EDITORIAL Balanço político de 2008: Um ano em que a correlação de forças foi abertamente desfavorável à classe operária A correlação de forças entre as classes sociais foi, neste ano, abertamente desfavorável à classe operária tanto no terreno nacional como mundial. Apesar de muitas lutas e mobilizações de resistência a burguesia e seu governo de frente popular foram capazes de manterem-se sempre na iniciativa política estabilizando a conjuntura em proveito de manter a hegemonia além de disseminar a colaboração de classes como estratégia “oficial” da esquerda reformista. O movimento operário não conseguiu quebrar a “lógica” do capital, acumulando pequenas vitórias sindicais carentes de uma política classista e de uma estratégia de luta frontal pela construção de uma alternativa de poder proletário. As frações burguesas dissidentes do atual modelo de gestão da frente popular aguardam de maneira defensiva o esgotamento eleitoral do chamado fenômeno Lula para ousarem suas pretensões políticas nas próximas eleições presidenciais de 2010. Quanto à chamada “oposição de esquerda” foi quase reduzida a pó nas últimas eleições municipais, naufragando o PSOL como potencial alternativa diante de um colapso da frente popular. No plano sindical, a Conlutas além de quase esfacelar-se em seu primeiro congresso não conseguiu conquistar uma única posição importante no movimento de massas, perdendo todas as disputas para a CUT ou CTB. No campo internacional, o fato marcante foi sem sombra de dúvida a eleição de Barack Obama como produto do esgotamento do “modelo Bush” à frente do imperialismo ianque. Longe de uma inflexão à esquerda, a ascensão de Obama é conseqüência da grave crise financeira que assola o “coração do monstro”, necessitando de um “novo gerente” de rosto negro para aplicar a mesma política belicista e de ofensiva em toda linha contra os povos oprimidos. Os democratas no poder devem seguir agora o que predominou nos países latino-americanos, ou seja, uma coalizão estatal de “centro-esquerda” para cooptar a classe operária, anestesiando-a diante dos planos de ajuste que o capital financeiro impõe às nações. Do outro lado do mundo, na China, segue a política restauracionista que paulatinamente solapa as bases sociais do Estado operário. A ex-burocracia maoísta em franco processo de conversão à classe capitalista colabora diretamente com o imperialismo em todos os aspectos da conjuntura mundial no sentido de postar-se como parceira econômica e militar e nunca como adversária à ofensiva global norte-americana. Os governos do “neo-socialismo” do século XXI revelaram-se como a maior impostura política deste ano, não ultrapassando um único milímetro da sagrada propriedade privada dos meios de produção. Em uníssono com Lula e Obama devem formar uma nova maioria no cenário mundial, diante da profunda crise capitalista, uma maioria governamental voltada a subsidiar as perdas financeiras dos grandes trustes e monopólios oriundas do crash do cassino de Wall Street. A esquerda de um modo geral, tanto os setores reformistas quanto os revisionistas têm comemorado efusivamente o colapso financeiro como sendo a expressão da ante-sala da revolução socialista. Para estes senhores a aguda crise capitalista que atinge os principais centros imperialistas por si só “decretaria” a morte do regime capitalista sem que necessário fosse a ação consciente da vanguarda do proletariado, através de um partido revolucionário conduzindo a classe operária a instaurar pela via da ruptura um novo modo de produção e um Estado de novo tipo. A formulação mais recente que apresentam para refutar a tese leninista de que uma crise revolucionária só é gestada a partir da existência da organização soviética da classe operária, ou seja, quando essa classe tem um projeto de conquista do poder político através de seus próprios organismos políticos e militares, é a “queimadura do gato”. Em síntese argumentam se um gato é queimado no rabo por um cigarro ele reagirá à agressão, independente se o gato é socialista ou não. Como não existem gatos socialistas, portanto este elemento subjetivo (socialista) é completamente desprezível. O proletariado diante da atual crise econômica reagiria como o gato, ou seja, não importando para nada se tem ou não tem a consciência socialista. Esta nova tese do espontaneísmo economicista defendida a grosso modo entre outros grupos “catastrofistas”, pelo MAS argentino (outrora centro do trotskismo mundial para os morenistas) pretende traficar um novo conceito no marxismo revolucionário, o de que a reação espontânea das massas ao débâcle capitalista, por mais intenso que este seja, pode superar a necessidade de um partido revolucionário como elemento central no desenlace da correlação de forças entre as classes e, em última instância, na abertura de uma nova etapa histórica mundial. Se é correto caracterizar a extensão e profundidade da crise econômica como sendo produto do próprio esgotamento da primazia do capital financeiro no bojo das relações sociais de produção e da inútil tentativa neoliberal de eliminar o valor da força de trabalho como elemento nodal da acumulação privada, seria um erro histórico gravíssimo menosprezar os próprios mecanismos que a economia capitalista tem em postergar suas crises. Vejamos, por exemplo, todas as crises anteriores, dos anos 30, 70 e 90, quando não encontraram pela frente um sujeito histórico capaz de transformar a crise capitalista em crise revolucionária pela tomada do poder. Não foi assim quando da Primeira Guerra Mundial, essencialmente uma guerra de disputa pelo controle do mercado capitalista europeu, emerge o partido bolchevique na velha Rússia czarista apontando uma alternativa socialista. Se é verdade que a atual crise tem características próprias que a distingue parcialmente das crises anteriores devido à financeirização da economia, também é verdadeiro que o próprio capital financeiro tem expedientes monetários, com apoio integral dos Estados imperialistas, para prolongar sua agônica existência. Em resumo, como trotskistas continuamos a afirmar que a disjuntiva socialismo ou barbárie só será resolvida pela senda da direção revolucionária do proletariado mundial e não simplesmente pela falência das classes dominantes. Preparar uma resposta revolucionária consciente da classe operária à crise capitalista passa neste momento por reconhecer que estamos em um situação desfavorável historicamente, onde vimos acumulando derrotas como a perda da referência socialista como projeto de uma nova sociedade. Diante da falência cada vez maior de grupos econômicos afetados pela crise, com certeza ocorrerão reações espontâneas e violentas do proletariado, além da resistência à ameaça da perda de direitos conquistados, a questão fundamental é dotar a latente rebelião das massas de um programa político que vá além exclusivamente de suas reivindicações mais imediatas. Para isso, é preciso fundir os componentes objetivos e específicos da atual crise capitalista, onde a imensa bolha de crédito atenua os sintomas clássicos da crise de superprodução, com a publicidade mais abrangente da radicalidade revolucionária em todos os meandros das esferas sociais. Um combate sem tréguas à concepção de um Estado neutro indutor do desenvolvimento, acima dos interesses de classe se faz necessário neste período onde a centro-esquerda hoje no comando dos principais centros políticos do planeta prepara o caminho da fascistização e da reação capitalista como conseqüência de sua impotência em resolver as grandes demandas da humanidade. ![]() ![]() ![]() |