1. Contexto e Perfil de Usuário Ideal da Internet.
Fazer-se-á aqui uma análise de dados extraídos a partir da aplicação de questionário com intenção de construir um perfil do usuário ideal do espaço da Internet, que nos serve para melhor visualizar e compreender os indivíduos que utilizam e que constróem este espaço à medida do seu uso; complementando então tudo que ainda pode fazer parte dos membros do grupo Net.
1.1- Perfil sócio-econômico:
A questão da ocupação profissional nos trouxe algumas dificuldades. É aberta mas de conteúdo objetivo e direto. E existem muitas interpretações possíveis sobre o perfil das pessoas a partir deste dado: se tem um curso superior ou não; se provavelmente seu uso da Internet tem haver com essa profissão exercida ou posição ocupada, etc . Tivemos pessoas que trabalham com suporte técnico na área de informática (ou analista de suporte), que é uma função que não exige curso superior, mas que necessita de conhecimentos em informática, normalmente adquiridos em cursos particulares ou auto aprendizado; de uma maneira ou de outra, necessita do contato com a tecnologia e isso indica ou investimento ou convivência, e isso usualmente significa que é uma pessoa que não é de uma classe tão desprivilegiada. Temos professores (tanto de nível médio quanto de nível superior), o que também indica instrução, mas não completamente aberto acesso aos utensílios tecnológicos modernos, pois é uma profissão notoriamente mal remunerada no país. Temos donas de casa, que já tiveram carreiras profissionais bem remuneradas no passado, mas que, após o casamento e filhos, resolveram permanecer em casa e cuidar da família. Obviamente não se trata do tipo de dona de casa tradicionalmente pobre; seria muito mais uma administradora do lar (com empregados a seu serviço) que comanda uma casa, mas tem tempo para usar o computador e a Internet (tempo livre, instrução e possibilidades financeiras). Temos funcionários públicos, que têm alguma instrução e um modo de vida não muito variável, mas com algumas possibilidades de consumo e funcionários públicos federais aposentados, cuja remuneração e o modo de vida mantido pode lhe proporcionar o acesso à tecnologia, dentre outras coisas; mas que também tem a oportunidade de ainda trabalhar em projetos filantrópicos e coisas do gênero, tendo a possibilidade, experiência, instrução e o engajamento necessários para tais atividades de "depois do tempo de trabalho" (Dumazedier, 1994) e isso inclui aprender a usar a Internet. Temos bancários (e bancários aposentados), que tanto podem ter instrução média quanto superior (e por isso alguma instrução) e alguma capacidade financeira para usufruir dessa tecnologia. Temos jornalistas (curso superior e acesso a tecnologia, seja no trabalho ou em casa ou em universidade). Temos web designers (constróem os sites que estão na Internet), cuja a própria função já indica uma grande presença no espaço da Internet, tanto para trabalho quanto para lazer (possivelmente); sendo necessário conhecimento técnico (instrução) e acesso (possibilidade financeira ou de conveniência: trabalho). Temos industriários (nível técnico e superior). Temos analistas de sistemas (nível superior), que tem contato direto com a informática e é uma profissão muito valorizada, por causa da necessidade da informática em várias áreas hoje em dia (normalmente são os chefes dos analistas de suporte). Temos engenheiros florestais, com curso superior e provavelmente uma boa instrução e com regular poder de consumo. Temos administradores. Temos atrizes e dançarinas e cantores, que apesar de serem profissões que apenas são bem remuneradas quando se torna "estrela", deduz-se uma boa formação e instrução, e também acesso a Internet (via casa/família, trabalho ou escola). Temos advogados. E temos um grande grupo de estudantes e estagiários em várias áreas (desde Segundo Grau até cursos superiores e técnicos); muitas das ocupações citadas se combinam com "ser estudante" também. Muitos têm acesso a computador e Internet através das escolas e faculdades ou através dos estágios. Como vemos o nível de instrução e o acesso são dois fatores constantes no dado sobre a ocupação desses usuários da Internet; tendo sido razoavelmente corroborados pelo dado sobre nível de instrução da pesquisa de Eduardo Krauze Diehl, citado anteriormente. Sobre a classe social dos usuários da Internet, perguntamos: "Você se considera como sendo de alguma classe social? Qual? Por que? (use quanto espaço quiser)" A intenção era não ter de usar os padrões de classificação de classe econômica normalmente utilizados pelas pesquisas de economia, marketing e até algumas de sociologia; queria que o entrevistado colocasse seu ponto de vista sobre sua situação econômica, por isso, também, o espaço livre para que ele(a) pudesse comentar sua resposta ou o que acha deste tipo de classificação. Numericamente a maioria absoluta (100%) dos entrevistados (96 indivíduos que freqüentam ou usam a Internet) deixaram claro ou transparente (mesmo que sem a palavra exata) que são de classe média. Há, obviamente, uma estratificação possível dentro dessa classificação, mas o geral foi este.
Para o tópico do local de acesso do usuário da Internet foram dadas três opções: Casa. Trabalho. Outro (onde?). A intenção dessa pergunta era, ao conhecer os locais de acesso de alguns usuários, contribuir para a construção de seu perfil sócio-econômico. Supondo que se alguém só acessa na trabalho ou na escola (ou outro lugar que não seja em casa), então ela não tem condições financeiras, mesmo que momentâneas, de possuir um computador; o que implicaria na condição apresentada pela grande maioria de entrevistados no momento de categorizar sua classe econômica: poder de consumo. No entanto, ter acesso a tal aparelho por outras vias demonstraria interesse por informação ou lazer dessa natureza e por isso algum nível de instrução não só para a utilização de tal coisa técnica, como também acesso a uma escola ou trabalho com tal aparelhagem disponível. Por isso, continuo a supor que a grande maioria de usuários da Internet tem um perfil de pessoas com algum nível de instrução e algum nível de acesso a tecnologia, mesmo que não próprios (consumo, posse). A outra razão seria para tentar conhecer que nível de intimidade e auto-expressividade (liberdade de expressão) podia ser atingida pelo usuário da Internet, já que o local de onde ele acessa deveria ser de grande influência no que ele pode ou não pode fazer ao estar conectado. Numericamente temos que 73 pessoas (76%) acessam a Internet de casa; 61 pessoas (63,5%) acessam do trabalho; e que 41 pessoas (42,7%) acessam de outro lugar, no caso todos disseram escola ou universidade. Devemos observar que alguns dos questionados afirmaram acessar tanto em casa quanto no trabalho (ou casa e escola); isso, ao meu ver, reforça a construção do perfil do usuário, como tendo algum poder econômico (ter computador em casa) e também tendo instrução institucional suficiente para ou estar trabalhando ou estar numa universidade, por exemplo. Como no caso de nossa amostra, a maioria dos entrevistados afirmam usar mais a Internet em casa, podemos apenas acrescentar a suposição que essa amostra é um pouco mais privilegiada, mas, como não há um grande desequilíbrio entre casa e trabalho, acredito termos coberto uma boa amostra . Voltando aos dados, temos que as pessoas questionadas interpretam estes locais de acesso da seguinte maneira: 32 pessoas (33,3%) disseram que o local de acesso interfere no seu modo de fazer as coisas na Internet, e 64 pessoas (66,6%) disseram que o local de acesso não interfere. Não nos resta muito a interpretar destes números, além do fato de a nossa amostra numérica parecer tender para um lado de uso do espaço da Internet que não dependa tanto de uma maior privacidade. Devemos porém lembrar que muitos dos questionados utilizam a Internet tanto em casa quanto em outro local (trabalho principalmente), logo, estas pessoas não se sentem tão afetadas pelas outras possibilidades de usos mais privados da Internet, já que podem fazer isso em casa (todos os entrevistados que responderam apenas "não" à pergunta tinham acesso em casa).
Enfim, podemos concluir que há níveis de interferência no comportamento dos usuários da Internet quando se trata do local de acesso; a depender dos usos, intenções e motivações de cada usuário, o local de acesso pode ser um importante fator de formação de uma série de rituais específicos para cada ambiente externo que compõe o local de acesso, sendo o mais evidente que, na maioria dos casos, a acesso em casa proporciona maior liberdade de auto-expressão do usuário, enquanto outros locais (trabalho, escola, casa de amigos, shoppings, etc.) deixam uma grande margem de impedimentos sejam práticos ou morais para a liberdade de auto-expressão do usuário da Internet enquanto está conectado.
1.2- Sobre a Multiplicidade:
O usuário ideal da Internet tem certa consciência da multiplicidade e amplitude de possibilidades na Internet (tanto possibilidades positivas quanto negativas). E tem diferentes níveis de interesse por informações generalizadas. Ele busca, encontra ou não, se frustra, volta a procurar, encontra e segue fazendo uso do espaço das mais diversas maneiras. Há muitos níveis de busca por informação e níveis de consciência sobre o próprio espaço da Internet, mas dentro de toda essa variedade podemos afirmar sobre o nosso usuário ideal que ele é explorador, curioso, prático e ambivalente quando se trata de satisfação, pois quando encontra o que procura, logo depois tende a ter outras vontades... Acredito que esta característica faz parte do ethos contemporâneo aqui desenvolvido: consumo e renovação; efemeridade e identificação. A partir da pergunta "O que mais lhe atrai na Net? (espaço livre)" vejamos algumas das respostas dos usuários da Net: "A possibilidade de ter as notícias em tempo real." "A facilidade de contato em massa." "Gosto das diversas possibilidades de comunicação que a rede traz." "O ICQ." "Facilidade de contato com os amigos via e-mail e pesquisa." "A liberdade e a oferta de pesquisa e a quantidade de informação." "Agilidade e informação variada sobre tudo." "A rapidez de se obter informação e a possibilidade de vencermos a barreira do espaço com um simples teclado." "A disponibilidade de informação." "A fácil comunicação e a resposta em tempo ágil." "O poder de comunicação e difusão da mesma em segundos e o mesmo poder que tem sobre o comportamento das pessoas (a transformações dos costumes)." "As possibilidades de tipos de atividades a se fazer. Pode-se descobrir CEP para enviar cartão de Natal aos amigos, fazer pesquisas, ajudar outras pessoas com seu conhecimento, tirar dúvidas, estudar línguas gratuitamente, fazer cursos on-line, bater um papo com amigos de fora do Brasil, enviar fotos e outros arquivos..." "A possibilidade de conhecer pessoas e obter qualquer tipo de informação." "Rapidez e custo baixo." "As possibilidades de muitas coisas diferentes ao mesmo tempo." "A possibilidade de estar antenado no mundo da minha própria casa." O nosso usuário ideal é atraído pela Internet por ser um espaço que proporciona comunicação rápida e uma grande quantidade e variedade de informação . Analisando os significados dessas características temos que a comunicação suscita interação e sociabilidade. Essa comunicação ser rápida vem da característica contemporânea do ambiente tecnológico ágil, veloz, instantâneo, etc. Essa comunicação/interação pode ser funcional (trabalho ou escola, o fator agilidade parece ser mais útil e evidente neste caso) ou pessoal (o termo sociabilidade se encaixa melhor aqui) (preenchimento, aproximação afetiva, liberdade de expressão, distâncias físicas serem superadas subjetivamente). O nosso usuário ideal faz uso dessas duas possibilidades (funcional e pessoal) dentro da comunicação eletrônica, isto é, ele usufrui das possibilidades práticas do espaço da Internet tanto no campo funcional-utilitário quanto no pessoal-afetivo. A informação presente no espaço da Internet, e sobre a qual o nosso usuário ideal se refere, tanto é funcional quanto não funcional (quer dizer, sem uma utilidade prática clara; Ex.: piadas, orações, declarações de amor ou amizade, mantras, poemas, etc.); de certo modo pode-se dizer que ela é de todo tipo. A informação na Internet é o principal material simbólico de troca, isto é, a interação é baseada na troca de informações de todo tipo. O nosso usuário ideal entra em contato freqüentemente com uma grande quantidade de informações e ao se comunicar (funcional ou pessoalmente) ele troca informações. Essa constante troca de informações na Internet afeta o comportamento dos usuários, transforma os seus cotidianos, fica fazendo parte da "cultura" peculiar inerente às trocas no espaço. O nosso usuário ideal é, com certeza, um indivíduo que convive e lida com muitas informações quotidianamente. Complementando ainda a questão da multiplicidade, perguntamos aos pesquisados "O que menos gosta na Net? (espaço livre)" e vejamos as suas respostas mais relevantes: "Propagandas." "Sites sobre futebol." "A baixaria." "A lentidão do acesso." "Chat." "Chats e a demora de acesso." "Páginas na Net que tem crianças se prostituindo." "Comerciais e SPAM." "Os chats em que só há discussões banais e os sites de sexo e exibicionismo." "A difamação de coisas que relatam a violência e coisas do tipo." "E-mails de venda de produtos e pornografia." "SPAM, falta de ética, pornografia, entupimento de caixa postal com arquivos pesados enviados por usuários despreparados." "Limitações do provedor e na tecnologia telefônica brasileira, muito lenta." "Como ela é largamente usada para coisas inúteis (propaganda, pornografia infantil, etc.)" "Interferência de pessoas nos e-mails e vírus." "Quando não encontro o que procuro." Vemos que as maiores restrições dos usuários do espaço da Internet pesquisados são a respeito de aspectos: técnicos; morais; comerciais; informativo; comportamental; econômico e pessoal. Os aspectos econômicos estão ligados aos comerciais e os aspectos pessoais estão ligados a todos em um certo nível, já que são preocupações de pessoas para com coisas que também envolvem pessoas. Dos aspectos técnicos temos as dificuldades de acesso a sites ou à própria Internet; lentidão em alguns processos; problemas de segurança e privacidade; ineficiência dos sistemas de telecomunicações atuais; o perigo dos vírus de computador a que todos estão de certo modo vulneráveis; enfim, o nosso usuário ideal é alguém que ao menos tem conhecimento desses riscos e problemas e que são coisas ruins. Dentre os aspectos morais temos uma grande aversão a informações dirigidas a assuntos considerados desagradáveis ou imorais: violência em geral e pornografia (mais especificamente quando envolve crianças). Dos aspectos comerciais temos a aversão às propagandas em geral e aos SPAMs; e o desagrado em relação aos custos de certos serviços na Internet (esse poderia ser considerado mais um aspecto econômico). A grande quantidade de informação descartada quotidianamente pelos usuários da Internet é mais um aspecto negativo da mesma, parte do contexto múltiplo. Como também o desconhecimento e a não observação de convenções dos espaços de interação, o que provoca incômodos excessivos na vida dos indivíduos.
1.3- Sobre os Usos da Internet:
Perguntamos: "Com quais classificações você concorda sobre a Net? (pode marcar várias)", que nos mostra que imagem os nossos usuários pesquisados têm ou sentem a respeito da Internet no que diz respeito ao seu uso subjetivo. 64 pessoas (66,6%) disseram considerar a Internet como um Espaço Público; 42 pessoas (43,7%) consideram como Espaço para Elite; 67 pessoas (69,8%) consideram um Espaço Democrático; 21 pessoas (21,9%) consideram Espaço Fechado; 45 pessoas (46,9%) consideram como Espaço de Fuga; 68 pessoas (70,8%) consideram como Espaço de Diversão e 19 pessoas (19,8%) consideram a Internet como outros tipos de espaço. Baseado nestas respostas vemos que a maioria dos usuários pesquisados vêem o espaço da Internet, predominantemente, como Público, Democrático, de Diversão e de Fuga; lembrando que 43,7% dos pesquisados também disseram achar a Internet um espaço para Elite. Disso podemos afirmar que a Internet é um espaço amplo de informação e comunicação (público e democrático), porém somente para aqueles que têm acesso ao mesmo (uma elite, que já vimos ser atualmente de cerca de 8 milhões de usuários num país de mais de 160 milhões, isto é, apenas cerca de 5% da população brasileira têm acesso a Internet). É também espaço de diversão, complementando o cotidiano dos usuários com uma grande variedade de aspectos lúdicos. E finalmente é também espaço de fuga, de realização simbólica das fantasias que também complementam o cotidiano, de anonimato e liberdade diante da multiplicidade e das inibições, de fuga das regras da vida cotidiana durante as diversas interações (especialmente as "não-sérias") que também fazem parte do cotidiano dos usuários. O nosso usuário ideal usa a Internet para suprir seus interesses práticos (trabalho, pesquisa, etc.): 86 pessoas (89,6%) responderam que faziam pesquisas. 83 pessoas (86,4%) responderam que procuravam informação. 71 pessoas (74%) responderam que procuravam cultura. 62 pessoas (64,6%) responderam que procuravam coisas de informática. E 31 pessoas (32,2%) responderam que procuravam outras coisas. E também para preencher interesses lúdicos e acessórios (diversão, afetividade, engajamentos políticos e sociais voluntários, etc.): 53 pessoas (55,2%) responderam que procuravam relacionar-se com outras pessoas. 67 pessoas (69,8%) responderam que procuravam diversão. 89 pessoas (92,7%) responderam que usavam o e-mail. Podemos notar por estes números que há uma grande procura por informação (pesquisa, informação e cultura) de uma maneira geral, que é a função primordial que funda a Internet: espaço de fluxo de informação eletrônica. No entanto, devemos observar que todos estes que assinalaram procurar informação, de todo tipo, também usam o e-mail (item mais assinalado) e que também tendem a procurar conhecer pessoas e diversão através da Internet. Como é uma questão de momento, o envolvimento do usuário naquelas atividades que mais costuma fazer é que compõem a interpretação desta questão. Na verdade, devemos admitir que todo conteúdo das atividades realizadas no espaço da Internet é baseado em informação, que é constantemente produzida, interpretada e trocada, no entanto, para os propósitos de nossa pesquisa, procuramos extrair desses hábitos de atividades aquilo que pode ser mais ligado à sociabilidade no espaço da Internet. Os números vistos acima demonstram que nossa amostra parece priorizar mais a pesquisa, a informação e a cultura, além do e-mail, pelo menos no momento da resposta . Complementando esta questão, perguntamos: "O que você normalmente faz na Net? (pode marca várias)". Das pessoas pesquisadas 91 (94,8%) disseram usar o e-mail; 45 (46,9%) disseram fazer uso das salas de bate-papo (chats); 12 (12,5%) disseram participar de fóruns; 87 (90,6%) disseram fazer pesquisas; 89 (92,7%) disseram usar como meio de informação e 15 pessoas (15,6%) disseram fazer outros usos da Internet. No primeiro momento, o que notamos é que é extremamente valorizado a utilização do correio eletrônico (e-mail), pois quase todos os entrevistados fazem uso do mesmo e ainda lembramos que muitos possuem mais de um. É a forma de comunicação/interação mais cotidiana na Internet, pois demanda apenas a abertura de caixas de mensagem por seus usuários: um hábito já comum a todos (verificar mensagens e respondê-las). Já outras atividades exigem um pouco mais de envolvimento e motivação do usuário para serem realizadas: chats, pesquisas, fóruns, etc. Fazendo o cruzamento de dados com a questão anterior já mencionada temos que 53 pessoas (55,2%) responderam que procuravam relacionar-se com outras pessoas através da Internet. Dentro desta atividade podemos incluir os espaços de uso de e-mail, chats, fóruns e até mesmo pesquisas, presentes aqui. A interpretação disso é que os hábitos de um tipo ideal de usuário da Internet vão além dos extremos numéricos presentes na pesquisa. Apenas 45 pessoas (46,9%) disseram usar salas de bate papo, no entanto 53 pessoas (55,2%) disseram procurar conhecer pessoas através da Internet e também 67 pessoas (69,8%) disseram procurar diversão através da Internet, o que nos leva a formular que os chats estão presentes na maioria das interações com novas pessoas; seria, junto com o fórum, um espaço de interação primário, onde se faz os primeiros contatos, se descobrem afinidades e daí passa-se para os outros espaços/ferramentas de interação (e-mail, ICQ, telefone, etc.). E também nos ajuda a formular que as intenções predominantemente lúdicas ao se procurar conhecer pessoas novas através da Internet servem de reforço ao fato de provavelmente estes usuários terem no chat, também, um espaço para procurar diversão. Talvez uma das razões porque as salas de bate-papo não tiveram um maior índice de escolha entre a amostra entrevistada seja justamente porque elas cumprem um papel primário no processo de interação (conhecer pessoas, etc.) e por isso não seja procurado com mais freqüência. Demonstrando este equilíbrio entre usos lúdicos e funcionais do espaço da Internet, concluímos, diante da questão "Que sites (ou tipos de site) mais costuma visitar? (livre)" que os sites ou tipos de sites mais visitados nos revelam também um pouco de suas motivações, hábitos e intenções dos usuários ao estarem conectados e porque se conectaram ao espaço da Internet. A variedade de respostas e a já mencionada momentaneidade das respostas dadas me fazem crer que para a construção do perfil do nosso usuário ideal o que vale aqui é a noção de equilíbrio do uso do espaço da Internet entre Funcional - Informativo - Lúdico - Cotidiano. Funcional por ser utilizado para situações classificadas convencionalmente como "sérias" (trabalho, escola, etc.). Informativo por ser um espaço de divulgação e troca de informações de diversos tipos, inclusive a jornalística (também classificada de "séria"). Lúdico por, além de dispor de várias fontes de diversão, tem um caráter lúdico por si próprio, mesmo quando usado para "coisas sérias" (uso/escolha do uso do tempo livre para aprender, pesquisar, etc.). E Cotidiano por fazer parte da construção de hábitos que fazem parte da vida do usuário: se informar, ler e enviar e-mails, pesquisar, bater-papo, divertir-se, etc. Então, concluindo, o uso do espaço da Internet como espaço lúdico para interagir-se com outras pessoas parece ser uma característica forte no perfil dos usuários do mesmo. Dentro de um contexto de alto fluxo de informações e utilidades, também se dá muita atenção ao relacionamento com outras pessoas, à comunicação e ao lazer dentro deste espaço... Então podemos dizer que os usuários da Internet, num perfil ideal, são pessoas que lidam com muita informação (de vários tipos e de várias utilidades) e que gostam de relacionar-se com outras pessoas, divertindo-se.
1.4- Sobre a Familiaridade com o Espaço:
Perguntamos há quanto tempo se utiliza a Internet... Algo que pode ser afirmado anteriormente sobre isso é que com o maior tempo de uso e familiaridade do espaço da Internet maior o grau de compreensão de suas possibilidades de informação prática e também de ludicidade e de sociabilidade. Em certo sentido, podemos cruzar essa informação com o nível de respostas de nossa amostra e perceber que realmente as respostas são passageiras... Quem sabe que tipo de respostas se dará a esse tipo de perguntas daqui há mais 5 ou 10 anos. Foi deixado em aberto o espaço para as respostas; para facilitar a interpretação numérica das mesmas eu as dividi em dois blocos: "menos de dois anos" e "mais de dois anos"; em seguida eu apresentarei qualquer comentário relevante dos usuários a respeito da questão. 32 pessoas (33,3%) disseram que usam a Internet há menos de dois anos e 64 pessoas (66,6%) disseram que usam a Internet há mais de dois anos . Comentários de pesquisados: "Uso o micro desde antes da Net... no tempo do Vídeo Texto (não sei se conhece)." A grande maioria apenas disse há quanto tempo usava a Internet. Mas podemos pensar dois níveis de familiaridade com a Internet: muito tempo de uso e também os que tem pouco tempo, mas muita intensidade de atividades. O contínuo crescimento da popularidade da Internet também possibilita este tipo de familiaridade em menor tempo de uso; relativamente, as pessoas que começaram a usar a Internet de 1997 para cá têm o mesmo conhecimento básico (saber navegar, conhecer os programas de comunicação e saber pesquisar) que as pessoas que usam desde 1994, quando a Internet começou a aparecer no Brasil para uso mais doméstico. Complementando este ponto perguntamos do período de maior uso (estar conectado) na Internet, se dia ou noite. De certo modo está também relacionado com a questão da auto-expressividade vista antes sobre o local de acesso e a influência do mesmo. 59 pessoas (61,4%) disseram se conectar mais de dia. 46 pessoas (47,9%) mais durante a noite. E 25 pessoas (26%) disseram se conectar tanto de dia quanto de noite. A relação possível que fazemos entre estes números e a construção de um perfil ideal do usuário da Internet é que muitos ainda têm acesso somente em outros ambientes que não o próprio lar, o que diminui a utilização durante a noite. Isso implica na suposição da questão econômica do usuário da Internet no Brasil, que têm acesso e conhecimento da mesma, mas não tem condições de possuir a tecnologia. No entanto devemos notar que há um certo equilíbrio dentro da amostra pesquisada sobre o local de acesso (casa e trabalho) e sobre o horário de uso (dia e noite), o que também sugere uma maior capacidade dentro desta amostra. Com relação ao tempo passado no espaço da Internet, o que os dados até o momento demonstram é uma maior preocupação do usuário médio em não permanecer conectado por muito tempo quando está em sua casa pela razão dos gastos com a conta de telefone, energia, etc. Situação não muito observada quando num ambiente exterior (trabalho, faculdade, escola), mesmo quando há uma maior vigilância de uso, como já dissemos; mas há sempre formas de burlar vigilâncias e usar a Internet e trabalhar ao mesmo tempo. Esperava-se que durante a noite os usuários da amostra demonstrassem uma maior liberdade de expressão ao estarem conectados, que é mais ou menos o mesmo critério de liberdade utilizado para o uso mais livre em casa que num ambiente de trabalho. Mas a falta de uma constatação numérica maior que a esperada não invalida totalmente a hipótese inicial, já que ao serem somados a quantidade de usuários que dizem usar mais à noite com os que dizem usar em ambos os períodos do dia, temos uma quantidade superior de usuários. Sem dúvida seria necessária uma maior extensão na amostra para que as hipóteses sobre expressividade e liberdade sejam mais completamente confirmadas ou negadas. O trabalho de campo com o grupo Galera ZAZ parece apontar, pelo menos dentro daquela amostra, que, o uso noturno é acentuado para aqueles que possuem computador em casa e o diurno é maior para aqueles que não tem, isto é, que acessam de escola ou trabalho, o que nos parece uma proposição óbvia, mas não ainda totalmente convincente.
Ainda contribuindo com este tópico da familiaridade e também antecipando algo sobre a sociabilidade, perguntamos aos nossos pesquisados: "Você usa o ICQ ou similar?" e apresentamos o seguinte: 46 pessoas (47,9%) disseram que sim e 49 pessoas (51%) disseram que não. Em primeiro lugar devo lembrar novamente que as respostas a maioria destas questões têm um caráter temporário, pois muitas das questões e situações analisadas possuem uma característica de aprendizado e uso que muitas vezes demanda tempo. No caso do ICQ ou programa similar, isso é bastante visível. Ele é um programa/ferramenta de comunicação "on line" bastante popular, mas que só demonstra sua maior utilidade para aquelas pessoas que mantêm já um certo número de contatos através da Internet. Para usos funcionais (trabalho, escola, etc.) a ferramenta mais prática e utilizada ainda é o e-mail. Então, imaginemos que no momento em que as pessoas que disseram não usar o programa ele ainda não era do conhecimento da mesma pessoa e que logo após de respondido o questionário ela procurou saber do que se tratava, se interessou e instalou em seu computador e passou a usá-lo regularmente... Na verdade uma pessoa respondeu que nunca tinha ouvido falar no ICQ até aquele momento... Esse dado seria impossível de ser quantificado. E mesmo que fizéssemos o mesmo questionário para as mesmas pessoas algum tempo depois, os dados ainda seriam momentâneos; inclusive as pessoas que dizem agora usar o programa talvez já não o tenham mais, desistiram de usá-lo por qualquer razão, etc. Então, utilizando os dados que temos, podemos notar que as pessoas com maior índice de atividades de sociabilidade no espaço da Internet são as que também usam o ICQ ou similar. Isto nos confirma que o grau de familiaridade com o espaço e o de intimidade das interações no mesmo tendem a se desenvolver de sub-espaço (programa/ferramenta) em sub-espaço, de acordo com o avanço da identificação entre usuários, isto é, a progressiva descoberta de afinidades, semelhanças. Imaginemos que o usuário ideal da Internet entrou num chat, teclou com alguém com quem teve afinidades; daí trocaram endereços eletrônicos e logo estão se enviando constantes e-mails; depois eles se colocam em suas listas de usuários de ICQ ou similar e sempre que ambos estão conectados, eles sabem que o outro também está e assim ficam em constante conexão; a seguir vem o telefone e quem sabe o face-a-face. É claro que esta é uma ilustração ideal, mas na verdade é o padrão mais convencional da construção da sociabilidade no espaço da Internet. Dentro desta nossa amostra inicial vemos que o uso do ICQ não faz parte (ainda) dos hábitos da maioria, mas a contagem está razoavelmente equilibrada. Se eu tivesse concentrado os envios de questionários para pessoas do meu convívio ou mesmo para os membros do grupo com o qual faço trabalho de campo, com certeza haveria uma grande maioria de usuários do programa, pois, novamente, sua utilidade está em razão direta com a atividade de sociabilidade do usuário da Internet.
1.5- Sobre as Interações:
O usuário ideal da Internet inevitavelmente interage com outros usuários, mas, a depender das intenções e/ou motivações, estas interações podem ser mais funcionais ou mais afetivas. A sociabilidade no espaço da Internet se equilibra neste espectro (funcional - afetivo). Ao interagir conhece regras/convenções de convivência e tende a sempre aprender mais para poder manter as interações nos diferentes sub-espaços. Essas interações construídas no espaço da Internet têm as seguintes características: presença da escrita; escrita elaborada de Eus; atenção à leitura sobre os Eus elaborados; manutenção tolerante de jogo entre expressão e impressão dependente desta escrita (interlocutores jogam através desta linguagem enquanto interagem); manutenção possivelmente efêmera da interação individual devido a multiplicidade e velocidade do espaço e do esgotamento de afinidades; espera-se a observação das regras de convivência específicas dos sub-espaços de interação. O nosso usuário ideal convive com isso, faz parte de seu cotidiano, mesmo que não totalmente consciente. Tendo como um complemento inesperado ao aspecto da sociabilidade presente nos hábitos do nosso usuário ideal, notamos que diante do cabeçalho "A sua Sociabilidade na Net", que apenas pretendia apresentar uma mudança de tópicos dentro do próprio questionário, muitos pesquisados colocaram comentários interessantes a respeito do que eles achavam ser a sociabilidade deles na Internet. Vejamos: "Maravilhosa..." "A maior possível." "Me comunico o máximo que posso com a galera (Galera ZAZ) tentando passar minha alma para as pessoas, pena que não há sinceridade da parte de todos." "Conheci pessoas legais, outras menos, como em qualquer lugar." "Não procuro pessoas, procuro informações. Assim não me exponho." "Já fiz muitas amizades, através de e-mails de amigos, termino por conhecer outras pessoas e passo a transmitir-lhes informações." "Sou sociável." "Ótima. Se entro num chat é para conhecer pessoas e levo a proposta a sério. Costumo ser gentil e receptiva, sem máscaras. Sou eu mesma, até no nick utilizado." Podemos ver que as noções sobre sociabilidade variam um pouco em cada pessoa na tentativa de expressar o que eles achavam da mesma de cada um, mas é possível captar a presença da noção de troca, que é o centro do conceito de sociabilidade que estamos utilizando aqui, em muitas das respostas apresentadas: trocar informações; lidar com os outros; dar e receber. Perguntamos "Você tem mais de um e-mail (endereço de correio eletrônico)? Quantos? Por que?" com a intenção de um descobrir um pouco como os usuários do espaço da Internet tendem a construir diferentes interações de acordo com os tipos de espaços e relações construídas no mesmo. Numericamente temos que 83 pessoas (86,4%) têm mais de um e-mail. Enquanto apenas 13 pessoas (13,5%) dizem ter apenas um e-mail. O que nos chama atenção é o fato de ser notoriamente uma coisa comum entre os usuários da Internet usar mais de um e-mail... Por que? Há uma questão técnica envolvida e que não pode ser ignorada: algumas vezes os servidores e provedores desses e-mails simplesmente não funcionam, o que pode ser um grande impecilho para aqueles que fazem uso freqüente desta forma de comunicação. Mas, além disso, que razões levam os usuários da Internet a terem, algumas vezes, mais de três (quatro, cinco) endereços eletrônicos?... Voltando às razões pessoais, vemos que as justificativas variam um pouco, mas podemos concentrá-las em algumas situações mais específicas passíveis de análise na construção do tipo ideal de usuário da Internet. Em primeiro lugar podemos notar que muitos usuários possuem diferentes grupos de afinidades, o que proporciona uma multiplicidade de apresentações através de e-mails a depender da afinidade envolvida. Por exemplo: nada mais normal dentro do espaço de interação da Internet que haver em um grupo formado a partir da Internet (como no nosso caso estudado: o grupo Galera ZAZ) pessoas que, para uma melhor identificação com sua apresentação dentro do grupo, fazerem uma conta de e-mail (se já não houver) com o nome/nick (apelido) pelo qual é conhecido no grupo. Em segundo lugar, a clara separação em alguns casos entre lazer e trabalho: um e-mail para cada tipo de interação, as duas já fazendo parte do seu cotidiano, mas com interpretações e intenções diferentes. Por exemplo: uma pessoa dá um e-mail para alguém que acabou de conhecer; dá um segundo para um velho amigo que reencontrou; deixa um terceiro registrado no seu currículo de trabalho; se inscreve em um concurso com um quarto e ainda faz uma assinatura em algum site de diversões com um quinto. Quando ela abre cada conta para verificar se tem mensagens, ela vai carregar tipos de expectativas diferentes, responderá as mensagens de maneiras diferentes e talvez até finja ser outra pessoa. Daqui, em terceiro lugar, temos que as pessoas podem usufruir de grande facilidade em ignorar outras pessoas através do uso de vários e-mails: imaginemos no caso anterior ao se dar um e-mail para alguém que acabou de conhecer, mas não sentiu interesse em manter a interação futuramente, simplesmente pode-se dar um e-mail que não existe ou que não mais se utiliza ou simplesmente pode-se ignorar as mensagens quando e se as mesmas vierem. Enfim, no resumo das possibilidades de interação através de diversas contas de e-mails, temos que são modos diferentes de se apresentar/interagir com diferentes grupos ou pessoas, fazendo-nos recordar novamente de Goffman (1999), quando discorre sobre como os diferentes espaços ajudam a construir as diferentes formas de interação. Em cada e-mail há um Eu possível, que interage com vários outros Eus possíveis, formando assim espaços momentâneos de interação possíveis, que se constróem a medida que fluem as diversas interações.
Sobre esses outros Eus possíveis, ao perguntarmos "Como qualifica as pessoas que freqüentam a Net? O que lhe dá essa impressão? (espaço livre)" começamos a ver a maneira como o nosso usuário ideal enxerga o outro, as outras pessoas que freqüentam a Internet e nisso um pouco mais dele mesmo. As respostas: "Pessoas que buscam um pouco mais de informação do que a tradicional." "Percebo na maioria das pessoas uma carência afetiva enorme." "Curiosas." "São pessoas normais, que apenas têm mais um meio para se comunicarem." "Pessoas antenadas para o futuro." "Na minha opinião não há como qualificar as pessoas que estão na NET. Atualmente todos os tipos de pessoas estão na Net." "Solitárias e cansadas da loucura dos jogos de poder e conquista." "É um público diferenciado. Há desde jovens loucos para parecerem outras pessoas, adultos vivendo aventuras amorosas, crianças usando sites infantis ou não, senhores como meu avô que se divertem pelo mundo virtual, pesquisadores que mantêm contato com outros estudiosos..." "São pessoas abertas a qualquer tipo de novidades." "São carentes e não se prendem a uma mesma coisa (pessoa) por muito tempo... Pessoas que conheci que se mostraram muito carentes e que logo mudaram para outras pessoas..." "Tenho meus altos e baixos também e às vezes não tenho quem me faça companhia. Gostei de ver que as pessoas gostavam ou se interessavam por mim, pelo que eu escrevia, pelas minhas idéias, e não como eu aparentava, o que geralmente acontece. As pessoas na net são das mais variadas possíveis... não há uma classificação exata, mas pra mim, a palavra-chave que descreve a todos, seja qual for o nível ou espécie, é a CARÊNCIA. Carência de gente, de se expressar, de falar, de informação, de sentir sensações novas, de conhecer, de ajudar e ser ajudado, de ser escutado, enfim, existem vários tipos de carências." Pontuando as noções apresentadas temos que as pessoas da Net têm um certo nível de cotidiano e familiaridade com a informática e com tecnologia; o aprendizado e uso das mesmas já faz parte de um certo nível médio do dia-dia da maioria dos usuários, fazendo assim parte de sua vida cotidiana. Procuram estar informadas sobre os mais diversos assuntos; disso elas serem curiosas, atentas a novidades, criativas e terem algum nível de instrução e alguma condição econômica para assim ter acesso a este material (físico e simbólico). Possuem alguma carência afetiva ou sentem alguma solidão; disso procuram um preenchimento ou complementação afetiva através da Internet . As considerações de "normalidade" estão intimamente ligadas às semelhanças ou afinidades entre usuários: se há comunicação, isto é, se há troca de símbolos semelhantes (mediações bem sucedidas), este é um sinal de normalidade; há uma clara referência de normalidade em relação a si mesmo. Têm a noção de segurança e anonimato no espaço da Internet como algo que possibilita a livre expressão de si; disso a livre participação nas fantasia e simulacros da contemporaneidade (Ex.: sexo virtual, namoro virtual, realidade virtual, jogos interativos, fóruns de temas normalmente repudiados, invasões da intimidade alheia, invenção de características físicas e/ou psicológicas, etc.) . Têm uma certa consciência ou noção da multiplicidade, amplitude e variedade dos conteúdos e das pessoas que fazem parte do espaço da Internet. E admitem a efemeridade como característica do modo como as pessoas lidam com as coisas (e pessoas) no espaço da Internet, mas julgam isso de maneira negativa. Enfim, podemos notar que muito do modo como estes usuários da Internet vêem os outros usuários é também parte de suas próprias características no mesmo espaço. O modo como se expressão a respeito do outro (suas interpretações) mostra muito do que eles próprios parecem ignorar de si próprios por ser já corriqueiro. Suas reconstruções dos cotidianos dos outros no espaço da Internet é a expressão dos deles próprios. Ou, como diz Giordano: "O eu e o outro, fechados na própria subjetividade e corporeidade surgem prisioneiros nos limites insuperáveis do próprio espaço." (Giordano, in Peluso, org., 1998: 73) Ainda sobre esta noção de Outro, temos a questão do dito "anonimato" na Net, que atinge dois pólos: confiança e desconfiança, pois, se um desconfia, o outro parece desconfiar também, porém, como ambos se sentem seguros e protegidos pelo anonimato podem "se abrir" quase sem restrições e a "crença" fica toda a cargo do outro. Fica então sendo uma reciprocidade baseada na segurança do anonimato. Do nosso usuário ideal, eu diria que ele é consciente em parte desta dinâmica e participa dela fazendo julgamentos de caso a caso, de momento a momento, sobre como irá interagir com o outro: confiando ou desconfiando (o mais geral seria no primeiro momento a desconfiança, mas não é uma regra); forjando fantasias ou sendo "real"; mas tendo sua participação neste processo junto com as suas outras atividades: comunicação, informação, trabalho, diversão e sociabilidade.
Em seguida perguntamos: "Você costuma fazer amizades (ou relações mais próximas) com pessoas que conhece na Net?", que complementa este questionamento, já que poderemos ver o grau de procura pela proximidade vista anteriormente. 53 pessoas (55,2%) disseram que costumam fazer amizades através da Internet. 38 pessoas (39,6%) disseram que não fazem ou ainda não o fizeram. E 5 pessoas (5,2%) não responderam a questão. O que novamente podemos notar é a confirmação da hipótese levantada anteriormente de que a Internet é, para os usuários, um espaço de diversas interações em potencial. Mais da metade dos entrevistados já construíram interações de cunho afetivo e quase uma outra metade está presente num ambiente de potencial interação, seja afetiva por motivação ou mesmo uma interação estritamente funcional que pode se tornar afetiva também. Depois perguntamos: "Quantas pessoas já conheceu na Net? (não precisa ser exato)", que nos dá uma noção da variedade de amplitudes alcançadas até aquele momento pelas pessoas que afirmaram interagir afetivamente através da Internet. Em alguns casos as diferenças de quantidades são diretamente proporcionais com o tempo que a pessoa vem acessando a Internet. Algumas quantidades: "Umas 3 ou 4." "Não menos que umas 50. Agora, desse total, amigos, são poucos." "Um número muito alto... talvez mil ou mais." "Superficialmente, centenas. Pra valer, umas cinco." "Várias, não sei quantas." "Várias, umas sete ou oito." "Aproximadamente 10." "Entre 30 e 50 pessoas." "Muitas, mais de 1000." "Umas 60, mas tive um segundo contato pouquíssimas vezes (umas 5 vezes)." "Umas setenta." "...mais de 35." "Mais de 40, só que continuo mantendo contato com umas 5 ou 6." "Pessoalmente, umas trinta." Podemos notar que as quantidades são bastante extremas (5 a mais de 1000), porém podemos ver também que há diferenciação entre conhecer pessoas e fazer amizades. O fato da ampla potencialidade de interações afetivas é um fator predominante no fato da sociabilidade do nosso usuário ideal ser tão fluida e variável. As questões de confiança e desconfiança voltam a aparecer aqui e também da possibilidade do anonimato, da proteção e da fantasia, que inevitavelmente restringem e limitam a aproximação simbólica/afetiva entre usuários, a não ser mediante uma contínua busca por pessoas de maiores afinidades, com quem se possa partilhar mais coisas e daí adquirir confiança e assim uma maior proximidade simbólica, afetiva e até face-a-face (maior intimidade). 31 pessoas (32,3%) disseram que preferem relações com pessoas que estejam mais próximas. 13 pessoas (13,5%) disseram que preferem relações com pessoas estejam mais distantes. E 42 pessoas (43,7%) disseram que não faz diferença estarem mais longe ou mais perto "fisicamente". Vemos que a grande maioria não dá uma importância restritiva à distância em que se encontra a pessoa com quem interage. Isso nos informa que as interações tendem a ter um caráter realmente efêmero. Não que as pessoas que se interagem afetivamente no espaço da Internet são prioritariamente efêmeras com relação às interações que constróem, mas este dado pode ser interpretado como uma faceta multi-complementar do espaço de interação da Internet, já reconhecida pelos usuários, e que leva à formação de múltiplas interações que se complementam simbolicamente dentro de cada usuário. Em todos, acredito, há sempre a possibilidade de uma busca mais próxima com intenções menos efêmeras, mas a correspondência desta intenção nem sempre é recíproca e por isso o uso da multiplicidade de interações e por isso a não restrição da maioria em relação a uma localização (mais próxima ou mais distante) do interlocutor. A intimidade pode tanto estar na casa vizinha quanto num país muito distante. É o jogo de trocas e afinidades que determinará essa interpretação. Essas questões relativas a proximidade e distância; confiança e desconfiança; e efemeridade e intimidade nos levam a perguntar: "Você já ignorou (ou costuma ignorar) pessoas que conheceu na Net? Por que? É mais fácil fazer isso na Net? Por que? (espaço livre)", onde vemos uma das características das interações no espaço da Internet que mais as diferenciam das interações face-a-face e como os usuários lidam com esta diferença. Os números: 49 pessoas (51,1%) disseram já ter ignorado outras na Internet; e 45 pessoas (46,8%) disseram que não, nunca ignoram ninguém (ainda). São dados equilibrados, mas como sempre, momentâneos e apenas representativos de uma amostra de usuários da Internet; mesmo se fossem mais pessoas questionadas estas contingências permaneceriam. Vejamos os comentários dos pesquisados sobre este aspecto bastante particular da sociabilidade na Internet: "Já! Pessoas inconvenientes." "Sim. Acho igual a ignorar pessoas no real." "Sim. Tem pessoas que são chatas e que não vale a pena manter contatos porque ás vezes querem manter uma conversa que não me agrada como por exemplo fazer sexo virtual e conversas íntimas." "Uma vez ignorei, porque menti sobre meu físico, chegamos a conversar por telefone, e a coisa foi ficando cada vez mais profunda, e por vergonha de haver mentido tive que cortar a relação." "Nunca ignorei, mas esta muito claro que é muito mais fácil ignorar uma pessoa na Net." "Não o fiz. Mas é muito fácil ignorar as pessoas na Internet pois cortando o meio de comunicação, se corta o contato." "Às vezes, por questões de não haver empatia." "Sim, porque a gente enjoa fácil das pessoas hoje, pois elas também dão atenção a um monte de gente ao mesmo tempo... Sim, é mais fácil... porque você não convive com a pessoa direto." "Sim. Se a pessoa não consegue manter um nível de conversa legal, ou há uma má comunicação, tentou me ofender de alguma maneira, a gente não se entende... eu ignoro. Claro... eu dificilmente ignoraria alguém pessoalmente pelos tolos motivos que costumo fazer na Net, pois não gosto de machucar, ofender, fora que estamos cara a cara... na Net pode-se mentir, dizer que teve problemas na conexão e não haverá mágoas." Vê-se o espaço da Internet como protegido, seguro, que possibilita o anonimato, a invisibilidade, a distância e a variedade de escolhas, assim, descartar uma interação se torna mais fácil e uma prática possível bastante comum, mesmo que aparentemente não reconhecida em alguns momentos pelos próprios usuários. As razões para este ignorar são variadas e de caráter pessoal, enumerá-las seria de certo modo inútil. Todos estão expostos aos mesmos riscos de ignorar e de ser ignorado pelas mais diversas razões. Reforçamos ainda mais este aspecto do contexto da sociabilidade no espaço da Internet com as respostas dos pesquisados a outra questão, que pergunta "E você já foi ou se sentiu ignorado? Qual foi a sensação? (livre)", onde 29 pessoas (30,2%) disseram já terem sido ignoradas. Enquanto 54 pessoas (56,2%) disseram que nunca foram (ainda) ignoradas. Vejamos alguns dos comentários: "Olha, nunca percebi isso não. Se aconteceu, não deu para perceber." "Sim, porém achei que naquele momento a outra pessoa estava ocupada. Não me incomodei, pois tenho outros amigos." - (a multiplicidade e a efemeridade influenciam nas reações a respeito; além disso "estar ocupado" é uma das desculpas mais utilizadas para ignorar outro usuário num momento inconveniente) "Sim. Uma vez troquei fotos com uma criatura do Paraná, e quando recebeu as minhas, não me respondeu mais os e-mails, me senti frustrado." "Sim, já fui ignorada, é horrível." "Por vezes se entra em salas de bate-papo e os grupinhos já estão formados. Geralmente, um ou outro fala com você. No caso de insatisfação, saí para outra sala ou desliguei o micro sem crises existenciais." - (ação familiar ao cotidiano dos usuários) "Já sim. Esqueci e parti pra outra..." - (familiaridade e efemeridade) "Já fui ignorado. Bem, quem gosta de ser ignorado?" Baseado nos dados, acredito que nosso usuário ideal está exposto à possibilidade de ser ignorado, sempre, mas que sua reação deverá sofrer um tipo de classificação não muito consciente do nível de importância da mesma; o que novamente penetra no aspecto pessoal da noção do processo de ser ignorado. No entanto, devido a característica da multiplicidade, somada a da efemeridade, também possíveis e fortes nas interações no espaço da Internet, sua reação inicial deverá ser de indiferença, mesmo que superficial, pois poderá sempre "partir para outra...", como disse um dos usuários entrevistados.
1.6- Sobre a passagem da Net para o face-a-face:
Ao fazer a passagem de espaços de interação (Internet para face-a-face), encontram-se diferentes rituais e regras de interação. A manutenção da interação irá depender mais ainda do desenvolvimento do partilhamento das afinidades (funcionais ou afetivas). O jogo expressão/impressão agora é direto e há possibilidade das elaborações escritas (do espaço da Internet) entrarem em conflito com as atuais (face-a-face), na mesma medida em que se complementam. É a importância da interação com o outro sem a mediação escrita e eletrônica, é o olho no olho que pode revelar mais do que se quer . A sociabilidade, então, terá um caráter de espaços complementares (Internet e face-a-face) de interação, caso a mesma continue (as afinidades se mantiverem). As múltiplas possibilidades de ocorrência desse processo também é característico das interações iniciadas a partir do espaço da Internet e o nosso usuário ideal da Internet também convive com isso. Perguntamos "As amizades feitas na Net passam ou já passaram para o chamado Mundo Real? Quantas já passaram? O que pensa sobre isso, sobre esse tipo de relações? (sinta-se livre para falar o que quiser)", e aqui estão algumas das respostas dos usuários: "Levei alguns anos me relacionando apenas com pessoas cujo primeiro contado foi virtual." "Cinco. Acho interessante, mas da mesma forma que acharia as que fizesse no mundo "real"." "Não, nunca passaram porque eu não quis e também por falta de oportunidade. Acho normal se vier a acontecer um encontro. Tenho um encontro para Janeiro/2000 com um grupo de bate-papo."- (em contato posterior fiquei sabendo que a pessoa conheceu, festejou e criou novas afinidades e interações na nova situação; foi uma situação passageira, pois eram pessoas de lugares diferentes; tirou fotos, guardou lembranças e alguns poucos teve oportunidade de ver de novo, seguindo o seguinte modelo: semelhanças, identificações, daí afinidades e possível identidade, quando comparada à diferença de outros do mesmo grupo, mesmo sendo semelhantes; neste caso tem haver com proximidade também, pois estar mais perto geograficamente passa a ser uma afinidade partilhada...) "Sim. Cinco. Tão boas e duradouras quanto às "reais"." "Sim, umas cinco. São amigos como quaisquer outros. Pessoas que gosto e com quem eu saio." "Poucas, normalmente existe uma forte conexão sexual, que mais facilmente se desacredita quando se conhece a pessoa que estava do outro lado." "Várias já passaram, é sempre bom." "Nunca, mas tenho uma amiga próxima que está namorando um cara que conheceu num chat. Achei legal porque ela é uma pessoa relativamente tímida e ele também. Se não tivessem tido esse primeiro contato no chat acho que não teriam nem começado a namorar." "Sim, umas 5. Acho que são como qualquer outra, só que em maior quantidade e mais rápidas..." "Não me sinto legal conversando pela Net. Acho que tudo é muito falso." "Sim. Amizade de verdade, de sair e de participar da vida um do outro, poucas. Mesmo porque a gente se identifica pela Net (semelhanças, partilhamento de afinidades), mas pessoalmente não é nada daquilo (auto elaboração de Eus, que não são sustentadas pelo novo espaço de interação). Tenho um ex-namorado com quem me relaciono até hoje; foi a primeira pessoa que conheci na Net. Outros, converso por telefone, mas não costumo sair ou conviver muito mesmo. Acho legal quando as pessoas se identificam e conseguem concretizar uma amizade. Mas não tem sido muito fácil pra mim concretizar uma." "Sim, mas com algumas restrições... o elo que se forma é muito tênue, qualquer coisa ele se desfaz e a amizade simplesmente evapora. Foi com umas quatro pessoas... eu encaro como algo natural... a Net ainda é novidade, as pessoas estão se acostumando, com o tempo vão levar mais a sério as coisa." "Já sim, e foram quase todas. Acho uma ótima maneira de se fazer novos amigos desde que haja sinceridade e respeito." Podemos ver que há uma visão geral positiva a respeito das relações que começam na Internet e passam para o face-a-face. Uma positividade ligada ao preenchimento afetivo, lúdico e também o utilitário. No entanto, os usuários reconhecem certas contingências inerentes à origem (uma origem baseada em afinidades/semelhanças) das relações no espaço da Internet, tais como a desconfiança em relação ao outro; as possibilidades de intenções discordantes a respeito da relação; a presença subliminar do sexo nas relações; a intimidade efêmera; as distâncias geográficas; etc. Na questão seguinte, "Qual o caminho (os passos) para maior intimidade na Net para você? (livre)", continuamos a desenvolver os processos de passagem entre espaços de interação. As respostas: "Uma maior proximidade geográfica talvez." "Começar com um bate-papo e depois ir para o ICQ ou manter correspondência por e-mail." "Na minha opinião não existe intimidade na Net, pois intimidade mesmo é quando já se conhece e se convive com a pessoa." "Os chats, ICQ..." "Com o tempo de contato eletrônico as afinidades vêm à tona e a intimidade chega naturalmente. Mais ou menos como no mundo real." "Telefone." "Sinceridade." "Não existe nenhum "roteiro" para a intimidade na Net." "Fórum, chat ou site de encontros, e-mail, talvez ICQ, telefonema e finalmente ao vivo..." "Conversar, telefonar, ver foto, marcar encontros... não sei se é isso que quer saber!" "Tratar a Internet como algo normal... e acima de tudo respeitar as pessoas." "E depois que sair da sala de bate-papo continuar sempre escrevendo e se for do seu agrado passar seu fone e depois marcar um encontro..." "Sinceridade, atenção e amizade." "Tentar ser natural como se a "coisa" estivesse acontecendo no "mundo real"." Podemos analisar dois pontos de vista que terminam por se cruzar sobre este aspecto da intimidade construída no espaço da Internet. De um lado temos a progressão técnica ou instrumental, com o uso de ferramentas de comunicação (chat, e-mail, ICQ, telefone, etc.) que levam a interação a níveis cumulativos cada vez mais pessoais. E de outro lado temos que o processo de construção de intimidade depende do material simbólico que é trocado pelos usuários (as interpretações pessoais dadas a esses materiais de troca), isto é, os níveis de intimidade dependem do jogo entre honestidade e confiança entre interlocutores. No cruzamento destes dois pontos de vista temos que, com uma fluência maior de ferramentas que permitem maior expressividade entre os interlocutores das interações, as impressões se tornam também mais fortes, o que não permitiria o uso de um tipo de má fé bastante peculiar ao espaço da Internet: a auto elaboração de Eus exageradamente idealizados. O nosso usuário ideal está presente neste contexto com as possibilidades de usos de ferramentas de mediação que progressivamente trazem uma maior intimidade às interações ao mesmo tempo que depende, para uma bem sucedida construção de intimidade, de trocas simbólicas honestas. De qualquer maneira a desconfiança ainda parece permear a noção de intimidade dos usuários entrevistados, mesmo quando um caminho instrumental é apresentado. Perguntamos: "Onde costuma encontrar (no Mundo Real) as pessoas que conheceu na Net?", cuja intenção é fazer-se revelar os aspectos rituais e significativos desta possível passagem entre espaços de interação diferentes, mas complementares. Algumas respostas: "Em festas, em aniversários, em barzinhos." "Bares, praia, na minha casa." "Locais públicos, como bares e Shoppings." "Geralmente locais públicos: bares, lanchonetes, etc." "Em todo canto que ando." "Em bares, cafés, cinemas, etc." Podemos ver uma grande maioria de usuários optando por lugares de natureza lúdica: shoppings, bares e praias são os principais. No caso de shoppings e bares de uma maneira mais generalizada já que são locais de concentração lúdica bastante populares e acessíveis da contemporaneidade urbana média. A praia parece ser um espaço mais sazonal e territorial, no caso de Salvador (uma cidade litorânea), um espaço de lazer também bastante popular e de baixo custo. Logo, os aspectos principais para a escolha de locais para encontros face-a-face dos nossos usuários da Internet que praticam a sociabilidade na mesma são o lazer e o baixo custo. Um outro aspecto está implícito nesta questão, algo que não foi diretamente abordado nesta questão, mas que está presente no discurso sobre a interação a partir da Internet, que está relacionado com a questão da desconfiança, da segurança e da proteção; quase todos os locais expressos pelos entrevistados se constituem como espaços abertos ao público, isto é, a grandes quantidades de pessoas, o que deixaria qualquer usuário seguro diante do fato de estar conhecendo alguém pela primeira vez face-a-face. No entanto, os níveis de intimidade e de desconfiança são constantemente balanceados por diversos fatores durante as interações e suas continuações e acumulamentos simbólicos, portanto, em muitos casos também já existe a aproximação suficiente para se encontrar o outro em locais menos abertos ao público: casa, trabalho, escola, especialmente casa, pois, como vimos, muitas pessoas disseram não revelar seus endereços residenciais. A seguir foi perguntado: "Essas relações foram (ou são) mais duradouras ou mais frágeis? Dê sua opinião." 24 pessoas (25%) disseram achar as relações iniciadas a partir da Internet mais duradouras; 20 pessoas (20,8%) disseram achar essas relações mais frágeis; e 52 pessoas (54,2%) simplesmente não souberam como responder à pergunta. Um comentário que muito ilustra a posição de parte dessa grande maioria que não soube responder a essa questão reproduzo aqui: "A Net nada tem haver com o status da relação, se passou para o mundo real é como outra qualquer, depende das pessoas envolvidas..." Podemos considerar os outros dois blocos de respostas como representantes de posições pessoais sobre uma situação sempre possível, isto é, pessoas que têm ou já tiveram experiências de relações duradouras iniciadas a partir do espaço da Internet e pessoas que ainda não tiveram esta oportunidade ou que tiveram a experiência de passar por relações que foram rápidas e fugazes. A nossa generalização final é que as relações iniciadas a partir do espaço da Internet tanto podem ser mais duradouras quanto mais frágeis que outras. Na questão final foi perguntado se "Você participa ou já participou de algum grupo formado a partir da Net? Quais? Como foi ou é? (sinta-se livre para escrever)", que nos acrescenta um pouco mais sobre o nível de envolvimento e integração desses usuários da Internet com o tipo de sociabilidade possivelmente desenvolvida na mesma. 33 pessoas (34,4%) disseram participar ou já ter participado de algum grupo formado a partir da Internet; e 47 pessoas (48,9%) disseram (ainda) nunca ter participado do mesmo tipo de grupo. Estes dados são obviamente afetados pela presença de alguns membros do grupo Galera ZAZ pesquisado dentro da amostra, mas, de qualquer modo, considerando os pesquisados de fora do grupo que também fizeram parte da amostra e que também disseram fazer ou já ter feito parte de grupo de origem semelhante, podemos afirmar que os níveis de integração coletivos dos usuários da Internet têm um grande potencial de crescer e se realizar. A presença de fatores circunstanciais (trabalho, pesquisa, moda ou qualquer que seja a afinidade) e a tendência a efemeridade estão também presentes na formação destes possíveis grupos, mas, o fato relevante aqui na construção deste perfil de usuário ideal e do contexto onde ele se desenvolve é que há a possibilidade do agrupamento, existem grupos, as pessoas participam deles das mais diversas formas e apresentam impressões sobre esta participação.
A despeito de tudo que é dito sobre a Internet (informação, velocidade, etc.), o que parece importar para os usuários é o uso criativo particular de cada um (profissional, lúdico, etc.), mesmo estando dentro de uma rede infinita e impessoal (instituições, mercado, etc.) de aprendizados e influências sobre o que deve e o que não deve ser feito com o espaço da Internet.