Gente
que BG conheceu
Antônio
Gonçalves Dias
Do site do BG e da ABL.
A
segunda das memoráveis críticas de Bernardo foi contra Gonçalves Dias. Ataques
nem sempre justos, porém demonstrativos da inteira independência de escolas e de
padrões da época, partidos de harpa revolucionária do bardo vila-riquense,
juízos estes comprovantes de que o crítico do "Atualidade" não era --
para usar a palavra das letras nacionais -- o "turiferário de ídolos, qual
o vulgum pecus das letras nacionais", pois o cantor dos
"Timbiras" já era, então, o consagrado vate da intelectualidade
brasileira, a coqueluche dos suspiradores românticos de então.
Diz Sílvio Romero, como que justificando a censura de Bernardo ao menestrel
maranhense: "Foi sempre contrário ao indianismo e por isso criticou de
Gonçalves Dias" ("História da Literatura Brasileira", 1903, 2º
volume, página 240).
Realmente, ao bardo mineiro, que conhecera de perto os caiapós e os xavantes das
rechãs goianas; que convivera com os índicos do então Sertão da Farinha Podre,
com eles sentando-se nos mesmos bancos escolares de Campo Belo, repugnava ouvir
loas e mistificações para debuxar índios falsificados pela fantasia, que falam
português clássico, e imaginar perfumes em fétidas malocas. Aliás, o próprio
Basílio de Magalhães, que não comungava com o ouro-pretano nas críticas que
fez, observa esta faceta bernardina: "Apesar do influxo da época, exercido
principalmente por Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães e Castro Alves, não
embrenhou Bernardo Guimarães no atraente aranhol do indianismo, nem se deixou
aliciar pelas campanulagens e lantejoulas do condoreirismo".
A verdade é que ninguém, mais do que Bernardo Guimarães, estimava e admirava a
Gonçalves Dias. Foi relativamente pequena a sua convivência com ele na capital
do Império, bastante, entretanto, para soldar as amizades, como se velhas fossem.
"Usava (Bernardo), amiúde, a blusa de brim pardo que Gonçalves Dias lhe
oferecera no Rio. Era sua relíquia". (Antônio Constantino, "O
Incrível Bernardo Guimarães", na "Gazeta-Magazine", de
23-3-1941). Também o professor Carlos José dos Santos menciona essa camisa
histórica.
Morto o autor de "O Canto do Piaga", Bernardo Guimarães escreveu o
canto elegíaco Morte de Gonçalves Dias, longo poema
publicado pela "Reforma" e depois, em 1873, incluído no volume de
"O Índio Afonso", em apêndice. O poema, "de alto culto" no
dizer de Augusto de Lima, foi escrito em 1864, publicado em 1869, "como
protesto contra a atitude da Câmara dos Deputados, que recusou ao Maranhão o
auxílio para a estátua do contor dos 'Timbiras"'.
Quando saiu à luz dos prelos o romance "O Índio
Afonso", o jornal "Reforma" assim se referiu ao poema
adicionado a esse volume:
"Quem não se recordaria daquela ode dedicada à memória do imortal autor
dos "Timbiras", para cuja sepultura houve uma Câmara de Deputados que
recusou os meios de comprar uma singela lousa? Foi isto que indignou o bardo, que,
em versos tão belos como melhores não os fez Garret, contou aos seus
contemporâneos aquele procedimento indecente, bem como o fim desastroso do maior
poeta brasileiro.
"Realmente -- continua o "Reforma" -- hoje só Bernardo Guimarães
poderia substituir o vácuo que nas letras pátrias deixou o cantor das palmeiras
e do sabiá. Os dois poetas têm muitos pontos de contato: ambos grandes pelo
gênio que os inspira, admiradores fanáticos das magnificências da terra em que
nasceram; infelizes por não terem na Pátria a importância a que têm direito
pelo seu talento, um vive de mesquinho ordenado de professor de um Liceu em uma
pequena cidade, o outro morreu, ao avistar o verde das costas brasileiras, em um
imundo navio de vela, sem nenhum dos carinhos a que tinha direito." (Artigo
reproduzido no prólogo da "Novas Poesias").
Patrono da cadeira 15
Gonçalves Dias (Antônio G. D.), poeta, professor,
crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, MA, em 10 de agosto de 1823, e
faleceu em naufrágio, no baixio dos Atins, MA, em 3 de novembro de 1864. É o
patrono da Cadeira n. 15, por escolha do fundador Olavo Bilac.
Era filho de João Manuel Gonçalves Dias,
comerciante português, natural de Trás-os-Montes, e de Vicência Ferreira,
mestiça. Perseguido pelas exaltações nativistas, o pai refugiara-se com a
companheira perto de Caxias, onde nasceu o futuro poeta. Casado em 1825 com outra
mulher, o pai levou-o consigo, deu-lhe instrução e trabalho e matriculou-o no
curso de latim, francês e filosofia do prof. Ricardo Leão Sabino. Em 1838
Gonçalves Dias embarcaria para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando
faleceu-lhe o pai. Com a ajuda da madrasta pôde viajar e matricular-se no curso
de Direito em Coimbra. A situação financeira da família tornou-se difícil em
Caxias, por efeito da Balaiada, e a madrasta pediu-lhe que voltasse, mas ele
prosseguiu nos estudos graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845. Em
Coimbra, ligou-se Gonçalves Dias ao grupo dos poetas que Fidelino de Figueiredo
chamou de “medievalistas”. À influência dos portugueses virá juntar-se a
dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. Em 1843 surge a “Canção
do exílio”, um das mais conhecidas poesias da língua portuguesa.
Regressando ao Brasil em 1845, passou rapidamente
pelo Maranhão e, em meados de 1846, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde
morou até 1854, fazendo apenas uma rápida viagem ao norte em 1851. Em 46, havia
composto o drama Leonor de Mendonça, que o Conservatório do Rio de Janeiro
impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; em 47 saíram os
Primeiros cantos, com as “Poesias americanas”, que mereceram artigo
encomiástico de Alexandre Herculano; no ano seguinte, publicou os Segundos cantos
e, para vingar-se dos seus gratuitos censores, conforme registram os
historiadores, escreveu as Sextilhas de frei Antão, em que a intenção aparente
de demonstrar conhecimento da língua o levou a escrever um “ensaio filológico”,
num poema escrito em idioma misto de todas as épocas por que passara a língua
portuguesa até então. Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do
Colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara, com Macedo e Porto Alegre. Em 51,
publicou os Últimos cantos, encerrando a fase mais importante de sua poesia.
A melhor parte da lírica dos Cantos inspira-se ora
da natureza, ora da religião, mas sobretudo de seu caráter e temperamento. Sua
poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de
origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas. Foram elas
atribuídas ao infortúnio amoroso pelos críticos, esquecidos estes de que a
grande paixão do Poeta ocorreu depois da publicação dos Últimos cantos. Em
1851, partiu Gonçalves Dias para o Norte em missão oficial e no intuito de
desposar Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, o grande amor de sua vida, cuja
mãe não concordou por motivos de sua origem bastarda e mestiça. Frustrado,
casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Foi um casamento de
conveniência, origem de grandes desventuras para o Poeta, devidas ao gênio da
esposa, da qual se separou em 1856. Tiveram uma filha, falecida na primeira
infância.
Nomeado para a Secretaria dos Negócios
Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858, em missão oficial de estudos e
pesquisa. Em 56, viajou para a Alemanha e, na passagem por Leipzig, em 57, o
livreiro-editor Brockhaus editou os Cantos, os primeiros quatro cantos de Os
Timbiras, compostos dez anos antes, e o Dicionário da língua tupi. Voltou ao
Brasil e, em 1861 e 62, viajou pelo Norte, pelos rios Madeira e Negro, como membro
da Comissão Científica de Exploração. Voltou ao Rio de Janeiro em 1862,
seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada, e buscando
estações de cura em várias cidades européias. Em 25 de outubro de 63, embarcou
em Bordéus para Lisboa, onde concluiu a tradução de A noiva de Messina, de
Schiller. Voltando a Paris, passou em estações de cura em Aix-les-Bains,
Allevard e Ems. Em 10 de setembro de 1864, embarcou para o Brasil no Havre no
navio Ville de Boulogne, que naufragou, no baixio de Atins, nas costas do
Maranhão, tendo o poeta perecido no camarote, sendo a única vítima do desastre,
aos 41 anos de idade.
Todas as suas obras literárias, compreendendo os
Cantos, as Sextilhas, a Meditação e as peças de teatro (Patkul, Beatriz Cenci e
Leonor de Mendonça), foram escritas até 1854, de maneira que, seguindo Sílvio
Romero, se tivesse desaparecido naquele ano, aos 31 anos, “teríamos o nosso
Gonçalves Dias completo”. O período final, em que dominam os pendores
eruditos, favorecidos pelas comissões oficiais e as viagens à Europa, compreende
o Dicionário da língua tupi, os relatórios científicos, as traduções do
alemão, a epopéia Os Timbiras, cujos trechos iniciais, que são os melhores,
datam do período anterior.
Sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se
na temática “americana”, isto é, de incorporação dos assuntos e paisagens
brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-se para a terra natal,
marcando assim a nossa independência em relação a Portugal. Ao lado da natureza
local, recorreu aos temas em torno do indígena, o homem americano primitivo,
tomado como o protótipo de brasileiro, desenvolvendo, com José de Alencar na
ficção, o movimento do “Indianismo”. Os indígenas, com suas lendas e mitos,
seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua fusão com o branco,
ofereceram-lhe um mundo rico de significação simbólica. Embora não tenha sido
o primeiro a buscar na temática indígena recursos para o abrasileiramento da
literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o Indianismo. A obra
indianista está contida nas “Poesias americanas” dos Primeiros cantos, nos
Segundos cantos e Últimos cantos, sobretudo nos poemas “Marabá”, “Leito de
folhas verdes”, “Canto do piaga”, “Canto do tamoio”, “Canto do
guerreiro” e “I-Juca-Pirama”, este talvez o ponto mais alto da poesia
indianista. É uma das obras-primas da poesia brasileira, graças ao conteúdo
emocional e lírico, à força dramática, ao argumento, à linguagem, ao ritmo
rico e variado, aos múltiplos sentimentos, à fusão do poético, do sublime, do
narrativo, do diálogo, culminando na grandeza da maldição do pai ao filho que
chorou na presença da morte.
Pela obra lírica e indianista, Gonçalves Dias é
um dos mais típicos representantes do Romantismo brasileiro e forma com José de
Alencar na prosa a dupla que conferiu caráter nacional à literatura brasileira.
Obras: Primeiros contos, poesia (1846); Leonor de
Mendonça, teatro (1847); Segundos cantos e Sextilhas de Frei Antão, poesia
(1848); Últimos cantos (1851); Cantos, poesia (1857); Os Timbiras, poesia (1857);
Dicionário da língua tupi (1858); Obras póstumas, poesia e teatro (1868-69);
Obras poéticas, org. de Manuel Bandeira (1944); Poesias completas e prosa
escolhida, org. de Antonio Houaiss (1959); Teatro completo (1979).
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