O Amor![]() J. KRISNAMURTITrad. Hugo Veloso[Leia também: O que é meditação]A NECESSIDADE de segurança nas relações gera inevitàvelmente o sofrimento e o mêdo. Essa busca de segurança atrai a insegurança. Já encontrastes alguma vez segurança em alguma de vossas relações? Já? A maioria de nós quer a segurança no amar e no ser amado, mas existirá amor quando cada um está a buscar a própria segurança, seu caminho próprio? Nós não somos amados porque não sabemos amar.Que é o amor? Esta palavra está tão carregada e
corrompida, que quase não tenho vontade de empregá-la. Todo
o mundo fala de amor tôda revista e jornal e todo missionário
discorre interminàvelmente sôbre o amor. Amo a minha pátria,
amo o meu rei, amo um certo livro, amo aquela montanha, amo o prazer, amo
minha espôsa, amo a Deus. O amor é uma idéia? Se é,
pode então ser cultivado, nutrido, conservado com carinho, moldado,
torcido de tôdas as maneiras possíveis. Quando dizeis que
amais a Deus, que significa isso? Significa que amais uma projeção
de vossa própria imaginação, uma projeção
de vós mesmo, revestida de certas formas de respeitabilidade, conforme
o que pensais ser nobre e sagrado; o dizer “Amo a Deus” é puro contra-censo.
Quando adorais a Deus, estais adorando a vós mesmo; e isso não
é amor.
Incapazes, que somos, de compreender essa coisa humana chamada amor, fugimos para abstrações. O amor pode ser a solução final de tôdas as dificuldades, problemas e aflições humanas. Assim, como iremos descobrir o que é o amor? Pela simples definição? A Igreja o tem definido de uma maneira, a sociedade de outra, e há também desvios e perversões de tôda espécie. A adoração de uma certa pessoa, o amor carnal, a troca de emoções, o companheirismo — será isso o que se entende por amor? Essa foi sempre a norma, o padrão, que se tornou tão pessoal, sensual, limitado, que as religiões declararam que o amor é muito mais do que isso. Naquilo que denominam “amor humano”, vêem elas que existe prazer, competição, ciúme, desejo de possuir, de conservar, de controlar, de influir no pensar de outrem e, sabendo da complexidade dessas coisas, dizem as religiões que deve haver outra espécie de amor — divino, belo, imaculado, incorruptível. Em todo o mundo, certos homens chamados “santos" sempre sustentaram que olhar para uma mulher é pecaminoso; dizem que não podemos aproximar-nos de Deus se nos entregamos ao sexo e, por conseguinte, o negam, embora êles próprios se vejam devorados por êle. Mas, negando o sexo, êsses homens arrancam os próprios olhos, decepam a própria língua, uma vez que estão negando tôda a beleza da Terra. Deixaram famintos os seus corações e a sua mente; são entes humanos “desidratados”; baniram a beleza, porque a beleza está ligada à mulher. Pode o amor ser dividido em sagrado e profano, humano e divino, ou só há amor? O amor é para um só e não para muitos? Se digo “Amo-te”, isso exclui o amor a outro? O amor é pessoal ou impessoal? Moral ou imoral? Familial ou não familial? Se amais a humanidade, podeis amar o indivíduo? O amor é sentimento? Emoção? O amor é prazer e desejo? Tôdas essas perguntas indicam — não é verdade? —que temos idéias a respeito do amor, idéias sôbre o que êle deve ou não deve ser, um padrão, um código criado pela cultura em que vivemos. Assim, para examinarmos a questão do amor — o que é o
amor — devemos primeiramente libertar-nos das incrustações
dos séculos, lançar fora todos os ideais e ideologias sôbre
o que ele deve ou não deve ser. Dividir qualquer coisa em o que
deveria ser e o que é, é a maneira mais ilusória de
enfrentar a vida.
No estado de pertencer a outro, de ser psicologicamente nutrido por outro, de outro depender — em tudo isso existe sempre, necessàriamente, a ansiedade, o mêdo, o ciúme, a culpa, e enquanto existe mêdo, não existe amor. A mente que se acha nas garras do sofrimento jamais conhecerá o amor; o sentimentalismo e a emotividade nada, absolutamente nada, têm que ver com o amor. Por conseguinte, o amor nada tem em comum com o prazer e o desejo. O amor não é produto do pensamento, que é o passado. O pensamento não pode de modo nenhum cultivar o amor. O amor não se deixa cercar e enredar pelo ciúme; porque o ciúme vem do passado. O amor é sempre o presente ativo. Não é “amarei" ou “amei". Se conheceis o amor, não seguireis ninguém. O amor não obedece. Quando se ama, não há respeito nem desrespeito. Não sabeis o que significa amar realmente alguém —amar sem ódio, sem ciúme, sem raiva, sem procurar interferir no que o outro faz ou pensa, sem condenar, sem comparar —não sabeis o que isso significa? Quando há amor, há comparação? Quando amais alguém de todo o coração, com tôda a vossa mente, todo o vosso corpo, todo o vosso ser, existe comparação? Quando vos abandonais completamente a êsse amor, não existe ‘‘o outro’’. O amor tem responsabilidades e deveres, e emprega tais palavras? Quando
fazeis alguma coisa por dever, há nisso amor? No dever não
há amor. A estrutura do dever, na qual o ente humano se vê
aprisionado, o está destruindo. Enquanto sois obrigado a fazer uma
coisa, porque é vosso dever fazê-la, não amais a coisa
que estais fazendo. Quando há amor, não há dever nem
responsabilidade.
Zelar, com efeito, é cuidar como se cuida de uma árvore ou de uma planta, regando-a, estudando as suas necessidades, escolhendo o solo mais adequado, tratá-la com carinho e ternura; mas, quando preparais os vossos filhos para se adaptarem à sociedade, os estais preparando para serem mortos. Se amásseis vossos filhos, não haveria guerras. Quando perdeis alguém que amais, verteis lágrimas; essas lágrimas são por vós mesmo ou pelo morto? Estais pranteando a vós mesmo ou ao outro? Já chorastes por outrem? Já chorastes o vosso filho, morto no campo de batalha? Chorastes, decerto, mas essas lágrimas foram produto da auto-compaixão ou chorastes porque um ente humano foi morto? Se chorais por auto-compaixão, vossas lágrimas nada significam, porque estais interessado em vós mesmo. Se chorais porque vos foi arrebatada uma pessoa em quem “depositastes” muita afeição, não se trata de uma afeição real. Se chorais a morte de vosso irmão, chorai 'por ele'! É muito fácil chorardes por vós mesmo porque êle partiu. Aparentemente, chorais porque vosso coração foi atingido, mas não foi atingido por causa dele; foi atingido pela auto-compaixão, e a auto-compaixão vos endurece, vos fecha, vos torna embotado e estúpido. Quando chorais por vós mesmo, será isso amor? —chorar
porque ficastes sozinho, porque perdestes o vosso poder; queixar-vos de
vossa triste sina, de vosso ambiente — sempre vós a verter lágrimas.
Se compreenderdes êsse fato, e isso significa pôr-vos em contato
com êle tão diretamente como quando tocais uma árvore
ou uma coluna ou uma mão, vereis então que o sofrimento é
produto do “eu”, o sofrimento é
Podeis ver tudo isso acontecer dentro de vós mesmo, se o observardes. Podeis vê-lo de maneira plena, completa, num relance, sem precisardes do tempo analítico. Podeis ver num momento tôda a estrutura e natureza dessa coisa desvaliosa e insignificante, chamada “eu" — minhas lágrimas, minha família, minha nação, minha crença, minha religião — tôda essa fealdade está em vós. Quando a virdes com vosso coração, e não com vossa mente, quando a virdes do fundo de vosso coração, tereis então a chave que acabará com o sofrimento. O sofrimento e o amor não podem coexistir, mas no mundo cristão idealizaram o sofrimento, crucificaram-no para o adorar, dando a entender que ninguém pode escapar ao sofrimento a não ser por aquela única porta; tal é a estrutura de uma sociedade religiosa, exploradora. Assim, ao perguntardes o que é o amor, podeis ter muito mêdo de ver a resposta. Ela pode significar uma completa reviravolta; poderá dissolver a família; podeis descobrir que não amais vossa espôsa ou marido ou filhos (vós os amais?); podeis ter de demolir a casa que construístes; podeis nunca mais voltar ao templo. Mas, se desejais continuar a descobrir, vereis que o mêdo não é amor, a dependência não é amor, o ciúme não é amor, a posse e o domínio não são amor, responsabilidade e dever não são amor, auto-compaixão não é amor, a agonia de não ser amado não é amor, que o amor não é o oposto do ódio, como também a humildade não é o oposto da vaidade. Dessarte, se fordes capaz de eliminar tudo isso, não à fôrça, porém lavando-o assim como a chuva fina lava a poeira de muitos dias depositada numa fôlha, então, talvez, encontrareis aquela flor peregrina que o homem sempre buscou sequiosamente. Se não tendes amor — não em pequenas gôtas, mas em abundância; se não estais transbordando de amor, o mundo irá ao desastre. Intelectualmente, sabeis que a unidade humana é a coisa essencial e que o amor constitui o único caminho para ela, mas quem pode ensinar-vos a amar? Poderá uma autoridade, um método, um sistema ensinar-vos a amar? Se alguém vo-lo ensina, isso não é amor. Podeis dizer: “Eu me exercitarei para o amor. Sentar-me-ei todos os dias para refletir sôbre êle. Exercitar-me-ei para ser bondoso, delicado e me forçarei a ser atencioso com os outros”? — Achais que podeis disciplinar-vos para amar, que podeis exercer a vontade para amar? Quando exerceis a vontade e a disciplina para amar, o amor vos foge pela janela. Pela prática de um certo método ou sistema de amar, podeis tornar-vos muito hábil, ou mais bondoso, ou entrar num estado de não violência, mas nada disso tem algo em comum com o amor. Neste mundo tão dividido e árido não há amor, porque o prazer e o desejo têm a máxima importância, e, todavia, sem amor, vossa vida diária é sem significação. Também, não podeis ter o amor se não tendes a beleza. A beleza não é uma certa coisa que vêdes — não é uma bela árvore, um belo quadro, um belo edifício ou uma bela mulher; só há beleza quando o vosso coração e a vossa mente sabem o que é o amor. Sem o amor e aquêle percebimento da beleza, não há virtude, e sabeis muito bem que tudo o que fizerdes — melhorar a sociedade, alimentar os pobres — só criará mais malefício, porque, quando não há amor, só há fealdade e pobreza em vosso coração e vossa mente. Mas, quando há amor e beleza, tudo o que se faz é correto, tudo o que se faz é ordem. Se sabeis amar, podeis fazer o que desejardes, porque o amor resolverá todos os outros problemas. Alcançamos, assim, êste ponto: Poderá a mente encontrar o amor sem precisar de disciplina, de pensamento, de coerção, de nenhum livro, instrutor ou guia — encontrá-lo assim como se encontra um belo pôr-de-sol? Uma coisa me parece absolutamente necessária: a paixão
sem motivo, a paixão não resultante de compromisso ou ajustamento,
a paixão que não é lascívia. O homem que não
sabe o que é paixão, jamais conhecerá o amor, porque
o amor só pode existir quando a pessoa se desprende totalmente de
si própria.
O amor é uma coisa nova, fresca, viva. Não tem ontem nem amanhã. Está além da confusão do pensamento. Só a mente inocente sabe o que é o amor, e a mente inocente pode viver no mundo não inocente. Só é possível encontrá-la, essa coisa maravilhosa que o homem sempre buscou sequiosamente por meio de sacrifícios, de adoração, das relações, do sexo, de tôda espécie de prazer e de dor, só é possível encontrá-la quando o pensamento, alcançando a compreensão de si próprio, termina naturalmente. O amor não conhece oposto, não conhece conflito. Podeis perguntar: “Se encontro êsse amor, que será de minha mulher, de minha família? Eles precisam de segurança”. Fazendo essa pergunta, mostrais que nunca estivestes fora do campo do pensamento, fora do campo da consciência. Quando tiverdes alguma vez estado fora dêsse campo, nunca fareis uma tal pergunta, porque sabereis o que é o amor em que não há pensamento e, por conseguinte, não há o tempo. Podeis ler tudo isto hipnotizado e encantado, mas ultrapassar realmente o pensamento e o tempo — o que significa transcender o sofrimento é estar cônscio de uma dimensão diferente, chamada “amor". Mas, não sabeis como chegar-vos a essa fonte maravilhosa — e,
assim, que fazeis? Quando não sabeis o que fazer, nada fazeis, não
é verdade? Nada, absolutamente. Então, interiormente, estais
completamente em silêncio. Compreendeis o que isso significa? Significa
que não estais buscando, nem desejando, nem perseguindo; não
existe centro nenhum. Há, então, o amor. ("Liberte-se do
passado". Cultrix, São Paulo, 1983).
|