Observações Visuais do Cometa C/2002 Y1

(Juels-Holvorcem)


Amorim, Alexandre
Rua Antônio D. Souza, 315 
Florianópolis, Brasil
email: costeira1@yahoo.com

10 de Setembro de 2003

REA - REDE DE ASTRONOMIA OBSERVACIONAL

SECÇÃO DE COMETAS


Abstract -This paper shows preliminary results of visual observations of Comet C/2002 Y1 by Brazilian observers and comparisons with other sources.

1 Introdução

Depois da descoberta independente do Cometa Ikeya-Zhang por Paulo M. Raymundo em 1º de fevereiro de 2002, a astronomia brasileira foi agraciada com mais uma descoberta histórica: Paulo Holvorcem, trabalhando em conjunto com Charles Juels (EUA), descobriu o cometa C/2002Y1 em 28 de dezembro de 2002.

A descoberta é histórica pois a última vez que um cometa recebeu nome de um astrônomo no Brasil foi em 10 de setembro de 1882 quando Louis Cruls, astrônomo belga, descobriu o brilhante Cometa Cruls, usando os instrumentos do Observatório Imperial do Rio de Janeiro.

O Cometa C/2002 Y1 foi descoberto por meio do refrator de 12cm f/5 + CCD localizado na residência de Charles Juels, em Fountain Hills, Arizona, EUA. Em Campinas, Brasil, Holvorcem fez o processamento e análise de imagens tomadas por Juels de modo que ambos detectaram um objeto difuso de magnitude 16 e coma de 1.8 minutos de arco em um dos campos. A descoberta é ainda mais interessante pelo fato de o equipamento ser testado em sua primeira noite. Juels e Holvorcem pretendiam usar este equipamento, cujo campo de visão é de 2.35 x 2.35 graus, na captura de NEOs e cometas. Na noite de 28 de dezembro de 2002, o equipamento varreu uma área de 300 graus quadrados, culminando na descoberta do Cometa.

2 Elementos Orbitais e Expectativas Iniciais

A Tabela 1 mostra os elementos orbitais segundo a MPC 48381 [1].

C/2002 Y1 (Juels-Holvorcem) MPC 48381
Periélio                  : 2003 Apr. 13.2483 TT
Distância do periélio (q) : 0.713811 UA
Excentricidade (e)        : 0.997156
Longitude do periélio (w) : 128.8167º
Longitude do Nodo Asc (W) : 166.2206º
Inclinação (i)  : 103.7821º
Tabela 1
Os elementos orbitais mostram que o cometa foi bem visível no hemisfério norte, e só pôde ser visível no Brasil entre 1º de janeiro e 5 de fevereiro de 2003, quando ainda estaria com magnitude superior a 11 e uma segunda janela de observação iniciou-se a partir de 1º de maio quando o cometa passou a ser visível pela manhã . A Figura 1 mostra o diagrama da órbita do Cometa C/2002 Y1 e a posição dos planetas interiores e do cometa  no dia 29 de dezembro de 2002. A órbita foi calculada por meio do programa Orbitas de J.Roig [2].

Os elementos e parâmetros iniciais usavam valores de Ho e n que previam um brilho máximo de mV = 9.9 por volta do periélio [3].

No entanto estimativas de amadores do hemisfério norte apontavam para uma curva de luz com máximo brilho em torno de mV = 6.5 em abril de 2003. Os valores de Ho e n foram calculados pelo ICQ e fixados em 6.5 e 4.0, respectivamente.



Figura1

3 Observações Visuais

O acompanhamento visual começou em 3 de maio de 2003 quando A.Amorim estimou o cometa em mV = 7.0 e pequena condensação central (DC = 6/). No Brasil o Cometa foi observado somente de madrugada e a REA recebeu ao todo 29 registros (Tabela 2). O período de observações visuais estendeu-se até 11 de julho de 2003 quando A.Amorim estimou o cometa em mV = 10.1 .

Observador
Instrumento
Observações
A. Amorim
20x80B, 14.3L
26
N. T. Frota
15x60B
2
W. C. Souza
11x80B
1
3
4
29
Tabela 2
O Cometa mostrou uma coma mais condensada (6 < DC < 7) até 13 de maio. Entre 17 de maio e 16 de junho a condensação oscilou em torno de 5, se bem que houve interferência da Lua no início deste período. A partir de 21 de junho de 2003 o Cometa mostrou-se mais nebuloso (0 < DC < 2).

O diâmetro da coma não ultrapassou 6 minutos de arco (~ 424 mil quilômetros, em 5 de maio de 2003).

Não houve observação de cauda neste Cometa, exceto por meio de imagens CCD. Na Figura 2 temos o negativo da imagem tomada por P.Cacella em 10 de maio de 2003, 08:00 TU, usando um LX200GPS de 10 polegadas e CCD HX516, 6 exposições de 10 segundos.



Figura 2

 
4 Parâmetros Fotométricos

As 29 observações da REA [4] permitiram calcular os parâmetros fotométricos Ho e n somente na fase pós-periélio. A Figura 3 contém as observações da REA e a curva calculada com base na fórmula do ICQ:

m1 = 6.5 + 5 logD + 10 log r

Onde Ho = 6.5 e n = 4.0 .

A Figura 4 contém os mesmos pontos observacionais, mas com a curva calculada com base em 26 pontos selecionados (observações positivas) pelo programa Comet for Windows [5]. O programa calculou a fórmula abaixo:

m1 = 6.41 + 5 logD + 8.46 log r

Neste caso, Ho = 6.41 e n = 3.38 .

Por fim, a Figura 5 mostra as observações da REA (pontos), a curva com base nos valores do ICQ (tracejado) e a curva com base nos dados da REA (linha cheia). A linha vertical entre os meses Abril e Maio corresponde a data do periélio: 13 de abril.

Nota-se que não existe grande discrepância entre as duas curvas, ressaltando que os dados REA abrangem apenas o período pós-periélio.


Figura 3


Figura 4


Figura 5

5 Registros internacionais

Ainda em janeiro de 2003 o Cometa era estimado em torno de mV = 11 , porém observações no início de fevereiro apontaram para um astro difuso de aproximadamente mV = 8. Nesta época o Cometa já se encontrava muito baixo no horizonte para os observadores do hemisfério sul. No fim de fevereiro alguns observadores reportaram mV = 7.3 e mV = 6.5 em meados de março.

D.K. Lynch et alli reportaram uma espectroscopia entre 3 a 14 mm obtida em 20.6 (TU) de fevereiro de 2003 usando o Infrared Telescope Facility da NASA. O espectro mostrou um suave continuum sem traços marcantes, apontando para uma temperatura de cor de cerca de 280 Kelvin (± 20 K), aproximadamente 12 vezes maior que o equilíbrio radiativo da temperatura de um corpo negro. A equipe relatou também que o Cometa não foi detectado na faixa de 3 a 8 mm, e um limite superior das marcas de emissão de silicatos foi aproximadamente 10% do continuum de 8 a 13 mm [6].

Brian Marsden anotou na MPEC 2003-G13 que os valores baricêntricos "originais" e "futuros" de 1/a são respectivamente +0.004113 e +0.004506 (± 0.000020) sugerindo que o C/2002 Y1 não é um "novo" cometa da Nuvem de Oort [7].

A Seção de Cometas da BAA recebeu 107 observações até a primeira semana de abril de 2003 que apontaram para a curva abaixo [8]:

m1 = 6.6 + 5 logD + 11.8 log r

Andreas Kammerer (Alemanha) calculou duas curvas para este Cometa [9] e nota-se que o valor de Ho não sofre grande variação, o que não ocorre com o valor de n. Entre colchetes estão os dias em relação ao periélio.

m1 = 6.4 + 5 log D + 16.5 log r [ ,-42]

m1 = 6.7 + 5 log D + 7.9 log r [-42, ]

Seiichi Yoshida (Japão) obteve diversas curvas [10] ao analisar as observações do banco de dados da página do ICQ/IAU:

m1 = -7.0 + 5 logD+ 70.0 log r [ ,-87]

m1 = 6.5 + 5 logD + 13.7 log r [-87,-35]

m1 = 6.5 + 5 logD + 8.0 log r [-35, 88]

m1 = 5.5 + 5 logD + 15.0 log r [ 88, ]

Estimativa mais recente situa este cometa em mV = 13.2 sendo visto como um objeto ligeiramente condensado (DC=2) e com diâmetro da coma estimado em 0.6 minutos de arco. (A.Pearce, usando um newtoniano de 41cm) [11].

6 Conclusão

O Cometa C/2002 Y1 (Juels-Holvorcem) foi observado visualmente no Brasil entre os dias 3 de maio a 11 de julho de 2003, e imageado por Paulo Cacella em 10 de maio de 2003. Além desses registros, as imagens deste cometa foram analisadas por um dos descobridores - o brasileiro Paulo Holvorcem - usando o equipamento instalado na residência de Charles Juels nos Estados Unidos e mais tarde no Observatório de Valinhos em 2 de agosto de 2003 (Figura 6 : Hora 06:09 - 06:30 TU, Schmidt-Cassegrain 36cm f/3.6 , 5 exposições de 2 minutos).

Os parâmetros fotométricos calculados com base nos dados da REA mostraram consistentes com os resultados de fontes internacionais, principalmente no que se refere a magnitude absoluta (Ho).

A descoberta abre uma nova perspectiva para os astrônomos amadores seguirem suas observações visuais ou usando CCD.
 


Figura 6
 
Referências

[1] C/2002Y1, ICQ/IAU, http://cfa-www.harvard.edu/iau/Ephemerides/Comets/2002Y1.html , em 9 de setembro de 2003.

[2] Roig, J.C., Orbitas, http://usuarios.lycos.es/orodeno/Programas/Orbitas/orbitas.htm

[3] Green, D.W.E., IAUC nº 8039, 29 de dezembro de 2002.

[4] Banco de Dados da Secção de Cometas/REA, http://www.geocities.com/costeira1/cometa/

[5] Yoshida, S., Comet for Windows, v.1.0, http://www.aerith.net/

[6] Green, D.W.E., IAUC nº 8083, 27 de fevereiro de 2003.

[7] Marsden, B., MPEC 2003-G13, http://cfa-www.harvard.edu/iau/mpec/K03/K03G13.html , 3 de abril de 2003.

[8] Shanklin, J., The Comet's Tale, Vol.10, nº 1, Abril de 2003.

[9] Kammerer, A. , Analysis of currently observed comets – C/2002Y1 (Juels-Holvorcem), http://www.fg-kometen.de/C2002Y1/02y1eaus.htm , 7 de setembro de 2003.

[10] Yoshida, S., http://aerith.net/comet/catalog/2002Y1/2002Y1.html , em 8 de setembro de 2003.

[11] Morris, C., http://encke.jpl.nasa.gov/RecentObs.html , 5 de setembro de 2003.

(volta)

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