EDITORIAL

Uma crise mundial sob medida para
os capitalistas

A crise capitalista vem ganhando contornos que extrapola seu fulcro original, o mercado financeiro e atinge os principais trustes transnacionais do planeta. Ao contrário do que divulga a grande mídia e desgraçadamente a própria esquerda reformista, a crise capitalista não surgiu em setembro de 2008 a partir de crashies seguidos na bolsa de Nova York, nem tampouco é exclusivamente produto do colapso dos títulos “subprime” catapultados no mercado por bancos imobiliários norte-americanos. O atual pico da crise é a continuidade dos longos ciclos de crises estruturais do modo de produção capitalista, portanto, não se trata do início do apocalipse final como convenientemente vem convergindo a direita imperialista e a esquerda socialdemocratizante. Desde a quebra da bolsa de Nova York em 1929, passando pela II Guerra Mundial, o esgotamento do keynesianismo nos anos 50, as derrotas militares ianques nos anos 60, a grande crise energética dos anos 70, a falência das economias semicoloniais nos anos 80 e, finalmente, a crise dos chamados tigres asiáticos, incluindo a crônica recessão japonesa que vai atingir em cheio a economia norte-americana no final da década passada e o início da atual, o capitalismo vem reciclando-se e potenciando novas e maiores crises ininterruptas.

Os atuais índices negativos da maior economia do mundo ora se equiparam a recessão dos anos 90, ora aos do início da atual década e, inclusive, em alguns setores chegam a retroceder a década de 70 no ápice da crise do petróleo. O diferencial modal da atual crise consiste em primeiro lugar em um verdadeiro bombardeio midiático, nunca antes visto, com o objetivo claro das classes dominantes em chantagearem a população trabalhadora para retirar direitos e passar a uma ofensiva global para, na seqüência do seu terrorismo, obter do Estado a contrapartida de todas suas perdas sofridas no mercado financeiro. Segundo dados da própria imprensa burguesa, os subsídios injetados pelo Estado no capital privado em todo mundo, sob a justificativa de salvamento de bancos e empresas da crise financeira, atingiu entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009 a astronômica cifra de 9,7 trilhões de dólares. Só o tesouro norte-americano, primeiro com Bush e agora com Obama, é responsável por desembolsar 2,9 trilhões de dólares desde montante, enquanto a União Européia gastou 3,6 trilhões de dólares. Outro elemento determinante é a própria financeirização da economia capitalista, que com a introdução das novas tecnologias de transmissão de dados para alavancar ações e títulos, atingiram um nível que passou a comprometer os próprios investimentos na produção industrial.

A semifalência das maiores corporações financeiras das economias imperialistas produz um impasse em toda a cadeira produtiva, já que a ausência da massa creditícia “queimada” nos cassinos de Wall Street e cia. impõe esta função nas mãos do próprio Estado capitalista que passa a assumir a função de um grande agente securitário das corporações. Desde a posse do novo governo central dos EUA, o Estado vem “dobrando” todas as apostas e cobrindo rombo por rombo de todos os setores da economia. Um exemplo desta operação foi o recente socorro do governo Obama a mega-seguradora AIG em mais de US$ 30 bilhões, apesar desta já ter recebido de Bush, em setembro, um crédito de US$ 85 bilhões. O presidente do FED, Ben Bernanke, assegurou que se conseguir manter este nível de recomposição financeira e monetária a economia dos EUA sairá da recessão já em 2010. A questão a saber é se o tesouro norte-americano, portador de um megadéficit, terá esta capacidade por tanto tempo.

As economias periféricas, em particular os considerados BRICS, como Índia, Brasil, México, tem secundado a crise de uma maneira particular, onde a ausência de liquidez é bem menor se comparada aos países imperialistas. Neste sentido os fatores de retração na economia se manifestam de forma anômala e não linear. A economia chinesa em processo acelerado de conversão capitalista tem emergido como o “novo modelo” de um Estado burguês que mantém alto grau de controle econômico, inclusive um sistema bancário puramente estatal e com forte capacidade de investimento sem gerar um acúmulo do déficit público, a chaga crônica da economia ianque. Se a drástica redução do fluxo comercial internacional com a diminuição na cotação das comodities atinge duramente as semicolônias “emergentes” e a China, a existência de um poderoso mercado interno é um fator que continua a atrair capitais em fuga dos centros imperialistas.

No Brasil registrou-se nos últimos quatro meses um aumento das correntes especulativas internacionais, o que de certa forma vem alimentando setores chaves da economia. A indústria automobilística conseguiu aumentar suas vendas no mês de fevereiro e até mesmo a indústria da construção civil, umbilicalmente ligada ao crédito bancário, anuncia metas de crescimento para 2009, lastreadas também em projetos governamentais de habitação popular. O governo Lula vem seguindo a receita de seus chefes monetaristas e abriu o botim estatal em mais de 300 bilhões de reais para ajudar bancos, montadoras, etc. Neste cenário, a frente popular tem se consolidado como núcleo condutor da burguesia nacional em uma etapa de grandes turbulências econômicas mundiais.

Como resposta preventiva ao espectro da crise a patronal vem desenvolvendo uma escalada draconiana de demissões acompanhada de redução salarial. As recentes demissões na Embraer são a demonstração cabal desde processo. Apesar da empresa ter obtido farto crédito estatal e a perspectiva de conquistar novos mercados, acabou de demitir quase 5 mil operários de uma única tacada. Este fato também vem ocorrendo na indústria automobilística e até mesmo no setor bancário, detentor dos astronômicos lucros em função da elevada taxa de spread.

Com uma crise “sob medida” para auferir ganhos e verbas estatais, a burguesia conta não só com a ajuda do governo Lula, mas principalmente das direções políticas reformistas e revisionistas que apresentam um cardápio de completa inação diante da escalada de ataques patronais. O caso de São José dos Campos, onde o Sindicato dos Metalúrgicos é dirigido pelo PSTU, é emblemático. Frente as demissões a direção sindical apostou não na ação direta dos trabalhadores, mas na via da inação absoluta se dirigiu ao governo em um ridículo apelo institucional para este reverter as demissões. Parece que os morenistas do PSTU resolveram copiar integralmente a linha dos lambertistas da CUT, que estamparam em seu jornal “O Trabalho” a manchete cômica: “Lula proíba as demissões” (OT nº 653). Ao seguir a orientação traidora da CUT, de apostar no lobby descartando a luta de massas como greves e ocupações, a Conlutas e o PSTU assinaram sua própria sentença de morte. Para trair já existem a CUT e a CTB, centrais estruturadas com a benesse estatal e a própria simpatia patronal.

Para a classe operária e seus aliados históricos somente a adoção de uma estratégia revolucionária, baseada na mobilização permanente das massas poderá derrotar a atual ofensiva patronal, que tem na crise estrutural do regime capitalista seu pano de fundo. Nós marxistas leninistas já aprendemos com lições da história que os ciclos das crises capitalistas podem se reproduzir temporariamente até o momento em que o proletariado entra em cena como protagonista principal e instaura o seu próprio poder político. A agonia de um regime em decomposição só será superada por uma nova ordem social e econômica em escala mundial, o socialismo. Não há “terceiras vias” e tampouco o capitalismo sucumbirá sem levar o conjunto da humanidade à barbárie.


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