixão, alegria pela felicidade
de outros, e assim por diante - e muitos que são negativos – como
os pensamentos de apego, aversão, ciúmes, competitividade,
e assim por diante. Comparativamente há menos pensamentos do primeiro
tipo e mais do segundo tipo, porque temos hábitos arraigados que
vêm se acumulando em nós desde tempos sem começo. E
só removendo esses hábitos de negatividade podemos nos libertar
do sofrimento.
Não se pode acabar com essas aflições mentais,
ou kleshas, simplesmente dizendo a si mesmo: ‘Eu não vou mais gerar
aflição mental alguma’, porque não se tem a liberdade
de mente necessária ou o controle sobre as kleshas. Para abandoná-las,
vocês precisam na verdade alcançar essa libertação,
que começa, segundo o caminho comum, com o cultivo da tranqüilidade.
Agora, quando se começa a meditar, quando se começa a praticar
a meditação básica da tranqüilidade, pode-se
achar que a mente não vai ficar quieta nem um momento. Mas isso
não é permanente. Isso vai mudar à medida que se pratica,
e vocês eventualmente vão conseguir deixar a mente em repouso,
e nesse ponto a evidente perturbação dessas aflições
mentais ou kleshas será aliviada. Em cima disso, vocês podem
aplicar a segunda técnica, que é chamada de insight, que
consiste em aprender a reconhecer e experimentar diretamente a natureza
de suas próprias mentes. Essa natureza é chamada de vacuidade.
Quando se reconhece essa natureza e se descansa nesse estado, todas as
kleshas, todas as aflições mentais que surgem se dissolvem
nessa vacuidade, e já não há mais aflições.
De maneira que a liberdade, ou o resultado, que é chamado de estado
de Buddha, depende da erradicação dessas aflições
mentais, e isso depende da prática de meditação.
As práticas de tranqüilidade e insight são o caminho
geral comum a ambos os caminhos de sutra e tantra. No contexto específico
que é particular ao vajrayana, as técnicas principais são
chamadas de fase de geração e fase de conclusão. Estas
duas técnicas são extremamente poderosas e eficazes. A fase
de geração se refere à visualização
de, por exemplo, uma forma de um guru da linhagem, uma forma de uma deidade
ou yidam ou uma forma de um protetor do Dharma. Inicialmente quando se
vê essa técnica pela primeira vez, não é incomum
que alguns novatos pensem: ‘Para que isso?’ Bem, o fato é que sustentamos
e confirmamos nossa ignorância, nosso sofrimento e nossas kleshas
através da geração constante de projeções
impuras ou aparências impuras que compõem nossa experiência
do samsara. Para transcender esse processo, temos que transcender essas
projeções de impureza com projeções puras baseadas
na iconografia do yidam, do dharmapala, e assim por diante. Quando se começa
a experimentar o mundo como a mandala da deidade e todos os seres como
a presença da deidade, gradualmente vocês praticam o abandono
das aflições mentais, o abandono das projeções
impuras, e criam o ambiente para a manifestação natural de
sua própria sabedoria inata.
Tudo isto acontece aos poucos através dessa prática da
fase de geração. As deidades usadas podem variar na aparência.
Algumas são pacíficas e outras são iradas. Em geral,
a iconografia das deidades iradas mostra o poder inato da sabedoria, e
a das deidades pacíficas, as qualidades de bondade e compaixão.
Também há deidades masculinas e deidades femininas. As deidades
masculinas encarnam o método ou compaixão, e as femininas,
a inteligência ou sabedoria.
Por isso é apropriado executar essas práticas de meditação
com as deidades. E porque essas práticas são tão predominantes
em nossa tradição, se vocês entrarem em um templo ou
um local de prática vajrayana, provavelmente verão muitas
imagens de deidades - deidades pacíficas, deidades iradas e deidades
extraordinariamente iradas. E verão diversos santuários com
algumas oferendas bastante excêntricas. Inicialmente, se não
estão acostumados com isso, vocês poderiam pensar: ‘O que
é isso tudo?’ E também: ‘Bom, as práticas básicas
de tranqüilidade e insight fazem muito sentido e são muito
interessantes; já todas essas deidades, todos esses rituais e esses
instrumentos musicais excêntricos não são na verdade
nada interessantes’. No entanto, cada um e todos os aspectos da iconografia,
e cada um e todos os implementos encontrados em um santuário estão
lá por um motivo específico. O motivo é porque precisamos
nos treinar para substituir a projeção impura ou negativa
por uma projeção ou experiência pura. E isso não
é uma coisa que se possa fingir, não é possível
simplesmente convencer-se disso, porque vocês estarão tentando
substituir algo mais profundo que um conceito. Ë mais parecido com
um sentimento. De maneira que na técnica usada para fazer a substituição,
tem que ser gerado muito sentimento ou experiência da energia de
pureza, e para gerar isso usamos representações físicas
de oferendas, usamos instrumentos musicais para inspirar o sentimento de
pureza, e assim por diante. Em resumo, todos esses instrumentos são
úteis para gerar a experiência de pureza.
Essa é a primeira das duas técnicas da prática
vajrayana, a fase de geração. A segunda técnica é
chamada a fase de conclusão, e consiste em uma variedade de técnicas
relacionadas das quais talvez as mais importantes e mais conhecidas são
mahamudra e dzogchen ou ‘A Grande Perfeição’. Às vezes
dzogchen aparece com a mais importante, e em outras épocas mahamudra
aparece como a mais importante, e o resultado é que as pessoas ficam
um pouco confusas e inseguras sobre qual das tradições seguir.
A essência das práticas e seu resultado são, basicamente,
os mesmos. Na verdade, cada uma delas tem uma variedade de técnicas.
Por exemplo, na prática de mahamudra, há muitos métodos
que podem ser usados, como candali (veja nota de rodapé) e assim
sucessivamente, e na prática de dzogchen também há
muitos métodos, como o cultivo da pureza primordial, da presença
espontânea, e assim por diante. Mas, basicamente, a prática
de mahamudra sempre é apresentada como uma orientação
ou introdução para sua mente, e a prática de dzogchen,
como uma orientação ou introdução à
sua mente. O que significa que a raiz delas não é diferente,
e a prática seja de mahamudra ou dzogchen traz grande benefício.
Encontramos em ‘A Aspiração de Mahamudra’, do terceiro Gyalwa
Karmapa, o grande Rangjung Dorje, a seguinte estrofe:
’Não existe, e não foi visto, nem mesmo pelos Vitoriosos.
Não é não-existente, é a base de todo o
samsara e o nirvana.
Isto não é contraditório, mas é o grande
Caminho do Meio.
Possa eu chegar a ver a natureza que está além da elaboração.’
Isso é da tradição mahamudra. Em ‘A Aspiração
para a Realização da Natureza da Grande Perfeição’,
do onisciente Jigme Lingpa, uma liturgia de aspiração da
tradição dzogchen, encontramos a seguinte estrofe:
’Não existe, não foi visto, nem mesmo pelos Vitoriosos.
Não é não-existente, é a base de todo o
samsara e o nirvana.
Não é contraditório, é o grande Caminho
do Meio.
Possa eu vir a reconhecer dzogpa chenpo, a natureza da base.’
Em outras palavras, estas duas tradições são completamente
voltadas ao reconhecimento da mesma natureza.
A felicidade a curto prazo e a felicidade definitiva dependem da prática
de meditação que, do ponto de vista comum aos sutras (o ponto
de vista em comum de todas as tradições do budismo), é
a tranqüilidade e o insight, e do ponto de vista incomum do vajrayana
é a fase de geração e a fase de conclusão.
A meditação, no entanto, depende em parte da geração
de bondade e compaixão. Isso é verdadeiro em qualquer meditação,
mas é mais especialmente verdadeiro na meditação vajrayana.
O motivo é que as práticas específicas de vajrayana
- a visualização de deidades ou meditação mahamudra
e assim por diante - dependem da presença de uma motivação
pura por parte do praticante desde o primeiro momento. Se essa motivação
pura ou motivação genuína não está presente
– e, como somos pessoas comuns, é bastante possível que não
esteja presente – pouco benefício haverá. Por isso, praticantes
de vajrayana estão sempre praticando a motivação,
e tentando desenvolver a motivação que é conhecida
como a mente desperta, ou bodhicitta.
Como uma indicação disso, se vocês observarem as
liturgias usadas na prática vajrayana, verão que suas formas
longas e extensas sempre começam com um esclarecimento sobre ou
uma meditação em bodhicitta, e que até mesmo as liturgias
curtas e as curtíssimas sempre começam com uma meditação
em bodhicitta, bondade e compaixão, porque esse tipo de motivação
é necessário para toda a meditação, mas especialmente
para a prática vajrayana.
O único significado real que podemos dar ao nosso nascimento
neste planeta - e particularmente tendo nascido como seres humanos neste
planeta - e o único resultado realmente significativo que podemos
ter em nossas vidas é ajudar o mundo: ajudar nossos amigos, ajudar
todos os seres neste planeta o quanto pudermos. E se dedicarmos nossas
vidas ou apenas parte significativa de nossas vidas a destruir os outros
ou a prejudicar os outros, se fizermos isso, nossas vidas terão
sido sem sentido. Se entenderem que o único objetivo real de uma
vida humana é ajudar os outros, beneficiar os outros, melhorar o
mundo, então vocês têm que entender que a base de não
prejudicar os outros mas beneficiá-los é a intenção
de não prejudicar os outros e a intenção de beneficiá-los.
A principal causa de ser ter uma intenção estável
ou uma motivação estável é cultivar verdadeiramente
o amor e a compaixão pelos outros. O que significa que, quando se
virem cheios de má vontade e agressividade – e isso não é
anormal – , vocês têm que reconhecer isso, ver claramente o
que está acontecendo e deixar isso ir embora. Também pode
ser que vocês não tenham má vontade ou agressividade,
e tenham o desejo de melhorar as coisas, mas pensem apenas em si mesmos,
pensem apenas em se ajudar ou se beneficiar. Quando acontece isso, vocês
têm que lembrar que a raiz desse tipo de mentalidade - bastante mesquinha,
limitada e estreita – é o desejo de vitória para si mesmo
às custas do sofrimento e da perda de outros. Nesse caso, vocês
têm que expandir gradualmente sua solidariedade aos outros, de modo
que o cultivo de bodhicitta ou altruísmo em geral como motivação
seja uma maneira essencial de dar um sentido às suas vidas. A importância
do amor e da compaixão não é uma idéia apenas
do budismo. Todo mundo em todos os lugares fala da importância do
amor e da compaixão. Não há ninguém que diga
que o amor e a compaixão sejam ruins e que devemos nos livrar deles.
Existe, no entanto, um elemento incomum no método ou na abordagem
deles dentro do budismo. De maneira geral, quando pensamos em compaixão,
pensamos em uma solidariedade ou empatia natural ou espontânea que
sentimos quando vemos o sofrimento de alguém. Geralmente pensamos
em compaixão como um estado de dor, de tristeza, porque vemos o
sofrimento de alguém e vemos o que está provocando o sofrimento
e não podemos fazer nada para acabar com a causa desse sofrimento
e, conseqüentemente, com o sofrimento em si. Assim, antes de vocês
gerarem compaixão, havia uma pessoa infeliz, e depois que vocês
geraram compaixão, há duas pessoas infelizes. Isso realmente
acontece.
A abordagem (que a tradição budista usa) para a compaixão
é um pouco diferente, porque se baseia no reconhecimento de que,
possam vocês ou não beneficiar um ser ou uma pessoa na situação
ou nas circunstâncias imediatas, ainda assim podem gerar a base para
o benefício definitivo. A confiança nisso remove a frustração
ou a tristeza que de outra maneira afligem a compaixão comum. E
quando a compaixão é cultivada dessa maneira, é vivenciada
com alegria e não com tristeza.
A maneira como cultivamos a compaixão é chamada de compaixão
imensurável. Para ser mais preciso, há quatro aspectos do
que poderíamos de maneira geral chamar de compaixão, e se
chamam os quatro imensuráveis. Normalmente quando pensamos em algo
imensurável nos referimos a algo imensamente vasto. Aqui, a conotação
básica do termo não é vastidão, mas imparcialidade.
Falamos em compaixão imensurável como uma compaixão
que não vai ajudar uma pessoa às custas do sofrimento de
outra. É uma compaixão que se sente igualmente por todos
os seres. A base da geração dessa compaixão tão
imparcial é o reconhecimento do fato de que todos os seres, sem
exceção, querem e não querem as mesmas coisas. Todos
os seres, sem exceção, querem ser felizes e querem evitar
o sofrimento. Não há ser algum em lugar algum que queira
realmente sofrer. E se entenderem isso, e porque entendem isso, vocês
terão um desejo intenso de que todos os seres se libertem do sofrimento.
Também não há ser algum em lugar algum que não
queira ser feliz; e se vocês entenderem isso, e porque entendem isso,
terão um desejo imenso de que todos os seres realmente alcancem
a felicidade que almejam. Mas, como a experiência da felicidade e
a libertação do sofrimento dependem da geração
de causas, suas aspirações têm que ser não apenas
a felicidade, mas também as causas de felicidade, que eles não
apenas estejam livres do sofrimento, mas das causas do sofrimento.
As causas do sofrimento são fundamentalmente a presença
em nossas mentes de aflições - ignorância, apego, aversão,
ciúmes, arrogância, e assim por diante - e é por causa
da existência disso que sofremos. Quando se reconhece que há
uma maneira de transcender essas causas do sofrimento - fundamentalmente,
através da erradicação dessas causas pela prática
da meditação, que pode ou não ocorrer de imediato,
mas é um processo definitivo e executável – através
da confiança, depois, do amor – desejando que os seres sejam felizes
-, e da compaixão para desejar que os seres se libertem do sofrimento,
não é inútil nem frustrante. O amor e a compaixão
ilimitados geram uma alegria ilimitada que se baseia na confiança
de que vocês podem realmente ajudar os seres a se libertar.
O amor ilimitado é a aspiração de que os seres
tenham felicidade e as causas da felicidade. A compaixão ilimitada
ou compaixão imensurável é a aspiração
de que os seres sejam libertados do sofrimento e das causas do sofrimento.
A confiança verdadeira e o contentamento que vêm da confiança
de que vocês podem fazer isso trazem uma alegria ilimitada. E porque
tudo isso é ilimitado ou imensurável ou imparcial, existe
uma qualidade comum que é a eqüanimidade. O que significa que
se isso tudo for cultivado de maneira correta, vocês não terão
compaixão por um ser e não por outro, e assim por diante.
Normalmente, quando experimentamos essas qualidades, claro que elas são
parciais; são qualquer coisa menos imparciais. Para erradicar a
fixação que causa a experiência da compaixão
em relação a alguns e não a outros, vocês podem
praticar o cultivo de eqüanimidade reconhecendo que todos os seres
desejam a mesma coisa e desejam evitar a mesma coisa, e fazendo isso poderão
aumentar muito, intensificar sua bondade e compaixão.
Esta foi uma breve introdução à prática
de meditação, e como treinar e gerar compaixão. Se
vocês tiverem alguma pergunta, por favor podem fazer."
Pergunta: "Rinpoche, o senhor poderia falar um pouco sobre a diferença
entre projeção pura e projeção impura, e em
particular, de onde vêm as projeções puras?"
Rinpoche: "Em primeiro lugar, nós experimentamos projeções
impuras por causa da presença, em nossas mentes, de kleshas ou aflições
mentais. Porque temos kleshas, vemos o amigo e o inimigo – a quem nos apegamos
ou quem nos provoca aversão -, nós experimentamos contentamento
e desgosto e assim por diante. E de todos essas maneiras que experimentamos
o mundo – todas elas são fundamentalmente mescladas com dissabor.
O que é chamado de aspecto puro ou projeção pura
está baseado na experiência da verdadeira natureza ou pureza
essencial disso que, na confusão, nós experimentamos como
cinco tipos de aflições mentais, ou cinco kleshas. A verdadeira
natureza dessas cinco kleshas é o que é chamado de cinco
sabedorias. Por exemplo, quando vocês abandonarem a fixação,
a obsessão do ego, a natureza fundamental da maneira pela qual experimentarem
isso é a uniformidade, uma ausência de preferência ou
parcialidade, que é chamada de sabedoria da uniformidade. E, quando
reconhecerem a natureza de todas as coisas, o reconhecimento que penetra
ou preenche todas as suas experiências é chamado de sabedoria
do dharmadhatu. E assim por diante.
Quando experimentarem as cinco sabedorias em vez das cinco kleshas
ou cinco aflições mentais, em vez de projetar toda a impureza
projetada na base da experiência das kleshas, vocês projetarão
pureza, ou vocês experimentarão a pureza que é a manifestação
verdadeira destas cinco sabedorias como reinos, como formas de Buddhas,
e isso é chamado de visões puras, experimentadas pelos bodhisattvas
e assim sucessivamente. Agora, para se chegar a isso, para se cultivar
a experiência dessas sabedorias e as experiências externas
que andam junto com a experiência dessas sabedorias, nós meditamos
nos corpos desses Buddhas, nos reinos, palácios e assim por diante.
Ao gerar clareza nessas aparências visualizadas e estabilizá-las
gradualmente nós transformamos a maneira pela qual experimentamos
o mundo."
Pergunta: "Quando se pratica compaixão, há a prática
de tonglen, que consiste em mandar e receber, que retira o sofrimento de
todos os seres sencientes e dá a eles a felicidade e mérito
que nós temos. Nessa prática - eu pratiquei isso antes –
parece que vai tudo bem por um tempo, mas aí surge um sensação
sutil de ‘EU’ que entra em silêncio e diz: ‘Eu não quero realmente
retirar o sofrimento’, ou então, ‘Eu não posso lidar com
tanta gente com câncer, não posso assumir tudo sozinho’. E
perco um pouco de coragem de praticar. Será que o senhor poderia
nos esclarecer essa prática, como superar esses obstáculos
e desenvolver realmente a mente heróica?"
Rinpoche: "O que você diz é muito verdadeiro, especialmente
quando se começa essa prática. Na verdade, não há
problema em se sentir dessa maneira. Embora haja uma qualidade de fingimento
sobre o quanto vocês estariam realmente prontos para assumir o sofrimento
dos outros no princípio, ainda há benefício na prática,
porque antes de começarem essa prática, vocês provavelmente
eram completamente egoístas. E até mesmo uma tentativa de
fingir altruísmo é uma tremenda melhoria. Mas não
se permanece insincero assim, porque eventualmente o hábito começa
a se aprofundar e a se contrapor ao hábito do egoísmo.
Mas se, quando começarem a praticar tonglen, vocês já
tiverem cem por cento de preocupação com o bem-estar dos
outros e nenhuma preocupação com o seu próprio bem-estar,
não precisariam praticar tonglen. De maneira que foi planejado para
funcionar com um praticante que está começando de um ponto
de egoísmo para levá-lo ao ponto de se preocupar com os outros.
Aos poucos, usando a prática, vocês cultivarão de verdade
o desejo sincero de tirar o sofrimento de outros e trazê-lo para
vocês; e cultivarão um amor e uma compaixão reais pelos
outros. Mas, por outro lado, vocês não fazem a prática
para serem realmente capazes de, naquele momento, assumir o sofrimento
de outros; vocês estão fazendo isso na verdade para treinar
a mente. E ao treinar a mente e desenvolver a motivação e
o desejo verdadeiros de libertar os outros do sofrimento, o resultado a
longo prazo será a habilidade para dissipar o sofrimento dos outros
diretamente."
Pergunta: "Rinpoche, o senhor disse que nós provavelmente não
somos capazes - uma pessoa provavelmente não pode afetar diretamente
ou remover a infelicidade a curto prazo ou o sofrimento de outra pessoa
-, mas que podemos aprender a gerar a base da felicidade dos outros, a
felicidade definitiva. O senhor poderia falar mais um pouco, por favor,
sobre como uma pessoa pode gerar a base da felicidade definitiva para outra
pessoa?"
Rinpoche: "Bem, a base direta para estabelecer outro ser em um estado
de liberdade ou felicidade, felicidade a longo prazo ou definitiva, é
ser capaz de mostrar a ele como se livrar das aflições mentais
e ensinar como reconhecer e então abandonar as causas do sofrimento.
E ao se fazer isso, vocês podem estabelecê-lo gradualmente
na felicidade definitiva. Mas até mesmo em casos em que vocês
não podem, por qualquer razão, fazer isso, ao ter a intenção
de beneficiar aquele ser, quando estiverem completamente libertos, vocês
poderão ajudá-lo de fato e gradualmente libertá-lo
e protegê-lo."
Pergunta: "Rinpoche, o senhor pode falar um pouco mais sobre a prática
de deixar-se ir, quando a mente está agitada, como descreveu, como
é usado em mahamudra e dzogchen? Quando eu me sento para meditar,
experimento minha mente em estado agitado. E sobre a prática de
deixar-se ir. Gostaria de saber se o senhor pode falar um pouco mais sobre
isso de um modo prático?"
Rinpoche: "De maneira geral, a abordagem principal das tradições
de mahamudra e dzogchen é aplicada quando vocês estiverem
olhando para a natureza de suas mentes. Já as kleshas ou aflições
mentais são pensamentos, e pensamentos são a exibição
natural da mente. Pensamentos podem ser agradáveis, neutros ou desagradáveis,
eles podem ser positivos ou negativos, mas em todo caso, vocês lidam
com qualquer tipo de pensamento que surge exatamente da mesma maneira.
Vocês simplesmente olham diretamente para eles.
Olhar para o pensamento, olhar no pensamento, ou olhar para a natureza
do pensamento, é bem diferente de uma análise. Vocês
não tentam analisar o conteúdo do pensamento, nem tentam
pensar no pensamento. Vocês só e simplesmente olham diretamente
para ele. E quando olharem diretamente para um pensamento, vocês
não acharão nada. Vocês podem pensar que não
encontraram nada porque não souberam como olhar ou onde olhar, mas
na verdade esta não é a razão. A razão, segundo
o Buddha, é porque os pensamentos são vazios. E este é
o significado básico de todos os vários ensinamentos sobre
vacuidade que ele deu, como as Dezesseis Vacuidades, e assim por diante.
Para usar a raiva como um exemplo disso; se vocês ficam raivosos,
e olham diretamente para a raiva - que não significa analisar os
conteúdos dos pensamentos de raiva, mas olhar diretamente para aquele
pensamento raivoso específico -, não encontrarão nada.
E, naquele momento em que não acharem nada, a qualidade venenosa
da raiva de alguma maneira desaparecerá ou se dissolverá.
Suas mentes relaxarão, e vocês vão, pelo menos até
certo ponto, ficar livres da raiva.
Vocês podem, neste momento, entender isto ou não, mas
em todo o caso, terão a oportunidade de trabalhar com esta abordagem
amanhã e depois de amanhã, e nos próximos dois dias
pode ser que vocês experimentem um pouco disso.
Nós vamos concluir agora com uma breve dedicação.
Mas eu também gostaria de agradecer a vocês por demonstrar
grande interesse no Dharma, ao ouvir e fazer perguntas."
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Nota de rodapé: gtum-mo em tibetano significa feroz ou colérico
e se refere a um tipo de calor psíquico gerado e experimentado em
certas práticas meditativas do vajrayana. Esse calor serve para
queimar todos os tipos de obstáculos e confusão. Está
incluído nas Seis Doutrinas de Naropa, as Seis Doutrinas de Niguma
e as Seis Doutrinas de Sukhasiddhi.
Nota: Nós agradecemos a Kagyu Shenpen Osel Choling em Seattle
por nos permitir usar este ensinamento em nosso website e oferecê-lo
a vocês. Este é um excerto do excelente relatório informativo
do grupo (em inglês). Se vocês quiserem assinar ou receber
mais informações sobre o relatório, por favor remeta
a:
Shenpen Osel
4322 Burke Ave. N.
Seattle, WA 98103, USA
(1206) 632-1439
e-mail: itashi@worldnet.att.net
Nota: Nós agradecemos a Lee Miracle, que usou o ensinamento
no webside de Sua Eminência Thrangu Rinpoche e nos autorizou a traduzir
e a usar neste webside. Para mais informações, em inglês,
sobre Rinpoche:
www.rinpoche.com
Que o mérito da tradução e da divulgação
deste ensinamento possa beneficiar todos os seres sem exceção.
[Esta tradução para o português foi realizada em
dezembro de 1999 para este Site por
uma discípula do Rinpochê].
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