Kalu Rinpoche
Kalu Rinpoche (1904-1989) nasceu no Tibet oriental e após
a invasão chinesa, ele
se estabeleceu em Sonada, na Índia, onde fundou um monastério.
Durante suas
viagens, fundou cerca de cem centros de Dharma e por volta de
vinte centros
de retiro no Ocidente. Ele faleceu em 1989, e seu tulku, reconhecido
por
S.S. o Dalai Lama e pelo Tai Situpa, nasceu na Índia
em 17 de setembro de
1990.
[Ensinamento enviado por Pema Sonam pela rede.]
Os ocidentais atingiram um nível incrivelmente alto de sofisticação
tecnológica. Máquinas produzidas em massa nos permitem
viajar através do ar
em grande velocidade, explorar as profundezas do oceano, e presenciar
instantaneamente o que quer que esteja acontecendo em qualquer canto
do
mundo e até mesmo fora do nosso planeta.
Porém, nossa mente, que está tão próxima
de nós, permanece impenetrável: não
compreendemos o que nossa mente realmente é. Isto é um
paradoxo pois, apesar
de termos refinados telescópios para enxergar a anos-luz daqui
e
microscópios poderosos o suficiente para distinguir os detalhes
atômicos da
matéria, a mente, que o aspecto mais básico e íntimo
do nosso ser, permanece
o mais invisível, desconhecido, misterioso.
Os desenvolvimentos científicos e o controle sobre nossas condições
materiais nos trouxeram um nível relativamente alto de conforto
externo e de
bem estar físico. Certamente, isto é maravilhoso, mas
mesmo assim, o
progresso da ciência e da tecnologia não impede a mente
de permanecer na
ignorância sobre si mesma e, portanto, de ser condicionada e
atingida pelo
sofrimento, frustração e angústia. Para aliviar
estes problemas, é crucial
descobrir e compreender a natureza real de nossa própria mente.
* Compreendendo nossa natureza real
O principal ponto aqui é compreender nossa natureza real, ou
o que somos.
Muitos de vocês sabem muitas coisas; vocês são educados.
Tentem usar suas
capacidades para estudar a mente.
Vocês não devem pensar que este tipo de investigação
se aplica apenas a uma
pequena elite. Cada um de nós tem uma mente cuja natureza é
a mesma para
todos. Somos todos iguais; todos temos o sentimento de existir com
um ego
que está sujeito a todos os tipos de durezas e sofrimento, ansiedades
e
medos. Tudo isto resulta da ignorância sobre nossa natureza básica.
Não há
melhor remédio para eliminar o sofrimento do que alcançarmos
a compreensão
do que realmente somos. Este é o coração de todos
as práticas espirituais.
Todas as tradições espirituais - cristã, hindu,
judaica, islâmica ou
budista - ensinam que o ponto principal é a compreensão
do que somos, em seu
nível mais profundo.
Esta compreensão da natureza da mente se irradia do interior
e ilumina os
ensinamentos de todas as tradições. Em cada tradição,
qualquer um que ganhe,
em primeira mão, a compreensão experiencial da mente,
e que retenha esse
tipo de compreensão, é conduzido a uma visão de
mundo que não seria possível
antes desta experiência direta. O conhecimento da natureza da
mente é a
chave que abre uma compreensão de todos os ensinamentos; ilumina
o que
somos, a natureza de nossas experiências, e revela a forma mais
profunda do
amor e da compaixão.
A verdadeira realização da natureza da mente abre uma
compreensão do Dharma
e de todas as tradições. Porém, ter um bom conhecimento
teórico do Dharma ou
de qualquer outra tradição espiritual, e realizar efetivamente
a natureza
absoluta da mente, são duas coisas profundamente diferentes.
Mesmo um ser
realizado que não esteja envolvido em uma tradição
espiritual particular,
enquanto vive no mundo comum, poderia ter uma influência extremamente
benéfica. Gostaria de enfatizar que isto é verdade independentemente
da
tradição espiritual. Cada tradição é
iluminada por esta consciência, mas
especialmente no caso dos ensinamentos de Buddha, nos quais este
conhecimento constitui o coração e a meta de todas as
suas instruções.
* A realização da mente como sendo a origem de todas as
tradições
Muitas centenas de tradições religiosas se manifestaram
no mundo. Todas elas
surgiram da atividade espiritual iluminada que surge da realização
completa
da natureza da mente. Cada tradição trabalha pelo bem-estar
dos seres, de
acordo com suas necessidades particulares.
Certas tradições religiosas nos permitem ganhar renascimento
nos primeiros
estágios de um reino superior, outras nos reinos divinos do
mundo da forma
pura ou nos reinos sem forma. Finalmente, algumas tradições
conduzem à
realização espiritual definitiva. Mas todas elas nos
ensinam as práticas
necessárias para nos impedir de cair nos reinos inferiores da
existência e
para ascendermos aos reinos superiores. Todas as tradições
nos oferecem
força espiritual e poder de transformação. Neste
sentido, tenho fé em todas
elas.
É útil reconhecer que o cristianismo é um caminho
similar ao budismo por
causa da importância que dão à fé, à
compaixão, às oferendas, à oração, à
generosidade e ao comportamento disciplinado. Acho que aqueles que
aspiram
aos ensinamentos cristãos, e que têm fé neles,
são seres afortunados e,
portanto, podem dar um significado verdadeiro à existência
humana que eles
obtiveram. No budismo, seja no Japão, Laos, Camboja, Vietnã,
Tailândia,
Birmânia, Sri Lanka, Coréia, China ou Tibet, todos os
ensinamentos e
práticas do Dharma têm os mesmos fundamentos e, assim,
os praticantes das
várias escolas são irmãos e irmãs.
Mais especificamente no Tibet, oito linhagens maiores coexistem, mas
hoje
quatro linhagens principais permanecem como escolas. Estas são
as tradições
Sakya, Gelug, Nyingma e Kagyü. Cada uma destas tradições
transmite a palavra
incomparável do Buddha através das linhagens dos sábios
e adeptos que são
como o ouro puro. Eles transmitem o Dharma autêntico, sem corrupção,
que
conduz os seres à liberação da existência
cíclica, à definitiva realização
espiritual.
* A complementaridade das diferentes tradições
Já que toda tradição e linhagem tibetana constitui
um ensinamento autêntico
e completo, poderíamos perguntar, "Então, por que há
tantas?" Em geral, sua
variedade corresponde às variadas capacidades e inclinações
dos seres. Cada
sistema existe para encontrar as necessidades e habilidades particulares
de
diferentes pessoas com diferentes mentalidades.
Pessoalmente, fui discípulo de muitos mestres das quatro tradições
tibetanas. Estabeleci excelentes conexões com cada uma delas
e tenho grande
fé em seus diferentes ensinamentos. Entre meus discípulos,
há muitos
praticantes, lamas e monges destas quatro escolas tibetanas. Além
disso,
gostaria que todos aqueles que seguem os meus ensinamentos tivessem
fé em
todas as tradições. Considero-as imparcialmente, já
que todas elas são
beneficiais para diferentes pessoas, com afinidades específicas
que são
derivadas de suas conexões prévias.
Todas as tradições insistem sobre a disciplina procedida
de uma compreensão
do karma como um modo de mudar radicalmente o nosso pensamento condicionado,
e como a base para proceder ao estado de Buddha. Além disso,
cada tradição
possui sua própria coleção de ensinamentos e instruções
práticas, surgidas
das experiências pessoais dos mestres de cada linhagem.
Em geral, ter fé em todas as tradições é
um sinal de profunda compreensão
dos ensinamentos. Porém, é absolutamente necessário
engajar-se em uma
tradição, receber dela instruções detalhadas,
ser introduzido às suas
práticas essenciais e, então, praticar principalmente
estes ensinamentos, de
maneira apropriada.
Assim, independente da escola ou mestre de quem se recebeu ensinamentos,
devemos tentar adotar uma atitude imparcial e nos devotar à
prática com
aspiração total. Por outro lado, se meramente nos lembrarmos
de algumas
frases aqui e ali, tomando apenas certos aspectos dos ensinamentos,
e
brincarmos de ser praticantes, será bem difícil de ganharmos
qualquer
benefício significativo.
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