REUNIÃO DO G-20

Porque Lula é “o cara” do imperialismo

A mídia nacional comemorou o reconhecimento por parte de Obama que o títere brasileiro é o presidente mais popular do planeta e de que para o chefe do imperialismo mundial “Lula é o cara”. O reconhecimento de Obama seria supostamente a expressão da inserção soberana e protagonista do Brasil no cenário mundial.

A verdade é que o lulismo converteu-se no modelo mais estável de administração do poder político para a burguesia nestes primeiros anos do século XXI. O imperialismo convenceu-se que melhor que a “guerra preventiva” de Bush é a cooptação preventiva do movimento de massas como fez o PT. Obviamente, sempre e quando necessário, sem abrir mão da força bruta como vimos em Gaza, quando o recurso da cooptação populista não for possível. Mas a nova regra é que o Brasil de Lula sirva de exemplo político de como acentuar o assalto às condições de vida das massas trabalhadoras em favor do enriquecimento recorde do grande capital internacional sem precisar recorrer a medidas extremas de guerra civil em escala nacional.

A LBI vem afirmando há mais de uma década que os governos burgueses centro esquerdistas e variações da frente popular converteram-se na opção preferencial do imperialismo para administrar a crise mundial capitalista. A colaboração de classes e a política de cooptação são tão antigas como a própria luta de classes. No entanto, antes da década de 90, governos semi-coloniais centro-esquerdistas e frente populistas foram derrubados por golpes e intervenções militares desestabilizadoras patrocinada pelo imperialismo (Brasil, Espanha, Indonésia, Chile, Nicarágua, El Salvador...).

A restauração capitalista nos Estados operários da URSS e do Leste Europeu foi a maior derrota do proletariado mundial no século XX. O fim daqueles estados operários acelerou a restauração na China, Cuba, Vietnã e Coréia do Norte, colocando a disposição do imperialismo novos recursos energéticos e um amplo mercado consumidor em uma parte do globo em que não havia propriedade privada, prolongando a agonia da sociedade capitalista por muitos anos. Este processo possibilitou uma ofensiva às condições de vida dos trabalhadores e aos povos oprimidos de todo o planeta, intervenções militares nos Bálcãs, no Oriente Médio e novas guerras de baixa intensidade na África e Afeganistão. Os povos oprimidos reagiram como puderam, realizaram levantes populares e pela primeira vez na história realizaram um ataque militar ao território continental dos EUA, através dos atentados as Torres Gêmeas, símbolo do capital financeiro e sede da CIA em Nova York. Justificando uma represália a este ataque, mas, sobretudo, encorajados pelo relativo alcance dos objetivos conquistados na ofensiva militar dos anos 1990, os EUA desencadearam uma nova cruzada pela recolonização do Oriente Médio e da Ásia Central durante o governo Bush.

Pegando carona na ofensiva ideológica anticomunista pós-URSS as direções tradicionais do movimento de massas preventivamente desviaram o descontentamento popular para a institucionalidade burguesa, preparando-se estas direções para assumir a gestão da crise do sistema. Não por acaso, o continente mais sacudido por levantes populares, a América Latina, foi também onde, ao longo da última década, estes tipos de governos se tornaram hegemônicos.

Se não existem frentes populares com tradição de controlar o movimento de massas, como existiam no Chile, Brasil ou África do Sul, outros atores políticos oriundos da pequena burguesia, seja do exército na Venezuela, como no caso do chavismo, ou de camponeses cocaleiros, como no caso do MAS de Evo Morales, projetam governos populistas que passam a controlar o movimento de massas. Em países (África do Sul, Eslováquia, Paquistão,...) de outros continentes também aconteceu à substituição dos partidos tradicionais por centro-esquerdistas e frente-populistas. O caso mais recente de ascensão de um governo de centro esquerda não por acaso ocorreu no país europeu mais abalado pela crise financeira mundial, a Islândia.

O Brasil não passou por nenhum levante popular como o “Caracazo” venezuelano, a “Guerra do Gás” boliviana ou o “panelaço” argentino, graças à existência de um poderosíssimo dique de contenção das lutas populares através do PT, CUT, MST e UNE que amortecem a luta de classes no país. Enquanto os governos bolivarianos e populistas de esquerda estabilizaram a América Latina, a doutrina belicista de Bush provocou o crescimento e a radicalização da resistência antiimperialista no Oriente Médio, chegando a conduzir o enclave israelense à sua primeira derrota militar em 60 anos.

OBAMA REPACTUA A DOMINAÇÃO IMPERIALISTA IANQUE SOBRE O GLOBO

Até meados de 2006, embora os EUA tenham nos governos de centro-esquerda sua opção preferencial para a maioria de suas semicolônias, pensavam que não seria necessário aplicar em si mesmo o remédio. Bastava manter o jogo habitual do bi-partidarismo, elegendo Hillary presidente como estava no script. Mas, os reveses militares sofridos no Oriente Médio (vitória do Hamas nas eleições de Gaza, derrota de Israel no Líbano, crescimento da resistência armada no Iraque e Afeganistão) quebraram as expectativas de lucro da cruzada imperialista, provocando a explosão da bolha especulativa que tinha no mercado imobiliário ianque seu elo mais fraco. Uma grande crise financeira cujo epicentro é o coração do imperialismo mundial, causando despejos, demissões em massa e um empobrecimento catastrófico da população dos EUA, por um lado, e, a necessidade de repactuar o domínio imperialista ianque sobre o planeta, por outro, exigiram a criação de um Lula ianque a partir do único senador negro dos EUA.

Desde que assumiu a presidência, em 20 de janeiro, Obama tem se dedicado mais a rearticular a “governança global” fragilizada pela gestão Bush, do que propriamente administrado a crise financeira interna, uma vez que a solução imperialista desta preocupação limita-se a encher com trilhões de dólares as burras das grandes corporações mundiais imperialistas que ameaçam quebrar se não forem socorridas. Por isto, em poucos meses de mandato Obama freneticamente presidiu reuniões do G-7, G-20, o aniversário da OTAN, a Cúpula das Américas nos próximos dias e a Assembléia geral da OEA em junho, coordenando simultaneamente o aumento do controle sobre a fronteira mexicana, a cooptação da burocracia castrista, a consolidação do governo títere no Iraque, a ameaça de retaliação sobre o programa nuclear da coréia do norte e o recrudescimento da intervenção militar no Afeganistão preparando a ocupação do Paquistão.

Na reunião do G-20 foi decretada a morte do Consenso de Washington pelo premiê britânico, Gordon Brown, mas o único Consenso estabelecido em Londres em meio ao crescimento encarniçado do protecionismo principalmente das metrópoles, baseia-se no incremento da dependência das semicolônias que vem se reendividando desde o início da crise. Desde agosto, com a queda das bolsas, muitos países sofreram quando os abutres especuladores resolveram realizar seus lucros, desatando uma fuga em massa de capitais estrangeiros sobre frágeis sistemas bancários. Dentre os mais fragilizados estão os países do Leste Europeu e o México que acaba de solicitar um empréstimo internacional de 47 bilhões de dólares.

A nova administração “multilateralista” da Casa Branca apostar na recapitalização do FMI e do Banco Mundial, uma vez que o caixa atual destes organismos pode não dar conta da demanda atual de empréstimos requeridos. Os credores imperialistas estão de volta com as receitas draconianas “neoliberais” que levaram à falência dezenas de nações endividadas nos últimos 20 anos.

Em palavras todos os líderes, em menor ou maior grau, defenderam maior regulamentação dos mercados, nas resoluções formais e mais ainda na prática ficaram asseguradas a continuidade das trilhonárias injeções de fundos estatais no capital privado, os bônus dos executivos especuladores, os paraísos fiscais, enquanto incrementa-se a pilhagem dos povos oprimidos por velhos mecanismos de recolonização.

O BRASIL “CREDOR” DO FMI TORNA-SE CADA VEZ MAIS DEPENDENTE DO GRANDE CAPITAL INTERNACIONAL

A suposta conversão do Brasil em credor de outras nações mais pobres através do FMI soa como outra associação criminosa entre o governo Lula e o imperialismo como o é a ocupação militar do Haiti. No caso, o país é apresentado como garoto propaganda, que se converteu de maior devedor do planeta, no passado, em sócio do Fundo usurário, na atualidade. Esta falácia, propagandeada ad nauseun pelos marketeiros oficiais, utiliza-se do fato das reservas internacionais do país, o total de dólares acumulados em transações correntes, terem superado o montante da dívida externa, pública e privada, em títulos formais. Esta fanfarronice quer, na verdade, maquiar o aprofundamento da dependência do Brasil com o aumento real do endividamento com os detentores de papéis da dívida pública do tesouro brasileiro, espetacularmente remunerados pela taxa de juros do Selic, a mais rentável do planeta.

As tão propaladas reservas internacionais do país foram acumuladas pelo aquecimento das vendas de commodities e, principalmente, pelo ingresso de dólares atraídos pelo mais suculento negócio com títulos públicos do mundo. Ao remunerar os detentores destes papéis com juros de 11,4% anuais, como se pratica agora, o governo aumenta o endividamento externo e, conseqüentemente, a dependência do país em relação aos especuladores internacionais. O Brasil de Lula se consolidou como um grande negócio deste cassino e para incrementá-lo, ainda isentou do pagamento do imposto de renda os fundos institucionais estrangeiros que investem nos títulos públicos e facilitou a troca destes pelos títulos da dívida externa. Por isto, aumentou o ingresso de dólares no país fazendo com que as reservas dessem um salto expressivo. A verdade é que com este ilusionismo tupiniquim “o cara” fez a dívida pública total do país saltar para 1,74 trilhão de reais no final de 2008. Isto corresponde a 60% do PIB nacional (de R$ 2,9 trilhões, segundo o IBGE) que graças a esta lambança é formado por empresas cujos acionistas principais são estrangeiros que remeteram em lucros e dividendos U$57,234 bilhões em 2008 para as matrizes e quase U$ 8 bilhões só nos primeiros três meses de 2009!

Outro elemento que torna o governo Lula tão paparicado pelos porta-vozes do capital financeiro é o fato do país ter o spread bancário (diferença entra a taxa que os bancos captam e emprestam recursos) mais alto do mundo, o que rendeu 134,4 milhões de reais aos banqueiros no ano passado, uma quantia correspondente a 11,3 vezes o orçamento do “Bolsa Família”, quatro vezes os gastos totais do Ministério da Educação e duas vezes e meia o da Saúde.

Mas todo o segredo da estabilidade política de Lula reside no controle do movimento operário e popular, na cooptação das organizações de massa do país pelo PT e seus satélites (PSOL, PSTU e cia). Na questão agrária, por exemplo, o governo Lula se opõe a mais tímida reforma agrária, tem como “herói nacional” o assassino agro-negócio e é conivente com a perseguição ao MST realizada pelo arqui-reacionário STF. As ações radicalizadas realizadas para descomprimir o descontentamento social crescente que fermenta na base do movimento são subordinadas a uma estratégia derrotista de negociações com o INCRA que, na melhor das hipóteses, rendem gordas indenizações para o latifúndio e, na pior, acabam reprimidas pelos governos estaduais. O que livra a cara do governo federal que continua a ser “criticamente apoiado” pelo conjunto do MST. Os outros movimentos sem-terra como a LCP são perseguidos e esmagados pelo aparato repressivo estatal.

Na cidade, a situação do movimento operário tem um quadro ainda pior e mais generalizado. Foi desferido um duro golpe sobre o proletariado industrial mais importante da América Latina, demitidos centenas de milhares de trabalhadores e graças a todas as centrais sindicais existentes no país foram precarizadas as condições de trabalho de quem se manteve o emprego. A frente única da burocracia sindical pelegovernista tem conseguido até agora estrangular todas as greves desde as montadoras multinacionais como a GM, passando pela Petrobras até a Embraer.

As demissões em massa e a precarização das condições de trabalho pactuadas pelos traidores de todos os matizes arrastam as massas trabalhadoras para uma profunda miséria. Apesar de todos os mecanismos contra-revolucionários de contenção da luta de classes, as massas reagirão a esta barbárie, de maneira desorganizada, espontânea, atomizada, mas reagirão. Cabe aos verdadeiros revolucionários organizar politicamente este descontentamento, desmascarando a frente única pelega governista em que a Conlutas ingressou para construindo uma genuína frente operária revolucionária com a militância honesta e classista que não se dobrou à espúria condição de agente dos patrões e do governo pró-imperialista de Lula.


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