O dia de hoje está sob ótimos auspícios e é extremamente feliz, pois transcorre com uma preocupação de aproximação e de abertura. É uma grande chance estarmos todos assim reunidos. Muitas autoridades foram sensíveis a nosso apelo: padres, frades, vieram representar o Cristianismo, os prefeitos de La Boulaie e dos municípios vizinhos, assim como muitas outras pessoas vieram gentilmente assistir a este colóquio. Este encontro alegra-me profundamente: nele representarei o Budismo. Há muitos e muitos anos, durante uma era cósmica muito afortunada, os seres humanos viviam felizes. Havia muito poucas falhas em suas mentes. Viviam em harmonia uns com os outros. Não conheciam hierarquia, dirigentes, nem padres nem lamas. As pessoas viviam simplesmente felizes entre si. Depois, o aumento dos erros veio perturbar suas mentes: a cólera, a inveja, etc. Seu mérito diminuiu e, por isto, a harmonia em que viviam rompeu-se. Começaram a matar, a mentir, a roubar. Foi necessário instaurar-se uma organização social. Foi então que apareceram os primeiros "chefes". Nessa época não havia religião, muito menos Budismo, Cristianismo ou qualquer outra, porque simplesmente as pessoas eram felizes, e assim sendo, não sentiam necessidade de praticar uma religião. Mas os erros tornaram-se cada vez mais fortes, o sofrimento começou a desenvolver-se, cresceu o desentendimento, o mérito diminuiu. E revelou-se o que o Budismo chama de "as Três Jóias". As Três Jóias são: o Buddha, o Dharma, que são seus ensinamentos, e a Sangha, que é a comunidade dos seres que praticam estes ensinamentos (ver adiante a primeira pergunta). å e os Cristãos, "Deus": chegara o momento de ajudar os seres. Em todo lugar afligido pelo sofrimento ou pelas paixões negativas, uma tradição religiosa é uma fonte de felicidade, bem-estar e alegria. Seus benefícios são muito grandes. Vinte e sete anos atrás, nossa vizinha, a China, foi arrancada ao Dharma: seguiram-se muitos sofrimentos, querelas e guerras ... enfim, muitos atos nocivos. A China conheceu um período em que o Cristianismo e o Budismo foram banidos. Pela graça das Três Jóias, este estado de coisas agora melhorou e na maior parte dos países da Ásia os povos encontraram um certo bem-estar e uma certa felicidade. Se é possível existir sobre esta terra uma certa paz social, estruturas que permitam viver-se em harmonia, nós o devemos às pessoas que, em diversos níveis, dirigem e administram os países. Hoje, essas pessoas, os prefeitos das cidades, aqui vieram. Há muito tempo apareceram as diferentes religiões: a religião Cristã, a religião Budista e outras. Hoje estão também presentes representantes da religião Cristã e da religião Budista. O sentido fundamental das duas tradições é o mesmo, apesar de pequenas diferenças. Por exemplo, em termos budistas, um padre chama-se "lama", que quer dizer "mãe insuperável", enquanto que entre os Cristãos, em vez de se dizer "mãe", diz-se "pai". Seja como for, hoje, pais, mães, filhos, estamos todos reunidos como uma só família. A história de Kagyu-Ling talvez lhes seja conhecida: começou com Chris e seu marido, que ofereceram este castelo e este terreno para que se tornassem um centro budista. Desde então, o centro desenvolveu-se consideravelmente. Mas seu destino não é tornar-se "minha" casa, que eu nele resida tranqüilamente ou que tenha bens que me sejam próprios. De jeito nenhum. Eu mesmo não moro aqui, vou de lugar em lugar, viajo muito. O ponto de vista que presidiu a fundação era o de fazer deste um lugar benéfico a muitos seres, onde muitas pessoas pudessem reunir-se e tratar de coisas que lhes fossem úteis. Era esta a motivação de origem, e é graças à ajuda de todos vocês, que têm a mesma visão das coisas, que o Centro pôde desenvolver-se. Para cuidar deste Centro, aqui deixei o lama Sherab, o lama Tenpa e o lama Orgyen. Eles tiveram um enorme zelo, fizeram o que eu lhes havia pedido, e o Centro desenvolveu-se. O Ocidente conhece, no momento atual, um período próspero, e isto é bom. É um meio para que a terra inteira possa conhecer um período de paz e de prosperidade. Como vem a felicidade, como vem a paz para uma comunidade em nosso mundo? Isto vem do fato de que existem pessoas que são cristãs ou que são budistas, e que mostram o caminho que conduz à felicidade e à harmonia. Este caminho é o caminho do amor, o caminho da compaixão. Se conseguirmos, logo de início, estabelecer uma certa felicidade, uma certa paz para nós mesmos, comunicamos em seguida esta paz àqueles que nos são próximos, a nossa família. Assim crescem em nós o amor, a compaixão. É um segundo passo extremamente benéfico. Estabelecer relações harmoniosas com os membros de nossa família conduz, a um nível mais amplo, a relações harmoniosas entre países. As relações internacionais dependem em grande parte dos dirigentes, de sua própria atitude. Se certos dirigentes têm uma mentalidade agressiva, invejosa ou expansionista, o resultado será o sofrimento para muitos países. De que modo as guerras, as querelas entre os países vêm das emoções? Se, por exemplo, os dirigentes de um país têm um grande desejo de dominação, de posse, vão querer apoderar-se de um outro país. Se são invejosos, temerão que um outro país seja mais importante que o seu. Se são agressivos, terão o desejo de aniquilar. As emoções perturbadoras são, assim, a origem dos conflitos, dos sofrimentos, das guerras. Qual é, então, o melhor meio para estabelecer-se a paz, a felicidade, para evitar as guerras e os conflitos? Na religião Cristã, fala-se de Deus, no Budismo, das Três Jóias. Seja como for, seja Deus, sejam as Três Jóias, eles são dotados de uma graça que comunicam, têm uma imensa compaixão por todos os seres e por nós, se nos ligamos a eles através da oração. Este é o meio principal para estabelecer a paz e a felicidade. Existe, entretanto, um outro meio, que é fazer com que nós mesmos, e cada um dentre nós, diminua as emoções perturbadoras. Para isto é necessário desenvolver o amor e a compaixão. Desenvolvê-los cria o que chamamos de mérito espiritual, uma espécie de reservatório positivo, e a força deste mérito é tão grande, que no futuro conduzirá a situações felizes para a própria pessoa e para os outros. O que chamamos de povo talvez não tenha muito poder: isto é em parte verdadeiro, pois ele deve curvar-se às ordens dos governantes. Mas ele tem, assim mesmo, um certo poder, à medida em que, se muitas pessoas dizem a mesma coisa, pedem a mesma coisa, podem-se fazer ouvir. Nossa terra compõe-se de um grande número de países diferentes. Se, dentro de cada país, as pessoas se preocupam com seu desenvolvimento mantendo, ao mesmo tempo, uma atitude fraternal para com as demais nações e um desejo de ajudar aquelas que estão em dificuldade, isto será extremamente benéfico para todo o mundo. No momento em que um país ameaça iniciar um conflito, penso que, se todo o mundo denunciar essa atitude, muito ajudará à manutenção da paz na Terra. As diferentes religiões, seja a tradição cristã, a tradição budista, etc., mostram o caminho do amor e da compaixão, o caminho da paz. Hoje, as duas tradições estão reunidas: é uma ocasião realmente excepcional. Fiz várias vezes a volta ao mundo e dei refúgio a milhares de pessoas. Cada vez, expliquei às pessoas que tomavam refúgio que aquilo significava exprimir sua confiança nas Três Jóias. Não quer dizer renunciar a uma outra tradição. Elas mantêm não só o direito de conservar sua fé em outras tradições, como também o de praticar uma outra tradição, qualquer que seja, Budismo ou outra religião: é o mesmo caminho que é ensinado. Pode-se tomar uma xícara de chá e, separadamente, uma de leite; pode-se também misturar os dois: de qualquer modo estanca-se a sede, o resultado é idêntico. Do mesmo modo, existem diferentes tradições: pode-se praticar várias, pode-se praticar uma só. A finalidade é a mesma, ou seja, ir ao auxílio dos seres, agora, nesta vida, e após esta vida. Fazem-me a seguinte pergunta: "Se todas as religiões têm uma só finalidade, se todas, no fundo, se equivalem, por que existem tantas, para que serve esta multiplicidade?" Eu respondo sempre que a pluralidade das tradições espirituais é necessária. Por quê? Suponhamos que você vá a um restaurante. A proposta é um só prato, mas o cardápio oferece uma escolha mais ampla de comida. Todos os pratos terão a mesma finalidade, que é a de nutri-lo, mas alguns preferem nutrir-se com um certo alimento, enquanto que outros, com um outro. Assim também, no domínio espiritual, alguns preferem essa ou aquela abordagem. Todas as tradições são necessárias, seja em um lugar como este, ou em outro. As dificuldades ou as facilidades com que se defrontam os centros espirituais vêm principalmente das pessoas que dirigem a administração do lugar. Por exemplo, o prefeito do lugar, conforme contou-me o lama Sherab, assim como as autoridades dos municípios vizinhos, tiveram sempre uma atitude muito benevolente para com Kagyu-Ling. Sempre fizeram o possível, dentro de suas respectivas atribuições, para auxiliar o desenvolvimento do Centro. Muito lhes agradeço. O Budismo foi introduzido no Tibete pelo mestre indiano Padmasambhava. O Tibete era, na época, dirigido pelo rei Tritsong-Detsen. Um provérbio tibetano louva essas duas personalidades falando de Padmasambhava como mestre espiritual e de Tritsong-Detsen como rei imutável. Assim também em Kagyu-Ling, graças à cooperação do poder temporal e dos representantes espirituais, tudo sempre transcorreu muito bem ... Do ponto de vista budista, não temos apenas uma só vida. Depois desta, teremos muitas outras. Nessas, é muito importante que encontremos condições em que possamos ser felizes, em que possamos viver em paz, em que possamos ter uma atitude harmoniosa com todos os seres. Se agora os representantes da nação, da administração, de quem depende Kagyu-Ling, exercem sua autoridade pelo bem comum, e se, por sua vez, os responsáveis por Kagyu-Ling respeitam escrupulosamente todas as exigências administrativas, a situação será simplesmente excelente. Em termos budistas, fala-se de "puros campos" de manifestação, em termos cristãos, fala-se de "paraíso". Se fizermos uma comparação, é mais ou menos como uma cidade grande como Paris: para ir a Paris podemos tomar um trem, podemos ir de automóvel. Do mesmo modo, sejam mestres budistas ou mestres cristãos, todos têm a função de mostrar o caminho que vai para os "puros campos" ou o "paraíso". Antigamente não havia relações entre os budistas e os cristãos. Agora elas começam a se estabelecer. Ainda que eu não tenha um conhecimento muito detalhado da religião Cristã, pude compreender que havia laços extremamente próximos entre essas duas religiões. Ambas consideram a fé, a compaixão, o amor, a conduta ética, como muito importantes. Muitos elementos aproximam essas duas tradições e laços de cooperação fraternal só poderiam ser positivos. Pode-se dizer que, de certa maneira, um mosteiro budista é um mosteiro cristão, e que um mosteiro cristão é também um mosteiro budista. A essência do que é praticado é a mesma. Para expor as relações que ligam as duas tradições, vieram hoje representantes muito qualificados. Vou passar-lhes a palavra e escutá-los. FREI JEAN-BAPTISTE, do Mosteiro da Pedra-que-Vira Redigimos um pequeno texto, para que não seja eu quem fala, e sim nós quatro, em nome do Mosteiro, e também para ser breve. Há quase oito anos, Kagyu-Ling e a Pedra-que-Vira intercambiam fraternalmente suas publicações espirituais, e, por isto, tivemos a alegria e a oportunidade de ler o ensinamento do Venerabilíssimo Kalu Rinpoche intitulado "Um princípio de paz mundial: amor e compaixão". Podemos dizer o quanto esse ensinamento concorda com o que nós recebemos de Jesus Cristo e do patriarca dos monges do Ocidente, São Bento. Em seu "Sermão da Montanha", chamado "das Bem-aventuranças", o Cristo proclama de fato: "Felizes daqueles que trabalham pela paz: eles serão chamados 'Filhos de Deus'". São Bento, já no prólogo da regra dos monges, cita a seguinte passagem das Escrituras: "Se queres a vida, procura a paz, e segue-a". Esta paz é, primeiramente, para ser estabelecida em si mesmo, pois, para tornar-se pacificador, é preciso primeiro ser pacificado. Como diz o Venerabilíssimo Kalu Rinpoche, para eliminar a causa da agressividade e da guerra, é preciso trabalhar a nível da mente individual, porque desta mente partem as emoções, a cólera e o ódio que conduzem ao confronto. Também isto nós temos em comum. O Cristo nos diz: "Por que buscas remover uma palha do olho de teu vizinho, enquanto tens, no teu, uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave que tens no teu olho, e assim verás claramente para tirar a palha do olho de teu vizinho". Entre os três votos que pronuncia o monge beneditino, existe o da conversão, que é o compromisso de trabalhar com generosidade, a afastar-se do pecado e das paixões negativas. Após evocarmos esta consonância inicial com aquilo que é o fundo do ensinamento do Venerabilíssimo Kalu Rinpoche, exporemos agora - e esta será a abordagem original da comunicação que nos foi solicitada - em que contexto de fé e através de que meios os monges cristãos mobilizam-se para uma pacificação do coração que os torne aptos a trabalhar pela paz do mundo. São Bento dá a seus monges instruções precisas, uma regra para passar do eu egoisticamente voltado sobre si mesmo para um eu em relação. Assim fazendo, ele concretiza, em situações precisas, aquilo que Jesus ensinava a seus discípulos como imperativo essencial: "Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente, com todas as tuas forças, e amarás a teu próximo como a ti mesmo". O trabalho de destruição das paixões pela prática virtudes contrárias: a humildade opondo-se ao orgulho, a pobreza à cobiça, a obediência à arrogância, etc. faz-se menos através de extensas análises teóricas seguidas de introspecção do que por um esforço de semelhança que Deus nos deu: o Cristo Jesus. Assim, São Bento sugere condutas inspiradas na mente do Cristo em alguns casos concretos: como comportar-se para com os irmãos doentes ... para com os demais ... O que fazer se o superior ordena coisas difíceis? Com que disposição de serviço deve o superior conduzir os irmãos? Como rezar quando se está viajando, etc. E é sempre o Cristo Jesus quem está ao fundo em todas as maneiras de agir que são propostas. Assim, pouco a pouco, sem sentir, com altos e baixos, passa-se a pensar e a agir com Jesus e como ele, isto é, percebe-se por experiência que Deus é verdadeiramente nosso pai. Como Jesus é o filho de Deus, a semelhança com ele e com sua mente introduz-nos nesta mesma relação filial consciente. Assim compreendemos, de modo natural, que esta fraternidade de Deus estende-se a todos os homens e a todas as mulheres de todos os tempos e de todos os países, e que assim, em Deus nosso pai somos todos irmãos e irmãs. Estas palavras de São João têm um significado profundo: "Deus é luz"; e, se andamos, como ele, na luz, estamos em comunhão uns com os outros. "Aquele que ama seu irmão permanece na luz": este é o resumo de nossa marcha em direção a esses objetivos que temos em comum com vocês para promover a paz do mundo, que o Venerabilíssimo Kalu Rinpoche tão bem salientou em seu livro sobre a pacificação do coração e a compaixão universal. Que todos nós possamos progredir com felicidade, com os meios próprios a cada um, em direção a objetivos tão importantes! Esta é uma oração pela paz tirada de nossa tradição cristã: "Senhor, tu que amas a todos os homens e que os criaste para serem felizes, ensina-lhes a viverem juntos em seu coração e a tratarem-se verdadeiramente como irmãos". Por fim, um pensamento que encontramos na atualidade, palavras de Indira Gandhi: "Abandonei a amargura e o ódio, e minha vida é curta demais". PADRE DARGAUD, Representante do Senhor Bispo de Autun. Não estava previsto que eu fizesse uso da palavra no dia de hoje, mas é com prazer que o faço. Encontrei, na semana passada, nosso bispo, padre Lebourgeois. Dizia-me que lamentava não poder estar entre nós nesta ocasião, para a qual havia sido convidado. Pediu-me que o representasse, o que fiz de bom grado. E estou muito feliz porque descobri hoje mais ainda como estávamos próximos uns dos outros, na grande fraternidade universal. Antigamente, no tempo em que as viagens eram difíceis, em que as comunicações não existiam, os cristãos pensavam que eram praticamente os únicos a viver sobre a Terra, e mal se imaginava que outros houvesse. É possível, contudo, que as religiões orientais tivessem o mesmo pensamento. Hoje, as relações são muito mais fáceis, e damo-nos conta de que há uma imensa diversidade, mas os caminhos diversos se reúnem, e não repetirei as palavras que ouço há alguns minutos e que me lembram de minha própria fé. Quando ouço falar de compaixão, de amor, sinto-me totalmente em casa, e quando falamos da busca da felicidade, é exatamente como o Evangelho. É exatamente como as "Bem-aventuranças". ABADE ALAIN DUGAS, de Autun Estou realmente tomado de surpresa: não sou homem de discursos. No entanto, gostaria muito de responder a algumas perguntas, se alguns de vocês desejarem algum esclarecimento, na medida em que posso oferecê-los, como também posso dizer algumas palavras sobre minha percepção do Budismo. Faço referência a um pensamento deste maravilhoso sábio, creio eu, que era Milarepa, que disse que o cume da montanha existe, qualquer que seja o caminho que tomemos para lá chegar. Sou obrigado a constatar que nós, humanos, preferimos parar no meio do caminho para fazer cálculos sobre pequenos seixos, sobre as diferenças do caminho ao lado, quando deveríamos ter os olhos voltados para o cume da montanha. Queria agradecer ao Venerabilíssimo Kalu Rinpoche e ao senhor, lama Sherab, por terem vindo a esta região, totalmente por acaso, se me permitem evocá-lo. Há dez anos, na época a que se referiu o Venerabilíssimo Kalu Rinpoche, recebi um telefonema: dois jovens procuravam um local para estabelecer um centro Budista. Para mim, o que era o Buda? Um ser com uma grande barriga. E descobri que se tratava de algo completamente diferente. Estes dois jovens trabalharam com dificuldade, e houve dias em que me deixavam um pouco perturbado ... E um belo dia deram a Kalu Rinpoche o local de Plaige, que se tornou o primeiro mosteiro budista da França. Obrigado, Chris! Não vejo nada que se possa acrescentar, a não ser que nós, cristãos, nós, católicos, teríamos muito a ganhar não apenas através de encontros, como este, mas tentando perceber a doutrina do Budismo. Teríamos muito a aprender com ela. Encontraríamos muitos meios para desenvolvermos nossas próprias raízes. Penso que há uma pessoa muito melhor qualificada do que eu para falar sobre isto, que é o Reverendo padre de Give, Trapista, que, por sua vocação, é chamado ao silêncio e à oração, e que poderá talvez nos dizer pessoalmente de que modo o Budismo poderia ajudar a nós, cristãos, que perdemos um pouco o sentido do silêncio e da oração, e encontramos o sentido - vou ser completamente maldoso - dos discursos e do blá-blá-blá, das palavras, palavras ... REVERENDO PADRE DE GIVE, Trapista (Bélgica) Não sei se corresponderei completamente à expectativa do padre, ou desta reunião que tem por finalidade a paz. Talvez seja preferível lembrar, em algumas palavras, o papel dos monges neste encontro. Não tomarei muito tempo, e disponho-me a responder às perguntas que surgirem sobre questões de doutrina. Em 1977, há já sete anos, a Ordem Beneditina tomou uma iniciativa. Nossa Ordem pertencia à A.I.M. (Auxílio à Implantação Monástica). Todos sabem que não há poucos mosteiros na Europa, na América do Norte, mas especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, houve um grande número de novas fundações, sobretudo na África, na América Latina e um pouco na Ásia. Compreendíamos que esses mosteiros eram pobres, não tinham tradições e encontravam grande dificuldade para ter uma quantidade suficiente de livros e até mesmo de homens para formá-los. É isto a A.I.M., Auxílio à Implantação Monástica. Mudamos o significado da sigla, receando um certo "ranço" colonialista. O nome é hoje Auxílio Inter-Mosteiros; quer dizer que nós, os mosteiros da Europa ou da América do Norte, queremos ajudar aqueles dos outros continentes, do Terceiro Mundo, portanto. Em 1977, na Abadia de Béthanie Lophem, perto de Bruges, na Bélgica, reuniu-se um grupo de monges que tinham uma certa experiência em países não-cristãos - particularmente países da Ásia, onde havia um possível contato com o Hinduísmo e com o Budismo, as grandes religiões não-cristãs. Durante uma semana inteira, éramos vinte monges e monjas, no sentido estrito do termo, e não Jesuítas, Dominicanos ou Franciscanos. Éramos Beneditinos e Trapistas. Tratava-se de ver de que modo poderíamos entrar em contato com os monges - no sentido estrito do termo - das grandes religiões asiáticas. Agora há pouco, durante o almoço, lembrei-me disto outra vez, e o espantoso não é que não tenhamos pensado nisto, mas que o tenhamos feito tão tarde, que tenham sido necessários séculos, para não dizer milênios, para que pensássemos nisto. É surpreendente. Já que existe uma grande tradição monástica dos dois lados, sabe Deus se tem alguma importância na vida, mesmo que a pessoa não tenha o nome de monge, que seja chamada de syannyasin ou de swami. No Budismo, são absolutamente primordiais, são a espinha dorsal do Budismo, as ordens monásticas. E, no fundo, entre nós também, se quisermos encontrar um reabastecimento espiritual, todos, inclusive os padres em atividade, ficarão felizes ao se encontrarem de novo em um mosteiro. Os padres aqui presentes vão concordar comigo. A vida monástica, posso dizê-lo, é fundamental em todas as grandes religiões. Como é possível, então, que durante séculos tenham podido ignorar-se ou mesmo veicular representações falsas, caricaturas, contra uma outra religião? Fizemos, então, é claro, um estudo entre nós ... uma rememoração. Chamamos especialistas nos diferentes tipos de Budismo e Hinduísmo. E cada um de nós pôde ingressar livremente nesse pequeno grupo que chamamos de "Diálogo Inter-religioso Monástico". Gosto muito desta denominação "diálogo": não se trata de uma missão, nem de uma luta, vamo-nos falar fraternalmente. "Inter-religioso": tomando como referência as atividades do padre aqui presente, que faz ecumenismo entre cristãos, fazemos ecumenismo, diria eu, dez vezes maior: ir ao encontro das grandes religiões, que poderiam até mesmo ignorar o Cristo, o Evangelho, não importa... "Monástico": os agentes desse encontro são monges propriamente ditos, exclusivamente. Entre parênteses, meu desejo seria ver, desde aquela época, alguns Cartuxos entrarem nessa atividade que me parece absolutamente capital no mundo atual e no futuro. Mas vocês sabem que sua regra muito estrita os impede, em suma, de sair. Hoje mesmo pudemos constatá-lo. Felizmente teremos, creio eu, esta bela produção cinematográfica que porá a Cartuxa diante de nossos olhos. Seria melhor termos um Cartuxo entre nós. É um desejo que ainda tenho. É preciso que as grandes ordens monásticas entrem nesse movimento. Isto só pode fazer bem, para fazer com que os Hinduístas e Budistas compreendam realmente o que é o Cristianismo. Caso contrário, que visão falsa teriam: ao passear por nossas grandes cidades modernas, onde está o Cristianismo? Escolhi de maneira totalmente livre os monges tibetanos. E por quê? Seis semanas após essa reunião em Béthanie, estávamos em Praglia, uma grande abadia Beneditina da Itália. Há muitas abadias na Itália, mas esta é ótima sob todos os pontos de vista: religioso, intelectual, número de monges, dinamismo, etc. E o abade, que é um de nossos monges mais jovens, Giorgio Giurisato, que vocês sem dúvida conhecem, teve a incrível audácia de convidar para uma semana em seu mosteiro, há uns 7 ou 8 anos, grandes chefes religiosos de todas as linhas do Hinduísmo e do Budismo. Estavam presentes grandes chefes religiosos do Hinduísmo, um swami de Rishikesh, lá estava o chefe supremo da Mahabody Society de Londres no Budismo Theravada, um dos maiores. Lá estava Gueshe Rabten e um jovem tulku, Gomsar Tulku, dos tibetanos, vindos da Suíça. Também um grande estudioso da Birmânia, que está elaborando um grande dicionário técnico dos termos do Budismo comparados com línguas internacionais; enfim, estávamos bem servidos. Desde a primeira noite, alguns dentre os monges orientais pediram a palavra para dizer que já, em um dia, após viverem a vida beneditina, apenas em um só dia - a liturgia, a fraternidade, eles estavam conosco no refeitório e viviam completamente entre nós - estavam profundamente edificados. Creio que até agora - Kalu Rinpoche o dirá melhor que eu - jamais ouvi críticas. É o mínimo que se pode dizer. Mas é preciso falar também nos dois sentidos. Este seu servo aqui também já viveu bastante tempo em uns quinze mosteiros Budistas na França, na Suíça, na Grã-Bretanha, na Índia e no Nepal. E posso dizer, é um testemunho totalmente claro, que nada vi, absolutamente nada, que me tenha escandalizado ou até mesmo levemente chocado. Meu testemunho é absolutamente positivo. Estou certo de que um monge cristão normal, equilibrado, diria o mesmo. Existem pequenos defeitos em toda parte, a natureza humana é a mesma. Não é isto que vai espantá-los. Mas é preciso ver a vida espiritual de um mosteiro. E na mesma medida em que eles ficam profundamente edificados com a Pedra-que-Vira, por exemplo, ficamos profundamente edificados com os mosteiros Guelugpa e Karma-Kagyu. É maravilhoso que esses tibetanos, que se encontram no exílio, que atravessaram o Himalaia e que não tinham mais um tostão, que estavam longe de casa - haviam destruído seus mosteiros, massacrado os monges, não tinham mais qualquer direito em seu país - recém-chegados à Índia, tendo apenas condições de sobreviver, tiveram como primeira preocupação a fundação de mosteiros. E vocês sabem o que acontece hoje em dia: Gaden, Drepung, Sera são novamente grandes nomes no monasticismo Budista. Só se fazem boas comparações dentro do mesmo nível. Tivemos grandes místicos no Cristianismo. Pois bem, vocês tiveram grandes místicos no Budismo: Marpa, Milarepa, e todos os outros, assim como toda a tradição de Atisha. São estes os correspondentes a São Bernardo, São Domingos, Santa Teresa de Ávila. Vocês tiveram também homens extremamente caridosos e devotados. Não é preciso ir muito longe para ver que quando eles falam de compaixão, e que nós falamos de caridade cristã, no fundo quer dizer a mesma coisa. De resto, responderei às perguntas, se houver. Quis, porém, ressaltar o seguinte ponto: se houve alguma vez um grande encontro no mundo, foi o encontro entre os grandes monasticismos. PERGUNTAS - RESPOSTAS PERGUNTA - padre Dargaud Ouvi falar há pouco das Três Jóias. Queria saber do que se trata. RESPOSTA - Venerabilíssimo Kalu Rinpoche O que são as Três Jóias? A primeira é a principal, é o Buda - "Sangye", em tibetano. Todos nós, todos os seres, temos uma mente. Mas somos o que se chama de seres ordinários, isto é, nossa mente, ao invés de existir sob um aspecto puro, é semelhante à água misturada com impurezas. É o que chamamos de mente ordinária. Um Buda, entretanto, é um ser cuja mente é livre até da menor das impurezas, é uma água perfeitamente pura. A primeira sílaba da palavra, "sang", significa "totalmente purificada". Qual é a verdadeira natureza de nossa mente, esta natureza pura? Primeiramente, diz-se que nossa mente é vazia. Mas o que é que isto significa? Simplesmente que não se pode atribuir uma forma à mente, nem uma cor, nem um volume. Ela é sem limites, penetra tudo, é vazia como o espaço e, ao penetrar tudo como o espaço, penetra todas as coisas. Nossa mente, no entanto, não é vazia como o céu vazio. Este fundamento vazio da mente contém a faculdade da criação. Se, por exemplo, pensarmos na Índia, nossa mente pode produzir a imagem de um certo lugar da Índia. É isto que chamamos a clareza da mente. Um terceiro aspecto descreve a mente. Quando pensamos na Índia, pode-se comentar este pensamento e dizer: "É a Índia". Esta é a faculdade do conhecimento, conhecimento sem descontinuidade da mente. Estes três aspectos - vacuidade, clareza, conhecimento - estão em todos nós, já presentes, como uma semente. Não é a flor, ainda, é simplesmente a semente da flor. Quando a flor se abrir, será a mente de um Buda. Nós mesmos não reconhecemos este aspecto fundamentalmente puro da mente. Esta simples falta de conhecimento é o que se chama de ignorância. Sobre esta base de não-reconhecimento, de ignorância, lá onde só existe a vacuidade, cremos que existe realmente um eu, um ego. Por outro lado, tomamos tudo o que aparece e que, de fato, é apenas a mente, o aspecto de clareza e de criatividade da mente, como sendo "outro", como objeto. Da ignorância vem a apreensão dualista: conceber o mundo em termos de "eu" e de "outros": é isto que se chama também de véu da tendência fundamental, a tendência dualista. Desta apreensão dualista vêm todas as emoções perturbadoras: a cólera, o desejo, a inveja. Agindo sob seu domínio, acumulamos karma negativo, realizamos atos negativos que terão conseqüências infelizes no futuro. Temos, então, quatro véus no total: o véu da ignorância, o véu da apreensão dualista, o véu das emoções perturbadoras, o véu do karma. Uma mente que funciona coberta por estes quatro véus é uma mente ordinária, que experimenta toda espécie de sofrimentos, toda espécie de experiências boas ou más. Com o desenvolvimento progressivo , na mente, do amor, da compaixão, da conduta ética, da doação, etc., todas estas impurezas, todos estes véus se dissipam: ficamos purificados. É o sentido da primeira sílaba da palavra Buda em tibetano, "sang". Quando a mente está totalmente purificada, todas as qualidades que lhe são inerentes desabrocham: a segunda sílaba, "gye", significa "desabrochado". Buda significa, então, completamente puro, completamente desabrochado. Suponhamos que o céu esteja coberto de nuvens. Estas nuvens são semelhantes aos véus de nossa mente. Quando as nuvens se dissipam, as qualidades próprias do sol se revelam por si mesmas. É a mesma coisa. Diz-se que as qualidades da mente de um Buda são infinitas. Ela é toda amor, toda compaixão, ela tem todo o poder de proteção, ela tem toda a força para ajudar os seres. Penso que o que chamamos de Buda, e o que os cristãos chamam de Deus são uma só e a mesma coisa. O Buda, pode-se igualmente dizer "o Despertar", mostrou caminhos para o bem dos seres, para dissipar seu sofrimento, para conduzi-los, finalmente, ao estado de Buda. Esses caminhos são o que se chama o "Dharma", que é a segunda Jóia. A terceira Jóia são aqueles que, tendo praticado o caminho espiritual, atingiram um nível de realização - não último, mas já muito elevado. Eles habitam nas dez terras dos Bodhisattvas e transmitem seus ensinamentos. Constituem a Sangha, a comunidade, a terceira Jóia. Parece-me que se pode fazer um paralelo com o Cristianismo. No Cristianismo temos Deus, que é a Total Pureza. De Deus vêm os ensinamentos cristãos, e alguns seres, colocando-os em prática, atingem um grau de santidade, e os transmitem. Poder-se-ia dizer que estas são as "Três Jóias Cristãs". No Budismo, fala-se no "corpo de manifestação": o Despertar toma um corpo para se manifestar e isto em diferentes graus. O "Supremo corpo de manifestação" se manifestou, em nossa era, sob a forma do Buda Sakyamuni que atingiu a realização em Bodhgaya, na Índia. Diz-se que um ser assim, um "corpo de manifestação Suprema", é dotado de um número incalculável de qualidades; descreve-se assim o Buda como tendo cento e doze qualidades físicas, sessenta qualidades da palavra e trinta e duas da mente. O Buda Sakyamuni deu numerosíssimos ciclos de ensinamentos. Distinguem-se, tradicionalmente: o pequeno veículo, o grande veículo, o veículo de diamante. Diz-se que, ao todo, foram dados pelo Buda oitenta e quatro mil tipos de ensinamentos. O próprio Buda disse que havia muitas outras tradições além do Budismo, mas que todas essas tradições não eram senão a manifestação do Despertar Último, para o bem dos seres, e que, por isto, todas eram boas. PERGUNTA: Existe, entre os Cristãos, a reencarnação ou alguma coisa semelhante? RESPOSTA: o padre Trapista de Give Creio que é preciso dizer claramente que não existe esta doutrina no Cristianismo. Ela existiu de maneira totalmente episódica, diria eu superficial, e não central, dentro de certas doutrinas de Orígenes, entre os primeiros grandes teólogos cristãos. Orígenes vivia por volta do ano 240 de nossa era, e não está na tradição do Cristianismo original. Mas ele queria explicar a fé cristã, em termos compreensíveis para os gregos e, como vocês sabem, em Platão, no Platonismo que se seguiu, existe uma teoria muito poética da reencarnação. Orígenes a tomava unicamente com este fim. Chocava-o muito a idéia de haver condenados para sempre. E ele queria dar-lhes uma outra chance, em uma vida, para reparar a precedente. É uma doutrina que nunca se disseminou, ao contrário do que se ouve dizer hoje em dia. Existem Origenistas entre certos monges do Egito ou da Palestina. Esta jamais foi a doutrina da Igreja Católica como tal. Em 543, exatamente, por ocasião de um concílio local em Constantinopla - não era o Concílio Ecumênico de Constantinopla (533) - o imperador Justiniano mandou condenar o Origenismo baseando-se principalmente nos textos de São Jerônimo, por exemplo, que muito lutou contra isto. Tudo para dizer que foi uma coisa extremamente limitada historicamente. Não estou falando como católico, mas como historiador. Antes de Orígenes, não havia praticamente nada, nem na Igreja Católica, nem no Judaísmo, nem mais tarde no Islã. Isto é estranho a nós e, em Orígenes, figura apenas como aproximação para o diálogo com os filósofos gregos, não tendo sido tirado de sua fé cristã nem das páginas da Escritura, e não tendo sido jamais disseminado. Ouvi dizer, mas de pessoas que não são historiadores, e que falam em bloco: "Toda a Igreja Católica sempre acreditou na reencarnação, e isto até o dia em que um Concílio Ecumênico disse: "Pronto, não acreditem mais nisto e não podem mais acreditar". Isto é completamente falso historicamente. Entretanto, existem certas coisas, se pensarmos bem, que são aceitáveis, que são o seguinte: se for bem compreendida, a lei do karma - toda causa tem seus efeitos necessários e inevitáveis - é praticamente bom senso, mas é evidente. Se uma pessoa, por exemplo, bebe além da medida, torna-se um bêbado inveterado, e não sairá disto. Daí advirá uma série de calamidades para sua saúde e para sua psicologia, para sua mulher e seus filhos, para a economia de sua casa, etc., são conseqüências inevitáveis. Mas isto também é válido para as boas ações. Uma pessoa que luta contra si mesma, contra sua cólera, torna-se pouco a pouco suave e amável. Ela melhora a si mesma, melhora o clima em sua família, em seu local de trabalho, em seu escritório, etc. Tudo isto traz frutos. Se é isto o karma, o fato de que um ato traz necessariamente seus frutos, um católico também o aceitará. Porém dizemos: "Converta-se nesta vida", ao passo que um Hinduísta, sem falar num Budista, dirá: "Você tem talvez milhares de vidas para se recuperar". De certo modo a coisa é mais grave conosco. Cantaram para mim durante toda minha infância: "Tenho uma só alma para salvar, da chama eterna vinde me livrar". Um Budista não diz isto. Ele diz: "Depois desta vida eu terei outra". Estes são casos - e temos que admiti-los, é claro - na história das religiões em que duas religiões não dizem a mesma coisa. Isto não me incomoda, porque são muitas vezes questões que não são absolutamente centrais. O que é central é o que Kalu Rinpoche nos disse há pouco, a respeito de "Sangye", esta pureza fundamental da mente à qual nós também tentamos chegar. Ele chegou até a dizer, ao final: "Buda, eu considero que é como Deus". Bem sei que isto é um pouco espantoso quando se ouve pela primeira vez, mas se vê bem o que é que ele quis dizer. Trata-se - e isto é sério - de tomar as grandes religiões em suas linhas mais profundas, naquilo que elas têm como ideal final, e é isto que tentamos fazer. O fato de existirem, então, duas teorias diferentes - uma que diz "com uma só vida" e outra, "com várias" - é secundário. Mas ainda assim eu conheço o Budismo. Por que é que uma pessoa se torna monge? É porque na vida monástica, se não me engano, um bom budista, um monge, pode esperar, ao fim desta vida de renúncia, chegar à Libertação, não é? Nesta vida, e não ter uma outra vida depois. É uma coisa tecnicamente possível, no Budismo, penso eu - e Rinpoche poderia dar-nos maiores esclarecimentos - não é contrário ao Budismo dizer que haveria um meio de ser salvo, que haveria um meio de Libertação total ao fim de uma só vida. RESPOSTA: VENERABILÍSSIMO KALU RINPOCHE Haverá vidas futuras ou não? Várias vidas ou uma só? Este é aparentemente um ponto de desacordo entre a tradição Budista e a tradição Cristã. Se olharmos as coisas de modo superficial, podemos pensar que, de fato, trata-se de uma contradição. Se tentarmos ver um pouco mais profundamente, podemos ver que não há, na verdade, dissonâncias: é, talvez, uma questão de apresentação. Pode-se dizer a uma pessoa, por exemplo: "Você vai dormir, esta noite, depois você vai acordar. Depois, amanhã à noite, você vai dormir, depois vai acordar". Eu penso que enquanto cristão, se diz: "Você vai morrer, e em seguida haverá alguma coisa depois desta vida". Já em termos budistas se fala de maneira mais detalhada: "Existe algo depois desta vida. Você renascerá, depois irá morrer outra vez, etc". O sentido fundamental não é, talvez, muito diferente. Pode-se afirmar, na verdade, que o Cristianismo tem razão neste ponto, e que o Budismo se engana, ou que o Budismo tem razão neste ponto, e que o Budismo se engana, ou que o Budismo tem razão e que o Cristianismo se engana? Acho que não se pode dizer nem uma coisa nem outra. Nosso mundo manifestado é apenas uma aparência ilusória, uma projeção, pois a mente não tem realidade material. Cem pessoas têm cem sonhos diferentes. Teria sentido uma delas dizer: "O que é real é o que eu vi no meu sonho; tudo o que vocês viram é ilusório"? Seria um contra-senso. Cada sonho é real para cada sonhador. Não se pode, então, dizer: "Um está dizendo a verdade, o outro não está dizendo a verdade". Seja como for, o que importa é a finalidade da apresentação das coisas. Nos dois casos, a finalidade é a mesma. Será dito a um budista: "Atenção, após esta vida, você terá muitas vidas e se quer preparar vidas felizes, vidas que conduzam à realização final, é preciso que desde agora, nesta vida, você pratique o amor, a compaixão, que cultive sua paciência, que cultive as virtudes, que reze às Três Jóias". Assim também se dirá a um cristão: "Atenção, é nesta vida que tudo se passa, uma conduta apropriada levará a uma situação feliz depois desta vida. De uma conduta imprópria nascerá uma situação muito infeliz depois desta vida". Nos dois casos, a pessoa será conduzida ao caminho certo. O que é preciso guardar é que a função e o sentido são os mesmos: abandonar tudo o que é conduta negativa, adotar tudo o que é conduta positiva. PERGUNTA: Existe incompatibilidade em praticar-se o Budismo quando se é cristão? O que é que se passa quando uma pessoa renega sua religião para optar pelo Budismo? RESPOSTA: padre de Give Esta é, evidentemente, uma pergunta difícil e delicada. Permito-me apenas recorrer novamente ao bom senso. Estou feliz por ter tido muito contato com pessoas que nasceram cristãs e que agora aderiram às meditações Budistas, ou até vestem o manto de monge. Aqueles a quem me refiro conhecem-me muito bem e estou certo de que jamais sentiram, de minha parte, a menor censura, por mínima que fosse - pelo contrário. Tenho uma certa impressão de que o fundamento desta pergunta não tem muita existência. Devo dizer que nunca encontrei pessoas assim, mas talvez alguns pensem: "Reneguei minha fé cristã e quero tornar-me budista". Não sei se Kalu Rinpoche já ouviu isto, ou o lama Sherab. Tenho certeza de que isto é muito raro, se é que existe. O que se vê, no entanto, são muitas pessoas que, por toda espécie de motivos familiares ou de educação, ou de falta de educação doutrinal cristã, reuniram-se ao Budismo. Pessoa alguma jamais me disse: "Reneguei a fé cristã para seguir a religião Budista". Enfim, vocês conhecem a situação dez vezes melhor que eu, pela própria psicologia de cada um, para verem que isto não existe de todo. Lama Tchokyi (Tradutor) Querem que eu fale? O padre de Give tem toda razão. Eu não conheço muitas pessoas que tenham renegado a religião Cristã. No meu caso pessoal, não reneguei a religião Cristã, mas simplesmente não encontrei na religião Cristã aquilo que procurávamos. Não quero dizer, pessoalmente e por muitas pessoas que conheço, que não conservemos nossa fé no Cristo, e não apenas no Cristo, mas também nos santos do Cristianismo. Talvez tenhamos encontrado outras coisas que nos levaram a escolher um caminho diferente. Certamente não temos que renegar o que quer que seja. Padre de Give Muito agradeço este seu testemunho, feito com grande discrição. Também, vocês bem sabem, as "Anila" que estão aqui, e os jovens monges, nós nos conhecemos bem, não é? Recebi muitas confidências, para poder dizer o que acabo de dizer. Não exagerei. É raríssimo, com certeza, que as pessoas digam: "Renego minha fé Cristã". Pelo contrário, ouvi muitas vezes, mas as pessoas não vão declarar isto aos lamas, nem em público, ainda mais quando não têm a menor obrigação de fazê-lo, dizer: "Sabe, no fundo, sou ligado ao Evangelho, a Jesus Cristo, mas nunca encontrei ninguém na Igreja Católica que me compreendesse do ponto de vista espiritual". Isto é freqüente, há múltiplos casos. Não vou fazer estatística. Os que me conhecem bem sabem que não falo a esmo; são contatos pessoais que tive com muitas pessoas, e aqueles que me conhecem sabem também que jamais levantei um só dedo para fazer o que fosse contra sua adesão ao Dharma. Pelo contrário. Agora, posso falar assim porque creio que conheço um pouco a situação. Mas suponhamos que um teólogo católico, que jamais tenha visto um budista em sua vida e que não foi à Índia, comece a formular uma teoria: pode formular uma teoria lamentavelmente radical, negativa, maldosa, etc. Objetivamente, digo: "Ele está enganado". Ele é um tolo, um pretensioso, teorizando sobre coisas que não conhece. Eu não conheço nada de química - não vou formular uma teoria química. Assim, então, se a pessoa não conhece as religiões, não faça teorias sobre a história das religiões! Isto eu afirmo com certeza, porque há uns oito dias me senti muito embaraçado ao ler artigos escritos por pessoas supostamente muito importantes, nomes muito conhecidos: o capítulo sobre o Hinduísmo e o Budismo não valia absolutamente nada. E nunca se viu uma coisa assim: era errado de A a Z. E olhe que dizem que essas pessoas são grandes teólogos. Se eles não sabem nada, que não digam nada! É esta a minha resposta. Abade Dugas Volto ao assunto abordado. Não estou falando como teólogo, falo como um padre católico que tentou examinar este problema da reencarnação. Ele foi condenado, como acabou-se de dizer, pelo Concílio de Constantinopla. A tese de Orígenes era a seguinte: as almas no paraíso estavam aborrecidas. Olhavam com concupiscência para sua existência terrestre, e pensavam em descer novamente. Estou fazendo uma caricatura. Santo Agostinho escreveu uma página magnífica sobre este tema, explicando que o que é condenável em Orígenes é o cansaço da Beatitude. Não creio que a Igreja tenha condenado a idéia da reencarnação em si. Há já uns dez ou quinze anos que pergunto a teólogos, e eles ainda não me responderam... O que é que nos impediria (hipótese) de considerar a reencarnação como o estágio de purificação, já que a Igreja Católica ensinou que ninguém podia desfrutar da vida beatífica sem estar regenerado, purificado pela graça? É exatamente a doutrina do Buda. Não acho que este seja um assunto que exija muito tumulto. Desde que Plaige existe que vejo um mundo de jovens a me dizerem: "E a reencarnação? " Eu penso, como vocês dizem : "Quem é que foi lá do outro lado para ver o que é que tem? " Padre de Give Nisto que o padre acaba de dizer há um ponto muito importante e que, teologicamente, é válido. É que a finalidade da reencarnação é uma questão de purificação. Também os hinduístas têm esta idéia: nesta vida tão curta, como é que você quer livrar-se de todas essas ilusões, de todas essas imperfeições, etc., vai ser preciso muito tempo. Porém, como também disse o Venerável Kalu Rinpoche, é uma questão de "Sangye": ser libertado de todas as impurezas, é isto o essencial. E eu gosto muito quando se fala "essencial", mas, como diz o padre, é "ridículo ficar fazendo tumulto sobre coisas que são secundárias no caminho", não é essa a meta final. No Hinduísmo está bem claro, a meta da reencarnação é para que se possa, numa vida seguinte, ser mais puro, para chegar um dia à Beatitude perfeita. Frade da Pedra-que-Vira Parece que para nós, cristãos, o que nos impede de pensar na reencarnação de uma forma espontânea é a noção da graça de Deus e o mistério do amor do Cristo que é filho de Deus, e que, para ele, estamos marcados nele de um modo absoluto. Assim, ele é capaz de lavar todas as nossas manchas, radicalmente. Eu confesso que ao longo da vida tive a ocasião de ver condenados à morte que haviam feito coisas muito feias: em alguns minutos eles se aproximaram de Deus e morreram como santos ... Se Deus é o que é, é capaz, em um instante, de purificar-nos infinitamente. Na vida presente é preciso fazer de tudo para purificar-se. É isto o principal. Venerabilíssimo Kalu Rinpoche Penso, de fato, que fazer perguntas sobre a realidade ou a ausência de vidas futuras não tem muito sentido. O que é, de longe, o mais importante, é compreender que nesta vida é necessário abandonar todas as ações negativas e aplicar-se unicamente ao que é positivo. Por outro lado, mesmo sem falar das diferenças que podem aparecer entre duas grandes tradições como o Budismo e o Cristianismo, dentro do próprio Budismo encontram-se, às vezes, para um mesmo assunto, pontos de vista diferentes. Por exemplo, a maneira pela qual consideramos o corpo. No Pequeno Veículo, o corpo é considerado como um agregado de coisas impuras, de órgãos impuros. No Grande Veículo, o corpo é olhado de maneira totalmente diferente; diz-se simplesmente que é uma manifestação vazia. É semelhante ao reflexo da lua na água, semelhante a um arco-íris. No Vajrayana, adota-se ainda um outro ponto de vista: diz-se que a própria natureza do corpo é divina. O corpo tem por natureza o que se chamam as divindades. Poderiam dizer: "Ora, tudo isto é muita contradição dentro de uma mesma tradição". Porém, de fato, não tem lá muita utilidade isto de ver se há ou se não há contradição. O que é importante de ver é que estes diferentes pontos de vista correspondem a abordagens diferentes, a diferentes tipos de indivíduos. De acordo com as pessoas, um ponto de vista será mais benéfico que outro. Estamos hoje aqui reunidos aqui reunidos, budistas e cristãos, e talvez simplesmente nem uma coisa nem outra, apenas simpatizantes. Todos juntos, façamos uma prece, pensando que estamos nos dirigindo ao Deus no qual temos fé, ou então às Três Jóias nas quais temos fé, e que pedimos que sobre a Terra reine a paz, a harmonia entre as pessoas e os povos, que se desenvolva o amor e a compaixão. Ao mesmo tempo, seguramos uma luz: é uma oferenda de luz que apresentamos com esta intenção. Prece em tibetano, recitada pelo Venerabilíssimo Kalu Rinpoche e os lamas que o acompanham. Prece dos padres: "Tu, Senhor, que reunis os homens E que os criaste para serem felizes, Ensina-lhes a viverem juntos, E a tratarem-se verdadeiramente como irmãos. Amém." Venerabilíssimo Kalu Rinpoche Farei preces, votos, para que todos os que estão hoje aqui reunidos
possam viver felizes e conhecer a harmonia com seus semelhantes. Que por
isto mesmo, todos os seres possam encontrar a mesma felicidade, que possam
todos andar sobre o caminho da Libertação!
(Aplausos)
|