ELEIÇÕES EM EL SALVADOR

Vitória da FMLN: a conversão da guerrilha em opção do imperialismo para conter a luta de classes

O candidato da FMLN (Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional), Mauricio Funes, venceu as eleições presidenciais deste domingo, 15, em El Salvador. Funes, com 51,27%, derrotou por uma pequena margem de votos o candidato do tradicional partido de direita, de corte facistizante, a Arena (Aliança Republicana Nacionalista), Rodrigo Ávila, que ficou com 48,73%.

O novo presidente irá governar um país que tem uma das mais altas incidências de violência do mundo e uma economia duramente atingida pela crise financeira nos EUA. O país representa o destino de 60% das exportações de El Salvador e o local de residência de 1/3 dos 5,7 milhões de salvadorenhos, a maioria considerada ilegal e ameaçada de deportação.

O próprio quadro eleitoral montado pela burguesia, que permitiu a apertada vitória eleitoral da FMLN para chantagear permanentemente a antiga guerrilha, cobrando-lhe fidelidade em sua nova função como principal pilar de estabilização de um regime político em bancarrota e para conter a luta de classes frente ao aprofundamento da crise econômica, já demonstra que o governo Funes será completamente refém da direita e do imperialismo. Não por acaso o bloco de partidos burgueses comandados pela Arena domina com folga o parlamento.

A desgastada Arena controlou a presidência do país durante os últimos 20 anos, vencendo inclusive, por meio de fraude escandalosas, todas as eleições presidenciais ocorridas nos 17 anos transcorridos desde os chamados “acordos de paz”, celebrados em 1992, em que a guerrilha depôs as armas e se integrou ao circo da democracia burguesa. O conflito deixou mais de 70 mil mortos, a esmagadora maioria assassinados pelas FFAA e os grupos paramilitares financiados pelo imperialismo ianque para deter o avanço da FMLN. Com esse genocídio, o governo ianque de Reagan buscava desesperadamente impedir, na década de 80, o “efeito dominó” na América Central devido à influência da então vitoriosa revolução nicaragüense na Guatemala e em El Salvador.

A ANTIGA GUERRILHA A SERVIÇO DA ESTRATÉGIA DE OBAMA E LULA DE CONTENÇÃO DA LUTA REVOLUCIONÁRIA

Mauricio Funes, um ex-corresponde da cadeia televisiva norte-americana CNN em El Salvador, representa a chamada ala direita e majoritária da antiga guerrilha. Não era filiado a FMLN até sua indicação para concorrer às eleições, em novembro de 2007 e só ingressou no partido por imposição da lei eleitoral salvadorenha. Tanto que é o primeiro candidato presidencial da FMLN a não ter participado da luta armada e apresentou esta condição como uma credencial para lhe abrir caminho para o governo nacional. Durante a campanha apresentou um programa político que deixou clara a conversão da antiga guerrilha em um partido institucional de sustentação da ordem burguesa no país.

A vitória de Funes ocorre nas primeiras eleições latino-americanas desde a posse do presidente norte-americano Barack Obama e sinaliza que a estratégia da Casa Branca, que não apoiou a Arena e se manteve formalmente neutra no processo, é de reforço ao cinturão da centro-esquerda burguesa no continente, adotando essa conduta como uma medida preventiva ante a possível reação das massas aos ataques que as burguesias nativas e o imperialismo vêm desferindo contra os trabalhadores usando como pretexto a crise mundial. Com a vitória de Funes os chamados governos neoliberais clássicos passam a ser exceção na América Central. Fora a Costa Rica, que segue o chamado Consenso de Whashington, Honduras é presidida por Manuel Zelaya, um populista burguês próximo a Fidel e Chávez. Guatemala tem um governo de “centro” e a Nicarágua é comandada pela FSLN. Sintonizado com essa dinâmica Funes afirmou: “Tenho que ser sensato e realista. A importância dos Estados Unidos nos destinos de El Salvador é fundamental. Seria insensato de minha parte pensar que vou ter uma política de enfrentamento com o presidente Obama” (Prensa Latina, 15/03).

O modelo de gestão burguesa implantado pela frente popular brasileira e inclusive copiado por Obama, baseado na cooptação da vanguarda sindical e popular, na aplicação de políticas compensatórias para amortecer a luta de classes e da subserviência ao imperialismo apesar de uma retórica formal de certa independência será, portanto, a referência do novo governo salvadorenho: “Eu estou próximo do presidente Lula não só por conta dos laços de amizade que nos unem há muitos anos, mas também porque acompanho com atenção seu governo, seu estilo de governo, e os êxitos ao converter o Brasil em uma das economias mais dinâmicas do continente ao mesmo tempo em que conseguiu reduzir índices de pobreza. Programas que ele fez também foram observados, e se as condições nos permitirem, pretendo implementá-los aqui. Tenho o presidente Lula como um das minhas referências mais próximas e pretendo ter com ele uma relação que me permita dizer que ele é um sócio do desenvolvimento da América Central” (Folha de São Paulo, 15/03). Como a figura de Hugo Chávez representa hoje dentro do espectro da centro-esquerda burguesa do continente aquela que o imperialismo ianque tem mais reservas, ainda que o mandatário venezuelano tenha dado mostras de seu fiel compromisso de seguir as regras burguesas de mercado no país, inclusive com indenizações milionárias pagas aos monopólios capitalistas e de continuar fornecendo petróleo para os EUA, Funes deixou claro que não flerta sequer com a doutrina bolivariana de retórica nacionalista e deseja uma aproximação com o imperialismo ianque baseada na defesa do capitalismo: “O conceito de ‘socialismo do século XXI’ não é para El Salvador. Não me proponho a fazer da sociedade salvadorenha uma sociedade socialista nem meu governo tem como meta imediata criar as condições para transitar ao socialismo. Proponho-me a fazer que a democracia funcione em El Salvador. A Constituição da República, de 1983, que foi reformada, diz que El Salvador é um Estado social democrático de direito e que o sistema econômico está baseado na existência da propriedade privada. Meu objetivo é fazer com que a economia social de mercado funcione, que se respeite a sociedade privada, que se respeite a livre concorrência. Nenhum investidor nacional ou estrangeiro tem de temer porque não estamos defendendo nenhum programa de estatização ou intervenção do Estado na economia. O que tenho tentado em reuniões com empresários locais e estrangeiros é passar uma mensagem de confiança, contra incerteza” (Idem). Como os governos do “neo-socialismo” do século XXI, como Chávez, Evo e Correa não ultrapassam um único milímetro da sagrada propriedade privada dos meios de produção e são, de fato, parceiros de Lula e Obama, acabam por formar uma nova maioria no cenário mundial voltada a subsidiar as perdas financeiras dos grandes trustes e monopólios oriundas do crash do cassino de Wall Street, tarefa a que agora se integra a FMLN de Funes.

A EVOLUÇÃO DA FMLN A UM PARTIDO DO REGIME

Quando perguntado se algum setor da FMLN, apresentado pela direita como “radical”, ainda reivindicava a estratégia da tomada do poder e da revolução socialista, o presidente eleito foi taxativo: “O setor radical da frente é uma minoria. O partido evoluiu da guerrilha mais exitosa do continente nos anos 80 para um dos partidos de oposição mais fortes. Acabamos de ganhar a maioria nas eleições legislativas de janeiro. Isso é mais uma construção da direita. Não é verdade que minhas propostas programáticas entram em contradição com as da FMLN. O erro que se comete é se julgar a FMLN pelo seu passado guerrilheiro e pela presença de alguns elementos do antigo partido comunista. Mas se trata de pessoas que são minoria dentro do partido, que hoje tem uma liderança progressista, que soube ir se ajustando às exigências do tempo e das circunstâncias” (Folha de São Paulo, 15/03).

Esse “balanço” de Funes nos remete a própria história da FMLN, que junto com as outras guerrilhas do continente, como a FSLN nicaragüense e a UNRG guatemalteca se tornaram partidos de sustentação da ordem burguesa. No ano de 1932, o jovem PC salvadorenho, cujo principal líder era Agustín Farabundo Martí, dirigiu a primeira insurreição comunista de toda a América Latina, apoiando-se em amplas massas da população trabalhadora, principalmente camponesa e indígena rebelada contra as mazelas da crise capitalista de 1929. O movimento demonstrou a incrível força da classe trabalhadora que se levantou em armas e logrou apoderar-se de boa parte do país, apavorando as débeis oligarquias locais e o imperialismo. A revolta só foi derrotada com o massacre de 30 mil trabalhadores (em um país de pouco mais de 2 milhões de habitantes), conhecido como La Matanza, que deu origem ao mais longo regime militar do hemisfério ocidental. Seguiram-se 50 anos ininterruptos de governos militares onde os sindicatos deixaram de existir. Um dos motivos que levou o PCS a chamar as massas campesinas a insurgirem-se foi a fraude orquestrada sobre as eleições de janeiro de 1932 em que os comunistas haviam obtido uma votação espetacular.

Os consecutivos golpes de Estado e as seguidas fraudes eleitorais que caracterizaram a fictícia democracia do país por mais de meio século obrigaram os reformistas salvadorenhos a buscarem a via armada, uma vez que se viram completamente impossibilitados de realizar qualquer ação política legal. No final da década de 70, o PCS, conduzido por Schafik Hándal afastou-se das orientações etapistas de Moscou para formação de um governo de coalizão com a burguesia e resolveu seguir o rastro da revolução cubana e da guerrilha nicaragüense, chamando a formação juntamente com outros grupos reformistas salvadorenhos de uma frente guerrilheira a qual batizaram de FMLN, tomando emprestado o nome de Martí. Apesar de terem se desgarrado da orientação oficial de Moscou, os dirigentes da FMLN pouco aprenderam com as lições da heróica insurreição de 1932.

A FMLN tornou-se um poderoso exército guerrilheiro que em 12 anos de guerra civil chegou a controlar um terço do país e conquistou um amplo apoio popular nas cidades e no campo, enfrentando a Junta Militar que contou com maciço apoio bélico, helicópteros, “assessores” militares e o investimento de um milhão de dólares diários dos EUA nos tempos da chamada guerra de baixa intensidade lançada pelo governo Reagan na América Central. Este período é retratado no filme “El Salvador, o martírio de um povo”, que mostra o apoio dos EUA a sanguinária Junta Militar que não poupou nem o clero. O arcebispo Oscar Romero em 1980 foi assassinado por reivindicar o fim do apoio ianque ao governo salvadorenho. No mesmo ano, quatro freiras estadunidenses foram violentadas e mortas pelos membros da própria guarda nacional. Ao todo, foram assassinadas 75 mil pessoas.

Por sua vez, apesar da FMLN reivindicar ajuda da URSS e de Cuba, as burocracias de Moscou e Havana repetiram a traição de Stálin à frente popular espanhola, recusando-se a fornecer o apoio logístico necessário para a vitória da guerrilha. Muito pelo contrário, Castro instou a FMLN a procurar um “acordo político” com a junta assassina. A estratégia política reformista da guerrilha, copiada dos sandinistas nicaragüenses de buscar uma “via intermediária” entre o capitalismo e o socialismo, negando-se objetivamente a lutar pela expropriação da propriedade privada e a instaurar um governo operário e camponês em El Salvador, pavimentou o caminho da derrota.

Em 11 de setembro de 1989, justamente dois dias após a queda contra-revolucionária do muro de Berlim e quase às vésperas do fim da URSS, a FMLN lança sua “Ofensiva Final hasta el Tope”, onde trata de ganhar terreno para melhorar suas condições de barganha política junto ao imperialismo em negociações intermediadas pelos sandinistas. Diante de uma pergunta formulada por Marta Harnecker sobre as condições para a assinatura dos tratados de paz, o comandante Leonel González, da FMLN explicou no fim do ano de 1989 os objetivos da ofensiva: “Nossa proposta contempla pontos para a transformação do marco político salvadorenho: reforma do sistema judicial e da Constituição; plena vigência das liberdades democráticas; fim da repressão e desmantelamento dos esquadrões da morte; punição aos responsáveis do assassinato do monsenhor Romero; manutenção das reformas econômicas, nacionalização dos bancos e controle do comércio exterior; depuração do exército e redução de seu tamanho e antecipação das eleições legislativas programadas para 1991. O que estamos propondo ao governo não é reivindicar uma parte do poder, mas um espaço político para lutar pelo poder”.

A ofensiva guerrilheira é derrotada e a partir de então a FMLN inicia um processo de negociação que resulta na entrega de suas armas e na capitulação ao fraudulento regime apoiado pela CIA, passando a ser o principal partido de oposição em um regime fundamentalmente bipartidário e de legitimação da ordem burguesa. Este processo de capitulação tem seu ápice em 1992 através dos Acordos de Paz de Chapultepec, patrocinados pela ONU.

A FMLN teve o mesmo destino de outras guerrilhas pequeno-burguesas que pactuaram com os regimes sanguinários “tratados de paz” para trocar suas armas por uma legenda eleitoral, como o M-19 colombiano, a FSLN nicaragüense, a UNRG guatemalteca e tantas outras. Todas as chamadas vias “intermediárias” ou “mista” reivindicadas pelos reformistas armados só podem resultar no sacrifício heróico de militantes antiimperialistas, em sangrentas derrotas para os trabalhadores e, por vezes, renderam um lugarzinho no parlamento burguês ou mesmo governos de frente popular para as direções oportunistas após pactuarem sua integração à legalidade burguesa com os regimes pró-imperialistas. Estes senhores não passam de candidatos a gestores da crise capitalista. O antigo dirigente máximo da FMLN, Schafik Hándal já falecido, foi um caso clássico desta trajetória. Ao longo de décadas passou de um herói da guerrilha salvadorenha a artífice da concertação democrática. A vitória presidencial de Funes é a consolidação dessa estratégia contra-revolucionária do reformismo armado.

A partir desse histórico se compreende que as direções nacionalistas pequeno-burguesas mostraram a custo de muito sangue o fracasso da via reformista armada na Nicarágua, El Salvador e Guatemala. A direção sandinista transformou-se em nova burguesia interessada em manipular o movimento de massas em favor da preservação e ampliação de “suas” conquistas materiais e de seu poder político primeiro como partido burguês coadjuvante do regime pró-imperialista e agora como ator principal. Já nos dois outros países centro-americanos, a FMLN e a URNG renderam-se vergonhosamente aos regimes capitalistas títeres do imperialismo, participando ativamente do circo eleitoral burguês, via para o poder que antes criticavam por não ter acesso a ela. Não por acaso, a ascensão da FMLN ao governo central salvadorenho vem na seqüência da vitória de Daniel Ortega no final de 2006. Hoje, depois de quase três anos de mandato, a Frente Sandinista segue como sustentáculo da ordem burguesa e da exploração capitalista na Nicarágua, tendo demonstrado que o imperialismo pode confiar plenamente nas ex-guerrilhas para conter a luta revolucionária.

PREPARAR A RESISTÊNCIA OPERÁRIA À OFENSIVA CAPITALISTA QUE A FMLN DESFERIRÁ CONTRA AS MASSAS

Após os acordos de paz, celebrados em 1992, em que a direita facistizante dominou “democraticamente” o país por mais de 17 anos através de fraudes e em cogestão com a FMLN, que chegou a controlar a prefeitura da capital do país até pouco tempo, as mudanças se operaram dentro da antiga guerrilha. Sua direção política se corrompeu completamente. A cúpula atual da direção da FMLN se converteu em uma elite econômica e empresarial burguesa emergente, que disputa, no marco de um acordo de classe, o poder econômico e político com as oligarquias tradicionais do país.

Desde a morte de Schafik Hándal, em janeiro de 2006, acabou dentro da FMLN toda uma geração política vinculada à luta armada e os resquícios da chamada “linha dura” de corte stalinista. Tanto que o vice-presidente do país Salvador Sánchez Cerén, é o único membro do Comando Geral do FMLN, durante sua época guerrilheira, que se mantém no partido. O novo estilo da FMLN é o de um partido “pragmático”, pronto para administrar o Estado burguês, sem modificar em nada a estrutura da propriedade privada capitalista, nem nada que remotamente lembre tal coisa, a exemplo de Lula e do PT no Brasil. Seus dirigentes se transformaram em líderes empresariais e políticos funcionais do regime. Os setores que controlam a direção da FMLN, cuja melhor expressão é o próprio Funes, são a materialização desse processo de cooptação e representam do ponto de vista político, ideológico e econômico, a transição do guerrilheirismo, como vanguarda da luta armada contra as oligarquias ao capitalismo.

Por essa razão, os revolucionários se colocam no campo da oposição revolucionária a esse governo burguês de novo tipo encabeçado pela FMLN. Na própria campanha eleitoral os genuínos trotskistas se opuseram a chamar a votar por Funes, ainda que “criticamente”, como fizeram diversos agrupamentos pseudotrotskistas que prestam apoio à frente popular. Passadas as eleições está colocado para os trabalhadores não depositarem nenhuma ilusão na guerrilha convertida em opção do imperialismo para conter a luta de classes e organizar no campo e na cidade a resistência operária e popular aos ataques que se avizinham. A tarefa que se coloca para os lutadores e para a população trabalhadora salvadorenha é preparar a resistência classista ao novo marionete do capital, que traficará enquanto puder ilusões nas massas para fazer avançar os ditames do imperialismo.

Para honrar o sangue dos milhares de militantes que deram suas vidas para derrotar as oligarquias e o imperialismo é armar-se de um programa revolucionário marxista que tenha como tarefa, antes de mais nada, denunciar a FMLN como novo agente do capital, traidora da revolução, preparando as bases para superar os ex-reformistas armados, hoje convertidos em corrompidos gestores da crise capitalista contra as massas.


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