Compaixão Insustentável

Khenpo Tsultrim Gyamtso Rinpoche


Khenpo Rinpoche no topo da World Center Tower, em 1995

Nota do Editor:  Depois da tragédia de 11 de setembro 2001, muitos alunos pediram a Khenpo Rinpoche aconselhamento sobre como lidar com o que acabara de acontecer.  Em resposta, Rinpoche solicitou a transcrição deste ensinamento de como fazer surgir a compaixão insustentável quando nos deparamos com um sofrimento incomum.

Ensinamento transmitido por Khenpo Tsultrim Gyamtso Rinpoche
18 de Setembro, 2001
Centro Shambhala
Paris, França
 

A partir de imensuráveis sabedoria e compaixão,
Transmitiu-nos o Dharma
Para permitir que dissipássemos todas as visões.
Prosterno-me diante de vós, Gautama.

Esta é uma prosternação que oferecemos ao Mestre, aquele que a partir do seu grande amor por todos os seres nos transmitiu o Shravakayana, o veículo dos auditores, o Pratyekabuddha-yana, o veículo dos budas solitários e o Mahayana, o grande veículo.  O glorioso Chandrakirti inicia o seu texto, Penetrando o Caminho do Meio, rendendo homenagem à compaixão.  O primeiro tipo de compaixão enfoca os próprios seres sencientes.  A homenagem de Chandrakirti a esta primeira compaixão diz: “Primeiro, pensando em ‘mim,’ se fixam no ‘eu,’ depois, pensando ‘isto é meu,’ surge o apego às coisas.  Os seres sencientes são impotentes, como a roda de um moinho fora do eixo.  Prosterno-me à compaixão por estes viandantes.” 

O que esta estrofe nos ensina é a importância da compaixão pelos seres sencientes que sofrem porque se apegam a um postulado (belief?) ou à noção de um eu inerente.  Por ser tão importante, Chandrakirti oferece a sua prosternação a esta compaixão.  Esta estrofe também ensina que a noção de um eu inerente é a causa de todo o sofrimento, a causa de todos os problemas existentes.  Por isso precisamos continuamente cultivar a compaixão pelos seres sencientes que sofrem por crerem num eu inerente neste universo.

Chandrakirti então diz:  Os seres são como (o reflexo d)a lua na superfície de um corpo de água movida pela brisa.   Aprendemos assim sobre o segundo tipo de compaixão; a compaixão que enfoca a qualidade dos seres, a sua impermanência.  Os seres sencientes estão em constante estado de mutação.  Nada permanece imutável para eles nem mesmo a experiência de um momento para o outro.  Tudo é rigorosamente impermanente, porém, mesmo assim não se dão conta porque consideram permanente o manifesto.

Como os seres sencientes são como esta lua em permanente movimento sobre este corpo de água, a dificuldade que têm, todo o sofrimento por que passam também é rigorosamente impermanente. Mas como desconhecem ser assim, crêem que seus sofrimentos e suas dificuldades são permanentes, a primeira causa do sofrimento. 

Se ao passarmos pelo sofrimento soubermos que é impermanente, não será uma experiência tão avassaladora, porque temos consciência de que não permanecerá assim, que as coisas vão melhorar.  Mas quando sofremos e pensamos que o sofrimento é permanente, que não desaparecerá, que estará sempre conosco, quando adotamos esta atitude, ele torna-se muito pesado.  Por isso meditamos na impermanência, e a mais importante meditação sobre impermanência a do nosso sofrimento.

Se fosse verdade que a  felicidade nunca passasse a ser sofrimento; se fosse verdade de que a felicidade nunca conduzisse ao sofrimento, não seria preciso meditar na impermanência.  Mas não,  como é verdade que a felicidade passa a ser sofrimento, que a felicidade conduz ao sofrimento, precisamos também meditar na impermanência da felicidade.  Ambos se transformam e são vazios de qualquer natureza inerente.  

Os seres sencientes são como luas aquáticas, não só devido a sua impermanência mas também porque a lua que aparenta estar em movimento também não é a lua, é mera aparência e está vazia de natureza inerente.  Da mesma forma, os seres sencientes não são só impermanentes,  também não são reais, são como os seres sencientes que nos aparecem em sonhos.  Esta é a expressão do segundo tipo de compaixão:  compaixão que não tem referência e chama-se assim por ter o seu enfoque na vacuidade dos seres sencientes.  

A natureza dos seres sencientes é que eles não têm natureza, não têm uma essência inerente, mas desconhecem este fato e sofrem porque crêem na sua existência inerente.  Por isso sentimos compaixão por eles.

Todo e qualquer sofrimento por que possamos passar tem a qualidade do sonho, por pior que nos pareça, tanto o sofrimento quanto as suas causas não existem verdadeiramente e não têm a menor natureza inerente.  Contudo, se não sabemos que estamos sonhando, pensaremos que o sonho é verdadeiramente existente e daí surge o sofrimento—este engano.  

Da mesma forma precisamos saber que o sofrimento por que passam os seres sencientes não é verdadeiro, mas que sofrem por não saberem, e sentimos compaixão por eles porque não sabem que o seu sofrimento não existe verdadeiramente.  Pensam ser verdadeiro e é este pensamento que os faz sofrer.  Este é o terceiro tipo de compaixão.

Resumindo, os seres sencientes sofrem como resultado do apego à noção de um eu, sofrem como conseqüência de uma noção de que as coisas são permanentes, e sofrem como consequência da noção de que as coisas verdadeiramente existem.  Cultivamos os três tipos de compaixão pelos seres sencientes e precisamos destes três tipos porque estas são as três causas do sofrimento.  

Na sua canção, as Dez Coisas Parecidas (The Ten Things It´s Like) o Senhor dos Yogis, Milarepa canta:

Quando a compaixão 
Brota do fundo do meu coração
Vejo os seres dos três reinos 
Como se estivessem ardendo num braseiro.

Na semana passada, presenciamos um terrível espetáculo quando as duas torres estavam ardendo e quanta compaixão brotou em nós pelas pessoas que sofriam nos prédios em chamas, pelas pessoas penduradas às janelas que tentavam escapar do braseiro.  Este é o exemplo de compaixão que Milarepa sente por todos os seres sencientes.  

Na sua Prece de Aspiração do Mahamudra </mahamudraasp.html>, o Terceiro Karmapa, Rangjung Dorje roga:

Os seres, pelas suas naturezas, sempre foram Budas.
Contudo, não tendo consciência deste fato,
Vagam sem cessar no samsara. 
Possa uma compaixão insustentável brotar em nós
Pelos seres sencientes cujo sofrimento é ilimitado.

“Os seres, pelas suas naturezas, sempre foram Budas;” nos diz que, a verdadeira natureza da mente de todo os seres sencientes é a essência iluminada da natureza búdica.  É o Buda da pureza perfeita, o verdadeiro e genuino Buda; o verdadeiro Buda é a natureza verdadeira da mente de todos os seres.  Contudo os seres sencientes desconhecem esta realidade e sofrem infinitamente por desconhecerem a natureza da suas próprias mentes.  Sofrem incessantemente, sem interrupção, no samsara.  Esta é uma aspiração para que a compaixão seja tão extremada que se torne insustentável; é este tipo de poderosa compaixão que brotará em nós pelos seres sencientes que sofrem porque desconhecem a sua natureza iluminada.

A oração continua, 

Esta compaixão insustentável irradia amor continuamente 
E nesta medida a vacuidade da sua essência reluz na transparência.
Possamos nós nunca nos afastar do caminho certeiro da união.
Possamos nós meditar todo dia e toda noite sobre ele.

Quando esta compaixão brota no nosso interior ela é tão poderosa que não podemos sustentar a sua magnitude.  Ela irradia amor incessante para todos os seres sencientes a cada instante, a sua essência é a vacuidade.  Aqui, a vacuidade se refere à verdadeira natureza da mente, a claridade luminosa.  Fazer surgir esta compaixão insustentável e depois permanecer em equilíbrio  centrado na claridade luminosa que é a sua verdadeira natureza, é o caminho do amor e da vacuidade em união, da vacuidade e da compaixão em união

Os Sete Pontos de Treinamento da Mente afirma, 

Pratica dar e receber alternadamente
Que ambos se façam com a respiração.

Na prática de tonglen (dar e receber), precisamos, antes de tudo, fazer surgir uma imensa compaixão.  Quando sentimos uma compaixão insustentável pelos demais enviamos toda a nossa felicidade para todos os seres sencientes e assumimos todo o seu sofrimento em troca. Que ambos se façam a partir da expiração e da inspiração.  

A última estrofe da Prece de Aspiração do Mahamudra diz,

Pelo poder da compaixão dos Vitoriosos,
Dos seus filhos e filhas das dez direções,
E o poder de toda a virtude sem mácula existente,
Possam as minhas preces de aspirações mais puras,
Assim como dos demais seres sencientes
Serem perfeitamente atendidas.

Esta última estrofe é um rogo para que todas as preces antecedentes se realizem.  Para que isto possa acontecer suplicamos todos os budas Vitoriosos e todos os seus filhos e filhas, os bodhisattvas de todas as dez direções—pelo poder da grande compaixão e amor que todos estes seres iluminados personificam, e pelo poder de todas as nossas próprias ações meritórias positivas, como a generosidade etc.—pelo poder de tudo o que foi aludido acima, possam as minhas preces e a dos demais seres sencientes serem perfeitamente atendidas.

O que quer dizer fazer uma prece de aspiração pura?  Quer dizer rogar para que os seres sencientes alcancem a gloriosa felicidade.  Possam todas estas orações serem perfeitamente atendidas. Na tradição Mahayana do budismo precisamos de tal compaixão para alcançar o estado de iluminação.  Não só isto, a compaixão é importante para que o mundo possa ser a morada da felicidade.  Se quisermos que o mundo seja assim, precisamos desenvolver a compaixão.  Se começamos por desenvolver a compaixão, o que acontece quando a tivermos aperfeiçoado, quando a tivermos conduzido ao estado supremo?  Na tradição budista chamam de iluminação. 

Gostariam de fazer perguntas?

P:  É possível que este estado intenso de compaixão passe a ser sofrimento para quem pratica?

R:  O tipo de sofrimentos que experimentamos como conseqüência da vivência da compaixão insustentável não pode ser definido como sofrimento porque é a causa da iluminação; é a causa da acumulação de mérito.  Assim, este tipo de compaixão que conduz ao sofrimento de quem pratica, é o propósito dos bodhisattvas!  Eles se regozijam com ele porque é a causa que os conduzirá à iluminação.  

Se conseguirmos chegar ao sofrimento apenas como fruto da meditação na compaixão pelos seres que sofrem, pensem no sofrimento que eles mesmos estão experimentado!  Quando pensamos assim aumenta ainda mais a compaixão.  Quando, por exemplo, você vê o vídeo do WTC e vê as pessoas e o sofrimento por que passam, sente uma compaixão insustentável, imagina agora como se sentem aqueles que estão passando por ele.  Pensa na gente que vemos pular as janelas de um prédio de 100 andares porque o calor era tanto que não podiam mais permanecer ali.  Não podiam fazer nada, absolutamente nada.  Se nos sentimos mal, imaginem aqueles que passavam pela experiência.  Até isto, contudo, apesar do horror, foi por uns instantes e depois acabou.

Nos reinos dos infernos, contudo, os seres passam pelo sofrimento de chamas ardentes por muito tempo e sem interrupção.  Com esta imagem precisamos expandir a nossa compaixão.

P:  Quando sentimos este tipo de compaixão, sentimos tristeza, impotência e desânimo.  O que se pode fazer?

R: Quando você se sentir assim, pense que o sofrimento é fugaz e que a verdadeira natureza da mente não é afetada por ele.  Como a verdadeira natureza da mente de todos os seres sencientes é a budeidade, mesmo as pessoas que passaram por este tipo de sofrimento podem renascer como humanos, praticar o Dharma e alcançar a completa e perfeita iluminação.  Assim explica a tradição budista, baseada na compreensão da realidade do sofrimento, que é fugaz e não participa da verdadeira natureza da mente.  A verdadeira natureza da mente é claridade luminosa, absolutamente isenta de imperfeição.

Podemos observar exemplos, em tempo histórico, de como as coisas podem dar uma reviravolta.  Sabemos que houve um tempo em que nações inteiras se odiavam e se empenharam em guerras mortíferas umas contra as outras. Considerando-se os inimigos figadais, destruíram países inteiros fazendo morrer muita gente e disseminando sofrimento por muito tempo.  Depois mudou, os países se tornam amigos, os que sofreram encontram a felicidade e as terras devastadas prosperam outra vez, porque o sofrimento não é real e a raiva não é inerentemente existente, então as coisas podem mudar e os inimigos podem vir a ser amigos.  Assim, vendo tais exemplos na história deste país, sabemos que não temos motivos para desespero.  Certos países em guerra levaram o seu povo a um tal estado de ânimo que, imobilizados e aferrados ao ego, seus homens se suicidavam na tentativa de destruir o inimigo.

De nossos dias, os países que antes fizeram esta opção são grandes contribuintes para as causas humanitárias e ajudam muitos povos pelo mundo.  Assim eles passaram do extremo sentimento de ódio a contribuir para o bem do mundo.  Vemos que as coisas podem mudar porque, sendo a verdadeira natureza da mente é claridade luminosa, a transformação é possível.

Pessoas que sentem muita raiva podem meditar no amor e virem a ser amorosos.  Pessoas aprisionadas na escuridão da ignorância podem aprender o caminho e seus conhecimentos serão cada vez mais luminosos.  A transformação é possível; na transformação do meio ambiente numa terra pura, os seres sencientes deste lugar são homens e mulheres bodhisattvas, dotados de compaixão e a nossa própria mente dotada de sabedoria.

Esta é a transformação de que nos fala o Mahayana e este é o caminho; o caminho Mahayana é o caminho da transformação e quanto mais segurança nesta verdade vocês tiverem melhor verão que os estados temporários de sofrimento são apenas isto, temporários.  Não têm natureza inerente, são temporários e mudam rapidamente.  No Mahayana se explica que as dez direções estão repletas de reinos dos budas que se manifestam quando um ser senciente purifica a sua mente—faz com que ela seja generosa e nobre—então este mesmo mundo surge como uma terra pura e é uma experiência única.

Terminaremos recitando a última estrofe três vezes,

Pelo poder da grande compaixão dos Vitoriosos,
Dos seus filhos e filhas das dez direções,
E o poder de toda a virtude sem mácula existente,
Possam as minhas preces para aspirações completamente puras
Assim como dos demais seres sencientes,
Serem perfeitamente atendidas.

Dedication of Merit.

Tranduzido por Ari Goldfield.  Copyright 2001, Khenpo Tsultrim Gyamtso Rinpoche.
 
 
 
 
 
 

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