Gente
que BG conheceu
Flávio Farnese
Do site do BG e da ABL
[Farnese foi o fundador do jornal carioca
"Atualidade", onde B.G. trabalhou de 1859 a 1860]
PEDRO LUIS []
JORNALISTA, poeta, deputado, administrador,
ministro e homem da mais fina sociedade fluminense, pertencia este moço à
geração que começou por 1860.
Chamava-se Pedro Luís Pereira de Sousa e nasceu no
município de Araruama, Província do Rio de Janeiro, a 15 de dezembro de 1839,
filho do Comendador Luís Pereira de Sousa e de D. Maria Carlota de Viterbo e
Sousa. Era formado em ciências sociais e jurídicas pela Faculdade de S. Paulo.
Começou a vida política na folha de Flávio
Farnese, a Atualidade, de colaboração com Lafayette Rodrigues Pereira,
atualmente senador, e com Bernardo Guimarães, mavioso poeta mineiro, há pouco
falecido. Ao mesmo tempo iniciou vida de advogado no escritório de F. Otaviano.
Essa primeira fase da vida de Pedro Luís dá
vontade de ir longe.
A figura de Flávio Farnese surge debaixo da pena e
incita a recompor com ela uma quadra inteira de fé e de entusiasmo liberal. Ao
lado de Farnese, de Lafayette, de Pedro Luís, vieram outros nomes que, ou
cresceram também, ou pararam de todo, por morte ou por outras causas. Sobre tal
tempo é passado um quarto de século, o espaço de uma vida ou de um reinado.
Olha-se para ele com saudade e com orgulho.
Conheci Pedro Luís na imprensa. Íamos ao Senado
tomar nota dos debates, ele, Bernardo Guimarães e eu, cada qual para o seu
jornal. Bernardo Guimarães era da geração anterior, companheiro de Álvares de
Azevedo, mas realmente não tinha idade; não a teve nunca. A nota juvenil era
nele a expressão de humor e do talento,
Nem Bernardo nem eu íamos para a milícia
política; Pedro Luís dentro de pouco foi eleito deputado pelo 2.º
distrito da Província do Rio de Janeiro com os conselheiros Manuel de Jesus
Valdetaro e Eduardo de Andrade Pinto. A estréia de Padre Luís na tribuna foi um
grande sucesso do tempo, e está comemorada nos jornais com a justiça que
merecia. Tratava-se de um projeto concedendo um pedaço de terra a um Padre
Janrard, lazarista. Padre Luís fez desse negócio insignificante uma
batalha de eloquência, e proferiu um discurso cheio de grande alento liberal.
Surdiram-lhe em frente dous adversários respeitáveis: Monsenhor Pinto de Campos,
que reunia aos sentimentos de conservador o caráter sacerdotal e o Dr. Junqueira
queira, atual senador: eram dous nomes feitos e tanto bastava a honrar o estreante
orador.
As vicissitudes políticas fizeram-se sentir em
breve.
Pedro Luís não foi reeleito na legislatura seguinte. Em 1868 a situação
liberal, o Conselheiro Otaviano tratou da funda Reforma, e convidou Padre
Luís, que ali trabalhou ao lado flor do partido.
Então, como antes, cultivou as letras, deixando
algumas composições notáveis, como "Os Voluntários da Morte",
"Terribilis Dea "Tiradentes" e "Nunes Machado". A
primeira destas tinha sido r citada por ele mesmo em uma casa da Rua da Quitanda,
onde se reuniam alguns amigos e homens de letras; e foi uma revelação de
primeira ordem. Recitada pouco depois no teatro e divulgada pela imprensa, correu
o império e atravessou o oceano, sendo reproduzida em Lisboa, donde o
Visconde de Castilho escreveu ao poeta dizendo-lhe que essa ode era um rugido de
leão.
Todas as demais composições tiveram o mesmo
efeito. São, na verdade, cheias de grande vigor poético, raro calor e movimento
lírico.
Não tardou que a política ativa o tomasse
inteiramente. Em 1877 subiu ao poder o Partido Liberal e ele tornou à Câmara dos
Deputado, representando a Província do Rio de Janeiro. A 28 de março de
1880, organizando o Sr. Senador Saraiva o seu ministério, confiou a Pedro Luís a
pasta dos negócios estrangeiros, para a qual parecia indicá-lo especialmente as
qualidades pessoais. Nem ocupou somente essa pasta: foi sucessivamente ministro
interino da marinha, do império e da agricultura.
No ministério da agricultura, que ele regeu duas
vezes, e a segunda por morte do Conselheiro Buarque de Macedo,
encontramo-nos os dous, trabalhando juntos, como em 1860, mas ele
agora era ministro de Estado, e eu tão-somente oficial de gabinete. Cito esta
circunstância para afirmar com o meu testemunho pessoal, que esse moço suposto
sibarita e indolente, era nada menos que um trabalhador ativo, zeloso do cargo e
da pessoa; todos os que o praticaram de perto podem atestar isto mesmo. Deixou o
seu nome ligado a muitos atos de administração interior ou de natureza
diplomática.
Posta em execução a reforma eleitoral, obra do
próprio ministério dele, o Conselheiro Pedro Luís, que então era ministro de
duas pastas, não conseguiu ser eleito. Aceitou a derrota com o bom humor que lhe
era próprio, embora tivesse de padecer na legítima ambição política; mas
estava moço e forte, e a derrota era das que laureiam. Não ter algumas centenas
de votos é apenas não dispor da confiança de outras tantas pessoas, cousa que
não prejulga nada. O desdouro seria cair mal, e ele caiu com gentileza.
Pouco tempo depois foi nomeado presidente da
província da Bahia donde voltou enfermo, com a morte em si. Na Bahia deixou
verdadeiras saudades; era estimado de toda a gente, respeitado e benquisto.
O organismo, porém, começou a deperecer, e o
repouso e tratamento tornaram-se-lhe indispensáveis; alcançou a demissão
do cargo e regressou à vida particular.
Faleceu na sua fazenda da Barra Mansa, às 4 horas
da madrugada do dia 16 de julho do corrente ano de 1884.
Era casado com D. Amélia Valim Pereira de Sousa,
filha Comendador Manuel de Aguiar Valim, fazendeiro do município Bananal e
chefe ali do Partido Conservador. Um dos jornais Rio de Janeiro mencionou esta
circunstância:
Tal era a amenidade do caráter de Pedro
Luís, que, a despeito de suas opiniões políticas, seu sogro o prezava e
distinguia muito, assim como outros muitos fazendeiros importantes daquele
município, sem distinção de partido.
Ninguém que o praticou intimamente deixou de
trazer a impressão de uma verdadeira personalidade, podendo acrescentar-se que e
não deu tudo que era de esperar do seu talento, e que valia ainda mais do que a
sua reputação.
Posto que um tanto céptico, era sensível,
profundamente sensível; tinha instrução variada, gosto fino e puro, nada
trivial nem choco era cheio de bons ditos, e observador como raros.
Nã
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A morte de Flávio
Farnese
Bernardo Guimarães
Musa infeliz, ah! que sinistro fado
Te cinge a fronte de funérea rama,
E entre sepulcros pranto amargurado
Hoje a chorar te chama?...
Já não te é dado mais vibrar
na lira
De flores enramada
As meigas cordas, em que amor suspira,
Nem por valente vôo arrebatada
Tecer hinos de glória
Aos filhos prediletos da vitória,
Nem por tardes formosas
À sombra descantar entre os vergéis
Da natureza as cenas graciosas,
Das solidões os mágicos painéis.
Ah! não, que o gênio, que te inspira agora,
Por sobre as campas entre sombras mora.
Nem mirtos, nem rosais bordam-te as sendas;
Hoje te obriga inexorável sorte
A vaguear por entre as mudas tendas
Dos arraiais da morte.
A cada instante lúgubre ruído
De lápida, que tomba,
A teus ouvidos tétrico ribomba,
- Eterno, último adeus de um ser querido.
A cada passo um túmulo abalroas
Nessa, que trilhas, senda ltituosa.
Não mais canções, - só fúnebres coroas
Cumpre-te hoje tecer com mão saudosa,
E entre gemidos do sepulcro à borda
Estalar do alaúde a extrema corda.
Despe os louros, ó musa, e do
alaúde
Arranca a última flor,
E vem comigo ao pé de um ataúde
Gemer trenos de dor.
***
Quem é, que nesse chão ali repousa
À sombra de pacíficos troféus,
Sob essa simples lousa,
Sem pompa de soberbos mausoléus?...
Que nome tão saudoso
Este arvoredo fúnebre murmura?
Que eco doloroso
Do seio dessa fria sepultura
Aos ouvidos me chega, e triste vibra
Do coração na mais sentida fibra?...
É este de Farnese
O derradeiro, gélido aposento;
E bem que sobre as cinzas não lhe pese
Custoso bronze, ou mármore opulento,
Só esse nome vale um monumento.
Que grande coração, que
alma tão nobre
Perdeu-se ali tão cedo !..
Quanta esperança morta ali se encobre
Debaixo desse fúnebre lajedo?
Quanto anelo viril, que peito forte
Jaz esmagado pelos pés da morte!...
Hoje a família, a pátria, a liberdade
Do ilustre morto a ínclita memória
Pranteia com saudade
E aos confins da mais remota idade
Seu nome recomenda envolto em glória.
A larga testa de palor
tingida
Era bem como lâmpada velada,
Em que a luz sagrada
Da inteligência em torno difundida
Sem ofuscar fulgia derramando
De sãs idéias o reflexo brando.
De nobre crença apóstolo
extremado
Para guiar o povo entre as tormentas
O havia Deus fadado.
Do porvir pelas sendas nevoentas
O verbo do progresso ele entrevia
Nesta palavra só Democracia.
Ninguém com mais denodo
desfraldara
A flâmula brilhante
Da bela causa, que lhe foi tão cara;
Ninguém mais anelante
Em liça entrou, e deu com próprio punho
De sua fé mais amplo testemunho.
Era um atleta; desd'a verde
idade
Lutando sem cessar em liça aberta
Nos santos arraiais da liberdade
O vimos sempre alerta.
Era um atleta, um lidador valente
Esse, que aí jaz dormindo eternamente.
Inda no primo albor da
juventude
O austero moço via com tristeza
Naufragar da nação toda a virtude
No charco da baixeza;
E embaída por pérfidos afagos
De um poder ominoso
Da corrução sorver a longos tragos
O ópio venenoso.
E o leão popular curvado ao
solo
Em perro humilde e vil se convertendo,
De quem o esmaga, e lhe comprime o colo
Submisso os pés lambendo.
E os pilotos do estado em fim
de contas
Do validismo à mesa embriagados
A nau já podre irem jogando às tontas
Por mares desastrados.
Via a pátria em letargo
vergonhoso
Adormecida à beira de um abismo,
E a conjurar lançou-se audacioso
Tão feio cataclismo.
Dos filhos do progresso ei-lo
na frente
Contra o oculto inimigo se revolta,
E ao perigo, que antolha-se eminente,
Do alarma o grito solta.
Ei-lo, que se dedica generoso
De nobre luta às escabrosas lidas;
Brande da imprensa o facho luminoso
Ante as turbas dormidas
Da indiferença na letal modorra.
Como réstia de luz, que o sol enfia
Entre as grades de lúgubre masmorra,
Da frase sua o ardor e a valentia
Do povo ao coração levou a crença,
E os gelos derreteu da indiferença.
Audaz empunha o cálamo de
ferro,
E com pujante frase
Afronta a corrução, fulmina o erro,
E ataca pela base
Da autocracia o velho baluarte,
Que, em mal! - inda vigora em tanta parte.
Por seu talento másculo
movida
A pluma se converte em férrea dava,
Que o servilismo e a corrução trucida,
E a sepultura ao despotismo cava.
Da inteligência na sublime
arena
Muito ele pelejou;
E no torpe convício a nobre pena
Jamais, jamais manchou.
Curto na vida foi o estádio
seu;
O astro refulgente,
Quando luz dardejava mais ardente,
Ao tocar no zenith se esvaeceu.
Foi curto o estádio, que
correu na vida;
Foi apenas esplêndida manhã,
Em prol da pátria rápido volvida
Em glorioso afã.
Agora à sombra de incruentos
louros
Tranqüilo ele repousa;
Seu nome inscrito nessa simples lousa
O recomenda aos séculos vindouros,
Enquanto nela a pátria e a liberdade
Vertem gemendo o pranto da saudade.
Descansa pois, amigo; assaz
lidaste;
A vida foi-te só luta e provança;
Nem um só passo deste sem contraste;
Amigo meu, descansa.
Perdoa, se o teu sono
sempiterno
Eu vim turbar no fúnebre jazigo...
Meu pranto aceita de pesar eterno,
E adeus, querido amigo...
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