Frank Weinreich resolveu escrever uma versão politicamente correta do Senhor dos Anéis, sem personagens que fumam ou mentem sobre seu passado como ladrão. A versão original - em alemão - está em http://www.polyoinos.de/tolk_stuff/tolk_lotrpc.htm. Abaixo vai minha tradução para o português.
© Frank Weinreich
Era uma tarde na Vila dos Hobbits, a tarde do onzentésimo primeiro aniversário de Bilbo, e naquela noite iria ocorrer a maior festa de aniversário que o Condado jamais vira. Mais ainda não era a hora, e o hobbit Bilbo e seu paternal e sábio amigo Gandalf estavam sentados ao morno sol de setembro diante de toca de Bilbo. Bilbo começou a encher o fornilho do cachimbo e disse a Gandalf:
– Ah, hoje é um dia maravilhoso para se comemorar um aniversário. Mas espere, deixe-me buscar um cachimbinho para você também.
– Não, obrigado – recusou o mago, esbelto e trajado de cinza – já me livrei totalmente disso. Você não sabe que fumar é prejudicial à saúde? Pois hoje em dia só os asseclas do Maligno fumam. Espere aí, tenho uma coisa para você.
Gandalf deu uma busca num dos seus bolsos profundos e tirou um pacotinho embrulhado em folhas verdes, que logo começou a desenrolar. Surgiram algumas tiras pálidas de um material que Bilbo não conhecia. – Aqui, Bilbo, prove: Toby sem açúcar.
– O que é isso?
– Foram os Brandebuques que inventaram, chamam de goma de mascar.
Cuidadosamente Bilbo enfiara uma das tiras na boca e começara a mastigar. Seu rosto iluminou-se com um largo sorriso. – Mmmm, gostoso. Isso é mesmo muito melhor do que queimar aquela erva fedorenta!
– E isto, meu caro Bilbo – disse Gandalf – isto ainda não é tudo. É possível divertir-se muito mais ainda. – Emudeceu, e de repente suas mandíbulas estavam mascando tão depressa que era de se temer que logo se partissem. Então o mago pôs a mão na boca, tirou dela uma pequena figura e depositou-a com cautela na mão estendida de Bilbo. Este mal acreditava nos seus olhos. Na sua mão estava a efígie de um anão, com apenas alguns centímetros de altura... de um anão de aspecto familiar... mas era... sim, era mesmo, Thorin Escudo de Carvalho em todo o seu severo esplendor, e claramente reconhecível até o último fio de barba. – Pois é – soou orgulhosa a voz do mago – anéis de fumaça são passageiros, mas isto permanece, e a esta altura adquiri tanta habilidade como em todas as demais coisas em que me empenho.
– Mas isso é maravilhoso, Gandalf. Posso ficar com ele?
– Mas é lógico, meu caro. Espere dois ou três minutos, e a figura endurecerá e será até possível brincar com ela. O fato é – o ancião, contente, alisou a longa barba – o fato é que até tenho um negócio em andamento com Cevado Carrapicho em Bri. Ele embute minhas figuras em ovos de chocolate, vende-as às crianças, e dividimos o lucro. A esta altura já há um produto meu em um de cada sete ovos.
Os dois amigos estavam sentados no gramado diante do smial de Bilbo, rindo despreocupados. Sim, caros meninos, assim pode-se viver quando se realizam negócios honestos. Mas nem sempre fora assim. No passado de Bilbo existia um ponto obscuro que incomodava Gandalf há decênios, e ele sabia que agora, no onzentésimo primeiro aniversário de Bilbo, teriam de falar no assunto.
Bilbo estava dizendo: – Já estou muito ansioso em relação a esta noite. Especialmente se considerarmos que vai ser meu último aniversário no Condado. Sabe, não quero ser um peso para o bolso do rapaz. Vou mudar-me para o lar dos idosos em Valfenda onde moram todos aqueles elfos que há séculos já passaram do limite de idade, e vou deixar minhas posses para o jovem Frodo.
– Essa é uma decisão muito louvável, meu caro Bilbo. Realize tranqüilamente esse plano – mas realize-o todo, está bem?
– Sim, sim, Sam vai receber uma verba para cuidar do jardim, Rosinha recebe uma para cuidar de Sam, e Frodo finalmente vai poder receber todo tipo de visitas.
– E o anel? Você prometeu que o deixaria aqui para que eu possa me livrar dele.
– O que é isso de anel? Está certo, ele é mágico, isso eu já percebi, como você sabe. E isso significa que às vezes ele... mmm... me foi bem útil. Mas puxa, o que é afinal que você quer fazer com meu... preciossso?
– O anel já foi chamado assim antes. Mas não por você. Eu me pergunto de verdade se ele não é o... bem, não importa, vou ter de reunir mais informações. Confie em mim. Parta e deixe-o para trás. Dê-o a Frodo, e de Frodo vou cuidar eu. Assim finalmente nos livraremos dele.
– Livrar-se, livrar-se, livrar-se. Faz anos, já desde que eu o encontrei, que você tenta me convencer a entregá-lo. Agora o anel é meu, meu precioso, e depois de todos esses anos o proprietário nem vai se manifestar mais. E é claro que não pertencia àquele sapinho gosmento, no máximo ele o roubou. Quero ficar com o anel, e mesmo você só o quer porque ele combinaria direitinho com o seu vermelho aí.
– Ooops – pensou Gandalf, e tentou esconder a mão onde estava o belo grande anel de rubi, pois esse era o emblema de um clube secreto, que a rigor deveria ficar invisível. Esse passinho em falso só fez estimular sua ira incipiente, e seus olhos cintilavam. – É injusto, e você bem sabe disso. Continue resistente e verá Gandalf, o Cinzento, sem disfarce. – Com estas palavras deu um passo em direção ao hobbit renitente, e pareceu tornar-se grande e ameaçador; sua sombra encobria o morno sol da tarde. – O anel não lhe pertence. Nem a mim. Não quero roubá-lo. Só quero ajudá-lo. – Seu tom de voz abrandou-se outra vez, e a sombra desapareceu. – Por favor confie em mim como antigamente. E creia-me, Bilbo, o anel tem de ir afinal para os Achados e Perdidos.
Com voz miúda, Bilbo disse: – Bom, eu poderia levá-lo lá.
– Nada disso, o único Achados e Perdidos que ainda existe fica em Gondor, e Gondor está a muitas semanas de caminho ao sul de Valfenda. Na sua idade isso não funciona mais. Acho que vou pedir a Frodo que assuma essa jornada. Ele tem pernas jovens e pode perfeitamente assumir essa tarefa.
Com um “Sim, Gandalf” resignado Bilbo conformou-se com a perda do querido anel, porém em seguida seu coração ficou mais leve, pois, caros meninos, nunca é bom pôr as posses acima da amizade ou da paz mundial; isso o esperto velho hobbit havia aprendido naquela tarde.
A festa de aniversário daquela noite foi linda, se bem que não muito espetacular. As crianças hobbits ficaram desapontadas por não haver fogos de artifício. Mas logo compreenderam que Gandalf agira certo ao doar o dinheiro que seria investido nos fogos aos haradrim famintos beneficiados pela ação “Pão sim, Foguetes não”. Além disso alguns adultos afirmaram na manhã seguinte que Bilbo subitamente se dissolvera em nada, no meio do discurso, porém não era mais possível verificar isso porque quase todos àquela altura estavam totalmente embriagados. Pois é, bem feito.
Os anos foram passando. Gandalf ia passando para reunir informações sobre o anel. Frodo tornou-se um membro responsável da sociedade, e somente seu jardineiro e amigo Sam às vezes tinha problemas com sua companheira Rosinha. Mas isso era sua própria culpa, pois ele se mostrava inflexível diante das justas reivindicações de abolição das estruturas patriarcais no relacionamento dos dois. É claro que não tinha a mínima chance.
Numa tardinha morna de setembro Gandalf voltou à Vila dos Hobbits. Na manhã seguinte, depois de um desjejum tardio, o mago e Frodo estavam sentados à janela aberta do estúdio, estourando bolhas de goma de mascar. Gandalf pediu que Frodo trouxesse o anel e o colocasse na escrivaninha entre eles. – Então, Frodo, cuidou bem dele?
– Sim, claro – respondeu o jovem hobbit – mas o que é tudo isso? Por um lado Bilbo me proibiu de jamais usá-lo, e por outro lado me deixou maluco com uma longa carta, dizendo que eu nunca o perdesse de vista. O que ele tem de tão especial? – Pois é, apesar de Frodo saber que o anel era um artefato mágico ele, como jovem comportado e de bom coração que era, em todos aqueles anos nem uma só vez desobedecera os mandamentos do tio, e jamais usara o anel. Quem de nós poderia arrogar-se tamanha obediência?
Foi isso que Gandalf também pensou, cheio de alegria, mas por dentro balançava a cabeça. Respondeu: – Temo que este seja muito especial entre os anéis mágicos. Porém será necessário um último teste. – Com estas palavras o mago lançou o anel ao fogo crepitante da lareira.
Logo depois voltou a retirá-lo com o atiçador, e deixou-o cair na mão de Frodo. O pobre hobbit deu um grito abafado, mas logo emudeceu de novo, pois esperara com razão que o anel estivesse em brasa. Mas na verdade o curioso anel estava frio, liso e leve como sempre – mas o que era aquilo? Uma escrita incandescente de natureza desconhecida estendia-se agora pela superfície externa do anel. Frodo e Gandalf debruçaram-se sobre a inscrição que rebrilhava sinistramente. – Veja, Frodo, esta é a prova de que ainda necessitávamos. É verdade, é a antiga aliança de Sauron.
– Mas o que está escrito aí? Gandalf, isso tem um aspecto tão misterioso, estou com medo – disse Frodo com um leve tremor na voz.
– Aqui, meu caro Frodo, está escrito: Ash nazg durbatulûk, ash nazg gimbatul / ash nazg thrakatulûk agh burzum-ishi krimpatul. – A voz do mago repentinamente se tornara ameaçadora, poderosa, dura como pedra. Uma sombra pareceu passar diante do sol, fora da janela do smial, e o recinto escureceu por um instante.
– Oh, puxa, isso tem um som terrível. O que significa?
– Tema de fato, Frodo, pois quem sabe mesmo para você logo hão de chegar os tempos em que as palavras se tornarão verdadeiras, assim como já chegaram para Sam – respondeu Gandalf, e acenou para que Frodo se aproximasse mais do anel. – Olhe aqui... e aqui... e aqui também. Viu os arranhões? Foi aqui que Sauron posteriormente alterou algumas palavras. As pavorosas palavras de sua aliança eram:
Um Anel para governá-lo, sempre encontrá-lo,
Na escuridão mantê-lo e para sempre aprisioná-lo.
É claro que essa era a idéia dela de uma frase matrimonial. Agora, aliás, aí está escrito apenas: Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los. O que ainda é muito mau, pois refere-se a todos os habitantes da Terra-média.
– Mas quem, por favor – perguntou Frodo com a voz ainda trêmula – é esse Sauron, e quem foi que inventou essa frase pavorosa?
– Ora bem. Sauron foi um antigo colega meu, quando ainda morávamos todos no paraíso divino. Mas depois ele se juntou com más companhias. Meteu-se com o diabo, com demônios ardentes, dragões, aranhas gigantescas e sua futura esposa. Você já consegue imaginar como é isso. É verdade que o diabo e a maioria dos seus asseclas acabaram sendo expulsos do paraíso, e também Sauron e esposa mudaram-se para a Terra-média. Lá conheceram o ofício da ourivesaria com uns elfos ingênuos, e a esposa de Sauron lhe “pediu” para fabricar uma aliança que provasse o seu amor a ela: exigiu que embutisse sua alma no Anel. Tinha escolha? Claro que não. E assim aconteceu. A esposa de Sauron acabou morrendo num pequeno acidente de magia (acho que a polícia de Númenor até o fim não deixou de investigar o caso de Sauron), mas Sauron já experimentara no próprio corpo o que significam o poder absoluto e a dominação totalitária.
Gandalf tomou um grande gole de chá, olhou cheio de preocupação para o Anel, que continuava diante dele na mesa, rebrilhando malevolamente, e prosseguiu. – E essa sensação de poder não o largaria mais. Depois subjugou toda uma série de reinos, praticou um ou dois genocídios e em geral teve um comportamento bem ruim. Os poucos justos que ainda conseguiam enfrentá-lo acabaram convocando um exército que teve êxito e o derrotou decepando-lhe a mão onde estava usando o Anel. Pois Frodo, você se lembra de que eu disse que a esposa o obrigou a colocar a alma no Anel? Bem, ela ainda está lá dentro. – Com essas palavras Gandalf tomou a chaleira e a desceu duas, três vezes com força em cima do Anel. – E aí, que tal isso, seu desgraçado?
– Mas estou me deixando levar. Desculpe – disse o Cinzento, alisando o traje em desalinho. – Bom, seja como for, a alma dele está no Anel e por isso ele não pode ser morto enquanto o Anel existir. Mas também não consegue viver direito, muito menos reinar direito sem o Anel. Pois Sauron é um mago como eu, e nosso poder está em nossa alma. Por isso ele precisa reaver o Anel a qualquer preço, e nossa missão é impedir que isso venha a ocorrer. E por isso – concluiu Gandalf – o Anel tem de ir para os Achados e Perdidos de Gondor. Eu mesmo faria isso, mas não tenho tempo. Pois o caminho será longo e perigoso, e preciso organizar ajuda para o Portador do Anel. Você terá de viajar sozinho até Valfenda, mas isso está OK, pois nada lhe acontecerá no caminho, que conduz ainda por uma região segura.
Frodo estava a ponto de dizer “Mas isso é loucura” – mas, caros meninos, isso não é coisa que se diga aos mais velhos, e por isso o comportado Frodo não o disse. Engoliu a observação desrespeitosa e no seu lugar fez a pergunta: – Mas então não seria melhor destruirmos o Anel?
Mas Gandalf não estava mais escutando, e tinha voltado sua atenção para fora. Sem fazer ruído, seu vulto esbelto deslizou até a janela, ergueu o cajado mágico e exclamou “Vingardium leviosa”, e eis que o pobre Sam flutuava no ar, indefeso, diante da janela.
– Era só o que me faltava – disse o mago, triunfante – porque ainda precisamos de alguém que auxilie Frodo na viagem. Vá para casa e faça as malas, se não o transformo num monstro.
Com um frêmito apavorado, mas contente por nada ter sofrido nas mãos do mago, Sam esgueirou-se para casa, e um mero quarto de hora depois... Rosinha estava diante da toca de Frodo com armas e bagagens. – Era o que vocês pensavam, mandar meu pobre Sam para terras distantes e perigosas aventuras, e excluir a metade da população hobbit dos acontecimentos decisivos do futuro próximo. Eu vou junto, ou ninguém vai!
Frodo ainda pensou: “Um Anel para governá-lo”, mas estava claro que não dava mais para sair dessa...
E assim começou a aventura. É verdade que Frodo ainda se perguntava por que o Anel tinha de ir para o Achados e Perdidos, e como isso deteria Sauron, mas Rosinha e ele seguiram (quase) seguros e protegidos para Valfenda. OK, é claro que houve alguns entreveros, como sempre acontecem numa viagem dessas, mas nem vale a pena mencioná-los. O caminho era bem seguro, Gandalf tinha toda a razão. Mas infelizmente alguma notícia devia ter circulado sobre o reaparecimento do Anel. Pois Sauron tinha encarregado uma gangue de nove desordeiros de recuperarem o Anel para ele. No próprio Condado o pequeno grupo quase se chocara com esses elementos criminosos, e no restante do caminho deram duro para manterem os Nove à distância.
Acabo de dizer pequeno grupo? O que acontecera? Ainda no Condado, Frodo e Rosinha toparam com os velhos companheiros dele, Merry e Pippin, que queriam juntar-se a eles. É verdade que também nesse caso Rosinha exigiu que fosse feita sua vontade, que era de (citação) “não atravessar toda a Terra-média com três marmanjos, sem mais ajuda, de jeito nenhum”. Portanto Merry e Pippin tiveram de tirar no palito quem poderia acompanhá-los. Pippin perdeu, e assim o restante do caminho foi percorrido pelo grupo que incluía Pippin e sua namorada Diamante.
Em Bri encontraram um velho vagabundo que queria uma carona. Mas por sorte nossos hobbits eram espertos e bem educados, e deixaram o homem para trás. Pois, como todos vocês sabem, caros meninos, nunca se anda com homens desconhecidos. [É, bem, nesse caso foi a decisão errada, pois o vagabundo não era de verdade, mas sim um príncipe encantado, que haveriam de reencontrar em Valfenda e que seria bastante útil no resto do caminho. Ainda assim vale a instrução: Jamais andar com homens estranhos! Lembrem-se disso!]
Quando já haviam praticamente chegado a Valfenda, ainda houve um acontecimento desagradável que quase pôs a perder todo o empreendimento naquele mesmo ponto. Há dias vinham escapando aos brutamontes de Sauron, escondendo-se ardilosamente, mas logo diante de Valfenda só havia um caminho a percorrer: o vau através do Bruinen. Às escondidas, os quatro arrastaram-se através das moitas quase até a beira do rio, pois os Nove também deviam saber que aquela seria a melhor oportunidade para deter os hobbits. Porém só se viam dois elfos e um cavalo na margem – tudo estava calmo, e a ajuda estava ao alcance da mão. Aliviados, com exclamações da alegria, os quatro correram até a margem, aproximando-se dos elfos que sorriam amistosamente.
Eram uma elfa linda e um elfo, igualmente imponente à sua maneira, que lhes estendiam as mãos em boas-vindas. A voz dela, saudando-os, era como a água borbulhante num alegre riacho das montanhas: – Bem-vindos, povo pequeno, eu os aguardava. Meu nome é Arwen, e sou filha de Elrond, senhor de Valfenda.
E a voz do elfo era aragem do mar, que tranqüilizava e despertava anseios – mas tinha também, no fundo, um minúsculo tom de raiva contida. – Também eu lhes dou as boas-vindas, nobres Pequenos, pois eu os aguardava. Meu nome é Glorfindel, vassalo de confiança de Elrond, senhor de Valfenda, e eu fui enviado a recebê-los e protegê-los.
Agora também havia irritação na voz de Arwen, que disse: – Porém o que importa é que EU fui enviada, para conduzir o Portador do Anel até Valfenda neste cavalo, depressa e em segurança. Venha, Frodo, monte e o levarei ao meu pai.
– É meu Asfaloth que o levará em segurança, Frodo, até meu senhor, que deu a MIM a incumbência de buscá-lo. Portanto nem escute e venha comigo.
Diante dessa disputa, revelou-se a insegurança nos rostos de nossos hobbits.
Todas as borbulhas haviam sumido da voz da elfa, que retrucou: – É isso que nós vamos ver! Sou filha de um príncipe élfico, e EU vou cumprir minha tarefa venha o que vier.
A aragem se transformara em arrebentação que alagava com estrondo as margens do Bruinen, quando Glorfindel, furioso, asseverou seu direito: – É MINHA a tarefa de salvar Frodo. O Senhor Elrond em pessoa deu-me as instruções que cumprirei à risca!
– Não, é MINHA essa tarefa. O Senhor Peter Jackson encarregou-me dela!
Antes que pudessem ocorrer outros comportamentos inadequados dos elfos, de resto tão exemplares, subitamente os brutamontes de Sauron irromperam através das moitas, montados em aterrorizantes corcéis negros, e se lançaram sobre os quatro hobbits e dois elfos. Houve uma horrível pancadaria, que aqui cobriremos com o manto do silêncio, pois, caros meninos, não foram bonitas as cenas que transcorreram lá no vau do rio Ruidoságua. No entanto, todos os seis conseguiram escapar mais ou menos ilesos. Frodo, porém, feriu-se com gravidade e quase morreu. Mas não foi Glorfindel nem Arwen em Asfaloth que o levou para lugar seguro, mas sim o pequeno pônei Bill, que no último instante acabou fugindo com ele. Sim, às vezes são os menores e mais insignificantes que conseguem alterar o rumo do destino, enquanto falham os grandes e renomados.
Frodo levou bastante tempo para se recuperar. Mas por fim as eminentes habilidades curativas de Elrond operaram sua convalescença. Bilbo, que há anos havia chegado sem entreveros à residência de Elrond, permaneceu ao lado de Frodo durante todo o tempo, e também Gandalf acabou aparecendo em Valfenda na companhia do vagabundo mencionado acima.
É verdade que Frodo estava são de corpo, mas seu espírito estava pesado. Havia experimentado que fora do Condado protegido existia um mundo que podia ser áspero e maligno, e não parecia disposto a perdoar erros. Por isso mesmo esperava que ali, em Valfenda, poderia transferir o fardo do Anel para outros ombros mais fortes, mas ai, obscuras dúvidas o assaltavam a esse respeito. Será que não seria obrigado a percorrer todo o caminho até os Achados e Perdidos em Gondor? E para quê tudo isso? Pois ali ele estava entre heróis élficos. Eles não poderiam simplesmente aniquilar a terrível ameaça que emanava do obscuro espírito de Sauron? Logo nosso pequeno e jovem hobbit aprenderia o que realmente significavam o Anel, seu poder e a ameaça de Sauron. Pois chegou o dia em que Elrond, Senhor de Valfenda, conclamou em conselho todos os povos livres, para deliberarem sobre o Anel e sua trajetória futura. Frodo estava temeroso, porém tranqüilo, quando soou o sinal do sino anunciando o Conselho de Elrond.
Lá estavam eles, portanto: elfos de nobre semblante e figura esbelta, anões musculosos de rostos quase totalmente cobertos de longas barbas, Aragorn como representante dos homens, Gandalf imerso em profundo silêncio, e os próprios hobbits tinham um aspecto correto e sério, o que parecia bem pouco adequado àquele povo alegre. Apesar dessa visão edificante Elrond inclinou-se preocupado na direção de Gandalf e sussurrou: – Onde está Gondor? O que poderá ter detido seus representantes? Isso não pode significar boa coisa.
Então começou o Conselho.
– Meus amigos, eis o hobbit Frodo, filho de Drogo – disse Elrond à guisa de abertura. – Poucos jamais chegaram até aqui passando por perigos maiores ou com uma tarefa mais urgente. Pois vejam, este valente hobbit porta o Anel do Inimigo! – Todos os presentes que ainda não sabiam disso ergueram-se de um salto, e começou um falatório nervoso.
– Moderem-se, amigos – falou o príncipe élfico com as mãos erguidas – moderem-se e escutem-me. Não os reuni apenas para informá-los de que surgiu novamente o Anel que há tanto tempo estava perdido, mas também para decidir o que deve acontecer com ele. Escutem-me, pois notícias cruéis chegam do leste. Gandalf, relate, por favor.
O mago cinzento ergueu-se. – Nos últimos meses sentia-se grande in quietação em toda a parte. Os povos apinham-se como se viesse uma tempestade, e no leste reúnem-se exércitos dispostos a marchar contra o oeste. E também os Nove foram avistados outra vez. – Novamente começou um falatório nervoso, e Glorfindel mostrou a todos o olho roxo que o Rei dos Bruxos lhe havia proporcionado. Gandalf acalmou os presentes e prosseguiu. – Baseado nesse desenvolvimento reuni-me com o superior de minha ordem para nos aconselharmos. Saruman relatou que está em contato com Sauron, e que este faz reivindicações.
– Sauron acusa-nos. A nós, elfos, anões e povos livres dos homens, ele acusa de possuirmos armas de destruição em massa e de planejarmos uma guerra de agressão contra Mordor. Acusa-nos de termos empreendido um atentado terrorista contra Dor Guldur, e exige a entrega dos culpados. Com os votos dos haradrim, dos corsários de Umbar e de alguns enviados dos Carroceiros, conseguiu aprovar uma resolução que deve obrigar-nos ao desarmamento completo de todos os soldados. Sauron ofereceu-lhe o cargo de inspetor-chefe das Terras Estrangeiras, e Saruman aceitou. Agora já se vêem todas as terras sendo percorridas pelas carroças dos inspetores com o emblema da Mão Branca sobre as lonas.
Ergueu-se um tumulto entre os presentes. – Como ousa? – – O que devemos fazer? – – Às armas! – – Ainda tem biscoitos? – Elrond revirou os olhos – claro que esse tinha sido um dos hobbits. Pois é, caros meninos, não se deve interromper quando os adultos estão conversando.
O chefe da delegação de anões tomou a palavra. – Mas não temos nenhum tipo de arma de destruição em massa; como ele conseguiu aprovar essa? – Glorfindel atalhou: – Bom, na verdade temos, não temos? – e apontou a fina corrente em torno do pescoço de Frodo, onde balançava um Anel de ouro.
Subitamente fez-se um silêncio absoluto. Elrond só esperava por isso para dirigir a discussão para o Anel. – Sim, é exatamente esse o ponto. A questão é o que devemos fazer com o Anel.
– Isso nem se discute – opinou Gandalf em tom firme. – É claro que o Anel tem de ir para os Achados e Perdidos em Gondor.
Os presentes entreolharam-se estupefatos.
– Ora, vamos, é a única coisa certa. Bilbo encontrou o Anel, e objetos achados têm de ir para os Achados e Perdidos. Não podemos simplesmente devolver o Anel; isso seria o nosso fim. Mas se não o depositarmos regularmente não seremos melhores que o maligno Sauron.
Nesse ponto um gemido soltou-se do peito de Elrond, mas ele não contara com o ardil que Gandalf propôs em seguida.
– Além disso – prosseguiu o Cinzento, e havia agora um brilho malicioso em seus olhos – além disso nós o estaremos atraindo para uma armadilha. Se ele quiser o Anel, terá ele próprio de ir a Gondor para buscá-lo. Mas Gondor é sucessor legal de Númenor, e seus antigos crimes não estão esquecidos. Sauron ainda é procurado por incitação contra os Valar, genocídio e constante estacionamento em local proibido diante da Sala do Conselho de Ar-Pharazôn. Portanto, se ele vier buscar o Anel será simplesmente posto na cadeia.
Com esse ardil Elrond realmente não contara, e agora ele tinha o aspecto de alguém que ficou com dor de dente ou enxaqueca de repente, ou ambas as coisas ao mesmo tempo. – Eh... sim... bom... temos mais alguma proposta?
Aragorn levantou-se: – Precisamos destruir o Anel. Ele tem de ser lançado aos fogos onde foi forjado. Tem de ser levado a Mordor. Estou disposto a liderar um grupo que assuma essa tarefa. Quem vem comigo?
Um dos elfos ergueu-se de um salto. – Aragorn, meu arco lhe pertence.
Um dos anões adiantou-se, ergueu o machado em juramento, e a delegação atrás dele exclamou: – Ela vai junto, ela vai junto... ããh... ele vai junto, ele vai junto.
Todas as cabeças se voltaram. Agora Elrond tinha o aspecto de alguém que ficou também com violentas dores de estômago. Porém nesse momento Rosinha levantou-se e disse: – Irmãs, vamos deixar desse humilhante jogo de esconde-esconde. É hora de conquistarmos nossa metade do mundo. Isso vale especialmente em tempos como os atuais, de negros perigos. Vocês – e seu indicador apontava para Elrond, Gandalf e Aragorn – não podem decidir sozinhos sobre nosso destino. Exigimos participar na cruzada pela destruição do Anel!
Lentamente, mas com determinação, as anãs se juntaram em torno de Rosinha e tiraram as barbas postiças. A anã que já se apresentara suspirou aliviada. – Obrigada, irmã. Vejam, elfos, se um anão participar nessa empreitada, há de ser uma anã. Eu sou Hertha, filha de Martha, e vou junto!
O grupo de elfos encarou as anãs, consternado. Porém repentinamente ouviu-se aplauso também das suas fileiras. Elrond virou-se, e quando percebeu Arwen a expressão do seu rosto realmente dava seriamente o que pensar sobre sua saúde.
– Bem, é assim que vocês querem! – Agora que a decisão fora tomada a cor da pele do príncipe reverteu do vermelho chamejante para um mero corado de ira. – Bem, então tomem o Anel e seu Portador e essa... essa hobbit aqui, e os dois outros hobbits ali, e partam logo. Gandalf, você assume a liderança, Aragorn mostra o caminho e... Não, Arwen, você não, não importa o que Jackson diga, você não!... Legolas irá. Ele tratará de proteger esse grupo em Mordor junto com Hertha.
Gandalf pigarreou. – Não Mordor, e sim Gondor, você sabe, por causa...
– Não estou ligando, combinem isso no caminho! Vocês são a Sociedade dos Oito, e de algum jeito vão se livrar desse Anel. Vão indo logo.
Então, de repente, ouviram-se passadas enérgicas e o tilintar de armas e couraças do lado de fora do salão. A porta da sala do conselho abriu-se violentamente, e um homem loiro, forte, armado dos pés à cabeça, entrou às pressas e falou:
– Salve, nobres, desculpem minha chegada tardia. Sou Boromir, filho de Denethor. Sou o gerente dos Achados e Perdidos de Gondor!
FIM DA PRIMEIRA PARTE