MAHAPRAJNAPARAMITA-HRIDAYA SUTRA
SUTRA DO CORAÇÃO
Seguido de diálogo de
S. S. Dalai Lama
com Jean-Claude Carrière
HOMENAGEM À SAGRADA PERFEIÇÃO DA SABEDORIA!
Assim eu ouvi, uma vez em que o Abençoado permanecia em
Rajagrirra, no Monte do Pico dos Abutres,
junto com um grande grupo da Sangha de monges e uma grande Assembléia
da Sangha de Bodhissátvas. Foi quando o Abençoado entrou
no Samadhi que expressa o Dharma chamado "Iluminação Profunda"
e enquanto isso o Nobre Avalokitésvara, o Mahasátva Bodissátva,
ao praticar o Prajnaparamita Profundo viu desta maneira: viu que os cinco
skandas eram vazios por natureza. Então pelo poder do Buddha o Venerável
Shariputra perguntou o Nobre Avalokitésvara, o Mahasátva
Bodhissátva: "Como deve praticar um filho ou filha de família
nobre que queira treinar o Prajnaparamita Profundo?"
Indagado desta maneira, o Nobre Avalokitésvara, o Mahassátva
Bodhissátva, respondeu ao Venerável Shariputra: "Ó
Shariputra, um filho ou filha de família nobre que queira treinar
o Prajnaparamita Profundo deve ver desta maneira: Forma é vazio,
vazio também é forma. O vazio não é outra coisa
senão forma, a forma não é outra coisa senão
vazio. Desta maneira, os sentimentos, a percepção, a formação
e a consciência são vazio. Por isso, Shariputra, todos os
dharmas são vazio. Não existem características. Não
existe nascimento, nem cessação. Não existe impureza
nem pureza. Não existe aumento nem diminuição. Por
isso, Shariputra, no vazio não existe forma, nem sentimento, nem
percepção, nem formação, nem consciência.
Não existe olho, nem orelha, nem nariz, nem língua, nem corpo,
nem mente. Não existe aparência, nem som, nem cheiro, nem
sabor, nem tato, não existem dharmas. Não existe dhatu do
olho, nem dhato da mente, não existe dhatu de dharmas, nem dhatu
da consciência da mente. Não
existe ignorância nem fim da ignorância, assim como não
existe nem velhice nem morte, nem fim da velhice e da morte. Não
existe sofrimento, nem origem do sofrimento, nem cessação
do sofrimento, não existe caminho, nem sabedoria, nem apego, nem
desapego. Por isso, Shariputra, já que os Bodhissátvas
a nada se apegam, vêem de acordo com o Prajnaparamitra. Como
não há nenhum obscurecimento da mente, não existe
medo. Eles transcendem à falsidade e atingem o Nirvana completo.
Todos os Buddhas das três eras praticando o Prajnaparamitra despertam
plenamente para a Iluminação insuperável, verdadeira
e completa. Por isso o grande mantra do Prajnaparamita, o mantra do grande
insight, o mantra insuperável, o mantra inigualável, o mantra
que acalma todo sofrimento deve ser conhecido como verdadeiro e sem nenhuma
ilusão. O mantra do Prajnaparamita é dito desta maneira:
OM GÁTE GÁTE PARAGÁTE PARASANGÁTE BODHI
SOHA!
"É assim, ó Shariputra, que o Mahassátva
Bodhissátva deve praticar o Prajna Paramitra profundo". Então
o Abençoado saiu daquele Samadhi e elogiou o Nobre Avalokitésvara,
o Mahassátva Bodhissátva, dizendo: "Muito bem, muito bem,
ó filho de nobre família. Assim é, ó filho
de nobre família, assim é. Deve-se praticar o Prajnaparamitra
Profundo exatamente como disse, e todos os Tatágatas se rejubilarão".
Depois que o Abençoado proferiu, o Venerável Shariputra,
o Nobre Avalokitésvara, o Mahassátva Bodhissátua,
e toda aquela assembléia, junto com o inteiro universo com seus
deuses, seres humanos, assuras e gandharvas regozijaram-se e louvaram todos
as palavras do Abençoado.
PELA VERDADE DA EXISTÊNDIA DAS TRÊS JÓIAS POSSAM
TODOS OS OBSTÁCULOS E ADVERSIDADES SEREM SUPERADOS! QUE DEIXEM DE
EXISTIR!(bate-se palma) QUE SEJAM PACIFICADOS!(bate-se palma) QUE
SEJAM COMPLETAMENTE PACIFICADOS!(bate-se palma) QUE AS HOSTES DOS OITENTA
MIL OBSTÁCULOS SEJAM PACIFICADOS! QUE ESTEJAMOS TODOS AFASTADOS
DAS CONDIÇÕES DESFAVORÁVEIS AO DHARMA E QUE POSSAMOS
NOS APROXIMAR DE TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS QUE CONDUZAM VERDADEIRAMENTE
AO DHARMA! QUE TUDO SEJA AUSPICIOSO, QUE TODOS NÓS SEJAMOS FELIZES,
QUE PAIRE AQUI O BEM-ESTAR AGORA!
DIÁLOGO DE SUA SANTIDADE O DALAI LAMA
[In: A força do budismo. S. Paulo, Mandarim, 1996.]
As Escrituras fundamentais de Mahayana constituem uma centena de volumes.
Uma parte dessas Escrituras leva o nome de Prajnaparamita.
A prajna é essa qualidade que temos dentro de nós, geralmente
adormecida, mas que podemos despertar. Essa palavra é geralmente
traduzida por ‘sabedoria’, o que parece incorreto. Trata-se, antes, de
uma predisposição à sabedoria e ao despertar, que
podemos pôr em prática ou deixar adormecida.
A Prajnaparamita é a consumação da prajna, a chegada
ao
fim do caminho. Uma frase, atribuída ao próprio Buda
e
chamada de ‘a grande libertação, o mantra sem igual’,
diz o
seguinte: “A forma é só vazio, o vazio é só
forma
Ou então, segundo outras traduções: “Onde há
forma, há vazio e onde há vazio há forma".
Pergunto a meu anfitrião [O DALAI LAMA]:
- Posso esperar, um dia, compreender esse mantra?
Primeiro, ele ri abertamente. Depois reconhece que o vazio, sunyata,
dentre as quatro noções budistas fundamentais (sendo
as outras três a impermanência, a ausência de ego
e o sofrimento), é com certeza a mais misteriosa, a mais difícil
de ser percebida. O que é então esse imenso edifício
de experiência do pensamento que na verdade só se abriria
sobre uma ausência de substância? Quais seriam os fundamentos
desse edifício e do espírito que o construiu? Se o vazio
é a única realidade que não é ilusória
e se esquiva da rede de Maya, quem estendeu essa rede?Pode-se viver na
vertigem? Imaginar um sonho sem sonhador?
O Dalai-Lama responde-me primeiro que o vazio é uma noção
científica:
—Você mesmo o disse. Somos vazios, a matéria de que somos
compostos é, por assim dizer, vazia.
—É verdade, o núcleo de cada átomo, se é
que se pode ainda falar de dimensão nessa escala, é ínfimo
em relação ao próprio átomo. Um grão
de arroz, já o dissemos, sobre o domo da basílica de São
Pedro. A mesma coisa para o universo. Se toda matéria nuclear dos
bilhões e bilhões de galáxias se dispersassem na extensão
do universo, a densidade dessa matéria seria reduzida a quase nada.
Algumas partículas por metro cúbico. Imperceptível.
—Você percebe bem as coisas.
—E suponho que a concepção budista do vazio não
tivesse para Nagarjuna um ponto de partida científico?
—E por que não? Existem vários caminhos que levam ao
conhecimento. E algumas vezes eles se encontram.
—Pode-se falar do vazio sem falar no vazio?
—Penso que sim. Primeiro é preciso especificar que a palavra
‘vazio’ não quer dizer ‘nada’. Alguns comentaristas acusaram sem
motivo o budismo de ‘niilismo’. O mundo, do qual fazemos parte, não
é um ser em si nem um conjunto de seres. Ele é uma fluidez.
Uma corrente de estados. Isso não significa que ele não seja
nada.
—Dizer ‘eu não sou" não significa ‘eu sou nada’.
—De forma alguma. E isso pode ser explicado dessa forma:
tudo depende de tudo. Nada existe em separado. Penso, aliás,
que nesse ponto a ciência contemporânea anda no mesmo caminho
que nós.
Acredito, também, que sim. Ela põe ênfase mais
freqüentemente nas relações entre os fenômenos
do que nos próprios fenômenos.
Dizemos o seguinte: por causa de todas as influências que elas
recebem, as coisas aparecem, existem e desaparecem. Incessantemente.
Em um fluxo contínuo.
Mas elas nunca existem por si mesmas. Esta mão, por exemplo...
Ele abre sua mão, a palma para cima, e a coloca sob meus olhos.
Ela dá impressão de solidez, de coerência. Ela
oferece aos olhos uma forma precisa. Ela tem toda a aparência de
uma entidade.
Ele toca agora as diferentes partes de sua mão, a palma, depois
os dedos, depois as falanges.
Mas se eu me perguntar seriamente, se eu me pergunto:
no fundo, o que é minha mão? É esse dedo? É
essa parte do dedo? Não, eu só posso responder: meu dedo
é meu dedo, ele não é minha mão. Mas, por sua
vez, será ele um conjunto de falanges? Não, já que
eu posso decompô-lo em falanges e apenas estudar, olhar, nomear cada
uma de suas falanges.
Aliás, por que parar nas falanges?
Evidente! Posso descer cada vez mais profundamente no interior dessa
matéria que aí está sem nunca encontrar minha mão
realmente.
Entretanto, você usa sua mão.
Ela existe para isso. E me satisfaz muito bem. A essa combinação
de diversos elementos (em que cada um se decompõe e todos se juntam)
chamamos ‘uma mão’. É muito simples.
Assim a designamos por um trabalho familiar ao espírito. É
o que chamamos de realidade relativa.
— Que depende de outros elementos que não ela mesma.
— Exatamente. Pois nada existe sem uma causa. A natureza profunda desta
mão é pertencer a toda uma rede de influências, das
quais nenhuma é durável.
— Por isso essa mão deixará um dia de ser sua mão.
— Ela o terá sido apenas por um momento muito breve, se comparada
à idade do mundo. Um momento fugidio, quase imperceptível.
Estamos todos persuadidos de vivermos independentemente uns dos outros,
desta mão ou desta folha de papel terem uma existência separada.
— Nosso espírito tem necessidade de separar e de nomear. Ele
não consegue se contentar com uma visão complexa e confusa
do mundo.
— Visão esta que se deve entretanto admitir e tentar atingir.
Sem isso, estamos escolhendo permanecer na ilusão. Se cada ser vivo,
se cada objeto gozasse de uma existência independente, nenhum outro
fator poderia influenciá-lo. As relações de que você
fala não existiriam. Ora, vemos que essas influências, essas
relações são múltiplas e incessantes.
— É essa ausência de existência independente, então,
que o senhor chama de ‘vazio’?
— Precisamente. A forma é portanto vazia, isto é, não-separada,
não-independente. Essa forma depende de outros múltiplos
fatores. Ela é a realidade relativa.
— E por que o vazio é forma?
— Porque toda forma se desenvolve nesse vazio, nessa ausência
de existência independente. O vazio só existe para conduzir
a forma. Não pode ser diferente. O vazio sem a forma não
tem sentido.
Assim a folha de papel era vazio. Vazio, isto é, cheia. Cheia
de todo o cosmo.
Na tradição tântrica do Vajrayana, do ‘Veículo
de Diamante’, vê-se até desaparecer a distinção
entre realidade absoluta e realidade relativa, entre o 'não-nascido’
e o 'nascido’ ou, se preferirmos, a essência e a existência.
A verdade definitiva e intransponível pode nos ser dada no mundo
dos sentidos pela técnica chamada de ‘visão pura’. Ela aproxima
o tathata, a evidência. Os fenômenos deixam de aparecer como
fenômenos, na verdade o problema da ignorância e da distinção
não mais se coloca, tudo nos é dado por essa percepção
superior, não há nada para se buscar além disso.
A unidade se impõe. Ela é brilhante. Nada separa então
o vazio e a luz.
Chegamos — e isso é quase inevitável — a essa noção
delicada de ‘virtualidade’, que desde uma dezena de anos se introduz e
até mesmo se instala pouco a pouco na expressão científica,
ao mesmo tempo em que invade as novas fábricas de imagens.
Recusando-se a admitir a criação do mundo a partir de
nada, ex nihilo, pois nesse caso o físico não teria estritamente
nada a dizer diante da ausência de matéria, certos cientistas
contemporâneos dentre os mais hábeis, como Michel Cassé,
falam de uma “coragem diante do zero”1 e simplesmente recusam o nada. Eles
distinguem claramente o vazio metafísico, ou nada, pura concepção
do espírito, do vazio quântico que eles vêem povoado
por uma infinidade de virtualidades.
Esse vazio não é um nada. Ele supõe a existência
de um campo, mas esse campo nos foge à compreensão, ele não
é detectável.
1. Michel Cassé, Vicie et création, op .cit.
Podemos ver seus efeitos, pois ele liga entre si as partículas
reais, e ele nos parece até agitado, mas não podemos observá-lo.
É por isso que o chamamos de vazio, quando na verdade ele é
pleno. Pleno de virtualidades da matéria.
Para alcançar a existência aparente, as conjunções
de partículas virtuais aguardam apenas uma energização
e o próprio fato de observá-las pode ter um papel determinante.
Estamos aqui muito perto da ausência de dualidade — entre o observador
e o observado —, tantas vezes repetida na história do hinduísmo
e do budismo. “Para sempre inseparável da coisa que se vê
está a coisa que é vista”, dizia assim, no século
XVI, Kun Khyèn Péma Karpo.
Michel Cassé, astrofísico, chega até a dizer que
“o conhecimento do estado de vazio tornou-se uma condição
necessária para a edificação de um modelo coerente
de natureza”. Ele vê esse vazio como uma coisa plena e com um destino”
e o coloca “no cume cósmico e lógico do discurso sobre as
origens”. Ele até escreve, perto do final de seu livro: “Estar no
vazio e estar em casa
Nenhum professor budista encontraria alguma observação
a respeito.
No momento, são bastante raros os físicos que se aventuram
nesse campo. A maioria deles prefere se ater à matéria tal
qual ela nos é apresentada. E essa matéria parece manter
aos olhos deles seu sentido tradicional: algo de sólido, que pesa,
em suma, algo pleno. O Big-Bang lhes parece o limite estrito para além
do qual nada pode ser dito, nem pensado, nem imaginado. É verdade
que é difícil considerar a matéria como vazio, como
se tivesse aos poucos, depois de séculos de observação,
praticamente se desmaterializado.
É aqui, talvez, que a maleabilidade do budismo pode nos ajudar
a aceitar o que nós mesmos descobrimos, e que as palavras comuns
nos impedem de dizer.
Entretanto, o Dalai-Lama me faz observar:
- Quando designamos as coisas, podemos dizer que elas dependem de nosso
espírito. Assim, tanto o Big-Bang como a matéria talvez dependam
de nosso espírito.
E até mesmo de uma necessidade de nosso espírito.
Assim, portanto, ele faz parte da realidade relativa. Hoje o chamamos
Big-Bang. Amanhã lhe daremos sem dúvida outro nome. Não
nos deixemos aprisionar por conceitos formulados por palavras. Ambos são
efêmeros. Aceitemos o vazio com um sorriso e, já que tudo
depende de nosso espírito, confiemos em nosso espírito.
Ele me lembra que essa confiança, evidentemente, não
deve ser cega. O budismo dispõe a esse respeito de um imenso arsenal
de precauções para defender o espírito contra o espírito
e para conduzi-lo a seu próprio cume. A caminhada suprema leva ao
desaparecimento desse espírito, dos demônios, do próprio
Buda. O vazio é o grande objetivo. Quando a última verdade
foi alcançada, Milarepa cantou:
Não há meditador, não há objeto a ser meditado,
Não há sinais de realização,
Não há etapas nem caminho a percorrer,
Não há sabedoria última, não há
corpo de Buda.
Também o nirvana não existe.
Tudo isso são apenas palavras, modos de dizer. 2
É inútil pretender começar por esse desaparecimento
idealisticamente desejado, esse acesso à plenitude do vazio. Primeiro,
o proclamaríamos, ele só nos levaria ao desencorajamento
solitário, fruto do niilismo, ou à violência desordenada
do egoísmo: já que nada existe, já que eu não
sou controlado por nenhuma autoridade superior, por que não me abandonar
a meus instintos mais monopolizadores?
2. Milarepa, Les cent mille chants, traduzido do tibetano por Marie-José
Lamothe, Fayard, L ‘Espace Intérieur, 1989.
De uma coisa não se pode duvidar, diz o Dalai-Lama para terminar:
temos todos dentro de nós mesmos uma qualidade que apenas pede para
ser revelada. Ela se chama prajna. Podemos tudo negar, salvo essa possibilidade
que temos de sermos melhores.
— Reflitamos simplesmente sobre isso.
Ele toma minhas mãos e as segura demoradamente entre as suas.
Ele me olha sorrindo.
Como toda conversa, esta nos conduz ao silêncio.
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