Vida e Obra de Bernardo Guimarães
  poeta e romancista brasileiro [1825-1884 - biografia]

 
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Gente que BG conheceu
Antônio Gonçalves Dias

Do site do BG e da ABL.
 
A segunda das memoráveis críticas de Bernardo foi contra Gonçalves Dias. Ataques nem sempre justos, porém demonstrativos da inteira independência de escolas e de padrões da época, partidos de harpa revolucionária do bardo vila-riquense, juízos estes comprovantes de que o crítico do "Atualidade" não era -- para usar a palavra das letras nacionais -- o "turiferário de ídolos, qual o vulgum pecus das letras nacionais", pois o cantor dos "Timbiras" já era, então, o consagrado vate da intelectualidade brasileira, a coqueluche dos suspiradores românticos de então.

Diz Sílvio Romero, como que justificando a censura de Bernardo ao menestrel maranhense: "Foi sempre contrário ao indianismo e por isso criticou de Gonçalves Dias" ("História da Literatura Brasileira", 1903, 2º volume, página 240).

Realmente, ao bardo mineiro, que conhecera de perto os caiapós e os xavantes das rechãs goianas; que convivera com os índicos do então Sertão da Farinha Podre, com eles sentando-se nos mesmos bancos escolares de Campo Belo, repugnava ouvir loas e mistificações para debuxar índios falsificados pela fantasia, que falam português clássico, e imaginar perfumes em fétidas malocas. Aliás, o próprio Basílio de Magalhães, que não comungava com o ouro-pretano nas críticas que fez, observa esta faceta bernardina: "Apesar do influxo da época, exercido principalmente por Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães e Castro Alves, não embrenhou Bernardo Guimarães no atraente aranhol do indianismo, nem se deixou aliciar pelas campanulagens e lantejoulas do condoreirismo".

A verdade é que ninguém, mais do que Bernardo Guimarães, estimava e admirava a Gonçalves Dias. Foi relativamente pequena a sua convivência com ele na capital do Império, bastante, entretanto, para soldar as amizades, como se velhas fossem.

"Usava (Bernardo), amiúde, a blusa de brim pardo que Gonçalves Dias lhe oferecera no Rio. Era sua relíquia". (Antônio Constantino, "O Incrível Bernardo Guimarães", na "Gazeta-Magazine", de 23-3-1941). Também o professor Carlos José dos Santos menciona essa camisa histórica.

Morto o autor de "O Canto do Piaga", Bernardo Guimarães escreveu o canto elegíaco Morte de Gonçalves Dias, longo poema publicado pela "Reforma" e depois, em 1873, incluído no volume de "O Índio Afonso", em apêndice. O poema, "de alto culto" no dizer de Augusto de Lima, foi escrito em 1864, publicado em 1869, "como protesto contra a atitude da Câmara dos Deputados, que recusou ao Maranhão o auxílio para a estátua do contor dos 'Timbiras"'.

Quando saiu à luz dos prelos o romance "O Índio Afonso", o jornal "Reforma" assim se referiu ao poema adicionado a esse volume: 

"Quem não se recordaria daquela ode dedicada à memória do imortal autor dos "Timbiras", para cuja sepultura houve uma Câmara de Deputados que recusou os meios de comprar uma singela lousa? Foi isto que indignou o bardo, que, em versos tão belos como melhores não os fez Garret, contou aos seus contemporâneos aquele procedimento indecente, bem como o fim desastroso do maior poeta brasileiro.

"Realmente -- continua o "Reforma" -- hoje só Bernardo Guimarães poderia substituir o vácuo que nas letras pátrias deixou o cantor das palmeiras e do sabiá. Os dois poetas têm muitos pontos de contato: ambos grandes pelo gênio que os inspira, admiradores fanáticos das magnificências da terra em que nasceram; infelizes por não terem na Pátria a importância a que têm direito pelo seu talento, um vive de mesquinho ordenado de professor de um Liceu em uma pequena cidade, o outro morreu, ao avistar o verde das costas brasileiras, em um imundo navio de vela, sem nenhum dos carinhos a que tinha direito." (Artigo reproduzido no prólogo da "Novas Poesias").

Patrono da cadeira 15

Gonçalves Dias (Antônio G. D.), poeta, professor, crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, MA, em 10 de agosto de 1823, e faleceu em naufrágio, no baixio dos Atins, MA, em 3 de novembro de 1864. É o patrono da Cadeira n. 15, por escolha do fundador Olavo Bilac.

Era filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, natural de Trás-os-Montes, e de Vicência Ferreira, mestiça. Perseguido pelas exaltações nativistas, o pai refugiara-se com a companheira perto de Caxias, onde nasceu o futuro poeta. Casado em 1825 com outra mulher, o pai levou-o consigo, deu-lhe instrução e trabalho e matriculou-o no curso de latim, francês e filosofia do prof. Ricardo Leão Sabino. Em 1838 Gonçalves Dias embarcaria para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando faleceu-lhe o pai. Com a ajuda da madrasta pôde viajar e matricular-se no curso de Direito em Coimbra. A situação financeira da família tornou-se difícil em Caxias, por efeito da Balaiada, e a madrasta pediu-lhe que voltasse, mas ele prosseguiu nos estudos graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845. Em Coimbra, ligou-se Gonçalves Dias ao grupo dos poetas que Fidelino de Figueiredo chamou de “medievalistas”. À influência dos portugueses virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. Em 1843 surge a “Canção do exílio”, um das mais conhecidas poesias da língua portuguesa.

Regressando ao Brasil em 1845, passou rapidamente pelo Maranhão e, em meados de 1846, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde morou até 1854, fazendo apenas uma rápida viagem ao norte em 1851. Em 46, havia composto o drama Leonor de Mendonça, que o Conservatório do Rio de Janeiro impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; em 47 saíram os Primeiros cantos, com as “Poesias americanas”, que mereceram artigo encomiástico de Alexandre Herculano; no ano seguinte, publicou os Segundos cantos e, para vingar-se dos seus gratuitos censores, conforme registram os historiadores, escreveu as Sextilhas de frei Antão, em que a intenção aparente de demonstrar conhecimento da língua o levou a escrever um “ensaio filológico”, num poema escrito em idioma misto de todas as épocas por que passara a língua portuguesa até então. Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara, com Macedo e Porto Alegre. Em 51, publicou os Últimos cantos, encerrando a fase mais importante de sua poesia.

A melhor parte da lírica dos Cantos inspira-se ora da natureza, ora da religião, mas sobretudo de seu caráter e temperamento. Sua poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas. Foram elas atribuídas ao infortúnio amoroso pelos críticos, esquecidos estes de que a grande paixão do Poeta ocorreu depois da publicação dos Últimos cantos. Em 1851, partiu Gonçalves Dias para o Norte em missão oficial e no intuito de desposar Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, o grande amor de sua vida, cuja mãe não concordou por motivos de sua origem bastarda e mestiça. Frustrado, casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Foi um casamento de conveniência, origem de grandes desventuras para o Poeta, devidas ao gênio da esposa, da qual se separou em 1856. Tiveram uma filha, falecida na primeira infância.

Nomeado para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858, em missão oficial de estudos e pesquisa. Em 56, viajou para a Alemanha e, na passagem por Leipzig, em 57, o livreiro-editor Brockhaus editou os Cantos, os primeiros quatro cantos de Os Timbiras, compostos dez anos antes, e o Dicionário da língua tupi. Voltou ao Brasil e, em 1861 e 62, viajou pelo Norte, pelos rios Madeira e Negro, como membro da Comissão Científica de Exploração. Voltou ao Rio de Janeiro em 1862, seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada, e buscando estações de cura em várias cidades européias. Em 25 de outubro de 63, embarcou em Bordéus para Lisboa, onde concluiu a tradução de A noiva de Messina, de Schiller. Voltando a Paris, passou em estações de cura em Aix-les-Bains, Allevard e Ems. Em 10 de setembro de 1864, embarcou para o Brasil no Havre no navio Ville de Boulogne, que naufragou, no baixio de Atins, nas costas do Maranhão, tendo o poeta perecido no camarote, sendo a única vítima do desastre, aos 41 anos de idade.

Todas as suas obras literárias, compreendendo os Cantos, as Sextilhas, a Meditação e as peças de teatro (Patkul, Beatriz Cenci e Leonor de Mendonça), foram escritas até 1854, de maneira que, seguindo Sílvio Romero, se tivesse desaparecido naquele ano, aos 31 anos, “teríamos o nosso Gonçalves Dias completo”. O período final, em que dominam os pendores eruditos, favorecidos pelas comissões oficiais e as viagens à Europa, compreende o Dicionário da língua tupi, os relatórios científicos, as traduções do alemão, a epopéia Os Timbiras, cujos trechos iniciais, que são os melhores, datam do período anterior.

Sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se na temática “americana”, isto é, de incorporação dos assuntos e paisagens brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-se para a terra natal, marcando assim a nossa independência em relação a Portugal. Ao lado da natureza local, recorreu aos temas em torno do indígena, o homem americano primitivo, tomado como o protótipo de brasileiro, desenvolvendo, com José de Alencar na ficção, o movimento do “Indianismo”. Os indígenas, com suas lendas e mitos, seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua fusão com o branco, ofereceram-lhe um mundo rico de significação simbólica. Embora não tenha sido o primeiro a buscar na temática indígena recursos para o abrasileiramento da literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o Indianismo. A obra indianista está contida nas “Poesias americanas” dos Primeiros cantos, nos Segundos cantos e Últimos cantos, sobretudo nos poemas “Marabá”, “Leito de folhas verdes”, “Canto do piaga”, “Canto do tamoio”, “Canto do guerreiro” e “I-Juca-Pirama”, este talvez o ponto mais alto da poesia indianista. É uma das obras-primas da poesia brasileira, graças ao conteúdo emocional e lírico, à força dramática, ao argumento, à linguagem, ao ritmo rico e variado, aos múltiplos sentimentos, à fusão do poético, do sublime, do narrativo, do diálogo, culminando na grandeza da maldição do pai ao filho que chorou na presença da morte.

Pela obra lírica e indianista, Gonçalves Dias é um dos mais típicos representantes do Romantismo brasileiro e forma com José de Alencar na prosa a dupla que conferiu caráter nacional à literatura brasileira.

Obras: Primeiros contos, poesia (1846); Leonor de Mendonça, teatro (1847); Segundos cantos e Sextilhas de Frei Antão, poesia (1848); Últimos cantos (1851); Cantos, poesia (1857); Os Timbiras, poesia (1857); Dicionário da língua tupi (1858); Obras póstumas, poesia e teatro (1868-69); Obras poéticas, org. de Manuel Bandeira (1944); Poesias completas e prosa escolhida, org. de Antonio Houaiss (1959); Teatro completo (1979).


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