A importância da
literatura
por Mario Vargas Llosa (foto)
Em
feiras de livros ou mesmo livrarias, freqüentemente alguém se aproxima
pedindo-me autógrafo. "É para minha mulher, filha ou mãe", explica.
"Ela adora ler!" De pronto pergunto: "E o senhor? Não gosta de
ler?" E a resposta é quase sempre a mesma: "Gosto, mas sou muito
ocupado."
Já ouvi essa
explicação dezenas de vezes. Esse homem - e milhares outros como ele - tem
tantos afazeres importantes, tantas obrigações e responsabilidades, que não
pode perder seu precioso tempo mergulhado num romance.
Segundo esse
raciocínio, a literatura seria uma atividade dispensável, uma diversão que
somente pessoas com muito tempo livre poderiam se permitir.
Gostaria de apresentar
alguns argumentos contra a idéia da literatura como passatempo e em prol de
considerá-la, além de uma das ocupações mais estimulantes e enriquecedoras do
espírito humano, uma atividade insubstituível para a formação de cidadãos na
sociedade moderna e democrática. Por essa razão, ela deveria ser semeada nas
famílias desde a infância e fazer parte de todos os programas educacionais.
Vivemos numa era de
especialização em virtude do extraordinário desenvolvimento da ciência e da
tecnologia, e da conseqüente fragmentação do conhecimento em incontáveis
avenidas e compartimentos.
A especialização
traz benefícios. Possibilita pesquisa e experimentos, e é a força motriz do
progresso. Mas também destrói os denominadores comuns culturais que permitem a
coexistência, a comunicação e a solidariedade. E leva à separação dos seres
humanos em guetos culturais de especialistas, confinados - pela linguagem, por
códigos de conduta e pelo conhecimento particularizado - a uma especificidade
contra a qual um antigo provérbio já nos advertia: não se concentre tanto na
folha, a ponto de esquecer que ela é parte da árvore e esta, da floresta.
Em grande medida, a
noção da existência dessa floresta depende do senso de conjunto que une a
sociedade e não a deixa se desintegrar numa centena de especificidades. A
ciência e a tecnologia, portanto, já não podem desempenhar esse papel
unificador da cultura.
A literatura, por sua
vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um denominador comum da
experiência humana. Aqueles de nós que leram Cervantes, Shakespeare, Dante ou
Tolstoi entendem uns aos outros e se sentem indivíduos da mesma espécie porque,
nas obras desses escritores, aprenderam o que partilhamos com seres humanos,
independentemente de posição social, geografia, situação financeira e período
histórico.
Nada nos protege melhor da estupidez
do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e
do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande
literatura: todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os
bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado
humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana.
Ler boa literatura é ainda aprender o
que e como somos - em toda a nossa humanidade, com nossas ações, nossos sonhos e
nossos fantasmas -, tanto no espaço público como na privacidade de nossa
consciência. Esse conhecimento se encontra apenas na literatura. Nem mesmo os
outros ramos das ciências humanas - a filosofia, a história ou as artes -
conseguiram preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao leigo,
pois também eles sucumbiram ao domínio da especialização.
O elo fraternal que a literatura
estabelece entre os seres humanos transcende todas as barreiras temporais. A
sensação de ser parte da experiência coletiva através do tempo e do espaço é
a maior conquista da cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada
geração do que a literatura.
O que a literatura deu à humanidade,
então?
Um de seus primeiros efeitos
benéficos ocorre no plano da linguagem. Uma sociedade sem literatura escrita se
exprime com menos precisão, riqueza de nuances, clareza, correção e
profundidade do que a que cultivou os textos literários.
Uma humanidade sem romances seria
muito parecida com uma comunidade de gagos e afásicos. Isso também vale para o
indivíduo. As pessoas que nunca lê, lê pouco ou lê apenas lixo pode falar
muito, mas vai sem dizer pouco, porque dispõe de um repertório mínimo de
palavras para se expressar.
Não se trata de uma limitação
somente verbal, mas também intelectual, uma indigência de idéias e
conhecimento, porque os conceitos pelos quais assimilamos a realidade não são
dissociados das palavras que nossa consciência usa para reconhecê-los e
defini-los.
Nenhuma disciplina substitui a
literatura na formação da linguagem. O conhecimento transmitido por manuais
técnicos e tratados científicos é fundamental, mas eles não nos ensinam a nos
exprimir corretamente. Ao contrário, com freqüência são mal escritos porque os
autores, às vezes expoentes indiscutíveis em sua profissão, não sabem
transmitir seus tesouros conceituais.
Outro motivo para se conferir à
literatura um lugar de destaque na vida das nações é que, sem ela, a mente
crítica - verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da liberdade
- sofreria uma perda irreparável. Porque toda boa literatura é um questionamento
radical do mundo em que vivemos. Qualquer texto literário de valor transpira uma
atitude rebelde, insubmissa, provocadora e inconformista.
A literatura apazigua essa
insatisfação existencial apenas por um momento, mas nesse instante milagroso,
nessa suspensão temporária da vida, somos diferentes: mais ricos, mais felizes,
mais intensos, mais complexos e mais lúcidos. A literatura nos permite viver num
mundo onde as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos
libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer excessos sem
castigo e desfrutar de uma soberania sem limites. Como não nos sentirmos
enganados depois de ler "Guerra e Paz" ou "Em Busca do Tempo
Perdido" e voltar a este mundo de detalhes insignificantes, obstáculos,
limitações, barreiras e proibições que nos espreitam de todo canto e em cada
esquina corrompem nossas ilusões?
Quer dizer, a vida imaginada dos
romances é melhor: mais bonita e diversa, mais compreensível e perfeita. Talvez
seja esta a maior contribuição da literatura ao progresso: lembrar que o mundo
é malfeito, e que poderia ser melhor, mais parecido com o que a imaginação é
capaz de criar.
A sociedade livre e democrática
requer cidadãos responsáveis, críticos, independentes, difíceis de manipular,
em constante efervescência espiritual e cientes da necessidade de examinar
continuamente o mundo em que vivemos, para tentar aproximá-lo do mundo em que
gostaríamos de viver.
Sem insatisfação e rebeldia, ainda
viveríamos em estado primitivo, a história teria parado, o indivíduo não teria
nascido, a ciência não teria alçado vôo, os direitos humanos não teriam sido
reconhecidos e a liberdade não existiria. Tudo isso nasce dos atos de desafio a
uma vida que se mostra insuficiente ou intolerável. Para esse espírito que
despreza a vida como ela é - e, com a insensatez de Dom Quixote, tenta tornar o
sonho realidade -, a literatura serve de magnífica espora. A verdade é que o
desenvolvimento da mídia audiovisual - que ao mesmo tempo que revoluciona as
comunicações monopoliza cada vez mais o tempo que dedicamos ao lazer, relegando
a leitura a segundo plano - permite-nos imaginar para um futuro próximo uma
sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e microfones, mas sem
livros.
Temo que esse mundo cibernético seja
profundamente incivilizado, sem espírito, apático - uma resignada humanidade de
robôs.
Evidentemente , é muito improvável
que essa terrível perspectiva venha algum dia a se concretizar. Não existe um
destino que decida por nós o que vamos ser. Depende de nosso discernimento e de
nossa vontade que essa utopia macabra se realize ou se apague.
Se queremos evitar o desaparecimento
dos romances - ou sua restrição ao sótão dos objetos inúteis - e com isso o
desaparecimento da própria fonte que estimula a imaginação e a insatisfação,
que refina nossa sensibilidade e nos ensina a falar com eloqüência e precisão,
que nos torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos
agir. Precisamos ler bons livros e incitar à leitura os que vêm depois de
nós.
(*) Este texto ao lado é da março de 2003 da
revista Seleções Reader's Digest (http://www.selecoes.com.br).
O título original é "Um mundo sem romances". Mario Vargas Llosa é
escritor peruano.
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