LIBERTAÇÃO DE INGRID BETANCOURT

 

A desintegração das Farc a serviço da reação democrática imperialista

 

Apesar da exaustiva campanha midiática imperialista por fazer valer a versão oficial de que uma operação militar teria “resgatado” os 15 principais reféns das Farc sem disparar um único tiro, pouca gente séria acreditou nesta estória. Como engolir as estranhas circunstâncias do “dramático resgate” em que um comando militar de Uribe reuniu os principais reféns das Farc, colocou-os a bordo de um helicóptero e libertou uma Betancourt saudável e bem alimentada, como se estivesse sido preparada para ser libertada?

 

A versão oficial rende créditos para Bush e para o candidato à sucessão ianque pelos republicanos, John McCain, que por estranha “coincidência” escolheu a Colômbia como centro de sua agenda de campanha eleitoral justamente na semana do “resgate” de Betancourt. Ao mesmo tempo, ofusca os escândalos que envolvem profundamente o uribismo com os para-militares, narcotraficantes e ainda com o suborno de parlamentares para que aprovasse a reforma constitucional que permitiu sua primeira reeleição.

 

Em meio ao completo descrédito da “Operação Xeque Mate”, outros setores da mídia tratam de vender o conto da compra dos reféns por agentes do imperialismo europeu e interceptação da transação pelo exército colombiano. “Ainda que o governo da Colômbia tenha anunciado a operação como um resgate militar por parte do Exército colombiano, segundo a televisão francesa, a libertação teria sido resultado do desvio do helicóptero onde as Farc transferiam os 15 retidos para um ponto onde, supostamente, seriam entregues a Alfonso Cano, o qual estava a negociar com uma delegação francesa e suíça a sua libertação” (Agencia Popular de Notícias, Venezuela, a 02/07). Esta outra versão atende ao objetivo da via negociada para dobrar a resistência antiimperialista. O chavismo também promove esta tese e ao seu lado não poucos setores da esquerda que covardemente sempre se recusaram a defender a guerrilha diante da ofensiva imperialista.

 

Todavia, a teoria de que tudo não passou de uma mera negociação comercial onde os reféns foram entregues pelas Farc em troca de US$ 20 milhões, apesar de não ser tão pueril quanto a oficial também não se sustenta. A versão “francesa” despolitiza a questão e baseia-se na reacionária campanha de criminalização da luta social que tenta fazer crer que a guerrilha não passa de uma quadrilha de bandidos mercenários cujo sentido de existência seria ganhar dinheiro com o narcotráfico ou com a extorsão mediante venda de reféns.

 

O resgate “cinematográfico” para usar as palavras do ministro da defesa colombiano, Juan Manuel Santos, não passou de uma ficção uribista, pois os retidos foram entregues pacificamente pelas Farc. Tampouco o que moveu a libertação dos reféns foi a habilidade de negociação, os supostos milhões de dólares do governo francês ou mesmo a tese da infiltração. A libertação da senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, dos três mercenários ianques da multinacional Northrop Grumman Corporation e dos onze colombianos membros do exército e da polícia só foi possível porque a direção das Farc, em crise por sua divisão interna, decidiu como medida de sobrevivência, fazer uma libertação “em off”, desprezando a reivindicação de libertação de mais de 500 guerrilheiros do Estado genocida e para-narco-traficante de Uribe. Nesta guerra, as Farc abriram mão da bilateral troca de prisioneiros políticos e vem sofrendo golpes a granel e mortais, sendo que este último foi um dos piores e veio acompanhado de uma profunda desmoralização e da criminalização impostas à guerrilha.

 

IMPASSE POLÍTICO EM FUNÇÃO DA DISPUTA ENTRE DUAS ALAS NA DIREÇÃO DAS FARC LEVOU A ENTREGA DE INGRID BETANCOURT

 

O que fez com que a situação de desintegração das Farc chegasse até onde chegou foi a própria estratégia de reconciliação nacional de sua direção, aliada a uma asfixiante pressão dos aliados, os governos burgueses bolivarianos. Sob esta política, seguramente novos reveses ainda virão como parte desta estratégia liquidacionista da mais antiga organização guerrilheira do planeta.

 

A disputa interna nas Farc identificada entre os dois dirigentes Alfonso Cano e Mono Jojoy, respectivamente a ala parlamentar e a militar, vem sendo resolvida em acontecimentos como este em favor da primeira. Todavia, a tradição guerrilheira ainda é predominante e o regime colombiano vem resistindo a abrir negociações, o que poderia acelerar a capitulação da guerrilha. Esse cenário é, em última instância, produto do impasse político interno entre as duas alas da direção guerrilheira e levou a organização a completa paralisia e afrouxamento de sua segurança. Como a linha de integração parlamentar não consegue se impor completamente, a direção da Farc diante de uma visível fragilidade política considerou melhor entregar os reféns do que ser liquidada fisicamente.

 

Essa opção vergonhosa representou um duplo golpe para a guerrilha, porque esta perdeu seu mais importante trunfo político e militar ao libertar Ingrid Betancourt, permitindo, por sua vez, que o imperialismo desenvolvesse uma campanha apresentando as Farc como um grupo mercenário.

 

Definitivamente, a causa desta nova derrota não está na astúcia militar dos agentes de Uribe e Bush nem nos negociadores de Sarkozy, ela reside na ausência de unidade na direção da guerrilha após os revezes sofridos recentemente.

 

Este acontecimento acelera a disputa presidencial de 2010 no país e revela que cada um dos principais candidatos recebe influência de alas distintas da burguesia mundial, interessadas no país que é o principal fabricante de drogas do planeta. A idéia do terceiro mandato de Uribe sai fortalecida deste episódio e no caso de se confirmar ele receberá o apoio tanto dos democratas quanto dos republicanos. Na sua cola está a candidatura do ministro da defesa, caso Uribe não possa se lançar ao terceiro mandato. A candidatura do agrupamento social democrata Pólo Democrático Alternativo, que governa Bogotá, e a da senadora liberal Piedad Córdoba ou uma aliança entre estes dois partidos oposicionistas corresponde à preferência dos governos nacional-populistas latino-americanos. Vale destacar que em comunicado oficial no dia dois de julho o “Pólo”, a quem a direção das Farc apresenta como alternativa política a Uribe, “celebrou com alegria” a libertação dos reféns, criticou a “esterilidade da luta armada” e seus “crimes – como o seqüestro – universalmente repudiáveis”.

 

Ingrid Betancourt que era candidata ao cargo em 2002, volta com força à disputa, sendo patrocinada pelo governo Sarkozy. A senadora agradeceu aos esforços de Uribe por sua libertação, mas, logo advertiu: “‘Uribe, e não apenas ele, mas toda a Colômbia, deve corrigir algumas coisas. Chegamos a um ponto no qual devemos mudar o vocabulário radical, extremista, de ódio, de palavras muitos fortes que ferem de maneira íntima o ser humano. Isso faz com que deseje servir à Colômbia com todo meu coração, mas ainda é cedo demais para falar nessas coisas’. Recentes pesquisas de opinião do regime revelaram que Ingrid tem alto nível de popularidade” (AE, 07/07).

 

O discurso da senadora busca afinar-se com o editorial do The New York Times do dia anterior. O diário imperialista, que apóia Obama na disputa a Casa Branca, reivindica a hegemonia estadunidense sobre a Colômbia enciumado com as pretensões francesas e advoga a reação democrática para desferir o golpe de misericórdia na guerrilha: “O Presidente Álvaro Uribe deveria aproveitar a desagregação das Farc para oferecer um acordo político aos rebeldes, que há muito trocaram suas metas de libertação pelo tráfico de drogas. A Sra. Betancourt foi educada na França e havia regressado a Colômbia para lançar-se como candidata a presidência quando foi capturada fazem já seis anos (...). O resgate (realizado pela inteligência dos EUA) tem sido outro grande êxito para o Sr. Uribe em seu assalto frontal contra as Farc, assalto que realizou com bilhões de dólares de ajuda dos EUA. O movimento perdeu 3 dos seus 7 comandantes nos meses recentes e vários desertores informam que suas forças se encontram cada vez mais fragmentadas. As Farc ainda tem seus baús cheios com dinheiro do narcotráfico e ainda tem mais de 700 reféns. É pouco provável que os rebeldes venham a ser enganados novamente e um assalto frontal poderia custar muitas vidas. O Sr. Uribe deveria em troca insistir em um acordo político; Qualquer acordo deveria exigir aos rebeldes seu total desarmamento e abandono do tráfico de drogas e da extorsão. Por sua vez, o Sr. Uribe poderia oferecer anistia para a maioria dos guerrilheiros e a possibilidade de participar da política colombiana. Dadas as enormes somas de dinheiro que os Estados Unidos tem gastado apoiando a luta dos colombianos contra as Farc, o Presidente Bush e os Senadores John McCain e Barack Obama deveriam unir-se em felicitar ao Sr. Uriba, e em insistir que ele busque uma plena vitória política”.

 

PRESSÃO POLÍTICA PELA CAPITULAÇÃO DAS FARC REÚNE SARKOZY, FIDEL, LULA E OS GOVERNOS BOLIVARIANOS

 

Chávez, o grande mediador e aliado das ilusões bolivarianas da guerrilha foi um dos primeiros a felicitar Uribe por telefone pela encenação midiática. Declarou cinicamente: “continuamos à disposição para ajudar até que se libere o último refém da guerrilha colombiana e para conseguir a paz, a paz plena na Colômbia” (AFP, 03/07).

 

Lula, o algoz da resistência haitiana que trancafiou o representante das Farc no Brasil, qualificou a ação da guerrilha em manter Ingrid refém como “abominável”, também parabenizou Uribe e considerou a libertação como uma “‘vitória dos amantes da paz e da liberdade’ disse que espera que as Farc encerrem suas atividades e que o grupo ‘tenha a sensibilidade de participar do jogo democrático e liberar todos os reféns. Eu acho que precisa ter um fim [as Farc], porque aqui na América do Sul e na América Latina não existe nenhuma razão para alguém querer chegar ao poder pela via armada, porque a democracia reina nesse continente, todas as forças políticas disputam e se organizam em partidos políticos. Portanto, eu acho que é uma coisa do passado esse negócio de achar que a via armada é solução para alguma coisa, sobretudo em regime de liberdade” (G1,03/07).

 

Castro discorda de Lula, Evo e Chávez, que exigem que a guerrilha abandone a luta armada, uma via suicida historicamente comprovada na Colômbia. No entanto, o burocrata stalinista acaba fazendo coro com a pressão imperialista, concordando com a condenação do recurso dos reféns e aconselha a guerrilha a libertar incondicionalmente os que continua retendo. “Critiquei com energia e franqueza os métodos objetivamente cruéis do seqüestro e a retenção de prisioneiros nas condições da selva. Mas não estou sugerindo a ninguém que deponha as armas, se nos últimos 50 anos os que o fizeram não sobreviveram à paz. Se algo me atrevo a sugerir aos guerrilheiros das Farc é simplesmente que declarem por qualquer meio a Cruz Vermelha Internacional a disposição de pôr em liberdade os seqüestrados e prisioneiros que ainda estejam em seu poder, sem condição alguma” (Cubadebate, 05/07).

 

A burguesia está mais interessada em liquidar a resistência armada do que a libertação dos reféns, pode combinar várias táticas, desde bárbaros ataques militares até a sedução do cretinismo parlamentar. Além das recentes declarações anti-Farc dos governos Lula, Chávez, Evo e Fidel, a direita e a reação democrática colombiana organizam uma marcha para aprofundar o isolamento social das Farc no dia 20 de julho.

 

Frente ao cerco crescente neste momento de maior fragilidade das Farc, os marxistas revolucionários declaram seu apoio incondicional a guerrilha diante de qualquer ataque militar do imperialismo, dos para-militares e do aparato repressivo de Uribe. Simultaneamente, apontamos como alternativa a superação da estratégia reformista da direção das Farc baseada na reconciliação nacional com a oposição burguesa e a unificação da luta armada com o movimento operário urbano sob a estratégia da revolução socialista para liquidar o regime facistóide de Uribe e organizar a tomada do poder pelos explorados colombianos.

 

07 de julho de 2008.



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