O Budismo em geral e, em nosso caso, o Budismo que se conservou no Tibete,
com sua pura tradição de mais de 2500 anos, representa neste
momento para a humanidade uma oportunidade excepcional.
Existem, hoje em dia, no conjunto dos seres humanos, duas fortes tendências. Uma, de continuar brincando de pequenos deuses, com a contínua desestabilização deste mundo e a destruição sistemática da vida em todas as suas manifestações. Centenas e centenas de espécies animais e vegetais, com as quais o homem havia convivido durante milhares de anos, foram definitivamente varridas da face da terra ! Mais importante ainda: há muitos grupos humanos em vias de extinção, seres humanos como qualquer um de nós, que talvez nunca mais veremos. Vidas, culturas destruídas por outros homens - para quem ser o benefício final ? Nesta situação se encontra, como tantos outros, o nobre povo tibetano, cuja cultura milenar baseada no Budismo poderia perder-se para sempre. Este não é um problema exclusivamente dos tibetanos, mas uma situação de suma importância para toda a humanidade. Por outro lado, aqueles movidos por um espírito global generoso e compassivo, creem que é necessário que o homem faça uma pausa em seu incerto caminho e reflita profundamente sobre seu destino próximo, sobre a qualidade de vida que colher se prosseguir nessa direção. Talvez uma feição mais humana se imponha em sua vida. Neste sentido, com o intuito de trazer um pouco do "ar puro" que muitos ocidentais apreciam no Budismo, reunimos estes ensinamentos de alguns de seus expoentes contemporâneos mais esclarecidos, entremeados por comentários e explicações, com a intenção de apresentar o Dharma de fontes autênticas. Que seja isto de grande ajuda para todos.
SARVA MANGALAM
Já que todos nós somos seguidores do bondoso Senhor Buda,
devemos, em nossas ações, palavras e pensamentos, abster-nos
de todas as ações não virtuosas e nocivas tanto quanto
possível; e trabalhar em atividades virtuosas tanto quanto
Kalu Rinpoche
NECESSIDADE DA PRÁTICA RELIGIOSA PARA NOSSA VIDA PRESENTE A razão pela qual devemos entregar-nos à prática religiosa é que, por maior que seja o progresso material, não pode por si só produzir satisfação adequada e duradoura. Na verdade, quanto mais progredirmos materialmente, maior ser o medo e a ansiedade constante em que teremos que viver. O progresso nos novos campos do saber levou-nos à lua, que alguns povos antigos consideraram como uma fonte de refúgio. De qualquer modo, tais técnicas jamais serão capazes de trazer a felicidade última e permanente aos seres humanos. Estes métodos produzem apenas prazer físico externo; portanto, mesmo que às vezes estas condições ocasionem ligeiras satisfações mentais, não podem ser duradouras. Pelo contrário, é perfeitamente sabido por todos que, quando se procura a felicidade baseada exclusivamente na mente, tornam-se mais fáceis de tolerar os padecimentos físicos. Isto depende da dedicação à prática de métodos religiosos e da transformação da mente. Da mesma forma, até as satisfações desta vida dependem da prática religiosa. O prazer e a dor, sejam eles grandes ou pequenos, não ocorrem apenas devido a fatores superficiais externos: é preciso ter motivações internas. Estas causas são as ações virtuosas e não virtuosas latentes na mente*. Estão adormecidas e são ativadas quando o indivíduo encontra causas externas, donde a existência de sentimentos de prazer ou de dor. Quando faltam estas tendências latentes, não h como aparecer ou desaparecer o prazer ou a dor, por maiores que sejam os fatores externos. Estas potencialidades se estabelecem em virtude das ações realizadas no passado. Portanto, qualquer que seja a forma de padecimento que o efeito assuma, teve que realizar-se por ter sido acumulado inicialmente por uma má ação através de uma indisciplina da mente. A potência da ação se estabelece na mente, e mais tarde de padece o sofrimento, quando a pessoa se encontra com certas causas. Assim, então, todos os prazeres e dores derivam, em essência, da mente. Por isto, esta não pode disciplinar-se sem a prática religiosa, e, não se disciplinando, acumulam-se as ms ações. Estas, por sua vez, estabelecem as tendências, em uma continuidade mental da qual derivam os frutos da dor. NECESSIDADE DA PRÁTICA RELIGIOSA PARA NOSSA VIDA FUTURA Embora em algumas regiões da existência os seres tenham apenas a mente, a maior parte das criaturas dotadas de sentidos possuem também uma base física. Tanto o corpo quanto a mente têm causas diretas,e, se tomarmos como exemplo o nascimento através de um ventre materno, a causa direta do corpo é o sêmen do pai e o "sangue" da mãe. A mente também tem uma causa direta semelhante a si mesma. O começo , nesta vida, da continuidade da mente é análogo à mente atual: é esta mesma mente que se vincula com o sêmen e o sangue dos progenitores. Esta entidade mental deve inquestionavelmente ser a continuidade de uma anterior, porque os fenômenos externos não podem converter-se em mente nem pode a mente converter-se em fenômenos externos. Pois bem, se existe necessariamente uma continuidade desta entidade mental, sem dúvida alguma tem que ser uma mente antes de sua vinculação à nova vida. Isto estabelece a existência de uma vida anterior. Como esta mente é uma continuidade, existem ainda hoje alguns
adultos e crianças que se lembram de suas vidas anteriores, quando
possuem as condições necessárias para essa lembrança.
Nas biografias comprovadas do passado h também muitos
Por estas e outras razões, é possível chegar à
conclusão definitiva de que existem vidas anteriores e posteriores.
Portanto, existindo vidas anteriores e posteriores, é evidente,
sem sombra de dúvida, que somente a prática religiosa pode
ajudar à continuidade das vidas. Estes motivos demonstram por que
é necessária esta prática.
Em kalpas* precedentes, em uma de suas vidas anteriores, Sakyamuni foi um rei chamado Oden (Luminoso). Ao ver que todos os seres sofriam e estavam sob o poder das emoções conflitivas*, resolveu ajudá-los. Desenvolveu, então, o que se chama Bodhicitta*, a resolução de chegar ao Despertar para o bem de todos os seres. Tendo despertado esta motivação, o rei Oden aplicou-se à prática dos atos do Bodhisatva*. Exercitando-se nas diferentes Paramitas* durante numerosas existências posteriores, praticou a generosidade até chegar a sua perfeição, que consistiu em dar até seu próprio corpo. Em todos os seus incontáveis renascimentos que duraram kalpas incontáveis, acumulou karma* positivo e despertou em Si mesmo a sabedoria. Neste processo de acumulação de bom karma, de despertar e de sabedoria, progrediu pouco a pouco no transcurso de suas existências através do que se conhece como os Cinco Caminhos* da realização espiritual e das Dez Terras* do Bodhisatva. Posteriormente, chegou ao fim de seu caminho espiritual, a 10a. Terra do Bodhisatva. Ao término desta etapa, tomou nascimento no estado divino de Ganden*, chamando-se então Dampa Tok Karpo. Deste estado divino, pelo poder de seus conhecimentos extraordinários, pode ver a condição dos seres humanos: chegara o momento oportuno para manifestar-se e ajudá-los. Tendo chegado o instante propício, uma música divina surgiu espontaneamente como prelúdio a sua manifestação no reino humano. Então, manifestou diferentes emanações e deixou em seu lugar, naquele estado divino, o Buda Maitreya*, que ser seu sucessor. Deste estado divino, em um maravilhoso palácio com 3400 andares, Buda Sakyamuni escolheu o momento, a família e os pais entre os quais ia tomar nascimento. Seu pai foi o rei Sudhodhana e sua mãe Mahamaya. Ela pôde tornar-se a mãe do Buda graças ao poder de seus desejos, suas preces e um karma positivo acumulado durante numerosas existências anteriores. No momento em que Sakyamuni nela se manifestou, sua mãe havia tomado por quatro dias o voto de Sodjong*, que inclui o voto de castidade. Mahamaya teve um sonho premonitório no qual se via levando em si o paraíso de Brahma*, e viu o Buda, sob a aparência de um elefante com seis presas, tomar lugar no palácio desse paraíso rodeado por toda uma assembléia divina conduzida por Vajrapani*, que viera para dissipar todos os obstáculos que poderiam ocorrer durante sua encarnação. Diversos seres divinos como Brahma fizeram oferendas ao Buda no corpo
de Mahamaya e, devido ao poder dessas oferendas e do néctar divino,
seu corpo se desenvolveu pouco a pouco. Também enquanto sua mãe
o carregava em seu seio, dezenas de milhares de ì
Sua mãe o carregou em seu seio durante dez meses lunares, ao fim dos quais dirigiu-se ao bosque de Lumbini*. Em um dado momento sentiu-se cansada e apoiou-se em uma árvore que lhe oferecia sua sombra. Permanecendo de pé, de seu lado direito tomou nascimento o Buda. Ela estava vestida e, quando o Buda nasceu, não sentiu qualquer dor. Foi recebido por deuses como Indra*, e, imediatamente, dando sete passos em cada uma das quatro direções, enunciou o Dharma*. Com o anúncio do nascimento, seu pai Sudhodhana sentiu-se muito feliz, e deu-lhe o nome de Dondjo Drubpa, "Aquele que cumpre seu objetivo". Foi conduzido ao palácio real e seus pais o apresentaram ao templo da família dos Sakyas, a linhagem de sua família. Lá, a divindade tutelar da família, junto com incontáveis seres divinos, renderam-lhe homenagem imediatamente. Nesta ocasião, recebeu um segundo nome: Lhai-Lha, "Deus dos deuses". Em sua juventude deu mostras de dotes excepcionais: com cordas atadas
a um só dedo pôde dominar cem elefantes. Recebeu, então,
seu terceiro nome, "Aquele que tem a força para dominar cem elefantes".
Manifestou também extraordinárias faculdades para o estudo
das ciências tradicionais, que lhe valeram o nome de "o
Seu pai pressentia esta inclinação e temia, de fato, que Sakyamuni abandonasse o trono. Por isto vigiava-o, para evitar que fugisse. No entanto, aproveitando uma noite, fugiu em seu magnífico cavalo sem ser visto. Logo cortou o cabelo, abandonou suas roupas reais e tomou por si mesmo a ordenação, renunciando às atividades deste mundo. Permaneceu seis anos junto a um grande Rishi* chamado Drang Song Ngonmongme, "O Sábio sem emoções". Durante este tempo estudou e dominou os diferentes tipos de meditação e estados de absorção mundanos. Praticou o ascetismo mas chegou à conclusão de que essas formas de absorção mundanas eram insuficientes, não o satisfaziam. Tomou, então, a resolução de desenvolver a meditação que vai além de todas as limitações do mundo. Dirigiu-se a Bodhgaya*, sentou-se ao pé da Árvore Bodhi* e, no dia da lua cheia do quarto mês chegou ao pleno e perfeito Despertar. Permaneceu então em repouso durante sete semanas, nas quais Brahma
e outros deuses o convidaram a dar ensinamentos. Finalmente decidiu começar
a ensinar. Um após outro, ao longo de sua vida, enunciou os Três
Ciclos de Ensinamentos que agrupam todos os Sutras.
|