A Aspiração Mahamudra do Significado Verdadeiro
 
 Pelo 
3º Karmapa, Rangjung Dorje [1284-1339].
 
[Trad. Pema Sonam]

Namo Guru

Todos os mestres e yidams das mandalas,
Vitoriosos e filhos espirituais dos três tempos e das dez direções,
Cuidem de mim e me concedam suas bênçãos
Para que eu atinja a realização de acordo com minhas aspirações.

Brotando da montanha de neve dos pensamentos e atos puros,
De mim e de todos os incontáveis seres,
Possam os rios de virtude, não poluídos pelos conceitos triplos,
Fluir para o oceano dos quatro kayas dos vitoriosos.

Enquanto não tivermos o atingimento,
Possamos nós, através da sucessão de vidas e renascimentos,
Nem mesmo ouvir as palavras "negatividade" ou "sofrimento",
Mas sim desfrutar deste oceano esplendoroso de felicidade e virtude.

Tendo obtido as liberdades e riquezas supremas, possuindo fé, esforço e
inteligência,
Seguimos um eminente mestre espiritual e recebemos o néctar das instruções
orais.
Sem quaisquer obstáculos para realizá-los corretamente,
Possamos nós, em todas as nossas vidas, praticar os ensinamentos sagrados.

Aprendendo as escrituras e, através da razão, ficamos livres do véu da
ignorância.
Contemplando as instruções orais, superamos as trevas da dúvida.
Com a luz resultante da meditação, iluminamos o estado natural como ele é.
Possa aumentar a luz deste conhecimento triplo.

Através da natureza da Base - as duas verdades -, livre dos extremos do
eternalismo e do niilismo,
E do supremo Caminho - as duas acumulações -, livre dos extremos do exagero
e do ascetismo,
Atingimos a Fruição - os dois benefícios -, livre dos extremos do samsara e
do nirvana.
Possamos nos conectar com tal ensinamento, livre de erro.

A Base da purificação é a essência da mente, a união do ser vazio e
cognitivo.
O Caminho que purifica é a grande prática-vajra do Mahamudra.
Possamos nós realizar o dharmakaya imaculado - a Fruição de ter purificado
Todas as máculas passageiras da confusão, que deveriam ser purificadas.

Ter cortado os conceitos errôneos sobre a Base é a certeza da Visão.
Manter isso, não distraidamente, é o ponto chave da Meditação.
Treinar em todos os pontos da prática é a suprema Ação.
Possamos nós ter a certeza da Visão, da Meditação e da Ação.

Todos os fenômenos são a exibição ilusória da mente.
A mente é vazia de uma "mente", vazia de qualquer entidade.
Vazia, porém incessante, ela se manifesta como qualquer coisa.
Realizando isto completamente, possamos nós cortar sua base e sua raiz.

Confundimos nossa experiência pessoal não-existente como sendo objetos e,
Pelo poder da ignorância, confundimos a autocognição como sendo um "eu".
Esta fixação dualista nos tem feito vagar na esfera da existência samsárica.
Possamos nós cortar a ignorância e a confusão em sua própria raiz.

Não é existente, já que até mesmo os vitoriosos não a vêem.
Não é não-existente, já que é Base do samsara e do nirvana.
Isto não é uma contradição, mas sim o Caminho do Meio da unidade.
Possamos nós realizar a natureza da mente, livre dos extremos.

Nada pode ilustrá-la pela afirmação, "é isto".
Ninguém pode negá-la ao dizer, "não é isto".
Esta natureza, que transcende os conceitos, é incondicionada.
Possamos nós realizar esta Visão do significado verdadeiro.

Sem realizá-la, circulamos através do oceano do samsara.
Quando a realizamos, o estado búdico não está em qualquer outro lugar.
É completamente vazia de "é isto" ou "não é isto".
Possamos nós ver este ponto vital da Base de tudo, a natureza das coisas.

A percepção é a mente; ser vazio também é a mente.
A realização é a mente; ser confundido também é a mente.
O surgimento é a mente; ter cessado também é a mente.
Possamos nós cortar todas as nossas experiências sobre a mente.

Não estragados pela meditação intelectual e deliberada
E não movidos pelos ventos da distração ordinária,
Possamos nós ser hábeis para sustentar a prática da essência da mente,
Sendo capaz de descansar em sua inata naturalidade não-fabricada.

Ao acalmar espontaneamente as ondas de pensamentos grosseiros e sutis,
O rio da mente firme mantém-se naturalmente livre
Das máculas da estagnação, da preguiça e da conceitualização.
Possamos nós ser estáveis no oceano da meditação estabilizadora.

Quando olhar, de novo e de novo, para a mente não-vista,
O fato de que nada há para se ver é vividamente percebido como é.
Cortando as dúvidas sobre sua natureza como sendo existente ou
não-existente,
Possamos nós reconhecer, sem erros, a nossa essência.

Quando observar objetos, eles são vistos como sendo a mente, vazia de
objetos.
Quando observar a mente, não há mente, já que ela é vazia de uma entidade.
Quando observar ambos, a fixação dualista é espontaneamente liberada.
Possamos nós realizar o estado natural da mente luminosa.
Ser livre da fabricação mental é o grande sinal, Mahamudra.
Vazio de extremos é o grande caminho do meio, Madhyamaka.
Também é chamada de grande perfeição, Dzogchen, a corporificação de tudo.
Possamos atingir a certeza de realizar tudo ao conhecer a natureza única.

O grande êxtase, livre do apego, é incessante.
A luminosidade, vazia de fixação, é não-obscurecida.
O não-pensamento, transcendendo o intelecto, é espontaneamente presente.
Sem esforço, possa a nossa experiência ser incessante.

A fixação do apego às boas experiências é espontaneamente liberada.
A confusão dos maus pensamentos é naturalmente purificada.
A mente ordinária é liberada da aceitação e da rejeição.
Possamos nós realizar a verdade do dharmata, vazia de construções.

A natureza de todos os seres é o estado iluminado mas,
Ao não realizá-la, eles vagam infinitamente no samsara.
Diante dos incontáveis seres sencientes que sofrem,
Possa a irresistível compaixão surgir em nossas mentes.

O jogo da irresistível compaixão, é não-obstruído.
No momento do amor, a essência vazia aparece naturalmente.
Possamos nós praticar constantemente, dia e noite,
Este caminho supremo da unidade, vazia de erros.

Os olhos e superconhecimentos resultantes do poder da prática,
O amadurecimento dos seres sencientes, o cultivo dos reinos búdicos
E a perfeição das aspirações para realizar todas as qualidades iluminadas -
Possamos nós atingir o estado búdico de ter realizado o amadurecimento, o
cultivo e a perfeição.

Pelo poder da compaixão dos vitoriosos e de seus filhos espirituais nas dez
direções,
E por toda virtude perfeita que existe,
Possamos eu e todos os seres atingir a realização
De acordo com estas aspirações.
 
 
 

Esta aspiração, o Mahamudra do Significado Verdadeiro,
foi escrita pelo [3º] Karmapa, Rangjung Dorje [1284-1339].
 
 

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