EDITORIAL

Para os neo-reformistas da frente popular, o FMI já não é mais um “dinossauro”

“O Fundo está mudando? Parece que sim”. Foi assim que o PCdoB reproduziu em seu site (Vermelho, 13/04) o novo entendimento dos neo-reformistas acerca do caráter do FMI. Publicando um artigo do economista Paulo Nogueira (O Dinossauro se moveu mesmo), funcionário atual do FMI, indicado pelo governo da frente popular, o PCdoB passou para o campo dos apologistas das “mudanças” promovidas no FMI, a partir da última reunião do G-20. Já o PT, por sua vez, avalizou completamente a decisão de Lula de emprestar dinheiro das reservas cambiais do Brasil, cerca de 4,5 bilhões de dólares ao FMI, ou melhor, ao sistema financeiro internacional do qual a entidade é uma mera colateral. Para coroar seu cretinismo, Lula definiu como “chique” o fato do país passar da condição de devedor a credor do FMI. Mas vejamos realmente que tipo de mudanças são estas tão reverenciadas pela esquerda reformista.

Basicamente a propalada reforma na estrutura do FMI, a maior desde a sua criação em Bretton Woods no ano de 1945, consiste em dois pontos. O primeiro é uma megainjeção de recursos que triplicará os atuais 250 bilhões de dólares à disposição do Fundo. Obviamente o crash financeiro obrigou a esta manobra do imperialismo ianque, com o objetivo de socorrer instituições bancárias e megacorporações à beira da falência. Os estados nacionais atuarão como meros agenciadores dos empréstimos aos grupos capitalistas. O segundo ponto diz respeito às formas de linhas de créditos, hoje concentradas na chamada “SBA” (Stand-By Arrangement). O novo formato da SBA permite obter acesso preventivo, isto é sem desembolso, em valores elevados, ao contrário do que prevalecia anteriormente. Mas a “grande mudança” foi a criação de uma nova linha de crédito chamada de FCL (Flexible Credit Line). Na FCL, não haverá cartas de intenção, monitoramento, critérios de desempenho ou qualquer outra meta a ser cumprida. Segundo o economista Paulo Nogueira, o governo brasileiro teria exercido uma forte influência no surgimento da FCL. Trata-se do fenômeno já abordado exaustivamente por nós da LBI, da “exportação” do modelo de gestão da frente popular brasileira até para os países imperialistas. Para inaugurar a FCL já há um candidato em bancarrota, trata-se do governo mexicano que está prestes a contrair o maior empréstimo da história do FMI (cerca de 50 bilhões de dólares). Por razões óbvias serão as empresas norte-americanas instaladas no México as reais beneficiadas com tamanha generosidade e liberalismo do FMI, considerado hoje pela canalha reformista como o “herói da crise global”.

Para o Brasil, o repasse ao FMI significará um corte de cerca de 20 bilhões de reais do orçamento de 2010 e uma imensa redução do custeio da máquina estatal, implicando inclusive no cancelamento do reajuste salarial do funcionalismo público já em 2009. Acontece que a firula de Lula tem como objetivo conquistar o apoio dos centros imperialistas ao seu “projeto de poder” de longo prazo, o que inclui: a eleição de sua candidata, Dilma Roussef, em 2010 e uma nova seqüência de eleição e reeleição até 2022. Para a oposição burguesa, caudatária da orientação dos amos do norte, restará o papel de expectadora, fornecendo seus quadros para a ampliação do espectro da base de apoio do governo da frente popular. Já para a chamada “oposição de esquerda” encabeçada pelo PSOL caberá sobreviver no refluxo através de algumas “personalidades” eleitorais catapultadas totalmente a margem da luta de classes.

Também para o sócio minoritário da oposição de esquerda, estamos nos referindo ao PSTU, o FMI teria mudado a partir da reunião do G-20. Na manchete do editorial do Opinião Socialista n° 373, há uma pergunta: “Quem mudou, Lula ou o FMI?” para posterior conclusão: “Voltando à pergunta do início, a resposta é: mudaram os dois. Mudou o FMI que, em crise, precisa da ajuda de Lula. Mudou também o presidente, que antes gritava ‘Fora FMI!’” (OS, 373). A incompreensão crônica dos morenistas da conjuntura internacional gera gravíssimos desvios revisionistas em sua política cotidiana. Supor que o FMI mudou a partir do pequeno aporte de Lula beira a ingenuidade útil a toda sorte de oportunistas. Pior ainda é afirmar que Lula mudou quando chegou à presidência. Para justificar o apoio dado ao então candidato Lula em 2002, o PSTU precisa falsificar a própria história. Por acaso esqueceram que o candidato Lula divulgou a famosa “Carta aos Brasileiros” onde se comprometia a respeitar as regras do mercado financeiro e não quebrar contratos internacionais, inclusive com o FMI. Desenhar um Lula “antiimperialista” antes da sua eleição presidencial é produto da completa adaptação dos morenistas à frente popular e agora, para nossa surpresa, também ao FMI! O aporte do governo da frente popular ao Fundo não tem como objetivo “salvar o FMI”, que longe de atravessar uma crise financeira triplicou seus recursos alcançando a cifra de 750 bilhões de dólares. A modesta benesse de Lula ao Fundo visa consolidar os laços políticos da frente popular com o imperialismo ianque, demonstrando que seguirá a receita monetarista de salvaguardar os trustes econômicos dos abalos da crise capitalista. Quanto ao “apocalipse capitalista” apregoado pelo PSTU, que adota o catastrofismo para encobrir sua política de completa integração à democracia burguesa, este só será uma realidade a partir da ação consciente do proletariado mundial guiado por uma genuína vanguarda revolucionária e não simplesmente dos solavancos financeiros de Wall Street.

Para os marxistas revolucionários o FMI em nada mudou seu caráter de classe, nem mesmo diante da crise capitalista mundial, de uma agência colateral dos interesses das corporações e rentistas imperialistas. Diante da vergonhosa absorção dos neo-reformistas à nova ordem mundial, levantamos nossas bandeiras de morte ao principal inimigo dos povos, o imperialismo e todos os seus organismos multilaterais. Alertamos, porém, que só a classe operária e seu partido revolucionário têm a capacidade histórica de levar até as últimas conseqüências a luta antiimperialista, como tem demonstrado cabalmente os últimos acontecimentos mundiais.


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