A L Q U I M I A
                                               BRUNO  BERTOLUCCI  ORTIZ - bubis@unimes.com.br  

 
 
Tudo no universo se transforma. O universo segue um ritmo próprio de evolução onde a transformação dos seres é o reflexo dessa evolução. A evolução consiste em mudar algo para uma nova forma mais adaptada, e  consequentemente superior. Em toda natureza vemos a busca da harmonia. As partículas subatômicas roubavam energia uma das outras, até que se harmonizaram e formaram o átomo. Os átomos roubavam energia um do outro para estabilizarem suas camadas; até que se harmonizaram e formaram a molécula. As moléculas dissolviam outras para roubarem átomos para se manterem, até que se harmonizaram e formaram a célula...
Se hoje o ser humano luta com o próximo para ter mais poder, um dia a natureza encarregará de harmonizá-los.
A alquimia visa a evolução do espírito, e este evoluirá o mundo ao seu redor. Segundo a tradição alquímica, o ouro e a prata são os metais mais evoluídos, e a "meta" dos outros metais é transformar-se em ouro. Mas não era apenas os metais que o alquimista ajudava a evoluir; ele possuía o elixir e a panacéia que serviam para ajudar plantas e animais. Porém, a operação mais famosa, mais romântica e mais curiosa era a transmutação dos metais.
Esse mito, do chumbo transmutado em ouro, representava a evolução que acabava por passar o alquimista, levando uma vida disciplinada mergulhada no seu objetivo. Seu laboratório ( lugar de "laboriar", isto é, de trabalhar e orar) era um verdadeiro "templo" onde o alquimista estudava a liguagem dos símbolos ( a linguagem da Alma do Mundo) e meditava constantemente sobre a verdades do universo. Portanto, praticar alquimia eram verdadeiros exercícios espirituais. Por fim, o fogo acabava por queimar as vaidades do alquimista, e o mesmo descobria que havia transmutado algo muito mais valios que o metal que era exaustivamente cozido: a própria alma.
Os alquimistas ensinavam que a prata tem a qualidade negativa, ao passo que o ouro a tem qualidade positiva. Em ambos há um perfeito equilíbrio de polaridades, o que não ocorre em outros metais, daí o porquê de serem considerados os mais evoluídos.
Éliphas Lévi no seu livro "Curso de Filosofia Oculta" ( pg 33) atribuí ao "ativo" o enxofre, e ao "passivo" o mercúrio. Papus também concorda com essa atribuição no seu livro " O ABC do Ocultismo" , assim como o G.O Mebes e outros autores. Dessa forma utilizarei essas denominações como base simbólica .
Segundo os antigos tratados, a grande obra era elaborada em 4 fases: A solução, a fixação, a multiplicação e a projeção.
 
1) A Solução :
 
Trata-se da obtenção do sal dos sábios. O sal é fruto de uma aplicação de luz astral no seu aspecto ativo (enxofre, masculino) e passivo ( mercúrio, feminino). Nessa fase o importante é o esforço do filósofo em descobrir em si mesmo e na natureza como se manifesta essa força. É a arte de dominar as vibrações. Deve ocorrer a união do macho e da fêmea gerando o sal ( o Hermafrodita). Essa fase é simbolizada no tarô pelos arcanos de "denários".
Olhar para cima e começar a trilhar o caminho em direção a luz é o primeiro passo para o Alquimista. É o chamado para o esforço voluntário de se elevar espiritualmente. É preciso buscar informação, ler, ler, reler, orar e trabalhar.
No livro "Mutus Liber", a primeira prancha apresenta dois anjos descendo uma escada, tocando trombeta ao ouvido de um jovem que dorme encostado a uma rocha. Isso mostra claramente o "chamado" à busca que deve ser empreendida mediante seus esforços. A segunda prancha apresenta dois anjos segurando um ovo dentro do qual vemos Saturno (ou Netuno) ao lado de  homem( com o símbolo do sol) e uma mulher ( com o símbolo da lua). Isso simboliza que o primeiro passo é adquirir o sal pela mistura dos opostos. Abaixo dos anjos há um homem e uma mulher orando e "laboriando" entre um "atanor". Percebemos assim que não estão em trabalho prático, mas recebendo instruções do universo ( os anjos). A terceira prancha mostra Deus (Júpiter?) em cima de três círculos ( um dentro do outro), e os círculos mostram diversos símbolos do mundo. Essa prancha revela que a alquimia não se estende apenas no "atanor", mas no universo inteiro, na vida. Mostra que há necessidade de conviver com o mundo e de aprender com ele, as sutis portas entre os três mundos ( é interessante que entre os três círculos sempre há um discreto objeto ligando cada um).
Somente na quarta prancha é que começa o ensinamento prático. O alquimista recolhe com sua "Sóror" o orvalho que é simbolizado por panos estendidos no campo abaixo de gotas etéreas que vêm do céu. Eles torcem um pano que goteja em um prato. Isso simboliza o domínio da luz astral que será "separada" em duas polaridades. na quinta prancha há trabalhos de laboratório com o "orvalho", e a mulher entrega um dos recipientes a uma mulher com símbolos da lua. No final da prancha temos dois recipientes cada um com duas tampas. A lua representa a separação, o "solve" do mercúrio do enxofre, que serão colocados me reservatórios diferentes, Na sexta prancha, a solução forma uma rosa de seis pétalas dentro de um frasco, que é entregue a um homem com símbolos do Sol. Temos agora a fase "coagula" representada pelo sol, e onde a rosa representa o sal dos sábios. É a matéria primordial.
 
2) Fixação
 
Começa agora o trabalho para obter a pedra filosofal. o sal é multiplicado pela ação do ouro. Papus ensina:" não se pode fazer pão sem levedura, e sem ouro não se pode  fazer ouro" (O ABC do Ocultismo).
A matéria será cozida, e o primeiro sinal será a cor negra, conhecida como "cabeça de corvo". É o processo de putrefação, que é uma purificação da matéria. Ela morre para renascer, e renasce branca, a segunda cor da obra. A massa branca ( simbolizada por pássaros em alguns tratados) já é capaz de transformar outros metais em prata porém , para conseguir transmutar em ouro, é necessário continuar o processo até a matéria adquirir a cor vermelha. Esse futuro pó vermelho é a pedra filosofal.
Espiritualmente, essas três fases da matéria representam a via da iluminação do espírito. A putrefação é o reconhecimento do lado tenebroso do ser. Ele deve conhecer a si mesmo, e quando o faz, vê que tem um lado horroroso. Cabe a ele, por seus próprios esforços limpar a alma e dar lugar à brancura, a luz espiritual. É nesse momento, quando renuncia ao orgulho do ego, quando esquece o passado e valoriza a luz do presente, é que entende a "lei" : "Ama o próximo como a ti mesmo". Pois quem conheci a si mesmo, sabe que tem um lado ruim, e consegue se amar porque crê na própria evolução, porque aceita o perdão da transformação do presente. E quando olha o próximo, vê seu reflexo lá, vê uma pessoa como ele, que busca respostas; com seu lado ruim se manifestando, mas capaz de ser transformado.
Voltando ao " Mutus Liber", temos na sétima prancha uma série de trabalhos alquímicos que culminam na entrega da matéria à Saturno. Essa etapa simboliza a putrefação. Na oitava prancha temos uma figura semelhante à segunda prancha, mas dentro do ovo temos Mercúrio ao invés de Netuno. Isso simboliza o esforço que agora será empreendido, que é revelado pelo universo, em direção à "brancura". Na nona prancha é recolhido novamente o orvalho, e é oferecido à Mercúrio. Isso simboliza um ato de entrega, uma submissão do alquimista à força maior; ele aceita o preço da renúncia; agora sua obra anda em conformidade divina. A décima prancha mostra o homem e a mulher de volta ao laboratório, com dois pratos que se misturam no frasco. No final da prancha, Apolo ( sol) e Diana ( lua) aparecem de mãos dadas, à direita do "atanor"; à esquerda há uma figura sugerindo a pedra filosofal. Essa prancha representa o sal misturado ao ouro produzindo a pedra filosofal capaz de produzir ouro e prata. Aqui, o que está em cima é como o que está embaixo, temos a união do espírito-matéria.
 
3) Multiplicação
 
Nessa fase, a matéria é novamente submetida ao sal e ao ouro. Essa operação visa aumentar o poder de transmutação da pedra. Espiritualmente, essa fase convida o Alquimista a aperfeiçoar-se cada vez mais. Ele precisa reaprender tudo para desenvolver-se nesse novo estado de espírito; porque chegou à algum lugar, e agora ele deve se esforçar constantemente para saber melhor se movimentar no seu "novo estado".
Novamente virando nossa atenção ao Mutus Liber, observamos que as pranchas  11, 12 e 13 são quase idênticas às 8, 9 e 10 respectivamente. Porém, ao passo que na 8 as cortinas do laboratório estão fechadas, na 11 estão abertas. Podemos perceber que o processo anterior é aqui repetido para aumentar o poder da pedra ( na décima terceira prancha, ao final dela temos o seguinte esquema: 100:1000:10000; indicando que a pedra pode aumentar seu coeficiente de transmutação até 10000 vezes ).
 
4) Projeção 
 
A quarta fase é  a mais importante, pois é nela que toda a operação se torna um ato divino. É nessa fase que a obra se torna útil ao mundo, pois é hora de evoluir os metais. De nada adianta atingir a evolução se o alquimista não é capaz de evoluir as coisas ao seu redor. Nessa fase o alquimista é o reflexo divino agindo para a evolução. Ele evoluiu a si mesmo pela Grande Obra, evoluirá os metais pela pedra filosofal e evoluirá a vida orgânica pelo elixir e a panacéia.
Aqui, o pó vermelho é misturado com o metal não nobre, e a mistura é cozida no "atanor". Assim, o metal ordinário será transmutado em ouro puro. O dito pó é também o elixir, como descreve o sábio no manuscrito " Collectanea Chemica" :
"Tendo assim, completado a operação...percebereis a vossa matéria fixar-se numa massa pesada, de uma absoluta cor escarlate, que é facilmente redutível a pó....e cuja ação prodigiosa, quando dela se ingerem uns poucos miligramas, invade todo o corpo humano, extirpando-lhe todas as doenças e prolongando-lhe a vida à sua duração máxima; é por essa razão que ela obteve a denominação de "Panacéia", ou remédio universal. Por isso, sede grato ao Mais Alto pela possessão de tal jóia inestimável, e considerai tal possessão não como resultado de vosso próprio engenho, mas como um dom concedido, por mera graça de Deus, para o auxílio das enfermidades humanas, da qual o vosso vizinho deve partilhar juntamente convosco, sem qualquer inveja ou propósitos sinistros, de acordo com o encargo confiado aos Apóstolos, "Recebestes livremente, comunicai livremente", lembrando ao mesmo tempo de não jogar vossas pérolas aos porcos; numa palavra, ocultai as manifestações que sois capaz de exibir, pela posse de nossa Pedra, dos viciosos e dos indignos." ( Guia prático de Alquimia, Frater Albertus; pg 84)
Aqui o "sábio"concorda que o alquimista tem o dever e a responsabilidade de evoluir o mundo na medido que lhe é possível; porém sem  atirar as preciosas pérolas aos porcos.
No "Mutus Liber", na décima quarta prancha, temos a figura de 3 "atanor". Abaixo uma velha, um jovem com instrumentos de jogo, e uma mulher ; todos cortando o pavio da lâmpada. Abaixo temos dois fornos, um com o símbolo da lua, outro com o símbolo do sol. Ao lado de cada forno há um círculo com três símbolos dentro. E na última figura, há a pedra filosofal, o homem e a mulher fazendo sinal de silêncio; e está escrito: " Ora, lege, lege, relege, labora et inuenis"
A primeira figura significa que a obra, antes de tudo, é tríplice ( física, astral e espiritual). A segunda figura mostra que o processo de transmutação é a parte mais fácil, e que até um garoto que deixa seu jogo, pode trabalhar nessa etapa. Mostra que a obra é das pessoas comuns, como mulheres e jovens; e que ela está presente em todas as atividades do homem.
A terceira figura mostra que o metal ( o círculo ao lado do forno) pode ser transmutado em prata ( forno da lua) ou em ouro ( forno do sol). A quarta figura realça a necessidade de silêncio, mostra a pedra filosofal, e dá grande e exclusiva chave da Alquimia: "Ora, lê, lê, relê, trabalha e encontrarás"
A décima quinta prancha, mostra o Alquimista deitado ao lado de um homem e uma mulher de mãos dadas dizendo: "Oculatus Abis". Acima, a alma do alquimista aparece sendo coroada por dois anjos. Ao que tudo indica, trata-se da iluminação do Alquimista. Nos leva a meditar a respeito da imortalidade, da ressurreição da alma. O homem e a mulher exclamam: " Vai , clarividente"; o que nos leva a pensar na possibilidade de uma iniciação. O ritual maçônico, o da Golden Dawn, e o de vários outros relatos ( o mito de C.R.) fornecem a iniciação simbolizando a morte do velho neófito e a ressurreição do novo adepto.
Talvez uma morte simbólica, seguida por uma viagem por planos mais sutis?
 
" A morte é o único meio mediante o qual o espírito pode mudar de forma"
" Não se trata do corpo que, ao desintegrar-se, perde a alma, mas sim a alma que, concentrada no seu poder, se desembaraça do corpo" ( Jacob Boehme)
 

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