BRUXARIA E VEÍCULOS DE MASSA
Por Lornnah Carmel

É cada vez maior o número de aparições de bruxos e programas abordando o tema bruxaria nos veículos de massa hoje em dia.Ao contrário de seu clássico papel folclórico nos meios de comunicação, o que se vê hoje é uma “humanização” da bruxaria.A imagem da bruxa na tv, nas revistas, nas novelas e filmes torna-se cada vez mais semelhante a pessoas do cotidiano, sem verrugas, sem chapéus de cone, sem vassouras voadoras e aquelas coisas todas.

Essa nova tendência pode ser considerada uma vitória, uma vez que esses veículos de comunicação em nossa sociedade, acabam tendo um grande papel educativo; mais do que transmitir informações, a mídia informa, sugere, educa, persuade seus espectadores, e sendo assim pode muito bem munir o preconceito das pessoas em relação à bruxaria e tornar a vida social menos embaraçosa para quem tem o sonho de assumir publicamente sua religião em toda parte.

Se essa manipulação funciona para desmistificar e esclarecer as pessoas de que “definitivamente bruxas são pessoas de verdade, que pagam impostos e tem família como qualquer uma, porque elas são pessoas comuns” então parece mesmo que uma boa coisa está sendo feita pela “causa pagã” enfim, porém a imprensa possui também o delicado atributo de ser a transmissora da verdade.Esse categórico título não é reivindicado pela mídia, nem é dado pelos espectadores, mas a verdade é que a mídia possui sim esse poder, talvez por atingir vários de nossos sentidos perceptivos, de tornar as coisas mais “oficiais”.

Por mais que se critique a errônea e manipuladora tomada de posição de determinadas emissoras de tv, jornais e revistas de porte nacional, no fim das contas o que aparece na mídia se torna padrão, modelo e verídico.Algo como um reconhecimento definitivo.Quantas vezes você não viu na tv uma mulher de beleza comum, a qual vemos semelhantes todo dia na praia, ser consagrada como musa e cair no gosto popular como se fosse alguém inigualável?

Hoje o indivíduo é bombardeado com um caudal contínuo de mensagens em circunstância do desenvolvimento e liberdade dos veículos de informações.Essa competição atropela escrúpulos, pois não há tempo de se fazer julgamentos enquanto as notícias acontecem a mil por hora e infelizmente depende-se de audiência pra se sustentar e essa audiência independe da veracidade e seriedade dos veículos de informação.O que acaba acontecendo nesse bombardeio é que você é levado a acreditar naquilo que é afirmado muitas vezes na mídia, que se supõe neutra, mas é partidária, tendenciosa, manipuladora e corrupta.

Se por ventura a tendência do momento virar, se a nova bossa por um motivo ou outro for atestar que a bruxaria é coisa de gente desajustada, drogada, com problemas psicológicos, ligados à pedofilia, anticristã e outras abobrinhas, não tenham dúvida que serão os mesmos meios que hoje propagam a bruxaria “normal”, “do bem”, “coroada com flores”, os primeiros a propagarem as mentiras da nova moda e não haverá protesto ou processo que os fará parar.O conflito de “religiosos” e bruxos será um sucesso para a mídia, pois ela na verdade não está interessada em ser a transmissora da verdade (aquela verdade, instrumento do saber do estado que faz funcionar o próprio estado segundo o pensamento grego), mas está interessada sim em captar a atenção da massa.

Mas enquanto isso não acontece e tomara que não aconteça, que mal há nessas aparições?

O mal (e eu odeio essa palavra) está exatamente na oficialização de quem está na mídia.

A bruxaria, não importa de que tradição ou tipo for, é uma forma de religião onde não se aceita intermédio entre a Divindade e o indivíduo.Não se reconhece no poder de um sacerdote uma comunicação mais válida com Os Sagrados que a de si próprio com Eles.Essa é uma das maiores preciosidades que a bruxaria herdou do paganismo original e não devia ser maculada nunca, porém quando o leigo, o buscador, vê na mídia esta e aquela pessoa falando da Grande Arte, aqueles indivíduos “tornam-se” imediatamente os porta-vozes da Grande Arte.O pensamento “se apareceu na tv é porque é bom” vem no subconsciente irremediavelmente e é aí que está o grande problema.

Muitos bruxos estão hoje comemorando as aparições de rituais de da bruxaria no Fantástico. Receitas afrodisíacas e feitiços são dados nos dias sagrados nos programas matinais femininos tipo Ana Maria Braga. É lindo, as pessoas ‘encantam’ seu dia a dia, procuram saber mais e é aí está feito o mercado para a ação dos charlatões, que muitas vezes são exatamente aqueles que aparecem na mídia e que acabam sendo prejudiciais na busca de muitas e muitas pessoas.

A massa não está preparada para a grande transformação que a bruxaria exige: a de ser auto - suficiente, a de preencher-se da Força de seus Deuses e renunciar aos conceitos religiosos que herdamos de nossa sociedade para abraçar uma força ancestral muito maior e transformar sua vida.Isso é muito difícil, é um trabalho de autobusca e autoconhecimento enorme, que a maioria não faz ou finge que faz (mas acaba demonstrando em suas atitudes diárias que não se livra daquilo que está por demais enraizado pelo cristianismo ou qualquer outra coisa cultural).Por outro lado o charlatanismo existe e sempre existiu: na bruxaria e em todo o meio esotérico, todas as religiões, profissões... E não vai deixar de existir nunca.E a massa despreparada, cujo senso crítico é ditado pela mídia, surge em rebanhos atrás dos “mestres” coroados pelas aparições em veículos de massa, e estes com o ego e a vaidade de qualquer mortal, infla-se e faz-se de guia para as ovelhinhas e nem um nem outro chega a lugar nenhum.

A conseqüência é que assim a bruxaria sai das sombras, mas cai no ridículo, no banal, no teatral.Curso de verão de druidismo, curso de verão de bruxaria em quatro horas (e esses não são exemplos hipotéticos não viu), Pelos Deuses, o que os Antigos diriam?A Arte e seus mistérios não se tornaram uma coisa rápida e simples de ser passada por causa de nossa falta d e tempo corriqueira não.Nós é que temos que adequar nosso tempo para o demorado e trabalhoso estudo da Arte e não é a Arte que tem que ser resumida a esses ridículos cursos de poções e de montagem de altar sem nenhum embasamento para suprir nossa falta de tempo não.Não sou contra cursos não, sou contra ambulatório wicca, contra “consultas” de bruxaria, contra cursos rápidos, como se isso fosse possível, contra druidismo via correio, isso é um absurdo. A essência da magia, do paganismo, da bruxaria dilui nas bocas de falsos bruxos e falsos poderosos que procuram “coisas diferentes” para suas vidas e encontram essa “aventura ansiada” no caminho da bruxaria, sem, porém jamais se aprofundar, jamais sair das garras de professores sem escrúpulos, de seus livros sem estudo ou profundidade, e de toda a espessa névoa fétida que se forma para garantir a disseminação de mentiras e propagação da Grande Arte como uma forma muito divertida e sem esforços de se ganhar prestígio e dinheiro.

Proliferam-se as psedo-bruxas por conta de pequenos e singelos fatos como esses, que passam despercebidos por aqueles que comemoram entrevistas de sumo-sacerdotes no Jô e reflitamos sem demagogias: bruxaria não é religião de massa, nunca foi e pelos Meus Deuses Celtas jamais será, se quisermos que ela tenha um futuro.Se quisermos ensiná-las aos nossos filhos.

Não precisamos da aceitação pública, da exposição na mídia e sequer poder do Estado nem seu reconhecimento para nos certificarmos da veracidade de nosso Caminho. Nossa religião não é mensurável, não é tangível a certificados, carteirinhas, diplomas, ofícios, esses ISOs não validarão nenhuma pessoas e nenhuma religião a nada.É uma alienação, uma insanidade.Que me importa se a bruxaria tem ou não registro? Para praticarmos a Arte, a revelia de cristãos e evangélicos e preconceituosos em geral, basta, se necessário for, nos valermos da nossa constituição federal que nos fornece liberdade religiosa.

Que diferença me fará esse “reconhecimento” na hora de honrar meus Deuses e homenagear meus ancestrais?

Antes que alguém diga que meu artigo é inveja de fulano, recalque de cicrano ou qualquer coisa assim, eu gostaria de dizer que sou uma bruxa muito tímida, fama não faz meu gênero, e sequer tenho aquelas capas pretas ou roupões coloridos que a mídia tanto gosta de exibir, portanto dificilmente vou estar na Marília Gabriela semana que vem.Brincadeiras à parte o artigo não é uma crítica as pessoas que apareceram na mídia erguendo o nome da bruxaria, o artigo é apenas para fazer-los pensar sobre as conseqüências da “oficialização da bruxaria” e a “coroação” dessa e dessa pessoa dentro da Arte, por culpa dela ou de fatores externos.Isso é que me preocupa.

Quem foi o escolhido a ser o líder da bruxaria, o porta voz das bruxas no Brasil?Quem no Reino do Céu, no Reino do Mar e no Reino da Terra possui autoridade suficiente para reconhecer oficialmente o caminho milenar da bruxaria, que ultrapassou todas as barreiras imagináveis para estar erguida hoje?

 

Lornnah Carmel
Grupo Old Ways

 
 

Copyright © 2001-2003 Bruxaria Tradicional no Brasil
Todos os direitos reservados

[voltar]

1