GRÉCIA Heróica radicalização da juventude esbarra na ausência do movimento operário e de uma direção revolucionária para derrotar governo assassino A Grécia é um dos países economicamente mais frágeis da União Européia (UE). É dirigida pelo governo de direita do partido Nova Democracia (ND) e vem sendo sacudida por crescentes manifestações juvenis há quase uma década. O assassinato de um adolescente de 15 anos, baleado no peito pela polícia em Atenas no dia 06 de dezembro foi a gota d’água para os protestos radicalizados em todas as principais cidades do país contra policiais, lojas, carros e bancos, além de ocupações de universidades, escolas técnicas e secundárias. Na base deste movimento está à profunda indignação dos novos trabalhadores contra o desemprego, os baixos salários e a precariza-ção trabalhista, enquanto o governo realiza um resgate milionário ao capital financeiro, a exemplo dos EUA, UE e dos demais países capitalistas. Soma-se a isto, o repúdio generalizado da juventude européia contra a privatista reforma educacional da UE mais conhecida como Processo Bolonha. Os partidos da oposição burguesa controlam as organizações sindicais e estudantis. O movimento socialista pan-helênico, Pasok, governou o país durante boa parte do tempo de 1981 a 2004, quando por burocratismo e corrupção perdeu as eleições para a ND de Kostas Karamanlis. O Pasok comanda a Confederação Geral do Trabalho (GSEE). O PC (KKE) e sua Juventude Comunista (KNE) dirigem burocraticamente os ‘Comitês de Coordenação’. A principal preocupação da social democracia e do stalinismo é evitar que as simpatias do movimento operário pela luta dos estudantes secundaristas evoluam para a ação direta unitária operário-estudantil. Por isto, tratam de isolar as jornadas de luta juvenis. O Pasok vem defendendo a antecipação das eleições pela restauração da estabilidade política. A ala direita do partido condena abertamente a ‘anarquia’ e a ‘delinqüência’ dos protestos e acusa o governo Karamanlis de não defender os prédios públicos e de não garantir o retorno da ordem. A ala esquerda e sindical sabota toda unidade entre estudantes e trabalhadores, desarticula o quanto pode as manifestações, opõe-se a greve geral por tempo indeterminado e desmonta o movimento pela via da saída parlamentar. Esta política ficou evidente na greve geral de 24 horas do dia 10 de dezembro onde os trabalhadores demonstraram um entusiasmado apoio à luta contra o terrorismo estatal e o governo do ND. O transporte público foi paralisado e os vôos foram cancelados. Escolas, bancos e comércios fecharam as portas. Mas em Atenas, os sindicalistas ligados ao Pasok e os líderes estudantis do KKE realizaram manifestações separadas. O ato político convocado pela GSEE em frente do parlamento nacional grego tinha como eixo central “em defesa da democracia parlamentar”. Afora isto, estes partidos reformistas fazem coro com a repressão condenando toda ação direta da juventude para isolar os setores mais radicalizados com acusações cretinas que vão desde ‘talibans’ e ‘hoolingans’ a ‘agentes da CIA’. Repetem a mesma política da esquerda reformista e revisionista francesa durante os levantes da juventude da periferia de Paris. Apesar desta política criminosa, as manifestações diárias e choques com o aparato repressivo estatal por parte da juventude só aumentaram. No dia 18, houve uma nova paralisação nacional atingindo duramente um dos principais setores econômicos do país, o turismo. Levantando-se contra a privatização da empresa estatal grega, Olympic Airlines, os trabalhadores do setor aéreo paralisaram provocando o cancelamento de dezenas de vôos novamente. Desta vez, as manifestações passaram por cima do cretinismo parlamentar da GSEE e terminaram atacando o prédio do parlamento com pedras e coquetéis molotov. O número de colégios secundários ocupados ou paralisados saltou de 400, registrados após a primeira semana de protestos, para 700. Dois dias depois, a assembléia da ocupação da Escola Politécnica de Atenas fez um chamamento internacional de solidariedade aos presos (mais de 200 e em sua maioria menores de 16 anos) e assassinados pelo Estado na Grécia e em toda Europa. A convocatória foi atendida por manifestações massivas, sendo as maiores concentrações as de Barcelona e Hamburgo que resultaram em duros confrontos com a polícia. Todavia, o principal problema da juventude lutadora e dos trabalhadores gregos é a carência de uma direção a altura das tarefas revolucionárias que a conjuntura exige. As organizações que participam do movimento e se proclamam revolucionárias oscilam entre a política do Pasok, do EEK e o anarquismo. Mostrando-se este último completamente impotente para conduzir o poderoso movimento em curso à unidade entre os estudantes e os trabalhadores e a tomada do poder político pelas massas, derrotando a saída burguesa que vem sendo pactuada entre governo e oposição reformista. Como obstáculo há uma saída de independência de classe existem também vários tipos de coalizões reformistas muito semelhantes ao PSOL brasileiro. Os Synaspistas, por exemplo, autodenominam-se de ‘coalizão de esquerda, de movimentos e ecologistas’. Não passam de uma variante menor do Pasok que tem como estratégia o crescimento parlamentar baseado na desilusão com o Pasok. As demais organizações não oferecem nenhuma alternativa frente ao cretinismo parlamentar e a esterilidade anarquista. São o Mera (Frente de Esquerda Radical), Enantia (Esquerda Unida Anticapitalista), os grupos maoístas e o Movimento Anti-autoritário. O EKK, organização grega filiada a “internacional” encabeçada pelo Partido Obrero argentino, pertence ao Mera e limita-se a pronunciar-se pela ‘Defesa incondicional da rebelião’. Completamente na retaguarda da luta, mais por seu programa centrista do que pelo seu pequeno peso social, o EKK vangloria-se por não criminalizar as ações radicalizadas da juventude, enquanto esquiva-se vergonhosamente de fazer qualquer chamado a ação direta e a construção de comitês de autodefesa para proteger as marchas, prédios ocupados. Sem uma estratégia revolucionária que organize a sua rebeldia espontânea da juventude é impossível dar um salto de qualidade no atual estágio da luta que tende a se dissipar como em 2006 e 2007 apesar de ter crescido em numero e em radicalidade. O que mais salta aos olhos é o revisionismo da esquerda mundial, aderente da teoria das novas vanguardas. Nenhuma organização ‘marxista revolucionária’ teve a coragem de denunciar o alijamento criminoso que o proletariado vem sofrendo na tal ‘rebelião’. Sozinha a juventude secundarista não pode realizar uma revolução social e sequer ser conseqüente em seus justos protestos. Não é das escolas que se pode controlar a produção, a distribuição de riquezas nacionais e, tampouco, o poder político. Em que pese à inquietude e a radicalidade heróicas da juventude e a presença de trabalhadores estatais no conflito, a falta do operariado industrial, graças a uma meticulosa ação do Pasok, é um problema decisivo contra o triunfo das jornadas de lutas gregas. Apesar de importantes e radicalizadas ações como os cercos às delegacias de policias e tribunais, as ocupações de universidades e escolas e meios de comunicação para a divulgação das posições do movimento sem que a luta atual da juventude contagie o movimento operário e o ponha em movimento não há como organizar uma verdadeira greve geral por tempo indeterminado que coloque na ordem do dia uma saída proletária e revolucionária para a crise. Para levar adiante todo um conjunto de tarefas que façam a luta atual passar para um estágio superior de organização é preciso criar um verdadeiro partido trotskista na Grécia para fazer do país que foi o berço da democracia das classes dominantes o berço da democracia proletária e revolucionária no século XXI. ![]() ![]() ![]() |