"Intoxicados com chumbo
As criaças já não são as únicas
a sofrerem de intoxicação doméstica provocada pelo
tintas à base de chumbo. O Dr. Alf Fischbein, professor adjunto
de medicina comunitária, da equipe do laboratório de ciências
ambientais, da faculdade de nedicina Mount Sinai, de Nova York, relata
casos cada vez mais numerosos de envenenamento por chumbo entre os adultos
e os adeptos do do-it-yourself (« faça você mesmo »)
quando decidem reformar as suas casas antigas.
Geralmente se verifica que a criança intoxicada com tinta
à base de chumbo colocou na boca flocos dessa substãncia.
No caso dos adultos, a origem do chumbo reside no pó ou nos gases
produzidos quando se usa uma raspadeira ou um maçarico para retirar
a tinta velha."
- Selecções do Reader´s
Digest ( Agosto de 81 )
Desde a mais remota antiguidade que se conhece o saturnismo, nome por
que é designada a intoxicação crónica motivada
pelo chumbo e seus derivados.
Uma pesquiza histórica leva-nos à antiguidade clássica,
altura em que os sintomas desta doença começaram a ser associados
ao trabalho de extração dos minerais de chumbo, e supõe-se
que a designação saturnismo teve origem no metal dedicado
ao deus Saturno. Por isso não é exagerado afirmar-se que
o saturnismo é uma das mais antigas doenças profissionais
a que a humanidade tem estado sugeita.
Torna-se então necessário conhecer um pouco melhor o
produto responsável por esta doença - o chumbo. Este, é
um metal brando, maleável e resistente à corrosão
que é obtido de diversos minerais e, graças às suas
qualidades, conhece uma grande utilização industrial.
Na utilização do chumbo o risco está relacionado
com o seu poder tóxico, pois pode penetrar no organismo humano,
quer pela via respiratória quer pela via digestiva, e dar origem
a uma série de sintomas clínicos de carácter progressivamente
mais grave.
A manipulação de chumbo sólido não pode
considerar-se directamente perigosa, pois ele dificilmente consegue penetrar
através da pele humana; contudo, há que ter em conta a necessidade
duma grande higiene por parte dos trabalhadores para que evitem comer,
fumar e levar as mãos à boca sem as terem lavado muito bem.
Sob a forma de fumos ou poeiras é que o chumbo se torna perigoso
pois, é absorvido pelo organismo humano e, num processo lento mas
progressivo instala-se a doença profissional.
Clinicamente poderemos dizer que o saturnismo é uma doença
motivada por intoxicação pelo chumbo e seus compostos que,
através da circulação sanguínea, vão
lesionar o fígado, baço, rins e principalmente, depositar-se
nos ossos. Uma das manifestações típicas desta doença
é a chamada cólica do chumbo que consiste em fortes dores
abdominais acompanhadas de náuseas e que se tornam periódicas
quando o estado de intoxicação se mantém.
Convém referir então situações em
que o chumbo e seus derivados apareçam e que de uma maneira geral
não são tão poucas como isso :
- fabricação de tintas
- fabricação e aplicação de esmaltes
- fabricação de matérias plásticas
de síntese
- preparação de carburantes ( gasolina super )
A pouco e pouco, na indústria o chumbo tem vindo a ser substituido
por outros materiais não tóxicos e, paralelamente, também
em certos processos de fabricação deixou-se de recorrer à
sua utilização. ( por ex: caíram em desuso as tintas
à base de alvaiáde e as canalizações de chumbo
vão sendo substituidas por canalizações plásticas.
No entanto, continuam a existir muitos processos de fabrico que exigem
a utilização do chumbo duma maneira tal que dão origem
à formação de vapores e poeiras. E, porque o problema
consiste em impedir que esses poluentes se espalhem na atmosfera dos locais
de trabalho, é importante o papel das medidas de protecção
colectiva e individual, tais como :
- sempre que possível, os trabalhos deven ser automatizados
e efectuados em aparelhos fechados.
- os locais e utensílios de trabalho devem ser aspirados
e lavados diariamente.
- os refeitórios e vestiários devem estar isolados.
- utilização de vestuário adequado.
- tomar banho e prestar especial atenção à
limpeza das mãos.
- etc..
O chumbo metálico é obtido em duas fases :
1º ( ao ar ) 2PbS ( s )
+ 3O2 ( g ) * 2PbO ( s ) + 2SO2
( g )
2º ( reduzindo o óxido formado )
2PbO ( s ) + C ( s ) *
Pb ( l ) + CO ( g )
2PbO ( s ) + CO ( g ) *
Pb ( l ) + CO2 ( g )
Compostos de chumbo (II) são mais estáveis do que compostos
de chumbo (IV). Praticamente todos os compostos de chumbo contêm
o chumbo no estado de oxidação +2 ( ex : PbO, PbCl2, PbS,
etc.. ). Quase todos estes compostos são insolúveis em água,
exceptuando-se o acetato de chumbo [Pb(CH3COO)2] e o nitrato de chumbo
[Pb(NO3)].
O chumbo (IV) é um composto covalente e um forte oxidante, capaz
de oxidar o ácido clorídrico a cloro ( PbO2 (s) +
4HCl (aq) = PbCl2 (s) + Cl2 (g) + 2H2O
).
PORQUÊ A INTOXICAÇÃO?
Desde à 2000 anos que se sabe do poder tóxico do chumbo
para o organismo humano, contudo este potente veneno ainda é usado
em grande escala na nossa sociedade.
Tetraetil de chumbo [(C2H5)4Pb] é usado na gasolina para aumentar
o poder mecãnico do motor possibilitando performances do automóvel
que não são conseguidas com a nova gasolina sem chumbo. Também
nas tintas existe chumbo, o que em casas já degradadas vai possibilitar
a que crianças e até adultos inspirem poeiras e vapores que
contêm chumbos.
O chumbo é extremamente tóxico e tem um efeito acumulativo.
Entra noorganismo humano como chumbo inorgãnico (Pb2+) ou como tetraetil
de chumbo. Depois de ingerido ou inalado vai-se acumular no sangue, orgãos
e ossos. Sabe-se que os iões de chumbo vão inibir as enzimas
que participam nas reacções de catálize de formação
de hemoglobina (responsável pelo transporte de oxigénio às
células) sendo portanto os responsáveis pela anemia.
O tetraetil de chumbo consegue ser mais venenoso que os próprios
iões de chumbo, pois já no corpo humano converte-se no ião
(C2H5)3Pb+, tendo este a característica de ter um grupo de hidrocarbonetos
que não sendo polar vai facilitar uma melhor mobilidade pelas células
atacando assim as enzimas em diversos locais do corpo, até mesmo
no cérebro e sistema nervoso central.
Este envenenamento pode ser atenuado por tratamento com substãncias
que complexam com o Pb2+, sendo as mais usadas :
- tetracetato etilenodiamina (EDTA)
- 2,3-dimercaptopropanol (BAL)