Dilma Roussef renega seu passado para se credenciar a algoz “democrática” dos trabalhadores em 2010 Mais uma vez a burguesia paulista mostra os dentes através de seu principal porta-voz, o jornal Folha de São Paulo, o qual recentemente declarara de forma ignóbil que o sanguinário regime militar teria sido uma “ditabranda”. Trás, agora, no bojo, como matéria de capa a acusação de que “o grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto” (5/4). Segundo a reportagem, a Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, estaria diretamente envolvida em atos de “terrorismo” no final da década de 60, ou seja, durante a face mais dura e assassina do regime militar imposto após o golpe de 1964. Entretanto, o que está por detrás da criação destes factóides, muito além do que pode imaginar a intelectualidade vendida à frente popular, trata-se não apenas de aplainar o terreno para a disputa eleitoral de 2010, na qual possivelmente se confrontariam Dilma (PT) e o governador de São Paulo José Serra (PSDB). É, na verdade, uma demonstração do setor mais reacionário e obscuro da burguesia paulista que, em meio à crise econômica, necessita de leis duras e incriminatórias para combater a resistência da classe operária que vê suas conquistas obtidas a duras penas serem destruídas. Neste sentido, os objetivos da burguesia são eminentemente estratégicos: vergar ainda mais a já dócil frente popular perante os interesses da burguesia nacional e o imperialismo para aprofundar a criminalização dos movimentos de resistência contra o regime a partir da condenação dos mesmos desde o passado. Mas, em essência, tem a finalidade de colocar na berlinda o governo Lula para que figuras que representem um vínculo de combate ao regime passem para o outro lado da trincheira com nome “limpo” junto a elementos extremamente conservadores oriundos da ditadura militar. A ministra Dilma foi militante da VAR-Palmares. Esta organização surgiu como resultado da fusão, em junho de 1969 – em pleno vigor do AI-5 que endureceu o regime e aumentou sistematicamente as prisões e torturas de militantes comunistas – do Comando de Libertação Nacional (Colina), à qual pertencia Dilma e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que tinha como principal dirigente Carlos Lamarca. A fusão dos dois grupos não durou muito: Colina era partidária da luta política nos marcos do regime, a exemplo do que fazia então o quase dizimado PCB, enquanto a VPR defendia a ação militar contra a ditadura. Embate este que levou à cisão do grupo. Dilma faz questão de jogar tudo isto para baixo do tapete, “esquecer” seu papel de dirigente durante a luta armada. ONTEM “A GENTE ACHAVA QUE PODERIA SALVAR O MUNDO”, HOJE O CAPITALISMO! Em entrevista ao mesmo jornal que a acusa de ter sido “terrorista”, Dilma afirma abjurando-se categoricamente de seu passado militante que “naquela época, você achava que estava fazendo tudo pelo bem da humanidade. Nunca se esqueça que a gente achava que estava salvando o mundo de um jeito que só acha aos 19, 20 anos” (Folha de S.Paulo, 5/04). Em outras palavras, lutar contra um regime político fascista que se vale do terrorismo estatal é meramente uma “febre” de juventude, passageira, permeada de idealismo utópico e inconsequente. Na ótica da “madura” ministra, como hoje vivemos sob uma democracia, militância revolucionária, luta armada são conceitos longínquos de um “nebuloso” passado, desnecessários. E mais, significa abdicar covardemente das lutas contra a ditadura muitas das quais acabaram por ceifar milhares de heróicas vidas de militantes. Precisamente pelo combate contra a ditadura Dilma Roussef fora presa, torturada e seviciada por quase um mês nas masmorras na sede da Oban situada na rua Tutóia em São Paulo, das quais sairia somente três anos depois. Para a ministra, nada disso importa mais. Hoje ela representa a candidatura oficialista do Planalto para as eleições presidenciais de 2010, carregando consigo a tarefa de perpetuar e aprofundar a política da frente popular em defesa dos grandes monopólios, do capital financeiro internacional, dos usineiros, montadoras, do latifúndio. A negação de sua militância corresponde a uma política e ao rumo à direitização que toma a frente popular, o de assumir a responsabilidade de gerenciar de modo “competente” o grande capital no Brasil. Desta forma, procura atrair velhas e nefastas figuras conhecidas no cenário político nacional que outrora, por exemplo, a ministra combatera (e por isso fora presa, torturada quase até a morte), como foi o caso de Delfim Netto. Dilma tem agora como conselheiro e mestre aquele que foi o principal testa de ferro do regime militar, Delfim Netto, na condução do regime econômico “neoliberal” e de ataque ao movimento operário. O novo amigo e “companheiro” de Dilma, ano passado, foi enfático em declaração à Revista Poder (18/04/2008), afirmando que “Lula tem uma inteligência absolutamente privilegiada. Eu acho que o Lula salvou o capitalismo brasileiro”. Afinal, tendo sido “admitido” à ala “desenvolvimentista” do governo federal (Mercadante e Belluzzo) quase que de pronto, entoa como perdão: “Dilma, é na minha opinião, a mais eficiente ministra do governo. Demonstrou uma capacidade administrativa muito grande. E mostrou mais: se livrou do viés que teve no passado” (idem). O verdugo que, a serviço da ditadura militar, conduziu o processo de acumulação de capitais às custas do esmagamento do movimento operário e suas organizações, foi efetivamente adotado como conselheiro e aliado da política monetarista do governo Lula e de salvação dos grandes capitalistas. Lembrando que ele foi um dos signatários do AI-5, ou seja, era parte ativa do staff ditatorial, sendo responsável direto pelo estrangulamento das condições de vida do proletariado brasileiro. Delfim nunca renegou este passado. Para o período que se avizinha, a burguesia exige medidas que venham a atender seus interesses mais escusos de um governo cada vez mais refém. A ministra da Casa Civil, neste contexto, é uma importante peça no tabuleiro do xadrez político da conjuntura nacional e, como candidata, precisa extirpar seu conhecido passado.
A CAMPANHA DA FOLHA E A RESPOSTA DE DILMA INDICAM Esta conjuntura não é permeada por simples escaramuças eleitorais, mas correspondem a uma etapa objetiva da luta de classes. Corre na esteira da crise financeira e da nova ofensiva mundial imperialista, de demissões em massa, perseguições a refugiados políticos e organizações de esquerda em meio ao engessamento do movimento operário. A burguesia, ao criminalizar as heróicas lutas do passado quer condenar qualquer levantamento contra a ordem dos ricos. As fortes tendências à fascistização do regime só poderão ser revertidas através de uma forte mobilização do proletariado em todo o país para a construção da greve geral. No entanto, é necessário superar as limitações e as capitulações da esquerda e o torniquete da burocracia sindical governista no movimento operário. Somente com total independência de classe o operariado poderá retomar a sua ação direta, em manifestações, passeatas, greves com ocupação de fábrica contra as demissões e exigir pela ação direta a abertura definitiva dos arquivos da ditadura militar para, de fato, condenar os responsáveis pelo regime militar assassino, lacaios do imperialismo ianque, inclusive Delfim, o antigo e odiado czar da economia, hoje aliado de Dilma e Lula. ![]() ![]() ![]() |