BALANÇO DO 30 DE MARÇO

Um dia nacional de luta ou para celebrar o pacto entre governo Lula, as montadoras e a burocracia sindical?

Aconteceu no dia 30 de março, em São Paulo, o “Ato Nacional Unificado Contra a Crise”, organizado pelas seis centrais sindicais “chapa-branca” (CUT, CTB, Força Sindical, NCST, UGT, CGTB), os movimentos e entidades integrantes da Frente Popular (MST, UNE, Marcha Mundial de Mulheres, etc.), além da semigovernista Intersindical, com a adesão da Conlutas. Também nas demais capitais do país onde houve manifestações, o caráter político das mesmas seguiu a orientação e cumpriu os objetivos estabelecidos para o ato paulista como definiu a CUT.

Em São Paulo, a manifestação contou com quatro mil participantes, representados em grande maioria por burocratas sindicais que pouco ou nada mobilizaram suas bases operárias, substituídas por pessoas pobres contratadas como figurantes para se passar por manifestantes. Todavia, o que mais salta aos olhos foi o eixo de unidade construído entre as oito centrais sindicais em torno de que não fosse feita nenhuma denúncia do governo Lula, apontado como aliado dos trabalhadores para enfrentar a crise econômica e graças ao qual os trabalhadores brasileiros não estariam ainda pior, como reza a propaganda oficial.

No mesmo dia 30 e a não mais que poucos metros acima da manifestação, na mesma Avenida Paulista, na sede do Banco Central, governo e montadoras celebravam um grande pacto tendo como fundo musical a pressão sindicalista em favor do chamado capital produtivo. Não faltaram elogios da pelegada das várias colorações para homenagear as medidas pró-patronais de redução do IPI na compra de carros novos renovada por mais três meses, desta vez com o compromisso das montadoras de supostamente não demitirem os trabalhadores neste período, com o “detalhe” que os fabricantes de automóveis poderão chantagear os seus funcionários via adoção de programas de demissão voluntária (PDV). Neste quadro confundem-se e complementam-se os elogios rasgados da CUT à medida anunciada do governo com a reivindicação da Conlutas que este edite uma Medida Provisória contra as demissões, também reivindicada pela arqui-oportunista corrente petista, “O Trabalho” e similar ao “projeto de lei contra as demissões por 6 meses” proposto pela psolista patrocinada pela Gerdal, Luciana Genro. Desfeita a tênue linha que diferenciava os governistas e a chamada “oposição de esquerda” do PSOL e do PSTU, eis o segredo que estava por trás da unidade das oito centrais.

Todos têm em comum a oposição aos métodos da luta direta em favor de uma mãozinha ao governo para ajudá-lo a “tomar medidas em favor dos trabalhadores”. Esta lógica, longe de cumprir o papel de “empurrar o governo para a esquerda”, empurra o movimento para a direita. Os que se diziam “oposição de esquerda” estão agora girando cada vez mais no sentido de enquadrarem-se, objetivamente sob os interesses governistas, como vimos neste “ato nacional”. No final do segundo mandato de Lula, o PSTU retrocede ao ponto de reproduzir a mesma política que criticava no MST no primeiro ano do governo! E ao fazê-lo, já não pode mais apelar para a justificativa de que as massas estão iludidas,  o que era falso já em 2003. Em pleno 2009 a população trabalhadora sofreu todas as experiências possíveis nos dois mandatos de Lula, agora está sendo ainda mais brutalmente atacada e, por isto, o crime político do PSTU de hoje é maior do que o do MST de ontem. Após abortar a criação de uma alternativa classista aos organismos “chapa-branca” no Congresso da Conlutas, o PSTU consuma o giro de 360º reconduzindo a vanguarda de esquerda do movimento sindical que operou sua ruptura com a CUT, de volta a disciplinar-se sob a política do peleguismo petista.

Realizado sob a bandeira “Contra a crise e as demissões, redução dos juros, investimentos públicos, defesa dos direitos trabalhistas e sociais”, o ato estrategicamente planejado pelo governo Lula e sua quadrilha de agentes sindicais da CUT se converteu em verdadeira saudação à medida pró-patronal festejada pela CUT também em seu sítio: “Pressão da classe trabalhadora: Governo anuncia prorrogação da redução do IPI com garantia de emprego” (30/03).

Consumado o golpe que simultaneamente serve aos apetites insaciáveis da indústria automotiva, isentada quase por completa de impostos, ao mesmo tempo em que as centrais sindicais descomprimem o latente potencial de luta contra o desemprego e o arrocho salarial com um “ato nacional unificado de luta”... Contra quem? É a pergunta que não quer calar, uma vez que o ato não foi contra o governo, mas a favor, não organizou a classe para avançar na luta contra os patrões, uma vez que os favoreceu com bilhões em isenções fiscais. Resta perceber que o ato foi contra a independência política da classe operária brasileira.

Desde outubro, as montadoras receberam do governo Lula oito bilhões de reais “para sair da crise”. São responsáveis por mais 40 mil demitidos e agora, depois de “enxugarem” suas fábricas prometem não voltar a demitir por três meses em troca do presentinho de 1,6 bilhões de reais em isenções fiscais, graças à pressão realizada também pela Conlutas. Estão entre os setores que mais lucram com a “crise”. Como reconhecem os próprios diários econômicos burgueses, “O retrato da indústria automobilística no primeiro trimestre nem de longe reflete um cenário de crise. Do início de janeiro até o dia 25 deste mês foram vendidos 606,7 mil veículos, o que representou uma elevação de 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado” (Valor Econômico, 20/03/2009). Às custas disto, as montadoras enviaram R$ 5,6 bilhões em remessas de lucros para as metrópoles imperialistas, durante 2008, mais do que o dobro que enviaram em 2007 (2,7 bi) e dez vezes mais do que em 2005 (500 milhões). Esta sangria desatada de riquezas do proletariado brasileiro só é possível à base da completa subordinação das organizações da classe trabalhadora, sindicatos e centrais aos interesses imperialistas via seus agentes políticos que de comum acordo organizaram este ato-farsa.

Para tentar justificar esta orientação aos trabalhadores agrupados na Conlutas, o PSTU cinicamente reeditou uma surrada cantilena frequentemente adotada para subordinar a Central à frente popular: que esta “tática” serviria para propagandear uma política “diferente” para a “base” das demais centrais. “Conseguimos a unidade de ação sabendo preservar as diferenças” (Sítio da Conlutas, 30/03). Mas, como de praxe, os vendidos burocratas sindicais não expuseram “sua base”. Afinal, a CUT não tinha mais que 200 dirigentes, o MST não trouxe militância e os trabalhadores, desempregados e estudantes levados ao ato pela Conlutas, ficaram a mercê da orientação pró-patronal das demais centrais, sob a política de exigência de uma medida provisória ao governo contra as demissões, comportando-se como uma oposição sindical  que todo governo burguês deseja, avessa à ação direta das massas e voltada a “empurrar o governo à esquerda”, quando na verdade se conduz cada vez mais à direita.

A LBI empregou seu esforço militante para denunciar as centrais organiza-doras do ato como co-responsáveis pela estabilidade da governabilidade da Frente Popular, e da conversão da crise em grande negócio para a burguesia, através de milhares de manifestos intitula-dos “Um dia organizado pela burocracia sindical para abortar o potencial da greve geral”, enquanto outras organizações como a LER-QI, MNN e TPOR se limitaram a apoiar criticamente a trama burocrática. Já o cutista PCO covardemente ficou em casa esperando notícias da manifestação pela TV.

Diante da insatisfação crescente das massas com o regime que as demite, superexplora e oprime cada vez mais, registrado de forma deformada e maquiada na própria queda da popularidade de Lula, as direções sindicais reformistas e revisionistas são chamadas a assumir cada vez mais um papel coadjuvante pela manutenção do regime apodrecido capitalista. Aos revolucionários cabe capitalizar este descontentamento latente, conduzindo-o a um programa revolucionário, superando as burocracias chapa branca e a direção majoritária da Conlutas, organizando nacionalmente uma campanha contra as demissões sem nenhuma ilusão nos inócuos apelos a Lula sob o eixo da ocupação das empresas que demitirem, assembléias intersindicais unificadas, paralisações de verdade e a construção da greve geral por tempo indeterminado para derrotar Lula, os patrões e o imperialismo.


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