O FSM E O “SOCIALISMO DO SÉCULO XXI” NA PRÁTICA

Enquanto Chávez declara que Venezuela já é ‘socialista’, a repressão policial ‘bolivariana’ assassina trabalhadores grevistas da Mitsubishi

Na noite do dia 29 de janeiro, Chávez declarou em pleno Fórum Social Mundial de Belém que com a crise financeira mundial “50 milhões de empregos irão se perder em todo mundo, segundo as cifras mais conservadoras, não tanto em Venezuela porque estamos no socialismo” (G1, 29/01). Enquanto isto, na tarde daquele mesmo dia 29 na mesma Venezuela, a luta de classes tratava de demonstrar com toda brutalidade policial capitalista, a verdadeira face do embuste do “socialismo” chavista.

Os operários da multinacional Mitsubishi do estado de Anzoategui (que também produz automóveis para a Hyundai e Fuso), onde trabalham seis mil metalúrgicos, entraram em greve contra as demissões que Chávez trata de minimizar. No dia 22 de janeiro, após a demissão de 135 terceirizados, contratados pela empresa Induservis que na Venezuela presta serviços a Mitsubishi Motors Corporation (MMC – Automotriz SA), a maior corporação japonesa, os metalúrgicos fizeram uma massiva assembléia em favor da ocupação da fábrica para exigir a readmissão de todos os demitidos da MMC, obtendo a solidariedade ativa dos operários de outras empresas como os da metalúrgica Macusa. Jorge Diaz del Castillo, vice-presidente da MMC reclamou que a companhia estaria “perdendo US$1,4 milhões por dia com a greve” (AP, 31/01) e que “os operários estavam armados, mas que o governador do estado estava atuando como mediador entre a companhia e os operários em meio ao conflito.” (idem).

Sete dias depois de iniciada a ocupação, a justiça venezuelana “bolivariana” ordenou a reintegração de posse e a polícia de Anzoategui, comandada pelo “mediador”, o recém  eleito governador Tarek William Saab, do PSUV, o partido de Chávez, partiu para o despejo violento e exemplar dos grevistas. “O chefe do grupo de Ação Imediata Policial, Grip Manuel Ortiz, deu a ordem de abrir fogo” (Últimas Notícias de Caracas, 30/01), segundo Félix Martínez, secretário-geral do Sindicato Nova Geração de Trabalhadores da MMC (Singetram). Na ação, os policiais mataram Pedro Suarez, sindicalista e operário da Mitsubishi e José Marcano, metalúrgico da montadora Macusa e deixaram várias dezenas de grevistas feridos, um dos quais em estado grave, encontra-se internado no Hospital Luiz Razetti.

UM “SOCIALISMO” ASSASSINO DE GREVISTAS EM FAVOR DAS MULTINACIONAIS IMPERIALISTAS

Como fez no episódio do assassinato dos três dirigentes sindicais da UNT mortos por participarem de uma greve em outra multinacional contra outras demissões em 27 de novembro passado em Arágua, outro estado governado pelo PSUV, Chávez fez declarações cretinas, típicas de políticos burgueses nestas situações, que é necessário apurar e punir os responsáveis pelos crimes da MMC, como se o principal responsável pela polícia de Anzoategui não fosse um governador do seu próprio partido! Mas o caudilho venezuelano foi ainda mais longe, disse que era preciso “levar os responsáveis a prisão, se é que foram os policiais ou algum policial” (Aporrea.org, 30/01), levantando a suspeita de que os assassinos poderiam estar entre os próprios grevistas.

Vale relembrar que no episódio de Arágua, ao invés de punir os assassinos e menos ainda os mandantes do assassinato dos dirigentes da UNT, ligados ao patronato associado ao aparato policial comandado pelo governador do PSUV, foi preso como suspeito outro operário, amigo próximo dos sindicalistas mortos. Por fim, o Chávez cinicamente tratou de co-responsabilizar os trabalhadores, as vítimas, pelo crime que sofreram: “aos trabalhadores é preciso também chamá-los a atenção: por que quando vão tomar uma empresa o fazem com armas de fogo? Por que vão a um protesto com armas de fogo? E por que estão ameaçando o ministro de seqüestrá-lo? Eu quase ia lá, porque vocês sabem que eu ia lá! E aí me disseram: presidente paciência! E as coisas se resolveram (sic!). No fundo, os trabalhadores tinham razão. Mas ao carregar uma escopeta ou um revólver, perdem a razão, porque já se tornam delinqüentes, ficam fora da lei e podem originar uma tragédia e aí vem a guarda e a polícia e vão disparar contra eles. Mas não estou dizendo que este tenha sido o caso de Anzoategui. Não. Lá houveram disparos que não se sabe ainda por onde começou e apareceram dois trabalhadores mortos.” (idem). A declaração de Chávez sobre o episódio é tão cretina quanto ameaçadora, apontando que o aparato repressivo, como na vez anterior, orienta-se por continuar o ataque orquestrando a criminalização das próprias vítimas!!!

Ao contrário da propaganda enganosa do Socialismo do Século XXI fartamente reforçada durante o FSM, não apenas há demissões, e muitas, no “paraíso” chavista, como também estão matando a três por quatro aos trabalhadores e ativistas que protestam contra as mesmas. Certamente os chavistas e o conjunto da esquerda reformista reunida no FSM contestarão que estes crimes são um efeito causado pela polarização da luta de classes do país devido ao processo revolucionário impulsionado por décadas de governo “bolivariano. Na verdade, Chávez, os governadores estaduais do PSUV e todo o aparato repressivo burguês que representam são os guardiões principais, como desgraçadamente comprovou mais este episódio, da sacrossanta propriedade privada e da ordem capitalista na Venezuela contra a luta dos trabalhadores pelo socialismo.

NO FSM A LIT OPÕE-SE A DESMASCARAR CHÁVEZ E NA VENEZUELA CLAUDICA AO APARATO REPRESSIVO CHAVISTA

Ao seu lado, o aparato oficial e partidário chavista conta com uma dezena de organizações centristas, muitas das quais se proclamam trotskista, que auxiliam pela esquerda a burguesia venezuelana a impedir que as massas trilhem o caminho da revolução proletária.

A UST, por exemplo, é uma pequena organização venezuelana vinculada a LIT, cujo partido-mãe é o PSTU brasileiro. No FSM de Belém, a LBI fez um chamado ao conjunto do ativismo classista presente a desmascarar Chávez e os demais governos burgueses centro esquerdistas do continente realizando um ato no próprio local onde Chávez, Lula, Lugo, Evo e Correa iriam se reunir. O PSTU se recusou a participar do ato e impôs para a Conlutas uma orientação no mesmo sentido.

Diante dos assassinatos dos operários, a seção venezuelana na LIT queixa-se que “por ordem de uma juíza, a polícia extrapolou em suas funções e sem o uso de uma equipe antimotim” (UST, 29/01). Qual é a função da polícia para a LIT? Quer dizer que a repressão poderia ter sido evitada e uma consensual “solução para o conflito” como reivindica a UST, poderia ter sido alcançada se a polícia chavista tivesse agido de uma forma mais “profissional” e “especializada”? Em seguida, esta pequena seita social-democrata rechaça a ação direta dos trabalhadores: “Não aceitamos a tese de enfrentamento. Já estão circulando rumores de que os trabalhadores estavam armados e os policiais apenas responderam uma agressão. Nada mais falso! Esta resposta típica tenta justificar os excessos policiais e criminalizar o protesto social e trabalhista. Em vez de buscar culpados entre os agressores policiais, buscam deter a mobilização, acusando seus dirigentes de delinqüentes.” (idem). Em seu extremo reformismo ordeiro, a seção da LIT adota o ponto de vista do pacifismo pequeno-burguês, tapando o sol da luta de classes com uma peneira. Para o proletariado, as demissões são uma violência que tem que ser respondida através de sua ação direta, a qual inevitavelmente tem de recorrer à legítima violência de classe, o enfrentamento e o armamento contra os agentes repressores do patronato, no caso, a polícia do governo chavista. A seu modo, a UST acaba fazendo o jogo de Chávez, corroborando com a tese de que se houve enfrentamento e os trabalhadores estavam armados, medidas necessárias em toda greve de ocupação de fábrica conseqüente, os grevistas seriam delinqüentes.

É necessário armar os trabalhadores venezuelanos com um programa oposto aos dos reformistas do FSM e da sua ala “esquerda” representada pelos revisionistas do trotskismo, um programa que organize a ação direta, o enfrentamento com os patrões e convoque o armamento de todo o povo para defender os interesses históricos do proletariado frente ao chavismo, a direita golpista e pró-imperialista e a classe patronal.

CONTRA AS DEMISSÕES, OCUPAÇÃO DA FÁBRICA, PIQUETES ARMADOS E EXPROPRIAÇÃO DA MMC COM CONTROLE OPERÁRIO DA PRODUÇÃO

Chávez reedita bastardamente a política de Salvador Allende, quase 40 anos depois e de forma ainda mais reacionária e contra-revolucionária. Defende retoricamente um “socialismo” por vias pacíficas que preserva a propriedade privada dos meios de produção, enquanto desarma e reprime as massas que lutam por sua emancipação social e por suas mais elementares condições de vida como o direito ao emprego, pavimentando o caminho de uma nova tragédia contra-revolucionária. Em julho de 1972, Allende criou a Lei de Controle de Armas para criminalizar os cordões industriais chilenos, organismos proletários de cooperação entre as fábricas ocupadas foram embriões de instrumentos de duplo poder da classe, lei que foi utilizada pelas FFAA comandadas por Pinochet para desarmar o operariado frente ao golpe desferido em 11 de setembro do ano seguinte.

No momento em que encerrávamos este artigo, a tensão aumentava. 800 metalúrgicos continuavam resistindo bravamente entrincheirados na MMC. No dia 30 de janeiro, uma greve regional paralisou grande parte das indústrias de Anzoategui. A manutenção da fábrica ocupada e a solidariedade operária ativa por meio de greves e ocupações criaram uma situação de impasse momentaneamente favorável ao avanço da luta em favor da reintegração dos demitidos e da expropriação da multinacional. O governador Saab é obrigado a fazer demagogia pondo sob investigação 50 policiais que participaram da ação que ele próprio ordenou, enquanto a polícia estadual foi substituída pela Guarda Nacional de Chávez, uma força repressiva mais profissional e especializada (para alegria dos pseudotrotskitas). Castilho, representante patronal da MMC continuava pressionando pela desocupação imediata da empresa: “Estamos obrigados a trabalhar e a dialogar com nossos trabalhadores, mas não com a fábrica seqüestrada” (Aporrea, 31/01).

É preciso cobrir de solidariedade esta ocupação de fábrica emblemática, como vêm realizando os trabalhadores da Ford e da Toyota venezuelanas, ocupando outras fábricas vizinhas no mesmo estado, como a Vivex e em outras regiões do país, desenvolver uma ampla campanha internacional de solidariedade a esta luta e de denuncia do governo Chávez e de seu “socialismo” antioperário e assassino de grevistas.

Pela expropriação e estatização sem indenização da Mitsubishi e incorporação plena de todos os seus terceirizados. Pelo controle operário da produção rumo ao socialismo onde efetivamente não existem multinacionais parasitando o país, os trabalhadores têm direito a mais plena estabilidade no emprego e o governo não é dirigido por caudilhos de retórica esquerdista para encobrir a defesa dos interesses burgueses, mas sim, será composto e subordinado aos conselhos operários e populares assegurado por um governo soviético. Para tudo isto, é preciso construir um partido operário, revolucionário trotskista na Venezuela, que ajude as massas a encontrar o verdadeiro caminho da revolução proletária e do socialismo.

Belém, 31 de janeiro de 2009.


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