30 DE MARÇO

Um dia organizado pela burocracia sindical para abortar o potencial da
greve geral

Sob o lema “Não às demissões! Pela redução dos juros, pelos investimentos públicos e em defesa dos direitos trabalhistas e sociais!” a CUT, CTB, Força Sindical em conjunto com outras centrais governistas estão convocando para 30 de março um “dia nacional de luta”. A Conlutas, que anteriormente havia decidido organizar o 1º de Abril como o “dia da mentira”, ligando o governo Lula aos efeitos da crise sobre os trabalhadores, resolveu abortar a iniciativa e se integrar à atividade convocada pela burocracia sindical governista.

Em nome da “unidade”, os que se proclamam como “oposição de esquerda” à frente popular subscrevem uma convocatória com os fiéis defensores do governo federal que sequer cita Lula e muito menos o responsabiliza, juntamente com os patrões, pela onda de demissões que atinge os explorados. Pelo contrário, se levanta uma plataforma nacional-desenvolvimentista adornada como “medidas sociais” que servem de conselhos a Lula: “A precarização, o arrocho salarial e o desemprego enfraquecem o mercado interno, deixando o país vulnerável e à mercê da crise... É preciso cortar drasticamente os juros, reduzir a jornada sem reduzir os salários, acelerar a reforma agrária, ampliar as políticas públicas em habitação, saneamento, educação e saúde, e medidas concretas dos governos para impedir as demissões, garantir o emprego e a renda dos trabalhadores” (convocatória unificada – CUT, CTB, Força Sindical, Conlutas, Intersindical, UNE, MST).

Parceira desse programa, a própria Conlutas “acrescenta” que “é preciso que as centrais sindicais, junto com a Conlutas, exijam do governo Lula a única medida que pode por fim às demissões: uma Medida Provisória Emergencial assegurando a Estabilidade no Emprego” (sítio da Conlutas). Caberia a Lula, que arrocha o salário do funcionalismo público, criminaliza a luta no campo e patrocina as demissões, liberando, inclusive mesmo depois do corte de mais de 4 mil vagas, um novo empréstimo de R$ 700 milhões a Embraer, tomar “medidas concretas” contra o desemprego! Seria cômico se não fosse trágico!

Estamos diante de um “dia de luta” voltado a abortar o potencial da greve geral construída desde as bases sindicais e populares como instrumento de combate unificado da classe para derrotar as demissões e os ataques patronais. A mobilização do dia 30 não passa de um teatro montado pelas centrais governistas, com o aval da Conlutas e da Intersindical, para descomprimir a revolta popular latente com os ataques desferidos pela patronal, cuja sanha é apoiada integramente pelo governo Lula! Ao ver preservado seu chefe no Planalto, a burocracia sindical governista conseguiu se unificar em torno da data, justamente pelo caráter caricatural do ato, sem paralisações conseqüentes nas fábricas ou demais locais de trabalho e com demandas genéricas voltadas a aconselhar o governo, organizando uma manifestação completamente inofensiva à frente popular e à burguesia enquanto classe.

A farsa é tamanha que a CUT e a Força Sindical, que convocam ao lado da Conlutas a atividade do dia 30 “contra as demissões”, fecharam vários acordos com a patronal, reduzindo o salário, implantando o banco de horas ou mesmo negociando as demissões em troca de migalhas. O presidente da CUT, Arthur Henrique, afirmou que “Na Embraer não houve proposta de redução da jornada, férias, nada! Esse foi o problema” (IstoéDinheiro) deixando claro que o programa das centrais que convocam o dia 30 é o corte de direitos para negociar as demissões, reclamando que o “problema” no caso da Embraer foi que a direção da empresa não chamou os sindicatos para serem porta-vozes da chantagem patronal a fim de imporem a flexibilização trabalhista!

A Conlutas, depois de ter aberto mão completamente da luta prática e direta contra as demissões da Embraer, seguiu o rumo de seus aliados da CUT e da Força Sindical de negociar via justiça burguesa os ataques aos direitos sem ao menos convocar uma única paralisação na empresa. No momento em que o TRT abria as negociações para efetivar as demissões, concedendo algumas migalhas José Maria de Almeida já alardeava que “O Tribunal apresentou uma proposta que não nos contempla por completo, já que não prevê a reintegração dos trabalhadores demitidos. Mas, suscita um debate importante pela proteção contra a demissão imotivada, que é importante para barrar as demissões coletivas que vêm ocorrendo em todo o país. Queremos a reintegração de todos os companheiros, mas a partir das propostas do TRT estamos dispostos a conversar’, disse” (Sítio do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, 13/03). Logo depois, no dia 18/03, quando o TRT decidiu definitivamente por manter as demissões, vergonhosamente José Maria declarou: “A decisão do Tribunal foi muito importante para nós. A empresa foi condenada e foi declarada abusiva a ação que ela praticou contra os trabalhadores, no entanto (a decisão) ainda não contemplou aquilo que nós queríamos: os trabalhadores não foram reintegrados” (O Globo, 19/03). Não por coincidência também para o arquipelego deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, houve uma “vitória política” no julgamento porque “os desembargadores consideraram, por unanimidade, ‘abusivas’ as demissões na Embraer. Isso é uma espécie de aviso para que outras empresas que venham a fazer demissões em massa sejam também levadas ao tribunal” (Idem).

Em momento algum o Sindicato dos Metalúrgicos e a Conlutas apontaram a greve com ocupação de fábrica para derrotar a ofensiva patronal, até porque, para eles, quem pode tomar a “única medida para por fim às demissões” é o governo Lula e não os trabalhadores em luta contra a patronal e seu representante-mor. Frente à onda de demissões, a Conlutas repete a velha política de exigências ao governo Lula, como se este estivesse em seu primeiro ano de mandato, depositando as energias revolucionárias da classe operária em lobby institucional absolutamente inócuo e descolado de um plano nacional de mobilizações, como greves e ocupações das fábricas que demitam seus operários. Já a CUT, CTB e Força Sindical, corrompidas até a medula pelo Estado burguês e seu governo, se limitam a fazer demagogia na convocatória conjunta da manifestação para melhor lavarem a cara da Conlutas e das próprias centrais “chapa branca”: “Manifestamos nosso apoio a todos os que sofreram demissões, em particular aos 4.270 funcionários da Embraer, ressaltando que estamos na luta pela readmissão”. Afinal de contas uma mão lava a outra!

Ironicamente, depois da ampla unidade da burocracia sindical frente às demissões na Embraer, a Conlutas ensaia diferenciar-se da CUT para preservar algum espaço político “à esquerda” dentro do amplo arco governista: “Por esse motivo, junto com a unidade na ação do dia 30, dois projetos se enfrentam: de um lado, CUT, Força e CTB apoiando o governo. De outro, Conlutas e outras forças cobrando de Lula a estabilidade no emprego e a reestatização da Embraer”. A CUT apóia Lula, já a Conlutas o aconselha! Juntas, nenhuma das duas centrais combate pela derrota de seu governo através da ação direta dos trabalhadores e o denuncia como um dos responsáveis pelas demissões!

A unidade da burocracia sindical no dia 30 está a serviço desta política estéril, que leva a classe operária à desmoralização. Tragicamente, a paralisia do movimento operário imposta pela CUT, com o auxílio da Conlutas, vem concedendo uma enorme margem de manobra à burguesia e ao governo Lula que, mesmo diante da profunda crise estrutural do capitalismo, consegue manter a plena estabilidade do regime e ainda encontra espaço político suficiente para aprofundar seu giro fascistizante, como a criminalização da luta no campo e na cidade, sem encontrar a menor resistência organizada.

Diante da ofensiva patronal está colocado organizar nacionalmente uma campanha contra as demissões e preparar a construção da greve geral por tempo indeterminado, sob o eixo de ocupar as empresas que demitirem, impondo a escala móvel de horas de trabalho a fim de se garantir a redução da jornada sem redução de salário. Para vencer, o proletariado precisa superar as direções das centrais governistas e a própria linha política majoritária da Conlutas, já que só com sua ação direta e não lançando inócuos apelos a Lula e aos patrões pode-se derrotar o facão das demissões e apontar uma alternativa classista e revolucionária frente a barbárie capitalista!


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